Rudeboy trojan.

Trojan Records: da Jamaica para o mundo

Numa semana em que o reggae foi reconhecido como património imaterial da humanidade pela UNESCO, o Cinema Passos Manuel exibiu um filme sobre a editora que ajudou o estilo musical a nascer. Rudeboy: The Story Of Trojan Records, inserido no ciclo Transmission da quinta edição do festival de cinema Porto/Post/Doc, conta a história de como, ainda que durante apenas um pequeno espaço de tempo, os singles e discos de um coletivo de artistas oriundos de um bairro jamaicano ocuparam as maiores ruas da Inglaterra e arredores.

“Antes do Bob Marley, ninguém vinha de um país pequeno como a Jamaica e tinha aquele sucesso todo”, contou Pedro Mesquita, que fez uma breve apresentação do filme com Carlos Moura. O amor pelo reggae dos anos 60 que os dois nutrem fez com que unissem forças para criar o sound system Buenaventura Durruti. Os sound systems – discotecas ambulantes – estão profundamente associados ao surgimento da Trojan Records: o DJ – e, mais tarde, produtor – Duke Reid colocava na sua carrinha da fabricante Trojan o equipamento de som e os discos americanos que colecionava, e, noites a fio, fazia festas marcadas por muitas danças e pelos sons mais quentes dos Estados Unidos.

“A Jamaica é a maior ilha que fale inglês nas Caraíbas. As ilhas costumam ser sítios onde entra e sai muita gente. Isso possibilita o cruzamento de muitos géneros musicais e culturais diferentes. Os jamaicanos eram culturalmente próximos dos americanos: eles começaram a interpretar à sua maneira a música que ouviam naquelas festas com os sound systems e nas ondas da rádio”, elucida Pedro Mesquita. Muitos passaram dos sound systems para os estúdios. A dada altura, alguns começaram a passar dos estúdios para o outro lado da fronteira.

Mas apesar de o reggae ser infectado por um espírito de contagiante alegria e energia, a situação socio-política da Jamaica no final dos anos 60 não era particularmente pacífica. Escreviam-se músicas de amor que celebravam a vida e apelavam à paz num país afetado por instabilidade e graves desigualdades sociais. Carlos Moura não deixa de tecer algumas críticas a Rudeboy. “Este filme é basicamente uma operação de marketing. Eles estão a vender a sua editora e o que conseguiram fazer. Mas a realidade era muito mais violenta. O filme toca nessas questões de uma forma bastante superficial”, frisa.

O reggae era uma forma de ativismo para os artistas e um escape. Surgiu como uma possibilidade de integração. Quem conseguisse fazer sucesso na Inglaterra podia fugir aos problemas na Jamaica. Londres era vista, a partir de Kingston, como uma cidade onde era possível viver melhor. Era essa, pelo menos, a fantasia, que em pouco tempo acabaria por diluir. Figuras como Dandy Livingstone ou Derrick Morgan – que aparecem em Rudeboy, e escreveram algumas faixas de grande sucesso na era dourada da Trojan Records – afirmam que, apesar de não haver barreiras de linguagem que os pudessem perturbar na Inglaterra, o racismo tornava qualquer ideia de integração completamente impossível de concretizar.

Lendas da cena musical jamaicana dos anos 60 tais como Lee “Scratch” Perry ou Marcia Griffiths explicam que o reggae tinha algo a dizer à classe trabalhadora e à comunidade jovem da Inglaterra porque, apesar da sonoridade jovial, havia um elemento de rebelião. A música tentava incentivar à inclusão, mas, perante o estigma social com que se confrontava, era vista como uma coisa para outsiders. Foi por isso que a Trojan Records proliferou: entre 1968 e 1972, era raro não ver os seus artistas principais nos charts. A superprodução nesses quatro anos trouxe consigo custos económicos graves e uma pequena falta de controlo de qualidade, o que fez com que se acumulassem singles por vender, e levou a que o auge da editora fosse curto. Mas ainda assim, a sua existência constitui um momento absolutamente incontornável na história do reggae. Foi com a Trojan Records que o género percorreu continentes e deixou uma marca nos que o abraçaram. E quem o abraçou nunca mais o esqueceu.

O #infomedia no Porto/Post/Doc:

01. Carlos Kaiser, o 171 profissional.
02. Ernesto Bacalhau foi com os PAUS à Madeira e gravou um documentário regado a poncha.
03. Trojan Records: da Jamaica para o mundo.
04. O hálito azul de uma Ribeira Quente que nunca mais vai ser a mesma.
05. Sobre Tudo Sobre Nada: a vida partilhada e o peso da memória.

Deixa um comentário