“Sexo sem consentimento é violação, ponto”

O movimento Slutwalk surgiu em 2011, em Toronto, no Canadá, após uma agente de autoridade ter afirmado que as mulheres não se devem vestir como galdérias se não querem ser violadas. Foi nesse mesmo ano que o movimento se internacionalizou e chegou às maiores cidades do mundo.

Este movimento feminista luta, principalmente, contra todos os tipos de assédio sexual ou culpabilização das vítimas motivada pela aparência das mesmas – slut shaming. Segundo o movimento, a forma como a mulher se veste não deve ser uma desculpabilização para o ato de assédio, nem o facto de esta se apresentar embriagada ou inconsciente. “Numa pessoa desacordada, não é necessária violência física para ela ser violada, a pessoa não pode dizer sim ou não”, diz Carolina Marcello.

Carolina Marcello e Joana Pinto são as duas ativistas ligadas à organização do projeto Slutwalk na cidade do Porto. O #infomedia conversou com elas.

Desde os seus 19 anos que Joana frequentava as marchas LGBT na cidade de Lisboa, mas foi apenas no ano de 2017 que entrou para a organização do movimento das sluts. “Sempre tive o objetivo em entrar em movimentos feministas, sempre me identifiquei com a causa.”

Carolina é produtora de conteúdos online, e foi a partir dos 17 anos que teve um primeiro contato com o ativismo, também numa marcha LGBT. No ano de 2012, caminhou na sua primeira Slutwalk, mas só em 2015 é que se juntou a um grupo que deu maior ênfase ao movimento no Porto.

As atividades que organizam, as suas inspirações, o que as faz continuar a lutar e as principais problemáticas de ser mulher ainda em pleno século XXI foram alguns dos tópicos discutidos ao longo da conversa.

#infomedia: Sabemos que a Slutwalk começou em 2011 no Canadá, ou seja, num país diferente e distante do nosso. Por que é que quiseram implementar a Slutwalk em Portugal?

Carolina: Eu não estava na organização dessas primeiras Slutwalks, em 2011, mas a necessidade veio exatamente disso: nós estamos num país que ainda é super conservador, ainda tem uma maneira de pensar muito machista, ainda limita o modo como as mulheres se devem vestir, comportar ou pensar, que posições é que elas devem ou não devem ter, se elas devem beber, se elas devem sair à noite… Ainda estamos num país onde somos muito controladas. Para além disso, Portugal, em termos de lei, ainda está a ignorar completamente as necessidades das vítimas. Ainda existe uma visão muito limitada do que deve ser ou não um ataque sexual, e ignoram-se as vítimas que não se enquadram nesse protótipo do que se pensa que seriam de um ataque sexual.

Joana: Eu também acho que é necessário haver a Slutwalk em Portugal. Ainda há um certo preconceito em relação ao nome Slutwalk, mas a uma mulher que é slut já não lhe pode ser apontado mais nada, já está na ralé da sociedade.

Carolina: O nome da marcha, quando começou lá [no Canadá], é alusiva precisamente a isto, “ah, eu sou slut porque me visto assim? Sou slut, sim, mas eu continuo a ter os meus direitos, eu sou uma cidadã, eu tenho que ser respeitada, eu tenho que ser protegida. Se as pessoas pensam que eu sou uma slut ou não é um problema delas. Isso não tem que afetar o modo como a sociedade me trata e não pode pôr em causa os meus direitos.”

#infomedia: Que tipo de atividades costumam realizar dentro do projeto?

Joana: Fazemos a marcha das galdérias, em que convidámos as pessoas a virem connosco para termos o direito ao espaço público e o direito de andar à noite, sem termos receio em sermos violadas ou maltratadas. Também fazemos campanhas de angariação para ajudarmos mulheres mais necessitadas. O nosso foco não é só mulheres, mas nós também sabemos que são essas que, vivendo na rua, estão mais expostas a situações de violação. Ser mulher na sociedade é mau, e ainda é pior quando se está em situação de risco.

