Primeira greve feminista portuguesa marca celebrações do dia internacional da mulher

Fotografia: Gabriela Bernard

“Se as mulheres param, o mundo pára” foi o lema utilizado na greve feminista nacional que ocorreu ontem, dia 8 de março.

Foram 12 localidades de Norte a Sul do país, onde se concentraram manifestantes devido à greve social: Albufeira, Amarante, Aveiro, Braga, Chaves, Covilhã, Fundão, Lisboa, Porto, São Miguel (Açores), Vila Real e em Viseu.
No Porto, o local de encontro foi a Praça dos Poveiros, onde às 18h30 várias centenas de pessoas se reuniram no dia Internacional da Mulher para lutarem contra a desigualdade salarial que se faz sentir e a precariedade que as afeta no mundo laboral.

A greve feminista internacional ocorreu pela primeira vez em Portugal impulsionada pela Rede 8 de Março, uma plataforma de mais de 30 coletivos, desde associações – como a UMAR –  a partidos – participação do Movimento Alternativa Socialista (MAS) e o Bloco de Esquerda (BE) –. Contou com o apoio de cinco sindicatos nacionais: STSSSS (Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social), SIEAP (Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal), SNESUP (Sindicato Nacional do Ensino Superior), STCC (Sindicato dos Trabalhadores de Cal Center), e STOP (Sindicato de Todos os Professores) com o objetivo de criticar a desigualdade salarial que se faz sentir entre mulheres e homens (estes ganham geralmente mais) e a instabilidade que acaba por afetar as mulheres no mundo do trabalho. Foi também incentivada a paralisação no eixo estudantil, no consumo de bens e serviços e na prestação de cuidados e tarefas domésticas.

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Também no ano passado, entre todos os países que aderiram à paralisação no Dia da Mulher, em Espanha aconteceu uma greve feminista única que contou com a “adesão de 10 sindicatos, mais de 120 manifestações por todo o país e uma participação de 5,3 milhões de trabalhadoras” segundo o jornal Público. Foi inspirada nas greves nacionais feministas que têm marcado os últimos anos, como o movimento argentino Ni Una Menos, que protestava contra a exploração económica e os femicídios.

No ano de 2017, foi convocada também para o dia 8 de março, uma greve internacional por um grupo de ativistas norte-americanas “contra a violência masculina e pela defesa dos direitos reprodutivos” posterior à grande adesão à Marcha das Mulheres que ocupou ruas por todo o mundo.

Portugal foi um dos 30 países que se mostraram solidários, mas, apesar das imensas greves que decorreram por todo o mundo, a Rede 8 de Março decidiu organizar apenas uma iniciativa simbólica, convidando as mulheres a saírem mais cedo dos seus trabalhos ou a abandonaram as suas tarefas de casa por um dia.

 

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Esta foi a primeira greve feminista convocada em Portugal devido ao conjunto de acontecimentos recentes que têm marcado a agenda internacional.

O #Infomedia esteve presente na Praça dos Poveiros no Porto, e questionou alguns dos protestantes relativamente ao papel da mulher na sociedade.

Os motivos que trouxeram Vasco Tavares, de 19 anos e estudante de Física, à manifestação foram a desigualdade que se vive não só em Portugal mas em todo o mundo, achando que “É importante vir a estas iniciativas não só por ser homem, e às vezes haver falta de representatividade masculina nestas manifestações mas também, porque como membro de uma sociedade acho que é fundamental ajudar a evolução e a evolução passa por aqui”. Matilde Silva, de 67 anos, afirma que saiu à rua neste dia “Por um lado porque é o dia da mulher e por outro, devido aos acontecimentos que se têm sucedido ultimamente como os maus tratos a mulheres, as mortes, toda a desigualdade existente… e portanto tem que haver um “basta” nessas coisas”.

