Hálito azul.

O hálito azul de uma Ribeira Quente que nunca mais vai ser a mesma

Rodrigo Areias começou por querer fazer um filme sobre Raul Brandão. “Sempre fui fascinado pela obra dele”, conta o realizador ao apresentar Hálito Azul, filme exibido na quinta edição do Porto/Post/Doc. “Primeiro, há uma relação geográfica, porque a casa onde ele viveu a sua vida adulta e escreveu grande parte da sua obra fica a 500 metros da minha, na Nespereira, nos arredores de Guimarães. Mas depois há uma relação mais profunda: impressionava-me a forma como escrevia sobre a pobreza e as dificuldades de pessoas que viveram num outro tempo no nosso país. Impressionava-me o realismo da sua escrita”, assinala.

Os Pescadores – livro que Brandão publica em 1923 e que documenta as tribulações de muitas comunidades piscatórias em Portugal – acabou por servir como o derradeiro ponto de partida para o realizador vimaranense. “É uma obra ao mesmo tempo documental e altamente poética. Foi o mote porque decidi centrar-me neste microcosmos da Ribeira Quente e retratar uma realidade que se encontra em vias de extinção”, comenta. É sobre a comunidade desta pequena localidade, situada em S. Miguel, nos Açores, que Hálito Azul se debruça, e neste filme, como também se pode verificar nos livros de Raul Brandão, o documental e o místico cruzam-se e confundem-se com frequência.

Os barcos já estão a ficar parados. Não há construção de barcos há cinco ou seis anos. Não passa um atum nos Açores há oito anos. As coisas estão a mudar muito. E muito radicalmente.

Rodrigo Areias.

As condições de vida são difíceis e os recursos são escassos na Ribeira Quente. A pesca significa tudo para os seus habitantes: ela constitui a sua principal fonte de rendimento mas também a sua principal fonte de alimentação. Mas o mar começa a ficar desprovido de peixe e a incerteza cresce com o passar dos dias. Não há soluções para os problemas com que a comunidade se depara e a crise assumiu uma proporção violenta. Hálito Azul parece cristalizar um momento que não vai ser capaz de subsistir por muito mais tempo e mostra uma realidade que tem os dias contados.

Nota-se que o futuro da Ribeira Quente é uma incógnita porque, refere o realizador em conversa com o #infomedia, “já está a decorrer um processo de mudança. Os barcos já estão a ficar parados. Não há construção de barcos há cinco ou seis anos. Não passa um atum nos Açores há oito anos. As coisas estão a mudar muito. E muito radicalmente. Já há barcos encostados. Já há empresas de pesca falidas. Está a decorrer um processo assustador e ele começou antes de eu lá chegar [para filmar]. Já apanhei esse processo em movimento. E ninguém está preparado para lidar com tudo o que isso implica”, aponta.

Eu perguntava a alguns miúdos o que eles iam fazer quando o peixe acabasse. E os gajos olham para mim com incredulidade. Olham para mim como um maluco. Não conseguem conceber nas suas cabeças que o peixe está em vias de acabar.

Rodrigo Areias.

“Entender e aceitar que não há mais seres vivos no mar para que possam continuar com a exploração piscatória é muito difícil”, conta Rodrigo Areias. Mas as pessoas têm que o aceitar de alguma forma, e elas “sabem que isto já não é a brincar. Quando fecham os portos de pesca, sabem que a situação chegou a um extremo. O responsável máximo da pesca em Portugal dizia-me há uns tempos que a sardinha tinha de deixar de ser pescada durante seis anos. Isto já foi no ano passado. Era preciso parar com urgência para que houvesse sequer a possibilidade de renovação”, revela ao #infomedia.

As crianças da Ribeira Quente dividem-se entre os estudos e a pesca. Isso, segundo a perspectiva de Rodrigo Areias, leva a que fiquem presas num limbo. “A lei portuguesa proíbe que uma pessoa trabalhe até terminar a escolaridade obrigatória ou atingir uma determinada idade. Mas, muito antes de eles chegarem lá, os putos passam todos por um processo de quatro ou cinco anos em que nem estudam nem trabalham. Estão à espera de ter idade para trabalhar. Isso cria um vazio em termos de realização pessoal. As pessoas não conseguem atingir aqueles objectivos de escola. Não podem estudar mas também não podem emigrar. Eu perguntava a alguns miúdos o que eles iam fazer quando o peixe acabasse. E os gajos olham para mim com incredulidade. Olham para mim como um maluco. Não conseguem conceber nas suas cabeças que o peixe está em vias de acabar. Os mais velhos têm todos a plena noção de que está a acabar. Os putos olham para aquilo de forma absolutamente mitológica e apaixonada”, confessou o realizador numa sessão de perguntas e respostas depois da exibição do filme.

É muito curioso haver essa relação de fascínio com o mar. É como se ele fosse uma entidade viva.

Rodrigo Areias.

Mas, apesar das dificuldades que se fazem sentir, as crianças sentem-se bem no sítio que as viu nascer. E, embora alguns dos rapazes saibam que provavelmente vão ter de emigrar, como os seus irmãos mais velhos e os seus pais já o fizeram, não se importavam de ficar na Ribeira Quente para sempre. “O Dinarte aparece muito no filme e ele é um puto que todos os dias, antes de ir para a escola, vai lançar armadilhas aos peixes. Depois disso ele vai para as aulas. Sai e vai ao rio apanhar isco para depois ir pescar. Essa liberdade que as crianças têm naquele lugar – que é uma liberdade que mais ninguém tem noutras partes do país – é incrível”, salienta Rodrigo Areias.

E o facto de a comunidade da Ribeira Quente conservar essa visão mitológica do mar intriga o artista. Os pescadores, afirma o realizador, “são pessoas adultas inteligentes e racionais, mas preservam aquelas crenças todas. Eu nunca discuti isso com eles. Não achei que tinha o direito de discutir isso com eles. Seria a mesma coisa que questionares um religioso. Dizes que não és religioso é chega. Não vais tentar demover alguém da sua crença. É muito curioso haver essa relação de fascínio com o mar. É como se ele fosse uma entidade viva.”

Ninguém sabe dizer com precisão o que vai acontecer à Ribeira Quente ou à sua actividade piscatória no futuro. A única certeza que existe é a de que a pequena localidade está a passar por uma transformação severa. No que essa transformação vai resultar continua a ser um mistério. Não há um plano de sustentabilidade que a permita continuar com a pesca de uma forma intensa. As crianças não sabem se vão conseguir viver na ilha daqui a dez anos. Hálito Azul mostra – sempre nesse discurso que opõe o documental ao poético – o quotidiano de uma comunidade que desespera com tudo o que não sabe. Só sabe que a vida nunca mais vai ser a mesma.

O #infomedia no Porto/Post/Doc:

01. Carlos Kaiser, o 171 profissional.
02. Ernesto Bacalhau foi com os PAUS à Madeira e gravou um documentário regado a poncha.
03. Trojan Records: da Jamaica para o mundo.
04. O hálito azul de uma Ribeira Quente que nunca mais vai ser a mesma.
05. Sobre Tudo Sobre Nada: a vida partilhada e o peso da memória.

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