Alberto João Jardim sobre Francisco Sá Carneiro: “O interesse nacional estava sempre acima do partidário, para ele”

Alberto João Jardim começa a ter participação política ativa logo após o 25 de Abril. Funda a Frente Centrista da Madeira juntamente com Luciano Castanheira, Henrique Pontes Leça e António Aragão “os meus parceiros”- como os evocou. Num ciclo de conferências sobre o Pensamento Político de Francisco Sá Carneiro, promovida pela Univerisidade Lusófona do Porto, a Autonomia Regional foi o enfoque.

“É formada em Maio de 74 e em Agosto de 74, a Frente Centrista dissolve-se para dar lugar ao PPD Madeira, porque o Francisco Sá Carneiro percebeu que a orientação era personalista e em Agosto resolveu-se um acordo”, depois de uma ronda negocial com os dirigentes nacionais – entre eles, Francisco Sá Carneiro e Pinto Balsemão.

Em Outubro de 1974, Alberto João Jardim é convidado pelo bispo do Funchal -D. Francisco Santana- para ocupar o lugar de diretor do Jornal da Madeira. Recebe do bispo orientações para que o jornal diocesano seja um instrumento de doutrina política. “Eu lembro-me na altura que havia um grande bispo a me chamar para diretor de um dos diários da madeira”.

D. Francisco Santana temia uma viragem do país à esquerda. “O pensamento semelhante entre a igreja católica e a política ajudou a Madeira a implementar o pensamento de Francisco Sá Carneiro. Foi decisivo.” Cargo que exerce até à chegada à presidência do governo. “Entro no governo em 1978”, recorda. Alberto João Jardim reconhece que o bispo, D. Francisco Santana, e o líder do PPD, Francisco Sá Carneiro, foram as duas personalidades que o lançaram na política.

 

Afirmação do PPD/PSD na Madeira

A formação do Partido é negociada entre Emanuel Rodrigues, em representação da Junta Geral, e Sá Borges, fundador do Partido a nível nacional. Os representantes da Frente Centrista da Madeira aceitam implementar e constituir o PPD/PSD, mas sob uma condição: “O futuro PSD-Madeira deveria ter estatutos autónomos da organização a nível nacional”. A antiga Frente Centrista da Madeira decidiu que o líder do PSD-Madeira deveria ser Alberto João Jardim, tendo como elementos mais próximos Luciano Castanheira, António Aragão e Emanuel Rodrigues.

Ainda em 1975, dois acontecimentos marcam a história da formação do PPD na Madeira: Alberto João Jardim estabelece contactos políticos com vista à luta contra a implementação do comunismo, em Portugal. Em 1976, o rumo político do PPD/PSD, muda. Afasta-se daqueles que defendiam a independência da Madeira e recusa entrar na junta governativa.

Com toda a azáfama que se vivia na Madeira e, em particular no Funchal, o partido começou a recrutar quadros em toda a ilha e a alastrar-se por todos os concelhos. Entretanto, dada a dinâmica instalada na Madeira nos pós 25 de Abril, chegava a hora de fazer as listas para a Assembleia Constituinte de 1975. O PSD teve a maior vitória de sempre em eleições nacionais.

“O primeiro grande êxito de Francisco Sá Carneiro foram as eleições da Assembleia Constituinte e é o primeiro passo para o PSD ser um partido hegemónico (…) pode ser chamado hegemónico visto que detém a maioria desde as primeiras eleições até às últimas eleições. E isso caracteriza um partido hegemónico. Isto é, o pensamento “Sá Carneirista”, marcou tremendamente as regiões autónomas.”

1976 é um ano importante para a política na Madeira. É eleita a primeira Assembleia Legislativa Regional e nomeado o Primeiro Governo. Emanuel Rodrigues foi o escolhido para presidir ao primeiro Parlamento da Madeira. “Na formação do primeiro Governo Regional da Madeira, eu era presidente da Assembleia não fui logo para o Governo”. O líder do PPD/PSD Madeira indica o nome de António Ornelas Camacho para presidir no primeiro executivo. Alberto João Jardim fica como líder da bancada parlamentar do PPD/PSD. “Quando regressa, faz a sua primeira visita como líder do partido à madeira, só em Dezembro de 75.”