Carolina: Nós fazemos algumas campanhas para conscienlizar as pessoas ao longo do ano, mas o nosso maior trabalho é organizar a marcha. Agora fizemos um questionário para passarmos a palavra às pessoas que estão a conhecer o nosso trabalho agora ou que nos vão acompanhando, nós não queremos que sejam só as nossas narrativas. Nós queremos saber como é que as pessoas que passam ou vivem no Porto sentem o machismo aqui, de que maneiras  elas estão a ser discriminadas no trabalho ou em casa. Neste momento estamos a tentar fazer esse trabalho, que é perceber a necessidade das pessoas daqui da cidade, para também tornarmos o nosso trabalho mais plural.

No caso das angariações de fundos para pessoas sem abrigo, também nos focamos na questão dos produtos de higiene feminina, os tampões, toalhitas, pensos higiénicos, essas são coisas a que as pessoas em situação de rua não têm acesso. Muitas vezes, pessoas que não passam por este tipo de situação não pensam sequer nisto.

Joana: Para nós, que já temos uma casa, um lar, já é um desconforto estar com a menstruação. Imaginem como é para uma mulher de rua, que não tem sítio para tomar banho, e que não tem os tampões ou pensos higiénicos, que, aliás, têm preços absurdos.

#infomedia: Desde que estão integradas na organização das marchas, a adesão tem aumentado?

Carolina: Nós fazemos a nossa manifestação à noite, é a única slutwalk que acontece à noite. As manifestações de dia ajudam sempre a trazer pessoas, mas o facto de esta ser à noite, na baixa do Porto, e sendo este o tema que é, às vezes as pessoas ficam desencorajadas, e nós compreendemos isso. Mas o fato de sairmos todas à noite tem um peso diferente, porque a noite é um horário que não foi feito para nós: à noite as boas meninas deviam estar todas na cama, é um bocado isto que a sociedade nos diz.

A adesão tem aumentado em relação a 2012, que foi a primeira caminhada na qual eu estive, e tem sido mais diverso: agora, cada vez mais temos pessoas de idades diferentes, que vêm de contextos diferentes.

Joana: Estás na marcha e notas na cara das pessoas que elas estão a falar mal de ti, chamam-te galdéria, acham que tu não deves estar ali, e ouves muito o gozo das pessoas. Isso às vezes desencoraja quando vem da parte de uma mulher, porque nós estamos ali com o intuito de as ajudar e elas ainda fazem chacota.

#infomedia: Falando agora um pouco de política, visto que é recente esta medida, o que acham da ação do partido Pessoas Animais Natureza (PAN) e do Bloco de Esquerda (BE) em relação à modificação da tipificação de crimes sexuais?

Carolina: Eu não li ainda a proposta de lei, mas nós na Slutwalk estamos sempre a dar ênfase a esta questão. Sexo sem consentimento é violação, ponto. Isto, para além de ser lógico e racional, já está reconhecido em vários sítios. Na Convenção de Istambul, que foi assinada por vários países da Europa, incluindo Portugal, estes responsabilizaram-se por começar a fazer justiça contra crimes sexuais, para começarem a ser punidos os violadores. Na convenção, refere-se mesmo esta questão de punir o sexo sem consentimento e que o sexo sem consentimento é violação. Mas isto na lei portuguesa, assim como na lei de outros países, não está a ser posto em prática, ou seja, nós assinamos a convenção mas não a pusemos em prática.

O PAN e o BE estão agora a fazer esta proposta de lei para incluírem esta questão. Isto é fundamental, porque não vai haver justiça sequer para as vítimas de violação enquanto não se reconhecer que a violação pode ser feita de várias formas. A violação pode ser evidente pela violência física, mas também acontece quando uma pessoa está insconsciente. Um exemplo é o caso que aconteceu há pouco tempo aqui no Porto, em que o acórdão do Tribunal da Relação referenciava a sedução mútua. Numa pessoa desacordada, não é necessária violência física para ela ser violada, a pessoa não pode dizer sim ou não.

