Bruno Lage: Uma análise tática

Na sequência do despedimento de Rui Vitória, Bruno Lage, que até então estava a comando da equipa B do Benfica, assumiu o comando técnico do clube da Luz. Até ao momento, teve 12 jogos, dos quais o Benfica ganhou dez, empatou um e perdeu outro. Recorde bastante positivo para o técnico.

Mas o que mudou com a entrada do novo treinador? Que diferenças táticas implementou? Que alterações na equipa provocou? Este artigo de análise serve para responder a estas questões.

O primeiro jogo de Bruno Lage ao serviço da equipa principal foi na receção ao Rio Ave. Logo aí, foi implementada uma mudança tática no onze inicial: Lage optou por um 4-4-2 (quatro defesas, quatro médios e dois avançados) ao invés do 4-3-3 (quatro defesas, três médios e três avançados), esquema preferido de Rui Vitória. A grande novidade foi a inclusão de João Félix como titular, que rapidamente causou impacto: ajudou o Benfica a recuperar de uma desvantagem de 2-0, ao marcar dois dos quatro golos que deram a vitória aos encarnados.

Com o passar do tempo, o técnico foi-se ambientando e começou a conhecer melhor o plantel que tinha em mãos. Optou então por colocar Pizzi na posição de médio direito e Gabriel a médio centro. O último passou a jogar lado a lado com o trinco grego Samaris como duplo pivô.

Com a abertura do mercado de transferências em janeiro, registaram-se algumas saídas no clube da Luz. Tais saídas motivaram Bruno Lage a reforçar a equipa e a chamar quatro jogadores da equipa B. Zlobin (guarda-redes), Ferro (defesa central), Florentino(trinco) e Jota (avançado) foram promovidos.

O técnico acabou por definir um onze-base: Vlachodimos na baliza; André Almeida, Rúben Dias, Ferro e Grimaldo como quarteto defensivo; meio campo com Pizzi, Samaris, Gabriel e Rafa; Seferovic e João Félix na linha da frente.

Mas as mudanças não se ficaram por aqui. No jogo da primeira mão da eliminatória dos 16-avos-de-final da Liga Europa, frente ao Galatasaray, Bruno Lage optou por um onze surpreendente: incluiu Yuri Ribeiro, Corchia, Florentino, Gedson, Salvio e Cervi. O técnico explicou posteriormente que quis gerir o cansaço físico do plantel. Esta rotação era menos visível com Rui Vitória.

As modificações na estrutura da equipa provocaram alterações táticas, ou seja, na forma de jogar do Benfica. Com Rui Vitória, as subidas no terreno de André Almeida eram frequentes, mas poucas vezes com critério. Pizzi era visto muitas vezes em posições mais recuadas no meio campo, quase junto a Ljubomir Fejsa. Isto prejudicava a criatividade do médio, que não conseguia impor o seu jogo e procurar assistir os colegas. Gedson desempenhava a função de “box-to-box”, ou seja, um centro-campista capaz de defender e atacar. A tentativa de rentabilizar o jogador ao máximo funcionou por vezes, mas nunca de forma constante.

Quando jogava Gabriel como médio centro, o Benfica não conseguia criar perigo. Eram imensos os passes falhados, e a falta de criatividade do brasileiro prejudicava o sistema ofensivo do clube. Até à lesão, Salvio era uma das principais figuras do Benfica. Com velocidade e capacidade de fazer movimentações laterais para apanhar desprevenida a defesa adversária, era um jogador que desequilibrava. Rafa também esteve em alta até à lesão. A cumprir a melhor época da carreira em termos de golos, era o homem do momento no clube da Luz. Quem parecia não encontrar a forma era Seferovic. O suíço procurava estender-se em demasia no terreno até zonas laterais, o que criava deficiências no ataque do Benfica, e não permitia ao avançado procurar áreas de finalização.

Com a entrada de Bruno Lage, o rendimento dos jogadores subiu exponencialmente. A defesa parece mais compacta; Rúben Dias e Ferro já jogaram juntos nas camadas jovens e conhecem-se perfeitamente. Samaris e Gabriel preenchem o meio campo do Benfica: em momentos defensivos, funcionam como duplos pivôs, ao intercetar inúmeros passes, e são os principais recuperadores de posse de bola. Em momentos ofensivos, Gabriel procura o passe longo, de forma a virar o flanco de jogo. Samaris fica mais na cobertura para dar apoio defensivo, mas quando há possibilidade, junta-se à segunda linha do meio campo do Benfica e procura construir jogo.

Pizzi não funciona como extremo, apesar de no papel aparecer nessa posição. Movimenta-se constantemente para o meio de forma a comandar a equipa e a definir, na maior parte das vezes, como se desenrola a jogada. Isto possibilita a subida de André Almeida no corredor direito, que já define melhor o que fazer em momentos ofensivos. Rafa, por sua vez, procura os movimentos entre linhas. O extremo parte da esquerda para o meio, no espaço que há entre o lateral e o central da equipa contrária. Isto cria desequilíbrios na defesa do adversário e permite, também, a subida de Grimaldo para ser mais um homem no momento do ataque.

João Félix é a peça fulcral deste Benfica de Bruno Lage. O jovem possui uma capacidade enorme de saber onde está em campo. Tem noção de onde estão os adversários e do que pode, e não pode, fazer. Tem uma facilidade em encontrar espaço para rematar (já leva 10 golos esta época), e combina muito bem com Pizzi. Regularmente, os jogadores trocam de posição (isto foi muito visível na partida contra o Desportivo das Aves). Pizzi fica no meio e Félix procura o espaço na lateral, de forma a mexer com a defesa contrária. Isto abre espaços para Seferovic ou Rafa aparecerem em zonas de finalização, e até mesmo João Félix consegue penetrar a defesa adversária.

Bruno Lage entrou bem no comando do Benfica. Para além dos bons resultados, as boas exibições têm agradado aos adeptos. A equipa parece estar ciente das ideias do treinador, algo que não se verificava tanto com Rui Vitória. A principal diferença parece residir na forma e na intensidade dos treinos, algo sublinhado várias vezes por Lage nas conferências de imprensa. A promoção de vários jovens, e o rendimento que vários jogadores têm demonstrado, são mérito do trabalho do treinador setubalense.

Falta esperar para ver que resultados o Benfica consegue produzir esta época. O clube ainda está na Taça de Portugal e na Liga Europa, e está a um ponto do líder do campeonato, FC Porto. O grande clássico do futebol português, a contar para a 24ª jornada da liga, joga-se no sábado.

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