Nobel da Paz: para que as atrocidades contra as mulheres, saiam da sombra da guerra

Num ano sem o galardão da Literatura, o Nobel da Paz 2018 – o único a ser decidido e revelado em Oslo – centrou todas as atenções da comunidade internacional. O Comité Nobel norueguês, órgão eleito pelo Parlamento da Noruega, anunciou o vencedor.

No processo para a escolha de um vencedor em que o Comité Nobel Norueguês é responsável por escolher os premiados do Nobel da Paz, a indicação de candidatos pode ser feita por qualquer pessoa – que preencha um conjunto de critérios-, como, por exemplo, anteriores vencedores, membros de parlamentos e governos nacionais ou atuais chefes de Estado. Os prémios foram atribuídos pela primeira vez em 1901. O prémio não foi atribuído em 19 ocasiões, nomeadamente, durante o período da Primeira e da Segunda Guerra Mundial.

Noventa e oito vencedores desde 1901

Na lista dos prémios Nobel da Paz constam apenas 16 mulheres, incluindo a mais jovem vencedora de sempre, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, que tinha 17 anos quando recebeu a distinção, em 2014. Entre os vencedores, alguns dos mais reconhecidos são: ICAN – Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares, 2017; Barack Obama, Estados Unidos, 2009; Al Gore, Estados Unidos e o painel das Nações Unidos sobre o clima, 2007; Nelson Mandela e Frederik de Klerk, África do Sul, 1993;

Desde Donald Trump ao Presidente sul-coreano – que surgiram como potenciais vencedores – e justificado pelo diálogo “histórico”, com o líder da Coreia do Norte. Dan Smith – diretor do Instituto Internacional de Investigação sobre a Paz de Estocolmo – declarou que recompensar o Presidente norte-americano seria “inoportuno” depois de este “ter decidido retirar os Estados Unidos de vários acordos multilaterais, nomeadamente os protocolos sobre o clima e o acordo nuclear com o Irão”. E, que a atribuição do galardão a Moon Jae-in seria “prematura”, lembrando “o sentimento de desilusão que prevaleceu depois da entrega da distinção ao anterior líder sul-coreano”, Kim Dae-jung, em 2000.

Entre os outros nomes mencionados para a edição 2018 do Nobel da Paz, constavam o do cirurgião congolês Denis Mukwege e o da ativista da minoria religiosa yazidi, Nadia Murad: dois ativistas que lutam contra a violência sexual.

 

A paz ainda está longe de ser alcançada: das crises humanitárias aos conflitos bélicos

Apesar dos elogios, o trabalho dos dois ativistas está longe de estar terminado e as suas missões continuam a enfrentar muitos desafios. A ativista iraquiana yazidi, Nadia Murad, que aos 19 anos se tornou escrava sexual no Estado Islâmico, narrou em livro todo o sofrimento em ser estuprada- diversas vezes-, por dia, por vários homens. A situação na República Democrática do Congo, permanece preocupante: a guerra civil terminou, oficialmente, em 2003, mas ainda há grupos armados que continuam a aterrorizar aldeias e cidades.

Nadia tinha 21 anos, quando, no verão de 2014, os combatentes do Estado Islâmico (EI) atacaram a sua aldeia, no Norte do Iraque. Após um cerco de duas semanas, o EI reuniu os habitantes de Kocho na escola primária. As mulheres foram separadas dos homens, levados em carrinhas e assassinados. Mulheres jovens, foram vendidas como escravas.

Nadia conta que teve vários proprietários: foi violada e espancada. “Quando se fartavam dela, vendiam‑na ou ofereciam‑na a outro ou entregavam‑na para entretenimento dos guardas”. Em vários meses de cativeiro, foi serva doméstica, mercadoria em feira de escravos de Mossul, brinquedo sexual nos postos fronteiriços. “Violavam-nos sem culpa, como se fosse uma coisa natural”, conta. Quando conseguiu fugir, com a ajuda de uma família muçulmana, descobriu que lhe tinham assassinado os pais, familiares e amigos. em Berlim, onde agora vive, afirma “que procuram a sua morte” e “conseguiu escapar por sorte”. Numa declaração após o reconhecimento da sua luta, esta partilhou: “Estima-se, que, aproximadamente, 3 mil mulheres yazidis foram ou ainda são vítimas de abusos e estupros, por parte de agressores extremistas no Iraque.

O outro vencedor foi o médico Denis Mukwege, que afirma ter ajudado “cerca de 30 mil vítimas de violência sexual na República do Congo”. Homem conhecido como “doutor milagre”, censurou ferozmente o abuso sexual contra mulheres durante o período beligerante, descrevendo o estupro como “arma de destruição em massa”.  Com o apoio da Unicef, montou um hospital com 350 camas, uma unidade de atendimento móvel, e, uma forma de oferecer micro crédito para as vítimas.

Nadia, no discurso oficial, “Eu comprometo-me a ser a voz de quem não tem voz (…). É uma honra compartilhá-lo com os yazidis, os iraquianos, os curdos e outras minorias perseguidas e todas as vítimas, especialmente as de violência sexual, em todos os cantos do mundo (…) Convoco todos os governos a se unirem a mim a fim de combater o genocídio e a violência sexual.”

O médico Denis Mukwege, por sua vez, “Posso ver nas faces de muitas mulheres como estão felizes de serem reconhecidas.”.

“A violência sexual em conflitos é uma ameaça à paz e uma mancha na nossa humanidade comum. No entanto, ainda é generalizada. Parabéns aos nossos parceiros nas Nações Unidas, Denis Mukwege e Nadia Murad. Continuaremos a apoiar os seus esforços corajosos”, escreveu António Guterres, na sua conta no Twitter. O secretário-geral da ONU lembrou que Nadia Murad “deu voz ao abuso inqualificável no Iraque, quando extremistas violentos do Daesh, atacaram brutalmente os Yazidi, especialmente mulheres e meninas “. Em relação a Denis Mukwege, Guterres afirmou que é “um corajoso defensor dos direitos das mulheres presas em conflitos armados que sofreram violações, exploração e outros horrendos abusos”. “As Nações Unidas apoiam os seus esforços. Tem sido uma voz forte, chamando a atenção do mundo para os crimes chocantes cometidos contra mulheres em tempos de guerra.“

A Alta-Comissária para os Direitos Humanos da ONU, Michele Bachelet, disse ser “difícil pensar noutros dois vencedores mais dignos do Prémio Nobel da Paz” que não Murad e Mukwege.

O Presidente iraquiano, Barham Saleh, disse que a entrega do Nobel a Murad “é uma honra para todos os iraquianos que combateram o terrorismo e a intolerância”. Um deputado yazidi, Vian Dakhil, afirmou tratar-se da “vitória do bem e da paz sobre as forças da escuridão”.

Contudo e porque nem todas as reações são de uma agradável conotação, surgem, na continuidade dos acontecimentos, declarações controversas. Mukwege tem sido uma voz crítica do Presidente congolês, Josepho Kabila: acusa-o de querer eternizar-se no poder. A reação do Governo congolês à atribuição do Prémio Nobel ao médico não escondeu o mal-estar: “Estamos muitas vezes em desacordo com Denis Mukwege, de cada vez que tenta politizar a sua obra que, todavia, é importante do ponto de vista humanitário”, afirmou o porta-voz do Governo, Lambert Mende, citado pela AFP. Kabila não se pronunciou.

 

 

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