“womenSEEwomen”: Um passo dado na luta contra o patriarcado

A exposição coletiva “womenSEEwomen” trouxe ao Porto imagens fortes de mulheres fotografadas por outras mulheres. Inaugurada a 29 de setembro, a exposição esteve em exibição até dia 4 de novembro no Centro Português de Fotografia (CPF). É à luz da conjuntura social atual que esta acaba por apresentar um carácter um tanto contestatário.

 

Renée Jacobs, curadora da  “womenSEEwomen” afirma que “as mulheres  não conseguem ser ouvidas se não forem vistas”.  A exposição pretende, assim, dar voz a imagens “icónicas de mulheres”e, consequentemente, à Mulher enquanto conceito.

Várias são as artistas que participaram na exposição organizada pela Photos Femmes Festival. Entre elas encontra-se a curadora Renée Jacobs, Elizabeth Sunday, Carmen de Vos, Jacqueline Roberts, Maggie Steber, Sarah Hadley, Elizabeth Opalenik, Susan de Witt e Anne Silver. As suas fotografias são intensas e um tanto controversas, uma vez que tratam temas como a nudez, a extravagância, o nascimento, a vaidade, a homossexualidade e a inocência. Encontram-se também nestas várias alusões a metáforas para o prazer e à personificação da beleza renascentista.

Desde 1850 que as mulheres têm vindo a reivindicar o que deveria ser delas por direito. Humilhadas, maltratadas, desprezadas, torturadas têm lutado contra o patriarcado que rege a sociedade. Sim, leram bem – “que rege”, verbo no presente do indicativo. Quase dois séculos passados, a sociedade na qual vivemos ainda possui valores machistas que de tão enraizados que estão na sua estrutura organizacional tornam-se difíceis de combater.

Diana Mendes, uma estudante de história de 20 anos, esteve à conversa com o #infomedia e apresentou o que encara como exemplos diários da (despercebida) permanência social da superioridade masculina.

Infelizmente não são poucos os exemplos e vão desde os piropos, ao buzinar, ao discurso sexista sobre quais as roupas “apropriadas” a usar e quais aquelas que significam que elas ‘estão mesmo a pedi-las’, à violência doméstica, aos brinquedos que são indicados para meninas e os que são indicados para meninos, à maior valorização dos atletas do género masculino face aos atletas do género feminino, à maior valorização do futebol masculino face ao futebol feminino, à diferença dos ordenados das mulheres e dos homens a trabalharem na mesma profissão até aos discursos publicitários sexistas e em áreas como o cinema e a ciência.  Estes são bons exemplos da sociedade machista que nos rege, mas há mais: a eleição de líderes com discursos extremamente sexistas, como é o caso de Donald Trump e mais recentemente Jair Bolsonaro.

A verdade é que Donald Trump desde cedo que não escondeu de ninguém a forma objetificada e sexualizada que encara a Mulher e, mesmo assim, tornou-se no ano passado Presidente dos Estados Unidos da América.

Jair Bolsonaro que afirmou, numa entrevista dada ao Zero Hora em 2015, não concordar com a igualdade salarial entre mulheres e homens, uma vez que as mulheres engravidam e as licenças de maternidade prejudicam a produtividade, que afirmou, também numa entrevista ao jornal Zero Hora em fevereiro de 2018, face a uma queixa no Supremo Tribunal por incitação de crimes sexuais que não violaria Maria do Rosário, deputada do Partido dos Trabalhadores, pois ela não merecia e passo a citar: “porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu género, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar ela porque não merece”, ganhou as eleições presidenciais no Brasil no passado dia 28 de outubro.

“Não é preocupante quando o homem que se tornará Presidente do Brasil dia 1 de janeiro de 2019 tem este tipo de abordagem pública para com uma mulher e ganha as eleições no mesmo país?”, refletiu Diana.

Porém e por mais difícil que seja combater o evidente sexismo enraizado na nossa sociedade, as mulheres, ou pelo menos uma grande parte delas, continuam a marchar, a gritar e a lutar nas ruas pela igualdade politica, económica e social dos géneros.

Quando em novembro de 2016 em Vila Nova de Gaia, numa discoteca, uma mulher de 26 anos foi violada pelo barman e pelo segurança numa casa de banho estando sob o efeito de álcool e em fevereiro do presente ano o Tribunal de Vila Nova de Gaia condena os dois arguidos a uma pena de prisão suspensa de quatro anos e meio por abuso sexual a uma pessoa inconsciente, o Ministério Público recorreu, pedindo pena efetiva, mas os juízes do Tribunal da Relação do Porto optarem por manter a condenação a pena suspensa, num acórdão de 27 de junho onde a ilicitude não é considerada elevada, observa-se a gravidade de toda esta questão aqui debatida. Foi com o intuito de protestar contra esta decisão que no passado dia 26 de setembro se organizou o protesto “Mexeu com uma, mexeu com todas!”ao lado do Tribunal da Relação do Porto, protesto este em que Diana Mendes participou e justificou a sua presença ao declarar:

A forma como este caso de violação foi “tratado”, ou melhor, a forma como não foi tratado, desvalorizou o crime e as mazelas que tal deixou na vitima. É simplesmente inadmissível que em pleno 2018 em Portugal o sistema judicial tenha uma atitude de carácter patriarcal.

A condenação de um crime assim não deve ser ponderada de ânimo leve, mas os números mostram-nos uma realidade onde apenas 37% dos condenados por crimes sexuais, em Portugal, vão para a prisão.

Evidencia-se de forma claro que para as mulheres, a luta é constante e que parar não é uma hipótese, desta forma, a Mulher vai se fazendo ver e vai se fazendo ouvir. O caminho a percorrer no combate ao sexismo é longo, mas está a ser percorrido, passo a passo, pouco a pouco, seja ele com protestos nas ruas, como é caso do “Mexeu com uma, mexeu com todas!”, ou através de arte contestatária como é o exemplo da exposição “womenSEEwomen”.

 

Editado por Agustina Pousada.