Eleições Europeias e os Jovens: estarão alerta?

Vários estudos mostram uma tendência comum: os jovens são, na generalidade, menos interventivos na política do que pessoas de escalões etários superiores. Votam menos, participam menos, interessam-se menos.

Um estudo do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica Portuguesa, datado de 2007, concluía que os jovens e jovens adultos (até aos 29 anos) eram os menos satisfeitos com o funcionamento da democracia em Portugal. O cenário agravou-se: em 2015 só pouco mais de 17% achava que a democracia funcionava bem.

Na contagem decrescente para as eleições europeias, o Parlamento Europeu prepara-se para enfrentar um inimigo que não é novo mas do qual nunca se falou tanto. O termo usado em Estrasburgo, foi “campanhas de desinformação”. Entre os partidos europeístas não houve dúvidas em classificar a disseminação de notícias falsas como uma “atividade criminosa” que “passou das marcas” e está “a pôr a democracia em causa”. Para os eurocéticos, os esforços de Bruxelas para combater as notícias falsas não passam de uma estratégia de “quem sabe que vai perder as eleições e precisa de um bode expiatório”.

De acordo com um inquérito divulgado em Bruxelas pela Comissão Europeia, subordinado ao tema “Democracia e Eleições”, apenas 57% dos portugueses inquiridos assumiu estar preocupado com a influência das chamadas fake news no desfecho das eleições europeias, de maio de 2019. Esta é a segunda percentagem mais baixa entre os Estados-Membros, atrás apenas de Estónia (56%), ficando muito distante da média europeia, que é de 73%.

O #infomedia foi discutir, junto dos jovens – que têm em comum já um estado de completude ou quase completude das suas licenciaturas – algumas questões que surgem no decorrer destas eleições europeias. D’entre os entrevistados: Pedro Miguel Pereira, de 24 anos, licenciado em Marketing, pelo IPAM (PP); Catarina Sousa, atualmente na licenciatura em Direito, na Universidade de Coimbra (CS); João Moreira, com 21 anos e a frequentar o Mestrado de Engenharia Eletrotécnica, no ISEP (JM). Luís Rocha, 23 anos, licenciado em Ciências do Desporto, pela ULP (LR).

Segundo o expresso, os portugueses estão entre os menos preocupados com impacto de fake news nas eleições europeias. Acreditas que este é um sinal preocupante?

 

JM: Sem dúvida, mas isso deve-se ao facto de algumas gerações não saberem sequer o conceito de fake news.

PP: Penso que o sinal mais importante é a falta de interesse neste tipo de eleições juntamente com o desconhecimento total por parte da população de que tipo de eleições se trata realmente. Votando muitas das vezes como forma de avaliação do governo interno e não com a perspetiva europeísta, as fake news apenas vieram aumentar a desinformação à volta deste tipo de eleições.

LR: A alienação é sempre preocupante. O que mais me assusta é a contínua falta de interesse pela ordem pública, pelos assuntos que moldam e sustentam – direta ou indiretamente – a sociedade civil. No entanto, esmiuçando o cerne da questão e remetendo o olhar para “dentro”, na conceção sistêmica daquilo que somos dentro de uma “macro-estrutura” podemos discernir sobre a neutralidade Nacional e o poder de influência que essa neutralidade concerne relativamente a assuntos de primeira ordem. Nessa perspetiva, olhar de forma paradigmática para as eventuais consequências de uma deliberação “extrínseca” ao país, pode resultar numa posição de aparente apatia e conforto, por ser plausível (ainda que na eventualidade) que sejamos pouco ou nada afetados pelas eleições europeias.

CS: Acho que o povo português é muito “relaxado” no sentido em que enquanto não nos afeta, não há problema! Por isso, é que não temos o hábito de nos preocuparmos com os outros mas isto foi assim desde sempre! Quando nos afetar vamos nos importar.

Vários estudos mostram uma tendência comum: os jovens são, na generalidade, menos interventivos na política do que pessoas de escalões etários superiores. Votam menos, participam menos, interessam-se menos. Acreditas que é um presságio para um futuro, próximo?

 

PP: É uma realidade que vivemos, os fatores podem ser variados. Desde a crise de valores passando pela falta de interesse político juntando-se a isto uma realidade diferente das gerações mais séniores em que a política realmente mudou a vida das pessoas, algo que hoje os jovens dão por garantido ou simplesmente não sentem como algo relativo a eles.

JM: As pessoas só se começam a interessar por política quando começam a trabalhar, quando começam a pagar contas, etc. A sociedade protege os adolescentes dessas preocupações.

CS: Sim, muito. No entanto estamos até menos atentos a quem devemos votar mas acredito que com a idade e com a entrada no mundo do trabalho a tendência mude.

LR: Certamente. A crescente globalização, a alucinante transformação e descrédito informacional parecem não abonar a favor de um despertar de consciência pública adolescente e infanto-juvenil. Sabes que é difícil falar de política com jovens, não por eles não se interessarem, mas porque a própria sociedade replica, de forma persistente verdades propaladas de outros variados temas, que acabam por tornar mais astuta a influência de agregados superiores através de uma negligência pública inusitada, mas desejada. Sabes que ter a noção do que se passa é sempre temível para quem nos governa. Nessa instância, urge sempre recriar a influência prática e o papel cívico que todos temos, independentemente da nossa idade ou etnia.