Joana: A sociedade ainda tem incutido o dogma de que tem que existir a prova médica ou a prova física, das [nódoas] negras ou através dos exames que se fazem no hospital após a violação para ser comprovado que essa foi levada a cabo. E não tem que ser assim, eles têm que respeitar a palavra da pessoa.

#infomedia: No mês de março é celebrado o dia Internacional da Mulher, que, no ano passado, ficou marcado pela greve das mulheres em Espanha. Este ano, estão a organizar a mesma ação em território nacional. O que pretendem alcançar com essa greve?

Carolina: Nós apoiamos totalmente, porque basta pensar isto através de dois ângulos muito simples: as mulheres no trabalho estão a receber menos, isto é real em muitos trabalhos e em muitos países e acontece cá também. Não faz sentido nenhum eu ter as mesmas capacidades para fazer o mesmo trabalho [que um homem] e receber menos por causa do meu género. Nós até somos gozadas por falarmos disto, a primeira reação é dizerem que recebemos a mesma coisa, quando está mais que provado que não é assim. Estão a tentar mandar areia para os olhos.

Nos nossos locais de trabalho, fora todas as questões de assédio, que acontecem imenso, e a discriminação salarial, a maior parte das mulheres portuguesas chegam a casa e ainda têm que fazer o trabalho doméstico. Não é esse o nosso trabalho de maneira nenhuma, mas tudo o que envolve trabalho doméstico, de cuidar de alguém, acaba por ser da nossa responsabilidade. Por que é que sobra sempre para nós? Por que é que somos nós que temos que criar filhos, por que é que somos nós que temos de cuidar de pais? Nós temos duas jornadas de trabalho constantemente, quer na rua, quer em casa, e não estamos a ser reconhecidas nem num lado nem no outro. Na minha opinião, devíamos parar tudo já.

Joana: Nós temos o trabalho de fora e ainda somos mal pagas, depois temos o trabalho dentro de casa, que já é algo tão enraizado na nossa cultura, de que tem que haver uma mulher que vai cuidar dos pais, que vai cuidar dos irmãos. Ainda há esta mentalidade de que a mulher tem que ser submissa. Tem de, então, haver uma divisão de tarefas.

Carolina: O que está a aparecer agora é a ideia de que o homem ajuda em casa, ou seja, a obrigação é nossa mas eles dão-nos uma ajudinha.

#infomedia: Ainda em relação à vossa organização, têm algum tipo de apoio financeiro? Como é que as pessoas se podem juntar ao movimento?

Carolina: Nenhuma de nós recebe rigorosamente nada por fazer isto, até pelo contrário. Algumas coisas, pequenos gastos de transportes, entre outras coisas, somos nós que acabamos por cobrir. Isto é um trabalho totalmente voluntário, o ativismo que nós fazemos não paga nada a ninguém. O dinheiro que nós conseguimos é através das nossas angariações de fundos: nós fazemos mais ou menos uma festa por ano, e com esse dinheiro fazemos a marcha anual e todas as outras atividades. Não temos apoios financeiros nenhuns, mas também nunca sequer tentamos, nem estamos a procurar.

As pessoas podem juntar-se a nós através de uma reunião aberta que organizamos todos os anos, e que realizamos para convidar pessoas que tenham interesse em se juntar à organização ou em colaborar connosco. Nessa reunião, são também apresentadas novas ideias, novas propostas para serem realizadas ao longo do ano.

Joana e Carolina, em nome da Slutwalk, deixam uma última mensagem, convidando “para a luta” as pessoas que concordem com o que foi dito e que estejam revoltadas com o machismo e discriminação. “Se vocês tiverem interesse contactem-nos, venham à nossa reunião aberta”, e “procurem outras pessoas que estejam a passar pelo mesmo, conversem, desabafem, nunca se sintam envergonhadas pelo que sofrem, porque a culpa é zero vossa, a única pessoa culpada é o agressor.” Carolina, por fim, admite que acredita que a união é o que vai mudar a sociedade.

Fotografia por Daniela Pereira e cedida pela Sluwalk Porto.

Editado por Daniel Dias.

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