13 minutos com Piny: “Eu procurei encontrar uma voz feminina de poder”

Piny acabou há dez minutos de apresentar o seu novo espetáculo e está cheia de energia. A artista conversa de forma entusiasmada com um pequeno grupo de pessoas que assistiram à peça enquanto pega numa toalha para limpar o suor que lhe escorre pela testa. O seu corpo parece flutuar enquanto percorre a sala de ensaios do Teatro Municipal Rivoli.

São 16h12. O #infomedia senta-se com a criadora de HIP: A PUSSY POINT OF VIEW para falar sobre “perguntas sem resposta” e “uma grande necessidade de gritar”. A obra apresentada no âmbito da Semana DDD+FITEI – cinco dias de uma programação que dá visibilidade ao trabalho de artistas nacionais e que celebra em simultâneo o encerramento dos Dias da Dança e o arranque do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica – lança um olhar crítico sobre “a hipersexualização do movimento e a obsessão com o tamanho”.

As questões relacionadas com o corpo são muito importantes para Piny: à artista interessa trabalhar (n)as fronteiras entre a sua “auto-reclamação” e “super-castração”. Interessa-lhe também desmontar ideias que a antecedem em milhares de anos e nas quais não se revê. HIP é um trabalho “muito pessoal” e espelha muitas das as preocupações com que a coreógrafa e intérprete mais se confronta no seu quotidiano. É sobre essas preocupações que Piny refletiu em 13 minutos de entrevista com o #infomedia.

#infomedia: No último brunch de imprensa do DDD+FITEI disseste que tiveste uma ideia inicial para a peça mas depois o trabalho acabou por sofrer muitas modificações. De que maneiras é que o resultado final se desviou do ponto de partida?

Piny: As expetativas acabam por ser um bocado utópicas, porque esta foi a primeira vez que criei um espetáculo a solo. Não sabes muito bem como vai ser o processo porque nunca passaste por ele. Eu apercebi-me que queria pegar num assunto e ser muito clara a tratar dele. Queria ser concisa. E quando comecei a trabalhar percebi que não é essa a minha personalidade. Acabei por abandonar essa ideia de tentar ser minimalista para poder deixar sair coisas.

O título foi dado muito a priori: eu ia abordar as problemáticas do corpo a partir de uma perspetiva feminista, e acabei por me confrontar com muitos paradoxos, confrontei-me com uma série de questões. O que é isso de um poder feminista numa sociedade tão patriarcal? Até onde é que conseguimos combater? O resultado acabou por ser não uma resposta, mas sim um acumular de questões. Achei que ia responder a determinados dilemas ou dúvidas que tenho, e acabei por não conseguir. Fiquei-me pelas questões. A peça é mais uma exposição do que uma resposta, é um grito.

Fiquei muito intrigado quando disseste nesse brunch que a tua perspetiva feminista ficou muito masculinizada. O que querias dizer com isso?

O que eu percebo é que nós, mulheres, acabamos por levar com muitos códigos que nos foram impostos ao longo da vida. Vês mulheres no poder e muitas pessoas dizem que se comportam de forma masculina. Às vezes, as mulheres, para se imporem em meios maioritariamente masculinos, acabam por ter de falar na mesma linguagem. Uma mulher não pode ir para um escritório de mini-saia e saltos altos. Vai ser sempre acusada de estar a seduzir, de não usar roupa apropriada. Então o que acabas por fazer? Vestes as calças e o blazer. Até nestas coisas pequenas acabas por não poder imprimir um cunho feminino. Eu usar um decote ou uma mini-saia não significa que eu seja menos capaz ou que esteja a seduzir.

Em casa, vês o contrário. O homem também é vítima de uma masculinização extrema. Se um homem quiser ser dono de casa, se quiser ficar em casa e cuidar dos filhos, também vai ser mal visto. Quando eu tento falar de um ponto de vista livre e feminino, deparo-me com todos estes problemas.

