“Teatro”: a vida em palco

“Admitir o mundo tal como ele é e vê-lo a rir das nossas insolações”.

Um chão gélido, luzes fluorescentes, e uma palavra de ordem principal para dar início à peça “Teatro”: silêncio. Foi este o aspeto do palco na sala de espetáculos do Teatro Nacional São João (TNSJ) dos dias 18 a 28 de outubro.

Pascal Rambert, encenador francês e contador de histórias sobre relações (e as nossas relações com a morte), descortinou nesta peça parte das vidas dos atores com os quais decidiu trabalhar. Rui Mendes foi o primeiro a entrar em cena. Entre confissões sobre como é ser-se ator, o que mais o atormentava era mesmo ser Rui. Esta personagem sentia o teatro como uma profissão expositiva e desprezante. Para ilustrar o seu pensamento, trouxe-nos histórias vividas pelo seu falecido avô, que outrora também tinha sido ator. Rui pensava que o teatro era uma forma de falar aos seus contemporâneos, de tocar os corações das pessoas que iam assistir, mas que não passava de uma movível nuvem. Preludiando, evocou William Shakespeare, e a sua tragédia romântica Romeu e Julieta, publicada pela primeira vez em 1597.

Beatriz Batarda representava uma mulher repleta de acuações dentro de si, motivadas quer pelo trânsito, pelo alojamento local na grande Lisboa, ou pelas suas inseguranças como profissional: “Não consigo…”, “Já não posso…”. Palavras como “união”, “partilha”, “confiança” e “cooperação” abraçaram os atores. A música “Fragile”, de Sting, só agravou o estado de espírito da personagem/atriz – que, “entretanto”, tinha acabado de ensaiar um monólogo dramático com a sua mãe, que a tinha desprezado durante toda a sua vida. E a Beatriz-atriz estava abatida com o fim do seu matrimónio.

As cortinas desciam e subiam, mostravam-se e escondiam-se de todos os presentes na sala antes da entrada em cena dos atores. Tal como os próprios.

Cirilia Bousset entra em cena. É uma jovem que trabalhava como empregada de limpeza no teatro e estudava ciência política. Em conversa com o TNSJ, Pascal Rambert afirmou que o teatro “tem o efeito de dar a parecer uma coisa que na verdade não o é”. Curiosa com o mundo do espetáculo, Cirilia questionou Beatriz, Lúcia Maria e João Grosso sobre os mecanismos que usavam na representação; as respostas dividiam-se. De seguida, perguntou como é que as palavras os afetavam. A resposta aqui foi unânime: as palavras eram como uma droga para eles, e constantemente estavam à espera de mais.

Ao longo da peça e da vida, os atores foram se transformando. Rui, que naquele momento era encenador da peça, pediu a João que interpretasse a “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa, e que a refizesse como quando a interpretou pela primeira vez. É aí que o teatro se confunde, entre o passado e o presente, quando nada é o que já foi. Rui acabou por morrer, em palco, com a sua família do teatro a assistir. E ninguém se riu das insolações, porque a plateia percebeu o que o teatro é.

Raquel Batista.

Raquel Batista, Cartaz da peça “Teatro”.

 

Editado por: Daniel Dias.