Precious Plastic Portugal: “Acho que toda a gente devia saber que este projeto existe e que há maneiras de reciclar o plástico.”

Com a gradual consciencialização do plástico como um inimigo público-privado no dia a dia na vida das pessoas existem questões que se levantam. Que usos podemos dar ao plástico? De uma forma original e o mais poupada possível?

Foi por isso que o #infomedia procurou o Precious Plastic e entrevistou a designer industrial, Irina Übler, que é “meia austriaca-meia alemã.”, confessou soltando uma gargalhada ecoante.

“Estudei em Áustria, em Graz, no último ano fui fazer Erasmus na ESAD em Matosinhos e fiquei aqui por mais meio ano para fazer a tese final com colaboração duma empresa em Guimarães.  A minha ideia era ficar meio ano para estudar, agora vou fazer 10 anos aqui. Estou a trabalhar como designer freelancer. Tenho uma marca de mobiliário e colaboro com o Precious Plastic Portugal, a parte de design e a parte de formação.

E quantas pessoas colaboram com o Precious Plastic?

O PP faz parte do OPO-LAB que tem bastantes pessoas lá então o fundador do OPO-LAB é o João Barata Feio, depois na equipa técnica está o Tom  e o Hugo que é mais ligado às máquinas, fabrico, trabalho com metal, ou madeira… eles produzem as máquinas. Na OPO-LAB tem muita gente, fazem fabrico de máquinas, arquitetura e temos um espaço co-work.

Quando e por quem foi fundado este projeto?

O Precious Plastic foi inventado pelo holandês Dave Hakkens e ele na sua tese final criou o projeto e o plano de como se construiu as máquinas, como tudo é feito.

Mas além de fazer o projeto, ele fez uma plataforma online onde toda a gente tem acesso e pode fazer o download de tudo o que ele punha lá. A ideia é que toda a gente do mundo pode pegar nesta informação reconstruir as próprias máquinas e fazê-las. E também começar a reciclar o próprio plástico. Então nós aqui no porto, no OPO-LAB, na rua D. João IV, começamos a construir as máquinas, há três anos atrás, e a produzir as máquinas.

E fomos sempre melhorando, ver o que funcionou bem, o que não. No início pegamos no ferro velho, então em vez de comprar tudo fomos ver onde há motor antigo, metal estruturas meios estragados. Neste momento chegamos a um ponto que já temos muita procura do mercado que quer comprar as máquinas. Já mudamos a ideia de irmos ao ferro velho, agora compramos todos os packs para também o cliente final ter uma máquina sem problemas nenhuns. Por isso os motores são novos, a estrutura é nova, todo o sistema elétrico que tem, está tudo novo e montado e fabricado lá no OPO-LAB.

 

 

E como é que funcionam as máquinas?

Tem quatro máquinas em conjunto. A primeira máquina é trituradora, lá coloca-se o plástico e tritura e faz flocos. E depois pegas nesses flocos e consegues em três máquinas trabalhar este tipo de material. Todas as máquinas funcionam com calor e pressão. Tu colas num funil um floco, entra em aquecimento, o plástico fica derretido, líquido e depois podes transformá-lo, nós temos uma máquina de extorsão, de injeção e de compressão. Há uma máquina que faz um fio fininho, quase como se fosse um esparguete quente em plástico. O outro vai injetar dentro de um molde e  vai ficar aquecido e depois há uma parte que esmaga um molde contra molde e no meio cria a própria forma.

 

Que tipo de coisas é que vocês formam? Que trabalhos já têm feito?

Em todas as máquinas o importante é o molde. E por isso nós agora criamos uma startKIT, quando vendemos as máquinas os clientes podem encomendar num molde simples que pode ser baseado numa forma triangular ou retangular, que pode ser uma tigela, um copo, uma base, uma balde de lixo. Temos uma hoje exposição que é um cabide, um puxador de uma gaveta, uma peça mais pequenina, mais titan, que foi feita numa molde.

Nós temos alguns moldes simples como placas, azulejos, bases grandes e depois temos alguns moldes que são mais detalhados maquinado com alumínio.

 

Existe algum plástico que vocês não conseguem dar utilização?

Há 7 tipos de plásticos por isso nós começamos sempre com separação. O que nós não trabalhamos é com o PVC que é muito tóxico, o APC também. Neste momento o que gostamos muito é UPE, UPP, UPS. Porque são plásticos que conseguimos identificar facilmente, conseguimos aquecer dentro de 200, 220 graus. Porque há plásticos que se começam a derreter, por exemplo o PET começa a derreter com 280.

