O onze inicial da Liga NOS- Uma análise tática

A Liga NOS 2018/19 foi mais uma época de grande emoção e entretenimento para todos os apaixonados pelo futebol português. Vimos uma corrida pelo título até à última jornada, vimos o Chaves a descer no último jogo ao perder contra o Tondela, vimos um Moreirense surpreendente, entre outros.

Entre surpresas e certezas, houve jogadores que se sobressaíram ao longo da temporada. Destaquei o melhor onze inicial da Liga NOS 18/19.

Guarda-Redes: Léo Jardim

Léo Jardim esteve esta época ao serviço do Rio Ave por empréstimo do Grémio. O guarda-redes brasileiro foi-se destacando ao longo da temporada, ao mostrar bastantes qualidades. Ajudou o Rio Ave a fazer mais uma boa campanha, terminando no sétimo lugar.

Usufrui de um bom equilíbrio, o que dá a entender que está quase sempre no lugar certo para defender. Possui bons reflexos e consegue sair dos postes com facilidade no 1×1. É ágil para alguém de 1,88m e possui boas capacidades ofensivas. Tem excelente qualidade de passe, o que facilita a distribuição e saída curta. Num futebol moderno que pede ao guarda-redes para sair a jogar e ter qualidade de passe, Léo tem todas as características necessárias para ser bem-sucedido nesse aspeto.

Sofreu 52 golos esta época e teve 5 jogos sem sofrer golos. Em média, faz 3,3 defesas por 90 minutos; defende 70% dos remates enquadrados; tem 100% de eficácia na saída pelo ar e 0,8 defesas a soco por 90 minutos.

Fez uma excelente temporada, o que motivou o Rio Ave a exercer a opção de compra do guarda-redes ao Grémio. Especula-se que o Sporting pode estar interessado na sua contratação, o que seria o salto que Léo Jardim precisa para se tornar num grande jogador na sua posição.

Defesa Direito: André Almeida

André Almeida protagonizou em 18/19 a melhor temporada da carreira. Ao todo foram dois golos e 12 assistências em todas as competições.

Na época passada André Almeida carregou o peso que era substituir Nélson Semedo no lado direito da defesa do Benfica. Foi um jogador inconstante, que por vezes falhava a nível posicional e dava poucas soluções ofensivas.

Com o início da nova época, principalmente desde a entrada de Bruno Lage, que o defesa de 28 anos renasceu. Defensivamente está mais sólido, e corrigiu erros que antigamente o desvalorizavam. Parece estar melhor a nível posicional, mas no controlo à profundidade ainda sente algumas dificuldades.

Ofensivamente é outro jogador. Raramente subia no corredor, e quando o fazia não procurava jogar junto à área ou perto dos avançados/extremos. Com Bruno Lage aproveita os movimentos interiores de Pizzi para fazer do corredor seu. Combina com João Félix para criar desequilíbrios posicionais, e é visto por vezes no interior do terreno, caso Pizzi fique encostado à linha.

Em média faz 1,3 interceções por jogo; 2,5 alívios; 1 passe para finalização e 0,6 dribles por jogo.

Bruno Lage retirou de André Almeida as suas qualidades e fez dele um jogador mais completo.

Defesa Central: Éder Militão

Militão chegou ao FC Porto no início da temporada oriundo do São Paulo. As expectativas eram altas, mas o brasileiro fez uma época extraordinária.

É um central muito rápido que controla bem a profundidade e consegue atuar em zonas mais laterais do terreno, caso seja necessário. É possante fisicamente e utiliza essa capacidade para ganhar a posição aos adversários. Está sempre bem posicionado para controlar as movimentações do adversário e tem um forte jogo aéreo. Isso beneficia-o também ofensivamente: é um perigo nas bolas paradas. Prova disso são os 5 golos marcados este ano, 2 deles na Liga dos Campeões.

Para além disto tem uma excelente qualidade de passe. Facilmente encontra os colegas desmarcados, e consegue colocar a bola nos homens da frente seja no passe longo, em desmarcação, ou no cruzamento. Estas valências valeram-lhe, sobretudo, quando atuou a defesa direito.

Em média faz 2,2 interceções por jogo; 3,3 alívios; 4,1 passes longos e 0,4 passes para finalização.

A excelente época valeu-lhe uma transferência para o Real Madrid, no valor de 50 milhões de euros.

Defesa Central: Mathieu

Mais uma grande temporada para Jérémy Mathieu. O veterano central francês continua a mostrar muita qualidade, e a fazer uma boa dupla com Coates.

