Terá sido a pior comédia do mundo?

A Pior Comédia do Mundo, uma peça teatral de comédia, com encenação de Fernando Gomes, procura dar a conhecer uma outra perspetiva sobre o processo de se montar uma peça. Todo o enredo conta com três momentos principais: o ensaio, a noite de estreia e o espetáculo final, em que é possível observar a tensão vivida pelas personagens.

A peça estreou a 12 de setembro de 2018 e decorreu até dia 27 de Janeiro em Lisboa, no Teatro da Trindade. De 31 de Janeiro a 24 de fevereiro de 2019, foi apresentada no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.

De acordo com a sinopse, A Pior Comédia do Mundo é mais do que uma peça, é também um espetáculo centrado no “drama de bastidores que se vive durante a sua preparação”; uma suposta farsa de bastidores bem preparada, com momentos de muito entusiasmo e comédia.

A comédia inicia-se com o ensaio geral, em que o próprio encenador (José Pedro Gomes) se encontra no público e dá as principais dicas para o sucesso da peça. No segundo momento, temos acesso ao backstage, em que percebemos claramente as relações criadas pelas personagens que vão estar na origem do “fracasso” da peça. Por fim, o terceiro e último momento corresponde ao espetáculo final, o grande drama da peça devido às falhas das personagens.

Com um cenário inteligentemente pensado e discutido, que sempre brinca com a disposição dos objetos e adereços na origem das várias situações que conduzem ao suposto caos da peça, o público é convidado a contactar com as diferentes personagens e a entrar no seu universo. Quando espreitamos o backstage no segundo ato da peça temos uma visão mais íntima que nos permite compreender as várias intrigas que surgiram no primeiro momento.

A Pior Comédia do Mundo lança um olhar sobre uma série de estereótipos sociais: conhecemos o encenador que tem uma relação com duas das personagens, como também o ator alcoólico e a personagem que se encontra deprimido porque a mulher o abandonou. As excentricidades, os egos, e os atritos dos relacionamentos interpessoais que potenciam o caos final são completamente transmitidos.

Um reparo, contudo: a duração da peça em 120 minutos pareceu-me longa demais. É possível que a peça tenha sido trabalhada deste modo porque não haveria outra forma de o fazer, mas notei que a atenção do público acabou por se dispersar. A peça, embora divertida e dinâmica, conta com três momentos em que as personagens representam precisamente o mesmo, o que a torna um pouco confusa e fastidiosa, principalmente quando a concentração do público é extremamente essencial para o seu entendimento.

Não se pense que se trata de um exercício difícil apenas para o autor, para o encenador ou para os atores: é um exercício difícil e divertido também para o espectador que ora está a ver teatro no teatro, ora está a ver teatro no teatro no teatro.

Bernardo Peixoto

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