UP e UPP começa há volta de 200, 220, já temos uma boa maneira de trabalhar com ele.

 

E com esses plásticos que não dá para reutilizar o que é que vocês fazem?

Pomos no ponto de recolha de plástico. Porque nós temos tanto plástico que escolhemos o melhor para nós e evitamos misturar o plástico. Porque os plásticos têm componentes diferentes quando ficam derretidos. E além disso quando nós misturamos os plásticos nós depois já não conseguimos reciclar outra vez porque acaba o ciclo. Por isso nós vemos qual é o plástico que temos mais e mais fácil para transformar, por isso focamo-nos mais nisso.

Têm muita adesão ao vosso produto?

O nosso produto principalmente são as máquinas por isso no OPO-LAB fabricamos as máquinas e temos bastante procura neste momento. Nós conseguimos em dois, três meses fazer seis set’s completos e um set tem as quatro máquinas.

O próximo que vamos agora começar a produzir na próxima semana, já está tudo vendido.

Nós temos encomendas. E se agora tu fosses pedir um nós podemos só fazer em outubro, novembro porque já temos cheios de pedidos novos, que é um bom sinal.

E além das vendas das máquinas, também vendemos moldes.

Então uma pessoa que tem uma máquina, quer produzir uma peça e não sabe como, connosco, como eu sou design industrial, eu consigo desenhar o produto, fazer o modelo 3D. Transformo para ser feito como molde e depois qualquer pessoa pode produzir as peças. E também fazemos formação, então quem comprou as máquinas pode pedir uma formação para trabalhar com as máquinas, fazemos workshops, eventos de demonstração e para já temos muitos pedidos.

Daqui por duas semanas vou para São Tomé, depois vamos estar no canal 180, depois vamos ter uma Summer Lab com a ESAD, então os estudantes não só da ESAD podiam fazer parte. Em Julho vamos ter essa Summer Lab no OPO-LAB e depois provavelmente vou também para a Roménia, por isso temos bastantes pedidos, que é ótimo.

 

E quem quiser experimentar e quiser fazer parte da vossa organização como é que pode fazê-lo?

Pode fazer visitar, numa OPO-LAB, as máquinas estão sempre lá. Quando há mais pessoas podemos também combinar e fazer um workshop em conjunto. E depois organizamos da melhor maneira. Normalmente uma pessoa que vai lá não usa logo as máquinas, precisa sempre de uma formação, também por motivo de segurança. Se alguma coisa estraga, se alguém não sabia bem usar, mas em princípio as máquinas são muito fáceis para trabalhar, não há grandes truques.

 

Achas que o vosso trabalho está a ter repercussão a nível mundial? 

Com estas máquinas não se vai mudar logo o mundo, precisam de industrias grandes, de muita gente a começar a pensar e a reagir e a viver diferente de como vivemos hoje com o plástico.

As máquinas são só um bom ponto de partida para também na parte de sensibilização das pessoas o que além de nós reciclarmos plástico que nós presentes, fazemos ações, vamos aos eventos, vamos a escolas e começas a mudar o mindset das pessoas. Uma pessoa depois de ter esta noção do que é possível fazer com o plástico, se calhar já pensa diferente sobre o próprio plástico. Porque o plástico em si não é um mau material, somos nós que o usamos de uma forma completamente errada. Quando nós temos um plástico que podia viver uma eternidade, porque é um material muito duro que aguenta bastante tempo, mas nós usamos temporário. Nós vamos numa loja, compramos uma fruta, colocamos dentro de um saquinho de plástico, vamos a casa o saco de fruta já vai para o lixo. Ou compramos um iogurte. Depois comi-o e o plástico já vai ao lixo. Então nós usamos tanto plástico por pouco tempo e não devia.

E costumam fazer este tipo de ações intervenções nas praias?

Nós fomos convidados para estar aqui por isso nós podemos fazer em qualquer lado. Se fosse na praia pronto, sempre há esta preocupação mais de plástico no mar, então uma pessoa está mais atenta, mas fazemos isso em qualquer outro lado. Ainda esta semana fomos numa conferência do em Santo Tirso onde havia uma conferência sobre economia secular por isso podemos estar na praia, em conferências, em universidades, nas escolas ou eventos mais políticos porque acho que toda a gente devia saber que este projeto existe e que há maneiras de reciclar o plástico.

 

 

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