E foi difícil contestar esses problemas no processo de criação da peça?

Não necessariamente, mas também é por isso que eu digo que o resultado acabou por ser muito diferente do que pensava. Eu achei que isto estava tudo mais claro para mim, mas depois, em conversas com as pessoas, e após a recolha de material que fiz, apercebi-me que há uma coisa que adiciona a esta questão, que é o sítio onde tu estás geograficamente. Se eu falar com uma mulher europeia, é uma coisa. Se falar com uma mulher americana, é outra. Se falo com uma mulher libanesa, é outra. Esta questão do masculino e feminino não é uma coisa global. Em cada sítio, estamos num ponto completamente diferente. O nosso discurso é muito europeu: às vezes, quando se diz “essa luta já não faz sentido, a mulher já vota, já pode fazer o que quer”, eu normalmente respondo com “sim, se tu olhares para uma percentagem de território que é para aí 20% do mundo”. E mesmo aqui, não há essa liberdade toda. Se eu tenho o privilégio de ter voz, então tenho de continuar a falar. Sinto uma grande necessidade de gritar e lutar.

Como explicarias a ideia que tiveste de “criar a peça como um homem”?

Eu tentei inverter os papéis, de certa forma. Eu na peça digo uma letra de uma música dos 2 Live Crew, uma música escrita por três homens, e a letra é horrível. Quando essa letra é dita por uma mulher, o choque de quem recebe é completamente diferente. Foi uma maneira de trocar a ordem, foi uma maneira de dizer “deixa-me ser eu a ter esse discurso machista e misógino para tu veres o quão problemático ele é”. Imagina agora eu chegar aqui, virar-me para ti e dizer “olha, mas vieste assim vestido para me seduzir, é?” ou “tens o casaco aberto até aí, achas isso apropriado para uma entrevista?”. As pessoas diziam-me “estás a fazer uma pergunta estúpida”. Mas é isso que acontece.

Quando se revertem as coisas, percebe-se o ridículo. Mas às vezes é preciso que se veja esse ridículo à lupa para se perceber a dimensão do problema. Durante a peça, vou tentando fazer esses jogos de inversão. Como já disse, no início queria que ela fosse uma coisa, e acabou por ser uma salada de frutas. Apanhas umas coisas, não apanhas outras, gostas de umas coisas, não gostas de outras, mas foi isto que consegui pôr para fora neste momento específico da minha vida sobre este assunto.

Como é que as incursões que fazes pela cultura clubbing durante o espetáculo se misturam com estes jogos de inversão?

A cultura clubbing é de onde eu venho. A cultura de rua e a cultura hip-hop fazem parte do meu background, só comecei a estudar dança academicamente mais tarde. Eu sei, como B-girl, o que é estar no meio de homens: somos todos manos, mas há sempre alguém que vai dar aquele jeitinho. Na cena clubbing, como é uma cena social, acho que ainda é um bocado diferente, porque vês ali o jogo social entre duas pessoas. Eu vejo-te, quero dançar contigo, esse jogo é saudável, e acho maravilhoso. Dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, o que for, isso não interessa. A questão é o jogo de poder e sedução dentro desse sítio, onde as mulheres ainda continuam – e isto são só clichés que eu atiro na peça –, como diz a Tati Quebra-Barraco, com “fama de putona”. Um homem não tem essa fama.

Eu procurei encontrar uma voz feminina de poder para me afirmar. Eu sou um ser sexual, como tu és, e se eu gostar muito de sexo e quiser ter sexo com quem eu quiser, por que é que não posso? Tenho de ser púdica porque sou mulher? Sou eu que engravido, será que isso faz com que eu não possa usufruir do meu prazer? E tu podes? Estas coisas todas são questões de há muito tempo e são questões de agora, e serão questões de muitos anos ainda. Não é na minha geração que se vão encontrar respostas para essas questões, mas existe uma libertação que eu acho que é importante criar.

