Um muro que cabe nos bolsos?

O escape de um ecrã.

A mais recente “Superstar Issue” da revista i-D – revelada no primeiro dia de novembro – conta na capa com o actor Timothée Chalamet. O jovem franco-americano – que ascendeu ao estrelato de forma meteórica com o sucesso universal de Call Me By Your Name – foi entrevistado por Harry Styles e fotografado por Mario Sorrenti para o projecto ligado à Vice Media. Timothée teve a oportunidade de – entre outros assuntos – falar sobre as redes sociais e o modo como elas transfiguraram as formas de comunicar. O artista de 22 anos lamentou que “parece que […] as pessoas só ouvem o que querem ouvir e só falam dentro da (e para a) sua bolha. […] Acho que sinto falta de um tempo em que as pessoas se olhavam olhos nos olhos sem haver o escape de um ecrã“.

O poder do conhecimento.

Os smartphones e a internet muniram a Geração Z de um poder absolutamente enorme: o do conhecimento. Temos uma imensa enciclopédia virtual nos nossos bolsos e podemos aceder a ela sempre que quisermos. Todos os discos que possamos querer ouvir encontram-se à distância de uma simples pesquisa de Spotify – se quisermos ser verdadeiros tesoureiros podemos ainda explorar os cantos mais remotos do Bandcamp ou do Soundcloud. Podemos encomendar livros e revistas com uma rapidez impressionante. Somos capazes de encurtar distâncias com uma facilidade que as gerações anteriores não tiveram.

Mas as facilidades que a internet proporciona obrigam a que a responsabilidade com que ela é usada seja maior. Os rebentos do novo milénio habituaram-se a ter que lidar com fake news pois cresceram num mundo em que os mecanismos de informação estavam a iniciar um processo de metamorfose profunda. As questões da privacidade também os acompanham (e assustam) desde cedo.

A Geração que se distrai com demasiada facilidade?

Um problema transversal a essas responsabilidades prende-se com o modo como as pessoas se conseguem relacionar com as coisas do quotidiano. O acesso a tudo em micro-segundos leva a que o interesse se torne num bem precioso… tão precioso que pode desaparecer em dois segundos. A dispersão que a rede oferece é sedutora mas problemática e os attention spans tornam-se mais curtos. Isto também provoca um isolamento que pode trazer consigo outros problemas. A caricatura das pessoas nos comboios a olharem para baixo num gesto colectivo é demasiado fácil de fazer e lembrar: os feeds distraem durante horas porque se renovam constantemente e sustentam uma espécie de ciclo vicioso.

Festivais: artistas e capas da Apple.

Se os smartphones criam com alguma facilidade uma pequena “bolha” social… nos festivais de verão eles podem constituir um “muro” mais literal. Os fãs pagaram um passe caro para assistirem a um concerto da sua banda preferida, e, como tal, entende-se que queiram eternizar o momento com um vídeo ou dois. Mas o espectáculo está ali, a acontecer naquele momento; é uma ocasião efémera, e não há pessoa que, por mais excelente que seja com multitasking, consiga estar atenta ao que está a filmar e viver as sensações que o concerto transmite na sua plenitude. Depois, claro, há aquela pessoa que mede 1m50 e, pobre coitada, não conseguiu arranjar lugar nas filas da frente; tem de se contentar com olhar para ecrãs de telemóveis durante o festival todo.

Uma reacção exacerbada?

As redes permitem comunicar sem fronteiras e já ajudaram a quebrar uma quantidade imensa de muros. Este artigo foca-se num lado negativo das mesmas porque foi inspirado pela observação que Timothée fez na sua entrevista à i-D – que é pertinente e obriga a que os relacionamentos que temos com essas enciclopédias de páginas infinitas que guardamos nos nossos bolsos sejam devidamente pensados – mas ainda assim dizer que elas próprias podem ser um muro seria mais redutor e reaccionário do que lógico. Ainda estamos a tentar optimizar esses relacionamentos e não há mal nenhum nisso. Precisamos apenas de tempo para reflectir – num mundo que cada vez mais se vive a correr. O cenário não precisa de ser tão negro como outras gerações o descrevem… Só filmem menos concertos.