(Afinal) o rancho não é para velhos

Dançar, cantar ou tocar um instrumento: é isto que fazem aos sábados à noite, enquanto os amigos saem para se divertirem. São adolescentes e jovens e têm em comum o gosto pela dança. Desejam manter a tradição que tem vindo a perder-se em Portugal. Apesar das dificuldades que enfrentam, pertencem ao rancho desde muito novos. No Rancho Folclórico de São Pedro da Raimonda, em Paços de Ferreira, são os jovens que predominam e trazem a certeza: não deixar morrer uma tradição.

O relógio dava as 21h00, sábado à noite, na sede do Rancho Folclórico de São Pedro da Raimonda. Somos recebidos por caras jovens e sorrisos no rosto. As luzes já estão acesas. Falta organizar os instrumentos e a disposição dos dançarinos. Preparam-se os ensaios para a Eucaristia da celebração do 36º aniversário. O Rancho representa uma tradição, não só do país, mas da freguesia. Por isso, é constituído por pessoas de mais idade, que asseguram a transição das tradições. No entanto, no Rancho de São Pedro da Raimonda, são os jovens que prevalecem e se fazem ouvir.

Fernando Machado tem 18 anos e dança desde os oito. Descreve o rancho como uma família, que conheceu na escola, quando estes realizaram uma demonstração, e, por motivação da mãe, começou a ir aos ensaios. Desde aí, dança com a alegria de quem não deseja abandonar esta atividade. Conta-nos que nunca sofreu de violência por parte dos amigos, que sempre foram compreensíveis nesse aspeto. “Eu também falava com naturalidade sobre o rancho, não falava com receio” comenta Fernando. Para o jovem, os meios de comunicação vêm o rancho como algo que não é apelativo, e por isso, pouco se fala desta atividade cultural nos media.

Fernando Machado. Fotografia: João Nunes.

Fernanda Carneiro tem 23 anos e anda no rancho há nove. Aos 14 anos, já tocava cavaquinho, e por isso, foi convidada pelo presidente a substituir o membro que tocava o mesmo instrumento. Entrou com o receio – típico de uma adolescente – de ser ridicularizada pelos amigos. Esse medo desapareceu pouco depois, quando percebeu que os comentários que faziam não passavam de meros preconceitos. “Acho que é a mais a juventude, acham que o rancho não é para toda a gente. Acham que isto é uma coisa que não tem pés nem cabeça”, explica Fernanda. No entanto, pensa que hoje em dia as pessoas estão a começar a ver o rancho com novos olhos. “É uma cultura e devemos mantê-la”, diz a jovem, concluindo com um sorriso que o rancho é uma família: vivem unidos e sempre juntos.

Fernanda Carneiro. Fotografia: João Nunes.

O Rancho Folclórico de São Pedro da Raimonda foi fundado a oito de dezembro de 1982. Foi criado na sequência da realização dos tradicionais “Leilões do Senhor”, levados a cabo pelas pessoas da freguesia, em que se apresentavam algumas marchas e danças para animar a venda das oferendas do povo. A receita daí resultante servia para ajudar a pagar as “despesas do culto” ou outras necessidades da paróquia.

Cartaz do 32º aniversário. Fotografia: Rosária Gonçalves.

Entraram para a Federação Portuguesa de Folclore a 15 de junho de 1991. É um momento do qual se orgulham, pelas diferenças notáveis em relação aos que não são federados, como trajar devidamente e cumprir todas as regras que o traje impõe. Desde a sua fundação têm levado a cabo, anualmente, a realização de dois festivais de Folclore. O primeiro realiza-se no final de julho e, inicialmente, apenas com grupos nacionais, mas desde 1990 que conta com a participação de grupos internacionais, oferecendo à freguesia de S. Pedro da Raimonda a possibilidade de conhecer outros usos e costumes das várias regiões do país. Pelo festival já passaram grupos de Norte a Sul de Portugal, mas também de Espanha, França, Turquia, Bulgária, Croácia, Grécia, Rússia, Brasil, e outros países. O ano de 1994 ficou marcado pela primeira ida a França, onde, entretanto, já regressaram várias vezes.

