Jovem portuguesa pelo mundo: a saga de uma hospedeira de bordo

Renata Gomes, tem 20 anos e vive, de momento, em Barcelona. Depois de terminar o ensino secundário, decidiu dar um novo rumo à sua vida: especializou-se em atendimento ao consumidor e formação dos aviões 737-800 series. Significa isto, que tem como vida, voar. É assistente de bordo. Escolha justificada ” pelo fascínio de culturas e países, diferentes.”

 

Depois de uma passagem por Budapeste, na Hungria, está, agora, a viver em Barcelona, Espanha. Confessa que, muitas vezes, “pensa no dia do regresso ao seu pais”. Não só de passagem. De visita a Portugal onde, de resto, tem os seus familiares e amigos, partilhou com o #Infomedia, um pouco da sua história.

 

Depois da formação, vem a realidade do mercado de trabalho. Partilha algumas das peripécias e desafios da tua carreira.

Desde que me lembro nunca quis outra profissão a não ser esta. No tempo de escola perguntavam-me o que eu queria ser sempre respondia o mesmo “Hospedeira de Bordo” e as pessoas riam-se, achavam-me incapaz  de entrar no mundo tão conceituado da aviação.

Quando vi que a Ryanair estava a recrutar decidi arriscar. Mandei a minha inscrição umas cinco vezes, porque na altura, tinha medo de mudança de alteração ou mesmo da saída da minha zona de conforto.

O curso na altura que tirei tive de o pagar, os meus pais pagaram-me o curso e eu agradeço pelo esforço que fizeram por mim. Para mim, a formação foi extremamente intensa, tinha exames todos os dias, entrava às sete horas da manhã e não tinha horário de saída. Era quando estivesse a matéria toda dada.

As aulas consistem num instrutor que falava durante horas e horas e apontávamos o mais importante. No início da aula tínhamos sempre exame da matéria do dia anterior e se falhasses, suspira, não podias falhar. Os exames mais importantes são dois, em que só tens duas oportunidades, se reprovasses, eras expulso do curso.

Eu vivi momentos intensos, chegava a casa e estudava não tinha tempo para mais nada, as vezes, estudava a chorar por ter tanta coisa para decorar, páginas e páginas para no dia seguinte aplicar no exame matinal.

Para o que é que a Renata não estava preparada, aquando desta decisão de carreira?

No mundo da aviação, consegues entender o que são pessoas, como elas são, como elas falam e eu tenho uma enorme experiência nisso. Por exemplo, sei quais são as nacionalidades que mais reclamam e têm tendência ao distúrbio e quem é mais calmo e entende as coisas como elas são.

Mas com certeza o maior desafio para mim é quando vejo alguém a ter algum problema médico e aquela pessoa está a confiar em mim, para a salvar.

Mas tenho a dizer que adultos também gostam de carinho, quando se magoam eles gostam de ser cuidados, há sempre uma criança dentro de um adulto, aprendi isto.

Mas o mais desafiante foi ter de mudar de pais, e fui para os países de Leste – a Hungria, as pessoas não são as mais simpáticas do mundo mas as mais confiáveis, não te vão dar um sorriso quando vais comprar um café, mas se ganhares a confiança são capazes até de oferecer o café. A língua é impossível de aprender, a moeda é complicada mas com o tempo habituei-me, acho que a minha sorte foi ter a minha amiga Helena, que até hoje vive comigo e sempre nós apoiamos uma a outra.

Hospedeira é, normalmente, associada a uma carreira de um constante movimento, alteração de calendários e horários. Como consegues criar, mesmo assim, visões e objetivos de futuro?

Não me imaginava a fazer as malas e estar na porta de embarque a abraçar os meus pais tão forte pois não sabia quando os ia ver novamente, ou no dia a dia não os ver. Não estava preparada. Eu tinha um namorado que pensei que era para a vida toda, apoiou-me em todo o percurso mas não estava capaz de o privar de ter alguém fisicamente a seu lado, iria ser egoísta, se o fizesse. Mas tenho esperança que, quem sabe, mais tarde o destino volte a juntar-nos, não me vejo com outra pessoa no futuro a não ser com ele. Devo-lhe muito.

 Muitas vezes, ouve-se que esta profissão está muito associada à imagem: tens de ter uma determinada altura, peso. Que apresentação é um dos principais pedidos pelas identidades empregadoras. Sentes, em virtude disto, que é uma profissão com um prazo de validade? Ou seja, tens receio que a idade e o tempo, sejam um fator de potencial afastamento?

