Mais sentimento, menos partilha

O mundo está constantemente em mudança. É uma daquelas verdades absolutas que não podemos contrariar. Uma das áreas em que isso tem acontecido com particular ênfase é no futebol. Não da perspetiva dos milhões, dos jogadores ou dos agentes mas sim do mero espetador.

Antigamente, bem antes da existência das tecnologias, ouvimos relatos e vemos imagens de pessoas que iam “à bola”, fosse Porto, Sporting, Benfica ou Estrela da Amadora, sem preocupações clubísticas, sem haver operações policiais de 1550 agentes, sem haver necessidade de revistas minuciosas e sem haver o medo dos confrontos que um simples jogo de futebol pode oferecer como vemos nos casos de Guimarães, do adepto morto com um very light, e de muitos outros casos lamentáveis. Os campos de futebol deixaram de ser sítios onde vamos desfrutar do espetáculo como um teatro ou um cinema, e virou campo de batalha onde se discutem os milhões, as polémicas, a corrupção e as clubites.

Claro que o dinheiro em jogo tem muita influência na mudança do público mas, por si só, não explica a totalidade desta mudanças que se podem verificar.

Não sou adepto de ir todos os jogos ao estádio muito por culpa desta falta de mentalidade desportiva da maioria dos adeptos. Ainda cheguei a ir a bastantes jogos em que se verificava os adeptos todos a torcer pelo seu clube, atentos ao jogo, a cantar sempre com as claques, por outras palavras : a sentir o jogo.

Este tipo de fãs desportivos foi, aos poucos, substituído por outra geração, muito mais influenciada pelas novas tecnologias e moldada à sua maneira. Cada vez mais podemos observar os fãs que se preocupam mais em tirar 1001 fotos do estádio, ao invés de estarem atentos ao jogo, mais preocupados em tentar captar todos os momentos passíveis de partilhar, ao invés de os desfrutarem, mais atentos a percorrer o seu feed e de verem se são eleitos para aparecer no ecrã gigante para contarem aos amigos do que propriamente a sentir a equipa e a querer “empurrá-la” em direção à vitória.

Esta nova mentalidade tanto de violência como de mediatismo do jogo de futebol vieram transformar o que era o público que ia ver jogos de futebol. Cada vez menos centrados na sua equipa e cada vez mais centrados nos seus próprios umbigos, desvirtuando o que é apoiar uma equipa de futebol.

Ir ao estádio é uma sensação diferente, não só pelas pessoas que nos rodeiam mas também pelo amor inexplicável que sentimos por um clube que escolhemos desde pequenos e que vamos apoiar jogadores/pessoas das quais só conhecemos o país e o nome aos quais damos força como se se tratasse do nosso irmão. Não deixem morrer este amor ao futebol.

Disfrutem mais, partilhem menos.

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