O parque de aflições de Banksy (e dos outros) passou pela Alfândega

Comecemos por esclarecer uma coisa: a exposição que está patente na Alfândega do Porto desde o dia 19 de janeiro e se vai manter até 5 de maio é mais uma compilação de trabalhos diversos com fotografias de projetos de Banksy no meio do que uma mostra expansiva da obra do artista de rua cuja identidade ninguém conhece mas de quem toda a gente já ouviu falar. É claro que se o nome “Banksy” aparece em letras grandes num cartaz o número de curiosos a comprar bilhete é maior, mas engane-se quem pensa que Banksy’s Dismaland and Others constitui uma grande retrospetiva nos moldes de outras exposições que podem ser visitadas na Alfândega neste momento.

É claro que isto não retira qualquer tipo de mérito ao trabalho levado a cabo por Barry Cawston, apesar de tudo. O “fotógrafo oficial de Banksy” conheceu o seu trabalho pela primeira vez em Londres, no início dos anos 90, e apaixonou-se rapidamente pela sua “arte misturada com comentário político”. A partir daí, começou a fotografar os muros e as paredes onde Banksy deixava a sua marca e partilhava as suas inquietações. Em 2015, a admiração de Cawston por Banksy levou-o à pequena cidade de Weston-super-Mare, onde o artista de rua instalou, ainda que apenas por um mês, o seu próprio parque temático.

“Riding High”. Banksy: Dismaland (2015). Fotografia: Daniel Dias.

Dismaland é um parque de mais aflições que diversões, no entanto. Banksy, com a ajuda de cerca de sessenta artistas, construiu um universo anti-Disneyland, onde a depressão reina e ninguém é feliz. Apropriando-se de um complexo turístico que tinha sido deixado ao abandono, o artista traçou um retrato de uma sociedade inglesa desmotivada e apática, resignada e desconfiada, pessimista e cinzenta. Como se pode ler nas paredes da exposição, “trabalhadores intencionalmente lânguidos e desmotivados instavam os visitantes a banir o riso e a voltar para as suas casas sem perder um minuto”.

Cawston fotografou o parque mas também capturou uma imensidão de pequenas cenas do quotidiano na cidade de Weston-super-Mare. O caos que se vive em Dismaland e a aparente serenidade da estância balnear contrastam profundamente e quase colidem com violência. Há um elo entre o trabalho de Cawston e o do artista de rua: os dois parecem expressar muitas das mesmas preocupações.

Avançamos na exposição e encontramos imagens de um dos trabalhos mais controversos e marcantes de Banksy. O artista abriu o Walled Off Hotel em frente ao muro que separa Israel da Palestina. “As vistas deste hotel são as piores do mundo” e Banksy abriu-o com uma vontade de “mostrar como é viver perto do muro e como esse muro complica a vida dos palestinos. O problema é que os israelitos estão proibidos de pernoitar nesse território”.

A mostra termina com a instalação interativa Closer To Banksy – em que o visitante é convidado a se aproximar de uma tela que projeta “Balloon Girl” apenas para assistir à auto-destruição da obra no ecrã – e fotografias relativas a trabalhos de artistas de rua portugueses (com destaque para nomes como Adres ou Nomen). Os fãs da visão criativa de Banksy ficarão desiludidos por não poderem entrar em contacto com mais obras suas – e por uma exposição chamada Banksy’s Dismaland and Others ter mais trabalhos de outros artistas do que trabalhos de Banksy –, mas as aflições do artista de rua comunicam uma urgência e uma intranquilidade que não podem ser ignoradas.

Podes ler mais sobre a exposição aqui.

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