Estou a viver o meu sonho. Mas seja como for, há várias posições na Ryanair sem ser hospedeiro de bordo, posso trabalhar nos escritórios. Quanto aos horários, uma pessoa acostumasse uma semana trabalho às 5 horas da manhã, outra semana começo as 13 horas da tarde. Um dos motivos de eu gostar da Ryanair é o facto de eu saber quando estou de folga durante o ano todo porque eu trabalho 5 dias e estou de folga 3 dias, nenhuma outra companhia da tanta estabilidade em termos horários como a Ryanair. Sim é verdade, quando se pensa numa hospedeira passa uma imagem na cabeça de alguém alto e boa aparência, mas como disse antes, há outros cargos na Ryanair que eu posso exercer quando tenha 50 anos, se bem que conheço pessoas com 50 anos ainda a voar.

 

Em que medida é que esta profissão te mudou, enquanto pessoa?

Esta profissão tornou-me, sem dúvida, muito mais forte em termos emocionais. Alguém independente, mas sinto que estou a crescer rápido demais, creio que não aproveitei os meus 18/19 anos como uma adolescente normal, com essa idade já pagava as minhas contas e aos 18 fui para o outro lado do mundo sem ter casa, não tinha nada e tive de criar uma vida e em termos profissionais o facto de eu ser responsável por 185 passageiros. Isso fez-me crescer muito, hoje em dia não vês pessoas dessa idade a fazer o que eu fiz e faço. Estou orgulhosa de mim, estou a viver a melhor parte de mim.

A transportadora aérea Raynair e Sindicato Nacional de Pessoal de Voo da Aviação Civil, foram, nos passados meses, alvo de um escrutínio por parte dos media. Desde os contratos precários, à insatisfação dos “clientes”. Como é que foi para ti passar por este processo?

A Ryanair precisava de sindicatos, a minha companhia aérea para mim é a melhor, mas sim, não é perfeita. Nós trabalhadores, não temos tantas regalias em certas coisas que outras companhias têm, mas sinto orgulho de dizer que trabalho para a Ryanair, apesar de tudo o que se anda a passar. Eu apoio a 100% os sindicatos e eu estou inscrita num até. Creio que a Ryanair tem potencial para ser uma das melhores companhias Low Cost e creio que foi por isso que começamos a fazer greves e tudo mais para a Ryanair se aperceber e mudar o que está errado, para se tornar melhor.

 Qual é, na tua opinião, a melhor transportadora aérea, para se trabalhar?

A melhor companhia para se trabalhar depende, se quiseres ter uma vida/família a Ryanair ou TAP, sem sombra de dúvida. Se queres viver vida de hotel e conhecer outros países, sem ser europeus, as companhias de Long Haul por exemplo, Emirates , HiFly ou Norwegian.

Na tua experiência pessoal e profissional, vês muitos jovens? Acreditas que esse é um trabalho, socialmente, inclusivo?

Eu acho que no final eu vejo um pouco de tudo, tem aqui pessoas com 18 ou 50 anos, eu antes pensava que iria ver mais mulheres que homens, mas eu acho que está super equilibrado.

Qual é a melhor e pior memória que tens de um voo?

As melhores memórias faço sempre nos voos portugueses, sinto-me em casa. Mas a pior memória foi quando fiz um voo a Nador e o passageiro insultou-me a mim e a chefe de cabine por lhe pedirmos para colocar o cinto de segurança. Ele irritou-se muito e tivemos que chamar a polícia e o outro passageiro que estava bêbado e estava a fumar na casa de banho e estava a ameaçar que ia matar não sei quem… tivemos de chamar a polícia também, enfim, há pessoas que não se sabem comportar dentro de um avião.

 

Como comissária de bordo, as mulheres, notam-se e estão presente. Mas e então, e com as mãos no volante, no cockpit? Partilha a tua visão.

Acho que depende dos teus gostos, não quero estar a dizer que está profissão é para  mulheres e no cockpit para homens, acho que vai dependendo dos gostos, até porque algumas pessoas entram como comissário de bordo e depois descobrem que afinal têm uma maior paixão pelo cockpit que a cabine.

 

Achas que a preparação é diferente para uma mulher e para um homem, nesta área?

Não, mas que algumas pessoas respeitam mais os homens que as mulheres sim. Tem muitos passageiros que se recebem ordens das mulheres não respeitam, falo mais do terceiro mundo, e se for homens já respeitam.  Acho que no final, está tudo na base da paciência, e pelos vistos, acho que tenho muita!

 

 

A jovem lusa, natural do Porto, visiona mais nesta carreira e confessa “estar num bom momento”. Seguem-se mais horas de voo, mais pessoas e culturas. Tem como certo que cada “experiência me vai enriquecer, como profissional e pessoa” e, acentua, que “o próximo desafio e, é um objetivo será tornar-me chefe de cabine”.

 

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