Ano novo, vida nova, dieta radical

Em 2019 diga “Sim” a uma alimentação equilibrada durante todo o ano e “Não” às dietas radicais após os eventos de final de ano

“Ano novo vida nova”. Eis a expressão popular mais utilizada por quem deseja promover alterações na sua vida. No entanto, na altura em que se renovam os votos de mudança há tradições que se mantêm na noite de Réveillon, entre elas a de comer 12 passas pedindo 12 desejos à meia noite, brindar com champanhe, lançar foguetes, bater com tachos e panelas e usar roupa interior azul. Estas superstições são apenas o marco do início de um processo de busca de sorte, e nelas estão intrínsecas promessas para alcançar novas metas com o intuito que o ano que se avizinha supere o que passou.

Perder peso, reduzir medidas e iniciar um estilo de vida mais saudável figura entre as promessas mais populares feitas na noite de passagem de ano. O mês de janeiro convida a uma presença mais assídua no ginásio e a pequenas mutações na alimentação. Todas estas questões assentam num compromisso de rotura com o passado, que parecem possíveis e fáceis de executar pelo início de ano, que arrasta uma necessidade de recomeço com uma elevada dose de empolgação.

Uma mesa recheada de pratos calóricos está muitas vezes associada a um convívio. Efetivamente, comer é vital para a saúde de um ser humano, mas para além do caráter biológico é igualmente uma forma de unir pessoas, como no natal e no ano novo.

Carolina Reis, enfermeira, mestranda em nutrição clínica pela FMUL realça os dois eventos sociais de final de ano que apresentam “bastante relevância para serem celebrados e que facilitam a quase duas semanas de excessos.”

Defende que a época natalícia não é distinta do resto do ano, apenas é favorável à presença de receitas tradicionais mais calóricas. Neste seguimento, lamenta a falta de consciência por parte de algumas pessoas de que é possível “incluir de tudo um pouco, incluindo um doce/chocolate!”, desde que seja de forma moderada através de uma educação nutricional com “um estilo de vida saudável” com a presença da prática de “exercício físico e de uma “alimentação consciente, variada e prazerosa (que é propícia a maiores excessos) sem ter que perder o controlo.”

Sustenta que “a inclusão e diversidade alimentar quebra o hábito de olharmos para a alimentação como ‘bom/mau’ ou ‘faz bem/engorda’ e melhor, quebra o hábito de atribuirmos X alimentos a Y dias.”

Por esta razão, destaca que uma “restrição prolongada, especialmente se não for uma alimentação nutritivamente adequada e feita de forma inteligente, torna-se um ambiente bastante propício a descontrolos alimentares que, muitas vezes, são simplesmente atos compulsivos – comer compulsivamente e não saber parar.”

Através do pensamento “perdido por 100 perdido por 1000” enumera alguns conselhos fulcrais para que as pessoas não percam o controlo, ainda que seja um trabalho psicológico e de aprendizagem ao longo de todo o ano. “ O primeiro conselho é não esperar ‘milagres’ de uma semana para a outra. ‘Perder o controlo’ pode parecer muito comum mas é um distúrbio e com nome – compulsão alimentar – e pode ocorrer em qualquer faixa etária.” O segundo “ é terem em mente que o mundo não acaba ‘amanhã’ e que não precisam de comer até se sentirem enjoados. Comer devagar é muito importante. Aprender a saborear.” Indica ainda que devemos servir uma porção que nos satisfaça, ao invés de retirar uma pequena porção e repetir. Aconselha a sair da mesa após nos alimentarmos, conviver, e não levar sobras para casa.

Relativamente ao consumo de bebidas alcoólicas, também muito comum nesta altura do ano, Carolina Reis aconselha a beber com moderação, pela facilidade do ganho de calorias e “sempre que beberem um copo de vinho, re-abastecer mas com água! O corpo precisa de se manter hidratado.” Explica que “quando ingerimos álcool, este é o primeiro a ser metabolizado pelo nosso corpo. Por isso é que muitas vezes ocorrem indigestões, porque a digestão (comida) fica para segundo plano, uma vez que o corpo trabalha principalmente para metabolizar e eliminar o álcool.”

Oferece algumas alternativas como escolhas mais inteligentes, que, de alguma forma, substituem o açúcar. Como exemplo, a frutose e o mel que aprensentam um valor calórico semelhante, mas “tem maior poder adoçante e provavelmente necessitam de menos quantidade para dar o mesmo sabor doce, reduzindo o teor de açúcar e de calorias na receita.” Acrescenta o exemplo da canela e de especiarias que também são uma forma de adoçar. Para reduzir as quantidades de açúcar refere a utilização de cacau magro em pó, mas apela que por ser amargo em relação ao chocolate normal e para não arruinar a receita, o ideal é “utilizar 1/2 cacau magro e 1/2 chocolate tradicional”, e desta forma reduz-se o valor calórico. E ainda “outra alternativa será a utilização de adoçante (em substituição total ou 1/2) que é seguro, especialmente, na quantidade ultilizada. Enfatiza que “em termos nutritivos, torna-se irrisório distinguir entre os diferentes tipos de açúcar (que tem basicamente o mesmo valor calórico), pois não é a partir de açúcar numa receita de Natal que se retira qualquer valor significativo de vitaminas e minerais, sendo que a reeducação passa pela redução da adição de açúcar (seja ele qual for coco, amarelo, xarope de gave…).”

Reconhece as dietas detox, muito recorrentes após estes meses festivos, como “um engodo, sendo que o termo “detox” não é legalmente aprovado.” Argumenta que “não é sustentável, dificilmente é nutricionalmente adequado e não traz resultados sustentáveis”. Completa afirmando que “O único peso perdido é ‘água’ e defende que “Se a pessoa realmente faz uma alimentação adequada o ano inteiro, então terá mais 360 dias para voltar ao seu normal.”

Acredita que o mito que é preciso desmistificar mais concretamente após as comemorações de fim de ano é precisamente o de que é necessário detox após estas alturas. Pensa que “‘as dietas loucas’ surgem após uma época de excessos e não necessariamente por ser perto do início de um novo ano.” E argumenta que “muitas vezes o “ano novo” é simplesmente uma desculpa que as pessoas utilizam para se desresponsabilizar pelos seus actos, seja na alimentação, na realização de exercício físico mas também em outros hábitos de “deixa andar”. Daí a maioria das dietas serem um falhanço pelo tempo de execução das mesmas.

Para um indivíduo ter resultados duradouros, uma dieta não pode ser levada a cabo momentaneamente, mas durante um ano inteiro, através da educação alimentar do organismo.

Para quem ganhou peso e o quer perder em 2019, Carolina Reis, também Instagramer (https://www.instagram.com/_carolina.reis/) e fundadora da marca “Girassol da Carol” adianta que acompanhem o seu trabalho juntamente com o de Hugo Amaro (https://www.instagram.com/hugoamaro1/), nutricionista estagiário e treinador de halterofilismo, e incentiva a que participem nos workshops orientados por ambos, onde abordam exatamente esta temática. Conclui dizendo que “perder peso não é milagroso e precisa de existir aprendizagens de bons hábitos alimentares, bem como de outros fatores que tem bastante impacto no processo de perda de peso (o sono, o estilo de vida em si, exercício…).

Em 2019 diga “sim” a uma alimentação equilibrada durante todo o ano e “não” às dietas radicais após os eventos de final de ano. A alimentação procura saúde e o fulcral é cativar, despoletar e manter o equilíbrio para desenvolver hábitos saudáveis e cumprir o que, até então, não se cumpriu.

Editado por: Ana Luísa do Vale

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