Para além das várias presenças em Festivais de Folclore, o Rancho de São Pedro da Raimonda participa em vários eventos sociais como casamentos, batizados, festas populares, festas escolares, entre outros. É nas saídas às escolas da freguesia que os elementos do Rancho atraem os mais pequenos para dançar ou cantar. Deste modo, criaram uma escolinha de rancho para as crianças, noites de fado, e uma série de outras atividades para atrair os mais novos.

Saídas feitas em 2018. Fotografia: Rosária Gonçalves.

Ana Brito tem 14 anos e entrou para o rancho há dez. Ingressou por força do irmão, que tinha o desejo de pertencer ao rancho, e acabou por levar também os pais. Afirma ter sido ridicularizada, em várias situações, por colegas de turma: “às vezes na brincadeira, outras vezes de propósito”, declara a jovem. Julga que as pessoas avaliam o rancho como uma tradição para velhos, e por isso, os jovens não querem pertencer a estes hábitos. Refere-se ao rancho como um grupo de amigos.

Mariana Pacheco também tem 14 anos e dança desde os oito. Tinha o gosto pela dança quando decidiu inscrever-se no Rancho Folclórico de Raimonda, não quis o ballet nem a zumba. Ao passo que viu o trajeto feito pelo pai no rancho, logo nasceu o bichinho por esta tradição. Orgulha-se de ter ultrapassado todos os momentos em que foi desconsiderada pelos colegas de turma. “Gozam com isso, são brincadeiras de crianças. Os jovens hoje não pensam sequer nisso, acham que é para velhos”, expõe Mariana. Para a jovem, é uma atividade deslembrada. “Tal como o futebol, o rancho tem a união e a família, mas toda a gente se esquece disso, desvalorizando”, termina Mariana, honrada de pertencer à família e ao convívio que se vive aos sábados à noite.

Ana Brito. Fotografia: João Nunes.

Mariana Pacheco. Fotografia: João Nunes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Márcia Ferreira tem 21 anos e pertence ao rancho há dez. Desde cedo que tem o entusiasmo pela música e pelo rancho. Entrou por influência do irmão, que estudava na freguesia de Raimonda, e numa visita feita pelo rancho à escola, conheceu melhor esta atividade e pediu para ingressar. Márcia levou o irmão e acabou por ficar. Começou por dançar, mas com o excesso de bailarinos, e como sabia tocar concertina, foi-lhe pedida a mudança para a tocata, onde se mantém há cinco anos. Márcia expõe ao #infomedia que sentia vergonha de estar ao lado dos colegas quando estava trajada, porque “nem sempre os trajes são a nossa farda habitual, e como éramos jovens tínhamos aquela ideia de que isto era para velhos”. Expressa ainda que se sentia diferente por estar associada a uma atividade que os amigos não praticavam, mas que estes nunca a excluíram por isso. Comenta que a comunicação social apenas dá atenção “ao futebol e à política” e que no rancho “não se passa nada disso”. O rancho é “o reviver das culturas antigas que se tornam atuais”, termina a jovem, que, hoje, tem um olhar diferente sobre esta cultura, e já não sente qualquer tipo de pudor em fazer parte dela.

Márcia Ferreira. Fotografia: João Nunes.

Sara Vilela tem 11 anos e dança desde os três. Juntou-se ao rancho pela vontade que tinha de aprender a dançar. Nunca foi menosprezada por andar no rancho e descreve-o como uma atividade divertida. Ingressou com a irmã, Cristiana Vilela, de 19 anos, que já tinha o gosto pelo folclore. Entrou com uma amiga, mas acha que é uma atividade que não atrai muitas pessoas. Considera que os media querem agradar ao público jovem e, por isso, não está presente o rancho nas suas transmissões. Isabel Meireles tem 16 anos e dança há dez, por intervenção do irmão. Atenta ao rancho como um convívio. “Foi aqui que a conheci [Cristiana] e venho para estar com ela”, remata a jovem.