Quando questionada sobre o que achava que faltava melhorar no que toca aos direitos da mulher na sociedade, Graça Ribeiro de 51 anos, afirma que “Desde as coisas mais elementares como a segurança e a integridade física que continua ameaçada constantemente, até às questões mais simples, mas importantes, como a dos salários, da questão da distribuição das tarefas domésticas, o facto da mulher que trabalha fora de casa ter de trabalhar também em casa muitas vezes sozinha, tudo isso ainda tem de ser mudado”. Vasco Tavares diz ainda que “A nível de direitos, por acaso ainda hoje li um artigo que falava que dos 16 CEO principais das empresas cotadas em bolsa apenas uma era mulher e acho que isso é muito representativo do que se vive, pois às vezes as promoções acabam por “cortar as pernas” às mulheres por motivos óbvios, como a maternidade, elas não conseguem subir na carreira e isso está errado. Toda a gente deve ter igualdade de oportunidades”.

Relativamente às decisões judiciais sobre a violência doméstica, decisões essas que têm sido amplamente debatidas pela comunicação social, Estela Pombo de 19 anos e estudante de matemática, é da opinião que as decisões foram muito mal fundamentadas e que “nunca deviam ter sido aceites”. Também Matilde Silva acha que essas mesmas decisões não estão a ser eficazes: “Se todos os dias morrem mulheres, e só este ano já foram 12, só mostram que há muita conversa mas não se vê que alguma coisa esteja a ser feita para minimizar esta situação”. Para Graça Ribeiro a lei não está a ser aplicada como devia, afirmando que “é preciso fazer-se alguma coisa porque o que tem acontecido é inaceitável e só vem para os meios de comunicação social porque são casos gritantes. Há imensos casos menos graves que provavelmente acontecem todos os dias sem nós sabermos porque desses já ninguém quer saber, os tribunais já não querem saber, a comunicação social não quer saber”.

Francisco Linhares, de 66 anos, diz que para melhorar a situação das mulheres na sociedade é necessário “Mudar a legislação, apoiar as mulheres no trabalho e na maternidade, e efetivamente quando acontecerem coisas como têm acontecido ultimamente nos tribunais, denunciar, existe uma ministra da justiça, existe o parlamento, todas essas situações tem de ser denunciadas e essa gente afastada desses lugares onde estão”. Matilde Silva afirma que a sociedade é que tem de mudar, “Não é apenas o governo, mas toda a sociedade, os serviços de segurança, os polícias, a GNR. Tudo isso deve estar conjugado para combater esta epidemia.”

 

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Fotografia: Gabriela Bernard

Por último, pedimos aos manifestantes que deixassem uma mensagem aos leitores do #Infomedia neste dia que marcou uma posição significativa das mulheres na sociedade.

Matilde Silva: “Temos que lutar todos os dias, não se pode parar. O dia internacional da mulher já se efetua há muitos anos, mas todos os dias é preciso lutar porque na realidade ainda existe muita desigualdade. Quando parece que estamos a andar para a frente é que vemos que estamos muito atrasados.”

Graça Ribeiro: “Não podemos parar. Mesmo que não concordemos na forma de fazer as coisas devemo-nos manter unidos porque todos temos interesse em que haja mais justiça, por isso todos temos de lutar por ela. Unidos e ativos.”

Estela Pombo: “Não desistam de lutar por aquilo em que acreditam e lutar pela igualdade de todos, seja mulher ou homem, independentemente da etnia ou sexualidade.”

Vasco Tavares: “Não é em casa que as coisas vão mudar, é mostrando o desagrado através de iniciativas como estas, e portanto a mensagem é de esperança e de a luta não pode acabar aqui pois só agora está a começar.”

Francisco Linhares: “São precisas mais iniciativas como esta, mais manifestações, mais luta, mais greves, é essa a mensagem que eu posso passar.”

Verifica-se que esta iniciativa contou com a adesão de muitos participantes de ambos os sexos e de todas as idades, assim como se constata a existência de unanimidade entre os manifestantes no que respeita às questões referidas como sinais flagrantes de desigualdade entre homens e mulheres que ainda subsistem hoje em dia e que consideram importante mudar.

 

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