Miguel Soares: “Temos de contar aquilo que os outros não estão a contar”

Miguel Soares é editor de informação nas redes sociais da Antena 1 desde 2016, e já trabalha com a estação de rádio desde 2005. “A rádio é a minha paixão”, chega mesmo a afirmar, depois de participar do debate na quarta edição do Jornalismo Frankenstein. Não deixa, por isso, de ser engraçado ouvi-lo dizer que o meio de comunicação “morreu”.

Engane-se, apesar disso, quem pensa que Soares perdeu o amor que outrora nutriu pela rádio e agora prega a sua desgraça: ao #infomedia, numa pequena conversa sobre as novas formas de fazer (e pensar sobre) jornalismo e a presença da rádio nas esferas digitais, há-de explicar precisamente aquilo que quer dizer.

Este ano, o Jornalismo Frankenstein – uma conferência que se realiza anualmente na Universidade Lusófona do Porto desde 2016, e que é organizada pelos finalistas do curso de Ciências da Comunicação em coordenação com as professoras Carla Cerqueira e Vanessa Ribeiro Rodrigues e o diretor de curso Luís Miguel Loureiro – voltou as suas atenções para a “tirania das redes sociais”. Discutiu-se o perigo da temida desinformação, mas também se pensou sobre os “constrangimentos e desafios de financiamento inerentes aos novos coletivos de produção jornalística”. Miguel Soares diz que nas redes “estamos a competir com o mundo inteiro”, e por vezes “o segredo está em encontrar um ângulo diferente”.

#infomedia: O que queres dizer quando dizes que a rádio morreu?

Miguel Soares: A rádio é a minha paixão, portanto, quando eu digo isso, não o digo como quem quer dar a entender que o meio tradicional em si morreu. A rádio morreu no sentido em que já não podemos olhar para os meios de comunicação de uma forma estanque. O mundo mudou tecnologicamente, o consumo de notícias também mudou radicalmente, e não há mais um jornalista de rádio ou um jornalista de televisão. Hoje em dia, acho que só se pode falar em jornalismo, seja qual for a plataforma. O importante é combinar as plataformas e combinar as ferramentas, usando diferentes linguagens e diferentes formas de chegar às pessoas.

Isso que disseste de não termos mais um jornalista de rádio ou um jornalista de televisão é muito pertinente. Tens medo das possíveis desvantagens que podem advir de não haver grande espaço para uma especialização dentro do jornalismo?

Eu acho que qualquer estudante de jornalismo deve dominar o máximo de ferramentas tecnológicas que for possível. Se não domina, deve rapidamente atualizar-se, porque a progressão é muito rápida, é vertiginosa, e depois a pessoa fica para trás se não evoluir. Na profissão que desempenho há já alguns anos, há pessoas que felizmente souberam adaptar-se; outras, desse ponto de vista, ficaram para trás. Continuam a ter lugar, porque ainda se faz rádio tradicionalmente, ou continuamos a fazer televisão tradicionalmente, mas acho que dentro de alguns anos essa realidade vai ter os dias contados.

Como é que a passagem da rádio para o universo digital possibilita novos modelos de participação e um consumo diferente dos conteúdos produzidos pelos meios de comunicação?

A rádio sempre foi do mais interativo que havia, porque era possível meter ouvintes no ar através do telefone. Mas tens razão, ela costumava operar muito mais num sentido único, e agora, com as redes sociais, conseguimos ter uma interatividade constante, não só através de vídeos que se fazem em direto como através de caixas de comentários e outros veículos. Potenciou-se essa interatividade. Depois, a rádio e os outros meios têm de competir com uma coisa com que não competiam dantes. Dantes, as concorrentes eram as outras rádios, as outras televisões. Agora, os concorrentes podem ser YouTubers, podem ser bloggers, podem ser podcasters. Há mais democracia no acesso às ferramentas, mas isso faz também com que haja muita gente que não é jornalista a produzir informação. Não é jornalismo, mas é informação. E nós temos de competir com isso.

Disseste na conferência que a rádio foi o meio tradicional que melhor se adaptou à era do digital. Por que achas que assim foi?