Das primeiras medidas do poder legislativo regional denota-se a extinção do regime da Colonia – promessa eleitoral do PPD/PSD. “Primeiro, reformas agrárias (…) Colonia. Não colónia, como cá diziam. Fizemos uma lei que permitia dar a terra a quem trabalhava, mas mediante indemnização do dono da terra.” O proprietário da terra a cede a outrem, tendo este a obrigação de a tornar arável, “construir as benfeitorias e dar”, na altura da colheita, a metade da mesma. “Esta lei foi claramente apoiada pelo Doutor Francisco Sá Carneiro”, acentua e acrescenta. “Veja-se o que é este fenómeno (…) ele não estava presente, mas o pensamento estava vigente”. “O interesse nacional estava sempre acima do partidário para ele.”

Entrava o ano de 1978 e novas mudanças se avizinham na política insular. Uma vez já atribuídos poderes ao Governo Regional, Alberto João Jardim quis tornar-se Presidente do Governo Regional da Madeira. Esta situação não foi pacífica dentro do PPD/PSD Madeira e levou ao desentendimento entre Alberto João Jardim e António Loja. “Quando há a crise lancei-me para presidente do governo em 78. Eles tentaram que eu não fosse, mas eu fui e ainda bem.”

Com Alberto João Jardim a liderar o Partido e o Governo, a 23 de Julho de 1978 dá-se a segunda festa popular do PPD/PSD, no Paul da Serra, com a presença do líder nacional Francisco Sá Carneiro. Os discursos foram transmitidos em direto na RTP Madeira. “Até hoje foi a visita mais importante de um primeiro-ministro à Madeira”.

 

“Quando visita a Madeira, é como algo que nunca vi e não se repetiu (…) um cortejo automóvel para recebê-lo, pessoas a mover-se em massas (…) algo extraordinário”

 

É nessa altura que se toma a decisão do aeroporto, e são assinados 40 acórdãos para a transferências de competências para a Madeira.” Com entusiasmo, partilha: “Ele era muito humano (…) e, nesse dia, em que tomamos um mutante de decisões (…) era tudo marcado pelas relações humanas, depois das decisões (…) demos uma volta a ilha, comeu, dançou-se (…) a preocupação era não desumanizar”.

 

“Sá Carneiro era um homem de um enorme pragmatismo, um homem de substância e valores. Um homem que tem princípios e uma habilidade enorme. E com uma teimosia (…) era, de facto, uma personalidade fortíssima.”

 

Alberto João Jardim como Presidente da Região Autónoma da Madeira

A implantação do Partido Social Democrata na Madeira, outrora Partido Popular Democrático, foi um pouco diferente daquilo que aconteceu no restante território nacional. O partido fundado a 6 de maio de 1974 por Francisco Sá Carneiro, Sá Borges e Francisco Pinto Balsemão olhou, aquando da sua implementação, às movimentações que sucederam na Madeira após o 25 de Abril de 1974.

Nessa altura, houve a formação de diferentes movimentos políticos: uns mais ligados à independência da Madeira, outros que procuravam um consenso político entre a Região e o Continente Português.

Neste sentido, houve dois movimentos que se destacaram: por um lado, Frente Centrista, que era composta por Alberto João Jardim, Luciano Castanheira, António Aragão e Emanuel Rodrigues e por outro, o Movimento Democrático pela Madeira que tinha como figuras de relevo, tais como Fernando Rebelo e António Loja. Mais tarde, nomeados governador civil e governador da junta geral, respetivamente.

Nas eleições de 5 de Outubro de 1980 Alberto João Jardim é pela primeira vez candidato à presidência do governo. “Enquanto fui líder na Madeira, assumi o meu partido como “Sá Carneirista”.

O PPD/PSD vence com 65% dos votos. João Jardim toma posse a 6 de Novembro de 1980 e, nessa altura, anuncia a intenção de retirar-se daí a quatro anos. Com a morte de Francisco Sá Carneiro, o líder madeirense vê reduzir as expectativas de um entendimento entre o Estado e a Região Autónoma.

A relação entre o partido a nível regional e a nível nacional nem sempre foi pacífica. Pela crise que se sentiu no Governo de Coligação, liderado por Francisco Pinto Balsemão, o PSD-Madeira cortou relações com o PSD Nacional.

4 Dezembro de 1980

“Surge a trágica morte”, reflete, “Tudo acaba naquela trágica noite de 4 de Dezembro de 1980 (…) Eu, nessa noite, perdi o maior amigo e maior referência em toda a minha vida política”.

 

 

 

Revisto por: Raquel Batista.

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