Será que o discurso político, pelo seu carácter formal, cria um afastamento dos votantes mais jovens? Se sim, como pode ser alterado?

 

CS: Sim, claro que sim. Um discurso mais “simples” chegaria até mais classes etárias e sociais. Tudo o que é palavra “cara” faz com que percam o interesse em ouvir ou nem entendam nada.

PP: Penso que não, a cada geração que passa estes são mais formados e o discurso embora complexo torna-se mais compreensível com a formação elevada que estes possuem. Penso que não se trata de discurso, mas sim de por um lado falta de interesse dos jovens que a maior parte dá por garantido o regime democrático alienando os seus direitos de voto. Tudo isto aumentado por uma classe política que se tem perpetuado no poder e que não esta a ser capaz de dar lugar a uma renovação não entendendo com isto os problemas destes jovens.

LR: Penso que esta questão está intimamente ligada com outra não menos pertinente. Vejamos, a comunicação, quando realizada sobre canais linguísticos confusos e pouco claros, torna a mensagem dúbia e “enfadonha”, pouco compreensível. Para dizer que, poderá existir uma falta de conhecimento linguístico/cultural de faixas etárias mais novas relativamente a assuntos mais complexos. Isso, decerto que abona a favor da desmotivação e consequente afastamento. É como um aluno que não entende Matemática, caso ele não entenda a função utilitária da disciplina, certamente que irá cansar-se de concentrar esforços na realização das tarefas curriculares. Para dizer que acho sinceramente que o caminho faz-se no sentido de motivar a consciência e participação pública nos jovens. Fazê-los ver o utilitarismo para lá do discurso político – correto ou não – para lá das palavras. É necessário despertar os jovens para a sua capacidade de influência e necessidade insurgente de darem voz a causas maiores. Claro está que estas metas alcançam-se com investimentos públicos nos setores educativos, culturais. É um processo demorado na sua consubstancia prática, mas que deve ser realizado amiúde e sem receios.

Numa altura em que o acordo do brexit é aprovado e alguns partidos extremistas surgem como sombras à democracia, poderão estas eleições ser um reflexo de tendências futuras? Comenta.

 

LR:O que vem se vindo a assistir é a uma clivagem de valores dentro da própria União Europeia. O Brexit é um exemplo de um conjunto de divergências políticas que acabam por cimentar ainda mais a preponderância da própria UE. O acordo do Brexit, certamente, que irá suscitar no futuro maior consciencialização não só em termos de autonomia legislativa e nacional, mas também relativamente à validez e fiabilidade dos referendos.

CS: Sem dúvida que sim. O povo está revoltado com a polícia europeia e mundial. As crises fazem crescer as revoltas. E as revoltas mostram-se nos votos.

PP: Supondo que estamos a falar de eleições europeias pois o brexit foi um referendo e não uma eleição, penso que estamos numa altura de alguma indefinição. Os partidos ditos extremistas souberam capitalizar a crise de 2008 chegando alguns mesmo ao poder como o caso de Itália, Hungria entre outros porém penso que os regimes democráticos na europa tem alguma consistência e como isso um governo extremista tem maiores dificuldades em levar politicas socialmente reprovativas avante, porém de facto é um problema que deve ser tido em conta e espero que os partidos mais moderados sejam capazes de se renovar e responder aos problemas de forma mais eficaz esvaziando com isso todo o discurso que partidos extremistas utilizam tornando esta tendência apenas isso, uma tendência de curta duração.

JM: O caso do brexit tem muito pano para mangas, e não é assim tão fácil conseguir entender o que surgirá.

 
Consequências imediatas do Brexit, nos lugares do Parlamento Europeu
O Parlamento Europeu aprovou a proposta, já conhecida, sobre a sua futura composição, que reduz a dimensão da assembleia após o Brexit e garante que nenhum Estado-membro perde lugares. No caso português, os eleitores continuarão a eleger 21 eurodeputados – sendo que Portugal é um dos 13 Estados-membros que manterão o número de representantes no Parlamento Europeu, de onde resulta que 48% dos países do agregado não verão a sua representação aumentar, contudo, vêm a sua representação aumentar de peso em termos percentuais. No caso de Portugal, os 21 deputados representavam 2,7% do total de eurodeputados, passando agora para 2,9%.

A Alemanha mantém igualmente a eleição de 96 deputados, cujo peso passa de 12,7% para os 13,6%. A França elegia 74 deputados, passando agora a eleger 79. O seu peso relativo no Parlamento Europeu passa de 9,8% para os 11,2%. A Itália elegia 73 deputados, passando para os 76, o que representa um crescimento relativo dos 9,7% para os 10,7%. No que se refere a Espanha, que elegia 54 deputados e agora elege 59, o seu peso passa de 7,1% para 8,4%. Finalmente, a Holanda, que elegia 26 deputados e passa a eleger 29, vê a sua posição relativa crescer dos 3,4% para os 4,1%.

As eleições para o Parlamento Europeu decorrerão entre 23 e 26 de maio de 2019, anunciou o Conselho da União Europeia. Em Portugal deverão ser no domingo, dia 26.

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