Porque temos uma ferramenta chamada podcast, que é uma tendência de consumo muito grande, e que, nesta lógica de consumirmos a informação onde queremos, quando queremos e como queremos, é um conteúdo que funciona muito bem. E não deixa de ser rádio. Não é rádio em direto, mas é um conteúdo áudio puramente radiofónico.

Parece que agora as possibilidades de participação e interação são maiores porque antes, se o ouvinte não ouvisse aquele programa à hora a que passava, não tinha mais hipótese. Agora, há a chance de voltar atrás, de recuperar o que se perdeu.

Nem mais. Eu sei que há uma rádio na Áustria que já permite, quase como uma box de televisão, passar conteúdos à frente ou atrás. Creio que só não é possível passar à frente os noticiários em direto. As pessoas têm várias opções: se não gostam de determinada rubrica ouvem outra, ou se não gostam de um determinado tema têm um tema alternativo que podem escolher. Mas a internet é outra coisa. Tens o mundo à disposição e podes consumi-lo fragmentadamente e continuadamente, como quiseres.

Como é que a internet, por causa disso mesmo que disseste agora de permitir um consumo fragmentado, obriga a que pensemos mais nas formas de apresentarmos os conteúdos às pessoas e tornarmos interessante o que é relevante?

O podcast é uma forma de aproximar gerações. Com o podcast, conseguimos passar às gerações mais novas aquilo que era a rádio, mas as pessoas consomem quando querem e onde querem. Depois, os conteúdos da rádio podem ser transformados e adaptados para as redes sociais e para as plataformas digitais, recorrendo à imagem, recorrendo à fotografia, recorrendo ao vídeo. Já não é rádio, já é outra linguagem, mas no fundo procura ser um isco para aquilo que a rádio também produz. E há conteúdo nativo, conteúdo propositadamente feito para as redes com a marca da rádio. No fundo, nós estamos numa era das marcas de informação. As marcas de informação afirmam-se de diferentes formas em diferentes plataformas.

Eu ia falar disso agora. A Antena 3, com o Disco Externo, por exemplo, produz conteúdos exclusivamente para as redes. Depois há todo um debate sobre aquilo ser-se ou não rádio. Onde te posicionas nessa discussão?

Eu se calhar não faço rádio hoje em dia, por isso é que digo que a rádio morreu. Eu estou em funções especiais, mas até há três estava a fazer puramente rádio, editava noticiários e não tinha contacto direto com outras plataformas, outras ferramentas. Agora, trabalho numa rádio, mas não sei se faço rádio. Também a faço, quando faço um programa, quando produzo uma peça de áudio que vai ser emitida on air, mas o objeto principal do meu trabalho neste momento não é a rádio pura e dura.

Como achas que novos projetos jornalísticos podem usar as redes sociais como um instrumento de crescimento?

Todos os dias há projetos novos, e a democracia proporcionada pelo digital possibilita que isso aconteça. Aqueles que eram dantes só recetores agora também são emissores, produzem informação. Através da internet, conseguimos produzir conteúdos e chegar ao mundo inteiro. Depois, é preciso ver se os conteúdos são atrativos ou não, se as pessoas aderem ou não. Nas redes sociais, estamos a competir com o mundo inteiro. Diferenciamo-nos como dizias há pouco, pela tentativa de sermos diferentes e bons. Tudo depende do teu objetivo. A quem é que queres chegar?

Temos de contar aquilo que os outros não estão a contar. Olha para aquele ciclo vicioso: quando um meio de comunicação dá uma notícia, os outros vão todos atrás. Há uma espécie de corridinho, uns vão atrás dos outros. Às vezes é inevitável, se estamos a falar de temas incontornáveis da atualidade. Mas às vezes, mesmo indo atrás daquele tema, podemos olhar para um acontecimento de uma forma diferente. Se os outros estão todos a olhar naquela direção, se estão a olhar da esquerda para a direita, se calhar não era desinteressante olharmos da direita para a esquerda, ou de baixo para cima, ou de cima para baixo. Por vezes, o segredo está em encontrar um ângulo diferente, uma história diferente, um ponto de vista diferente.

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