Entramos no mundo da pintura sem pedir licença

Um modesto armazém na zona de Campanhã serve de espaço para o pintor José Soares avançar nos seus quadros que idealiza. Natural do Porto e com 53 anos de idade, decidiu afastar-se da pintura e do desenho durante a adolescência. Só na idade adulta é que decidiu voltar a trabalhar nesta arte.

Com a lenha a queimar na lareira numa manhã de inverno, ouve-se uma harmoniosa música saída do computador de José e, lá fora, escuta-se os pássaros a despertar. De uma das várias janelas vê-se gatos vadios a espreguiçarem-se para um novo dia.

Sob o pseudónimo Augusto Reis , este pintor portuense representa a vida animal, mais regularmente pássaros, por achar que “não significam nada a não ser isso mesmo”. O seu outro “eu” dedica-se ao gosto pela representação do corpo. Os seus trabalhos mais recentes têm sempre a intenção da “oclusão de alguma coisa”. Olha para o corpo como ideia de verdade e sente que a roupa tem sempre a intenção de esconder, independentemente da cultura. Contudo, gosta de afirmar que cada um é livre de interpretar os significados dos quadros que pinta.

Os materiais estão alinhados nos quatro cantos do espaço, na mesa está pousado um livro de Umberto Eco, que acompanha os dias do artista. O espelho que está junto à porta recebe a luz da manhã, retratando-a e dando-lhe uma dupla identidade.

A. O percurso refletido

 Desde criança que José Soares gosta de desenhar e pintar. Recorda o fascínio que tinha ao ver desenhos nas exposições que visitava quando era mais novo. “Deixava-me uma ânsia aqui dentro”, relembra. Perguntava-se: “como é possível alguém ser capaz de desenhar assim?”  Essa experiência impelia-o a também ele experimentar e, por isso, tentava imitar.

Com o passar do tempo descobriu que os “protocolos” da técnica que conhecera, podiam ser transgredidos e que existia muito mais para além do que julgava saber.

“No 9º ano de escolaridade fui convidado pelo meu professor de desenho em ir para artes. Fui. Ainda era na “antiga” Soares dos Reis. Mas naquela altura queria era ser arquiteto”.

Foi com ao ter contacto com o desenho, com a escultura e a pintura que percebeu qual era a sua área.

“Depois entrei na escola superior de Belas Artes do Porto, tinha 17 anos e não aguentei.”

Aos 17 anos de idade sentia que as emoções estavam muito turbulentas e não conseguiu concentrar-se nos estudos. Acabou por desistir e ir trabalhar. Trabalhou em várias áreas. “Trabalhei num transitário, como cozinheiro, desenhador de letras nos automóveis Mas fiquei sempre com aquela frustração de: porque é que não foste?

Viveu na cidade berço e tinha um projeto ligado ao vegetarianismo, que o ocupava metade do seu dia.

Apaixonou-se, e foi aí que decidiu dar outro rumo à vida. A pessoa pela qual se apaixonou impulsionou-o a regressar às Belas Artes quase três décadas depois.

“Os primeiros 3 meses foram uma tragédia brutal. Compreender coisas novas. Mas quando compreendi foi como ouro sobre azul.”

No último ano da licenciatura foi vencedor da bolsa de mérito da Universidade de Belas Artes do Porto.

Espelho iluminado pela luz da manhã e José a pousar junto ao seu trabalho/Raquel Batista

R. O processo de inspiração

As manhãs são importantes para José Soares por considerar ser a altura do dia em que as ideias lhe surgem com mais facilidade. Não se julga dono da origem das ideias que lhe assomam porque pensa que as suas influências não são diretas.

Estimula-o pensar que não existe identidade no desenho.

“Tudo começou com a ideia de retrato. O que está ali é uma imagem do teu rosto, tirada numa posição específica, num dia a uma determinada hora. E todos os outros dias? E todas as outras horas? E todos os segundos? E tudo o que já fizeste? Não está ali.”

Pensa que a ideia de multiplicidade é a noção mais próxima de identidade que conhece. Sente uma pulsão para o fazer.

Gosta de pôr à prova a técnica da pintura. Mistura óleo, com carvão. Às vezes só usa óleo. O seu lado perfecionista fá-lo respirar a obra, revirá-la de uma ponta à outra até estar como deseja.

