O que é nacional é +

A Semana+ foi descrita por Tiago Guedes como uma “zona de interseção” entre os Dias da Dança e o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. O diretor do Teatro Municipal do Porto refere que foi aqui que a “programação nacional de ambos os festivais”, “a pensar na internacionalização”, se cruzou.

Entre os dias 8 e 12 de maio, artistas e criadores portugueses ajudaram a construir “um programa multidisciplinar”, enchendo diferentes espaços culturais nas cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia com espetáculos de dança, teatro, música e artes visuais. A ideia, como se lê na página oficial do DDD+FITEI e como Tiago Guedes já avançava, passou por projetar o trabalho destes criativos “além-fronteiras”.

“Estamos a tentar mostrar o melhor que está a acontecer e a ser produzido aqui”, sublinhou Gonçalo Amorim. Para o diretor artístico do FITEI, que espera que a parceria que se estabeleceu entre os dois festivais de artes performativas “se repita muitas mais vezes”, é quase como se a Semana+ fosse uma colheita da “fruta da época”.

Hugo Cruz – que apresentou Imóvel a 9 e 10 de maio na Rua Mártires de Liberdade – foi um de vários artistas que celebraram o arranque da iniciativa e conversaram sobre o seu trabalho na manhã de 8 de maio, num encontro no Café Rivoli. O co-fundador do coletivo Nómada definiu a Semana+ como “um importante momento para os criadores da cidade e não só”, e explicou que a sua peça “olha para a geração dos quarenta anos”, na qual se insere, para “perceber quais são os seus impasses”. Da “paralisação das ações” à “racionalização em excesso”, Imóvel define-se como um exercício sobre “adiar constantemente a resolução de problemas”.

Ana Rita Teodoro mergulhou no extenso arquivo de Michel Giacometti para “resgatar” as músicas tradicionais portuguesas cantadas por mulheres que interpreta em Assombro. A artista, que contou com a ajuda de Tiago Pereira, do projeto Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, observou “um gesto emancipatório por parte dessas mulheres em relação à sua condição feminina” nas composições que traz ao palco – como a da “mulher que embala e faz adormecer o seu bebé enquanto fala com o amante que está do outro lado da janela”. Essas composições, apesar de antigas, “preservaram uma urgência”, urgência essa que Teodoro abraça de forma provocadora.

José Nunes afirma que Geocide é uma espécie de “parque temático distópico onde se contempla uma ideia de memória da humanidade”. Esta peça, criada por Nunes e Cátia Pinheiro, da companhia Estrutura, imagina “um mundo apocalíptico”, em que “a atividade humana já terá destruído por completo o planeta” e “seres físicos habitam com seres tecnológicos e não-humanos”. Os problemas políticos, ambientais e sociais que dizem respeito ao século XXI servem como trampolim para a Estrutura elaborar um trabalho reflexivo: como explica José Nunes, “através do olhar que o futuro poderá ter em relação ao passado, propomo-nos a pensar um bocadinho sobre o que é o presente”.

Jonathan Ullel Saldanha também se baseou numa ideia de conflito entre humano e pós-humano e criou uma performance para robôs e dois percussionistas marciais. Os robôs imprimem uma partitura visual de luz; os percussionistas levam com clarões constantes nos seus rostos e interpretam uma série de códigos em ritmo. Broken Field Atlantis – Drum Corps traduz-se numa “batalha entre dois sistemas de som” em que se evidenciam tensões fraturantes e uma “relação de pressão e combate”.

Piny criou um espetáculo sozinha pela primeira vez em HIP: A PUSSY POINT OF VIEW. A coreógrafa explica que “a ideia do título é literal”: a sua peça está muito relacionada com “a conceção que o mundo tem da anca e a obsessão pelo rabo”. HIP problematiza a hiper-sexualização do corpo – um “tema muito pessoal” para a artista cuja “formação foi feita na rua” – e também a sua “super-castração”. Piny procedeu a uma “desconstrução da sonoridade hip-hop” e da “cultura pré-MTV” com que cresceu para trabalhar a partir de um ponto de vista feminista – um ponto de vista que, conforme desvendou ao #infomedia em entrevista, “ficou muito masculinizado” como forma de criticar e desmantelar tabus e preconceitos.

Alfredo Martins quis servir-se dessa “cultura pré-MTV” para desenvolver Silent Disco. Mas o que é mesmo uma silent disco? O nome já permite esboçar uma teoria, mas o site do DDD+FITEI esclarece que “o público forma uma comunidade temporária, guiada através de auscultadores pelo espaço vazio da discoteca”. A ideia, explica o criador da peça, é “equacionar os espaços de clubbing como espaços de resistência”: como a música toca através dos headphones e cada pessoa reage ao que ouve de formas independentes e diferentes, quem está de fora só vê uma multidão que dança no silêncio; essa imagem é revolucionária para Martins, que, com o seu trabalho, propõe a construção de um “local de encontro” para se pensar em “devires coletivos, futuridades, possibilidades de sobrevivência, novos espaços de sentir e pensar”.

O Teatro da Didascália – um coletivo fundado em Vila Nova de Famalicão que, conta Gonçalo Amorim, “vive as tensões e os dramas de não estar situado nos grandes centros, nos grandes pólos culturais do país” – trouxe Argila ao Auditório Municipal de Gaia, e com ela, um estudo sobre “a frustração que é manipular a matéria, a resiliência que é necessária num ato de criação”. A argila, afinal, depende do trabalho do oleiro para adquirir a sua forma; as mãos do oleiro dançam de forma “hipnótica e ritualesca” e provocam “deformações constantes” quando tocam na matéria. Como se sublinha no texto que resume a obra, “qualquer toque irá transformar a argila numa qualquer outra coisa que não voltará a recuperar a sua forma inicial”.

A Semana+ contou ainda com criações novas da companhia mala voadora (Dinh€iro) e estreias de artistas como Catarina Miranda (Dream is the Dreamer). Isabel Barros e Vítor Rua uniram-se para criar Do Silêncio da Praça Avista-se o Nosso Terraço de Nuvens ao passo que Maria Belo Costa e Carlos Zíngaro colaboraram em Transgressões. Projetos em ascensão como o Hotel Europa (Amores Pós-Coloniais) e instalações de Patrícia Portela (Parasomnia) fizeram parte de um programa em que também houve lugar para apresentações de coreógrafos como Victor Hugo Pontes (Margem) e Vera Mantero (Práticas Propiciatórias dos Acontecimentos Futuros).

Com diversas salas esgotadas e uma elevada procura, a Semana+ funcionou como uma excelente ponte entre o DDD e o FITEI, no primeiro ano em que os dois festivais arriscaram uma parceria. O risco que se tomou entre 8 e 12 de maio valeu a pena, para os programadores e artistas nacionais que ambicionam a internacionalização mas também, claro, para o público, que respondeu com um gigante “sim” à proposta de Tiago Guedes e Gonçalo Amorim. O que é nacional é bom, e quer-se mais.

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