É importante ver mais mulheres a criar, mais mulheres em sítios de poder, mais mulheres em sítios de poder a poderem ser femininas. Essa libertação é importante para os homens também. Se um homem quiser ir de T-shirt e alças para um escritório, também não vai poder. Há muitos códigos que têm de ser quebrados. O respeito não é dado pela roupa que tu tens. E acho que isto começou a ficar mais urgente em mim desde setembro, quando houve aquela questão da violação. Nem sequer consigo discutir esse assunto na minha cabeça. A sedução não é permissão. E num caso extremo, em que uma mulher está inconsciente, diz-se que não existiu violação porque ela não disse que não? Nem consigo argumentar.

O corpo da mulher é um corpo forte em termos de poder, mas ao mesmo tempo é fisicamente mais frágil que o masculino, e isso faz com que estejamos sempre numa situação de vulnerabilidade. Mas eu tenho de ter permissão para ir a um bar, beber, ficar louca, andar aos caídos e não estar em risco de me agredirem e de ser violada. Porque se um homem for a um bar, beber e andar aos caídos, foi só uma noite maluca. Foram estas coisas do dia-a-dia, que me assombram, que tentei colocar para fora.

O facto de teres encontrado mais perguntas que respostas deixa uma porta em aberto para continuares a refletir sobre estes temas numa futura criação?

Eu optei por criar uma coisa muito pessoal sem ter o objetivo que essa coisa fosse uma peça artística. É mesmo um grito. E eu não tenho problema se alguém disser coisas mais formais, não tenho problema se alguém disser que a peça precisa de trabalho ou que não tem consistência. Um grito não tem consistência. Isto foi o que eu consegui fazer agora. Vêm aí mais gritos de certeza, porque o assunto não terminou, eu não estou resolvida, as mulheres não estão resolvidas e os homens também não estão resolvidos.

Eu quero que os homens também possam cair, chorar, ser frágeis. Quero que a educação das crianças, desde cedo, aponte para isto. O miúdo quer pintar as unhas? É divertido pintar as unhas. Ter as unhas às cores é divertido. Por que é que eu vou dizer a uma criança de cinco anos que não pode porque é rapaz? Deixem o puto pintar as unhas. São cores, são crianças. E o mesmo se aplica a um homem adulto. Queres usar um brilhante? Queres experimentar uma saia comprida? Não podem. E é absurdo.

Isso fez-me lembrar de uma coisa engraçada. Se calhar estás familiarizada com o Tricky [rapper britânico que colaborou com os Massive Attack no início da década de 1990 e, com o primeiro disco a solo, tornou-se uma das figuras principais do movimento trip-hop em Bristol]. Ele tem uma fotografia com a Martina Topley-Bird [vocalista que foi presença assídua nos primeiros quatro discos de Tricky] em que ela é que veste o fato e ele é que usa a maquilhagem. Há essa inversão de papéis de que falavas.

Aos artistas, ainda é permitida essa inversão, essa subversão. Mas na sociedade “normal” não é. E há grupos de pessoas em que isso é escandaloso. Olha para os atletas. Quantos atletas é que tu vês que sejam assumidamente gay? Ainda é tudo uma coisa de machão. Se calhar um homem até gostava de experimentar um salto alto e não o faz. Eu tenho imensos amigos que me dizem “essa roupa que tens é tão gira, apetecia-me sair com alguma coisa assim”. Se vestem um body, já há um constrangimento. Mas qual é o problema?

E de pensar que há países em que as mulheres andam cobertas, nem o pulso podem mostrar… Não podem conduzir, não podem olhar os homens nos olhos, têm de andar sempre um metro atrás dos homens. Eu sou a favor da libertação do ser humano, eu falo de um ponto de vista feminino mas esse ponto de vista não é exclusivo do género feminino. É uma utopia. Posso refletir sobre essas questões no próximo trabalho mas reflito também no dia-a-dia, na vida. Quando posso pôr as questões em palco, ponho. Quando não posso, faço questões na rua.

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