Sara Vilela. Fotografia: João Nunes.

Ana Brito (à esquerda) e Cristiana Vilela (à direita). Fotografia: João Nunes.

 

 

 

 

 

 

Isabel Meireles (ao centro). Fotografia: João Nunes.

Para perceber melhor o que é afinal o Folclore, o #infomedia esteve à conversa com Manuel Coelho, Presidente do Rancho Folclórico de Raimonda.

Sendo uma associação sem fins lucrativos e tendo em conta as instituições culturais e o elevado número de rancho no concelho, Manuel conta que a Junta de Freguesia de Raimonda e a Câmara Municipal de Paços de Ferreira têm um papel fundamental para o bom funcionamento do rancho, comparticipando saídas e em tudo o que é possível. No entanto, são remunerados em saídas para o exterior, “se for para a freguesia é tudo de graça, por isso, em dez saídas num ano, apenas duas ou três são remuneradas”, explica o presidente.

Manuel, afirma que “o rancho é uma cultura, vai das crianças, que querem aprender a dançar, aos mais velhos, que têm a sabedoria e experiência”. Explica ao #infomedia que são ambos fundamentais para o rancho, uns têm a energia e a criatividade, os outros a experiência do passado. “É isto que faz o Folclore.” Por isso, tem a esperança que esta mentalidade esteja a mudar. “A comunicação social devia desmistificar o Folclore, porque não é uma cultura antiquada”, desejando que Portugal tivesse “um meio de comunicação social que se dedicasse verdadeiramente a investigar o Folclore”, conclui Manuel.

Fotografia: Rosária Gonçalves.

José Carneiro tem 16 anos e já passou por todos os postos intrínsecos ao rancho nos sete anos de experiência. Pela falta do “senhor dos ferrinhos”, como é conhecido, que seria operado, José foi convidado a juntar-se ao rancho para tocar ferrinhos. Pouco depois, como não era necessário mais um elemento a tocar o instrumento, passou para o cavaquinho. Com a falta de bailarinos, principalmente homens, o jovem começou a dançar. Transmite que os amigos sempre foram acessíveis e nunca teve dúvidas que era no rancho que queria estar. Pensa que “o rancho é uma atividade esquecida entre as outras atividades culturais” e traça-a como uma “união”.

José Carneiro (ao centro). Fotografia: João Nunes.

Ana Nunes tem 11 anos e dança desde os três. Gosta do que faz e refere-se ao rancho como uma família. E família é o que, de facto, não lhe falta no rancho. Para além de Ana, andam no rancho os pais e o irmão, João Nunes tem 20 anos e há dez que a paixão pela música falou mais alto. Toca vários instrumentos, mas foi o cavaquinho que lhe despertou o verdadeiro interesse para pertencer ao rancho. Paralelamente, inscreveu-se numa escola de música para aperfeiçoar essa paixão. Questionado sobre o papel do rancho nos media, não duvida: “pensam que o rancho é uma coisa parola, algo mais antiquado”, e acrescenta que “estamos a recriar o antigo, a sociedade mais jovem pensa sempre que é uma coisa desusada”. Para o jovem, o rancho é uma família. “Tenho aqui amigos, tenho tudo”, termina João.

Ana Nunes. Fotografia: João Nunes.

João Nunes. Fotografia: João Nunes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Numa era em que o mundo fornece aos jovens milhares de distrações diferentes, são cada vez mais os que se dedicam à cultura, à dança e ao canto tradicional, mantido até hoje de geração em geração. Apesar de todas as dificuldades, é com orgulho que os jovens querem continuar a manter viva a tradição. São vistos pela sociedade como diferentes, mas são iguais a todos os outros jovens, e têm todos um desejo: que o rancho seja uma atividade mais valorizada nos meios de comunicação social e que a sociedade não olhe para esta tradição como “uma coisa antiquada”. E porque, afinal, o rancho não é para velhos, deixam em aberto o convite a todos aqueles que desejem uma nova experiência: apareçam, e quem sabe, não ficam a gostar.

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