Maria Gil: “as desconstruções dos estereótipos fazem-se com parcerias e não com lados opostos”

“O cigano enfrenta o mundo todos os dias.” Foi assim que Élia Maia iniciou a sua intervenção na aula aberta Onde está a voz das comunidades ciganas nos media?, decorrida a 2 de abril no salão nobre da Universidade Lusófona do Porto. Depois da sessão, em que se refletiu sobre as formas como minorias sociais são representadas pelos meios de comunicação e “o quadro de valores de um jornalismo equilibrado e livre de discriminação”, o #infomedia conversou com Maria Gil, uma das oradoras. A atriz e ativista referiu que é na “escuta mútua” que está a chave para a superação dos estereótipos, e que “falta criar um patamar de proximidade para que as vozes que vêm do interior sejam ouvidas”.

#infomedia: Quando é que encontrou na arte uma forma de ativismo?

Maria Gil: Quando percebi que era uma excelente ferramenta de comunicação, e principalmente quando percebi que no teatro nunca tinha havido uma grande expressão da cultura cigana. O teatro comunitário tem a capacidade de dar voz a locais e comunidades que não têm poder de expressão. Tendencialmente vê-se a arte só como entretenimento, e a arte não é só entretenimento, é também educação, é também sustentabilidade.

Como é que o teatro é importante para desconstruir estereótipos?

A cultura intervém como educação, como formação, e sobretudo como formação de opinião pública. O teatro tem toda a importância porque foi o primeiro meio de notícia, o primeiro jornal. As pessoas encontravam-se na Pólis e faziam encenação das problemáticas que existiam nas periferias. A encenação era o notificar. O jornalismo e o teatro têm uma componente de informação. Depois foram recriados em contextos diferentes, mas se calhar têm essa ligação.

Tem de se desconstruir a ideia de que nós somos um problema, quando somos um resultado dos problemas que o exterior nos causou. E um dos problemas que o exterior nos causou foi precisamente essa perversidade que é a de interiormente criar estereótipos entre ciganos.

Maria Gil.

Quão importante é para si definir-se e representar-se como mulher cigana?

É uma questão de me situar. Todo o nosso percurso enquanto ciganos em Portugal tem sido de resistência e empreendedorismo pela sobrevivência. Definir-me assim situa a forma como a sociedade pensa e dá visibilidade ao que tem de ser visível. Não podemos apenas representar as problemáticas das comunidades. Temos de representar as suas superações também. Não podemos fazer só um jornalismo de faca e alguidar.

Como se luta ao mesmo tempo contra a discriminação de que as comunidades ciganas são alvo e contra o conservadorismo que por vezes existe no seio das mesmas?

É um trabalho que se tem feito em conjunto, e tem de ser um trabalho com algumas parcerias e alguns aliados. Os aliados para já ainda são muito poucos, mas são muito resistentes. Neste momento, temos um contexto de governo em que se aplicam mais políticas para que algumas coisas comecem finalmente a ser concretizadas. Há pressões políticas que precisam de ser feitas.

O primeiro grande obstáculo vem do exterior. Em primeiro lugar, tem de se desconstruir a ideia de que nós somos um problema, quando somos um resultado dos problemas que o exterior nos causou. E um dos problemas que o exterior nos causou foi precisamente essa perversidade que é a de interiormente criar estereótipos entre ciganos. Assimilam-se estereótipos que foram desenvolvidos por outras pessoas e assume-se isso como uma cultura, que não é mais do que uma cultura de pobreza, uma cultura de periferia, uma cultura de bairrismo, que foi imposta por esse exterior que nos remete para fora da comunidade geral. E se falarmos em questões físicas, remete-nos para fora da malha urbana, para fora da comunicação, e para fora da possibilidade de desenvolvimento cultural.

Há interesses que levam a que exista um número de excluídos na sociedade, um número de pessoas que não são ouvidas.

Maria Gil.

Falta aos meios de comunicação tradicionais capacidade de reflexão ou tempo para pensar na forma como retratam as comunidades ciganas e as minorias em geral?

Há falta de tempo, mas também há falta de vontade. Há toda uma estrutura moral e mental para que muitas vezes as coisas não sejam feitas da forma adequada. E depois também há interesses políticos e financeiros que nos remetem para um canto da sociedade e não nos incluem. Há interesses que levam a que exista um número de excluídos na sociedade, um número de pessoas que não são ouvidas.

O ciberjornalismo pode atuar como um contra-poder?

Pode. Mas pode ser um pau de dois bicos também. Pode contrabalançar e dar espaço a outras vozes. Os interesses políticos e financeiros podem criar impeditivos para que uma proximidade dos jornalistas e do jornalismo com as comunidades seja possível, e o ciberjornalismo potencia essa proximidade e permite que as pessoas se expressem cada vez mais. É claro que, infelizmente, às vezes as coisas fazem-se com menor qualidade. É preciso distinguir a liberdade de expressão da agressão. Mas o ciberjornalismo potencia a voz do leitor e a forma como ele recebe a notícia. A partir daí, pode perceber-se até que ponto o jornalismo está ou não a formar uma boa opinião, porque acho que o jornalismo deve ter consciência de que, com um título, pode potencializar opiniões.

A voz [das comunidades ciganas nos meios de comunicação] está silenciada por séculos de exclusão e pela não-permissão de que ela seja levada a sério.

Maria Gil.

O que é que ainda falta para se encurtarem as distâncias e para se superarem as barreiras?

Falta, sobretudo, o desmanchar de um certo paternalismo da cultura branca. As entidades precisam de deixar de ser paternalistas para se transformarem em aliados. Falta criar um patamar de proximidade para que as vozes que vêm do interior sejam ouvidas. Tu podes, academicamente, ter uma formação sobre a história cigana, mas a verdade é que eu é que sou a cigana, e sinto na pele o que é ser a cigana. É importante separarem-se do paternalismo para nos situarmos todos num patamar de parceria. Efetivamente, isto é uma questão de todos, e as desconstruções dos estereótipos fazem-se com parcerias e não com lados opostos. Podem existir os lados opostos e até as discordâncias, os pólos vão sempre existir, mas é preciso contorná-los de forma a que haja equidade.

Em resposta à pergunta que a aula aberta levanta, onde está a voz das comunidades ciganas nos meios de comunicação?

A voz está silenciada por séculos de exclusão e pela não-permissão de que ela seja levada a sério. Se revisitarmos a história do nosso país, vamos encontrar todos os erros. E se muitos dos erros forem revistos com uma necessidade de reposição da verdade, vamos encontrar algumas das respostas de que precisamos também. Muitas das soluções estão nas histórias.

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