“Aproveitar para Alimentar”, este é o lema da Refood

O projeto Refood foi criado em 2011 e ajuda atualmente mais de duas mil pessoas carenciadas, por todo o país. Há dois anos, foi inaugurado, na Maia, um novo centro de recolha e distribuição de desperdícios alimentares.

O Refood Maia funciona seis dias por semana – segunda à sexta e domingo, graças aos donativos da restauração e grandes superfícies comerciais, aos quais chamam “parceiros sociais” e à equipa de voluntários, “todos eles que disponibilizam, no mínimo, “duas horas do seu dia, da sua semana, a esta causa”. Igualmente importante são os “voluntários na recolha”, estes que se deslocam aos espaços físicos dos “parceiros sociais e recolhem aquela que será a comida para as famílias, que ajudamos”. No centro de operações o fim de dia é movimentado: entra a primeira equipa – geralmente com três voluntários – sobre eles, está encarregado, o gestor de dia. Preparam-se as alimentações – que no dia anterior chegaram ao centro de operações e já foram etiquetadas. Por volta das 19 horas, as famílias chegam. A campainha dá o toque para um novo ritmo. Inicia o processo de contacto e entrega. O tempo esgota-se na azáfama de entregas. Uma hora que parece pouco tempo.

Este centro de operações, um de tantos no país, tem nos seu quadro de apoio, “ mais de 20 famílias”; Cada uma, com um especial tratamento. Não se sabem nomes, não se sabem pormenores da vida daqueles que lá chegam. São registados como números: números de membros da família, possíveis doenças e cuidados a ter e, com especial atenção, o número de crianças na família. Maria José Bitencourt, é gestora de dia – “responsável para a orientação da equipa de voluntário, pelo centro de operações naquele dia e a receção dos donativos que serão entregues no dia seguinte” e aquela, que sozinha, contacta com as famílias. A defesa da integridade de cada família, estão salvaguardas.

Durante a criação das bases necessárias para o sucesso do projeto, “era fundamental preparar parcerias”. Em primeiro lugar, com a Câmara Municipal, que cedeu o espaço para o Centro de Operações, e depois com diversas empresas e entidade – algumas que preferem ser anónimas.

De cidadãos a voluntários

Maria Bitencourt – que tem como cargo gestora de dia – conta, com carinho, que “ faço isto pelos outros mas também por mim”, acrescenta “na minha vida tem um peso especial. Fico muito feliz quando saio daqui e gostava de ainda dar mais tempo, mas precisamos trabalhar é a vida”, termina entre sorrisos. Na sua função, a completa gerência dos voluntários, dos alimentos e a que estabelece contacto com as famílias. Cada dia, um gerente de dia.

Este projeto vive do tempo disponível, de outros. “É um movimento 100% voluntário, efetuado por cidadãos e dentro da comunidade local, em que se procura acabar com o desperdício de alimentos confecionados”. Sujeitos a regras rigorosas, os restaurantes que não podem guardar os alimentos, de um dia para o outro, por isso, acabam por ir para o lixo. A Refood criou uma nova solução. “Nós resgatámo-los e redistribuímo-los por famílias que precisam”, fazendo a ponte entre quem confeciona os alimentos e quem precisa deles, garantindo que os recebemos e que os entregamos em boas condições”.

Como só no final do dia, os restaurantes têm excedentes para entregar, e não podendo fazer a distribuição pelos beneficiários de imediato, os alimentos são armazenados em frigoríficos para a entregar, no dia seguinte. Responsáveis por esse transporte, são também os voluntários “de rua e asseguram as duas recolhas por dia pelos restaurantes”. Deslocam-se aos parceiros sociais, recolhem os excedentes e, depois, são entregues no centro de operações.

A primeira equipa – geralmente com três voluntários – tem como função “preparar a comida, que estava armazenada desde o dia anterior”. Preparar para entregar às famílias. Contas feitas, o Refood Maia ajuda mais de 20 famílias”.

Maria José Varela conheceu este projeto “através do facebook”. É uma das primeiras voluntárias. “Assisti à reunião Sementeira, na Maia”. Vê este projeto com especial carinho. “Esta é uma forma que se arranjou para combater o desperdício alimentar”. Pertence ao centro de operações. Ajuda no processo interno da transformação e preparação das refeições. “Depois deste processo, passam a pertencer às famílias”. “Na sua vida pessoal, tem um peso especial”. No que diz respeito ao tempo que dá a esta causa, a voluntária partilha a sua visão. “A nível da minha disponibilidade, duas horas é muito pouco e é muito significativo, tendo em conta o gesto e aquilo que fazemos aqui, para a finalidade que tem. Não custa nada ajudar. Duas horas é pouco.”

Paira um sentimento de pertença, de um pensamento coletivo. Cada um sabe a sua função de tal forma mecanizada e estabelecida. Cada um tem a sua posição ao balcão, na preparação dos sacos. A vida de “lá fora”, não entra nas paredes do centro. Também na equipa, não a características que os distinguem. São voluntários, fazem parte de um número, de tantos outros, que também o fazem, com “orgulho e satisfação”.

Maria Paula Duarte, tem 58 anos e faz parte do projeto, junto com o marido. Por influência familiar, conheceu o Refood. “Fizemos formação e estamos aqui há dois anos.” Tem a função de “empacotar, etiquetar e preparar para ser entregue”. Ambas as voluntárias referem várias vezes a importância que tem a limpeza e organização. Para participar neste projeto, é “preciso vontade, tempo e boa disposição”, entre risos. Maria e o seu marido, disponibilizam duas horas do seu dia. “Saio muitas vezes cansada, mas com uma sensação muito boa. Trabalhar aqui com o meu marido, é melhor ainda.”

 

Famílias Beneficiárias

Pouco se sabe das famílias: a sua imagem é preservada por toda a instituição. Não se sabem nomes, profissões ou outras ocupações. Resumem-se às suas necessidades, número de membros no núcleo familiares, números de crianças na famílias – se as existir – e, em alguns casos, a suas especiais necessidades: intolerâncias a alguns alimentos, algumas doenças ou especiais cuidados. Apenas a gestora de dia, que tem à sua responsabilidade um dia específico, contacta com as famílias.

As famílias são selecionadas de forma a se tornarem beneficiários. O Refood Maia aceita inscrições diretas e através do GAIL – Grupo de Apoio Integrado Local da Câmara Municipal. De acordo com a gestora de dia, “a ideia não é sobrepor apoios, mas ajudar quem verdadeiramente precisa, por isso, cruzamos dados com o GAIL, que têm as famílias carenciadas sinalizadas”. É comum o movimento nos quadros das famílias ajudadas: algumas estão desde o início a pedir apoio; outras, já precisaram e hoje, já não – “isto acontece porque os membros da família acabam por encontrar emprego e dão o seu lugar a outros”; E algumas, como já aconteceu, “é sazonal”. “Já tivemos famílias que estavam aqui, saíram e depois sentiram a necessidade de aqui voltar”, suspira, “ é a vida”.

 

“Aproveitar para Alimentar”. Este é o lema da Refood.

 

 

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