“Não trabalho 24h por dia. Às vezes estou só a olhar para eles. É preciso pensar a obra.”

 

T. Os dois lados do mesmo Homem

 Assina com José Soares a maior parte dos seus quadros e é o mais intelectual dos dois seres a quem dá vida. Com este nome vive na procura incessante de significados e de novidades. Sem nunca parar de pensar.

“O outro é o mais simples possível”confidencia. Augusto gosta de desenhar mais pássaros do que cães, porque quando desenha um cão já se torna num retrato por normalmente o reconhecermos, “damos-lhe um nome”. Os pássaros não.

“Quando faço pássaros é isso que acontece. Um pardal para nós é um pardal. Quando vejo aqui um pardal não sei se foi o mesmo que vi ontem. É um pardal.”

 

Site onde José expõe o seu trabalho/https://intuo.tumblr.com/

 

E. Como vive a arte na sociedade?

José defende que, em geral, a cultura portuguesa e a cultura do ensino são muito fechados à liberdade. O que importa é o valor e não a sua existência. “Estamos a viver isso há muito tempo. Continuo a ver muitas obras [Manuel Alves] do Cargaleiro expostas, obras dos anos 80.” – explica o pintor referindo-se ao trabalho do ceramista e pintor português de 91 anos natural da Beira Baixa.

Diz que o seu trabalho se inspira muito no passado e demonstra o seu gosto pela técnica do pintor espanhol de 83 anos António López García, que também tem obras no campo da escultura. Diz que ele “continua a ser criativo e a tentar descobrir outras coisas, mas obviamente que há traços naquilo que ele faz que estão sempre lá. O modo como ele faz as coisas. Ele reconhece isso. Alguns não reconhecem, mas esse é inteligente.”

Afirma que o maior problema que vê nas pessoas em geral é serem conformistas e sente que é cada vez mais raro ser-se criativo.

“O Leonardo da Vinci foi um verdadeiro criador. Construiu a noção de perspetiva atmosférica, que diz que à distância as coisas são mais difusas do que as coisas que estão mais perto. Isso para nós é uma coisa fácil de constatar, mas alguém teve de o dizer primeiro. E ele conseguiu descrever como se conseguia pintar isso.”

 

O que acha do estado da arte portuguesa atual

Não se devia de achar de se chamar arte portuguesa. Arte é arte. Eu posso pintar com as características da técnica africana, japonesa… Os jovens artistas precisam de olhar lá para fora, porque isso é vantajoso para eles. O mundo é muito pequeno para se ficar sempre no mesmo sítio.

A cultura criou a globalidade, as pessoas têm mais possibilidade de fazerem o que querem. É fácil ler, ouvir música, é fácil ter acesso à cultura. Pode-se viajar com muito mais facilidade. Portanto é mais fácil ter artistas.

Da última vez que visitei Paris visitei a exposição final de curso dos estudantes de Belas Artes. Não notei grandes diferenças nos trabalhos deles comparando com os jovens portugueses. Havia trabalhos com qualidade, outros sem qualidade. Não era por serem franceses que tinham mais ou menos qualidade.

 

Quais são as diferenças entre as galerias de arte privadas e as públicas?

“A diferença entre as galerias privadas e as públicas é que nas galerias privadas querem artistas que vendam. Nós nascemos com a noção de que a galeria é um sítio para ver arte, mas não. É sim um sítio para vender arte.

As galerias públicas são poucas e a maior parte são geridas por pessoas com poucos conhecimentos e que só estão ali para cumprir uma função.

O Fórum da Maia é uma das galerias públicas de que gosto. Mas também conheço o diretor artístico, e sei que é alguém que se preocupa, que procura e reúne pessoas que ele acha que têm valor. E divulga-as.
As privadas normalmente fecham-se com o seu grupinho de artistas já escolhidos e depois trabalham só com eles. Porque uma parceria com uma galeria privada implica fazer uma exposição de dois em dois anos, por exemplo.
Mas também, alguém só é escolhido para representar uma galeria se eles acharem que aquilo vai vender, senão também não o escolhem.

Já tive propostas para expor em galerias, mas ainda não tive propostas para me representarem.

 

Por Raquel Batista.

Revisto por João Rocha.

 

 

 

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