Foi uma das peças fundamentais da defesa do Sporting, e ajudou o clube a ser a terceira melhor defesa do campeonato. É um jogador que se posiciona muito bem no campo, nunca deixa a defesa descompensada e está sempre atento às possíveis movimentações dos avançados. Antecipa-se muito bem aos lances e interceta várias vezes a bola nas transições ofensivas dos adversários.

Mathieu dá muitas soluções ofensivas. Muitas vezes é ele que inicia a primeira fase de construção do Sporting. Leva consigo a bola até à entrada do meio-campo, e utiliza a sua elevada qualidade de passe para iniciar uma jogada. Para além disto, é um especialista em livres diretos: exemplo disso foi o seu golo frente ao Nacional esta temporada.

O Sporting tinha muito interesse que Mathieu ficasse mais um ano, e o francês satisfez a vontade do clube de alvalade e renovou contrato por mais uma época.

Defesa Esquerdo: Grimaldo

Grimaldo cumpriu outra excelente temporada ao serviço do Benfica. Foram 7 golos e 13 assistências em todas as competições, e foi um dos responsáveis pelos 103 golos do Benfica no campeonato.

É um lateral ofensivo. É muito rápido, tem um drible curto muito eficaz, e combina bem com Rafa nas movimentações na lateral esquerda. Funciona quase como um extremo no modelo de jogo do Benfica. Rafa joga em posições interiores e entre linhas, e Grimaldo dá largura e profundidade na lateral. Possui grande qualidade de passe e facilidade em encontrar espaços para o cruzamento.

Muitas vezes é apanhado descompensado pelos adversários e deixa a lateral esquerda vazia. Precisa de melhorar a atenção defensiva, principalmente quando é altura para recuar no terreno.

A boa época de Grimaldo já foi reconhecida internacionalmente. Nápoles é um dos interessados no espanhol, assim como a Juventus.

Médio Centro: Bruno Fernandes

Talvez a escolha mais óbvia deste onze. Bruno Fernandes foi, sem dúvida, o melhor jogador do campeonato esta época. 32 golos e 17 assistências em todas as competições. Números absurdos para um médio! Bateu o recorde de golos de um médio numa só temporada (30) e carregou o Sporting às costas em vários jogos.

Digamos que foi a peça fundamental na sala de máquinas do Sporting. Esta época atuou em vários jogos como 8, perto de Wendel, e desequilibrava com a sua forte transição ofensiva. A excelente capacidade de rematar de longe possibilitava-o não entrar na área para fazer golo. É um médio com grandes capacidades criativas, enorme qualidade de passe e visão de jogo. Tem um faro para golo incrível para um médio. Tem facilidade em aparecer em zonas de finalização, em combinar com os avançados/laterais para criar perigo ou e para assistir um companheiro de equipa.

É o marcador de bolas paradas da equipa: seja grandes penalidades ou livres. Mas é neste último aspeto que se destaca. Exemplo disso foram os golos a Feirense, Braga ou Benfica.

É certo que Bruno Fernandes vai sair do Sporting no verão. O Manchester City é uma forte hipótese, mas conta com concorrência do Manchester United. Os valores podem rondar os 55 milhões de euros até aos 70. Valores justos para a qualidade do português.

Médio Centro: Pizzi

Apesar de no papel aparecer que Pizzi jogou a extremo direito, o jogador do Benfica jogou a época toda a médio centro ofensivo. Até à entrada de Bruno Lage, Pizzi levava 5 golos e 5 assistências. Desde a entrada do técnico, o médio marcou 8 golos e fez 14 assistências. No total, são 13 golos e 19 assistências em todas as competições. Foi o rei das assistências na Liga NOS, com 14.

Com Rui Vitória Pizzi atuava num meio campo a três, ao lado de Fejsa e Gedson/Gabriel. Com Bruno Lage atua como médio interior direito. Não é o médio direito que aparece no papel. Joga solto, sem posição fixa. Tais movimentações permitem desequilibrar a defesa contrária e conseguir colocar a bola nos espaços que ficaram abertos. É o principal criativo do Benfica e quem comanda a equipa no processo de construção ofensiva.

É muito forte à entrada da área. Com grande qualidade de passe e visão de jogo, faz 2,9 passes para finalização por jogo.

Pizzi foi uma das peças fundamentais para o Benfica ser campeão nacional e ter um ataque tão produtivo. Mais uma boa época do médio português.

Extremo Direito: Corona

Corona foi o melhor jogador do FC Porto esta temporada. E fez também a melhor época da carreira. Ao todo foram 7 golos e 15 assistências, naquele que foi o homem mais influente no ataque azul e branco.

Quando jogou a extremo direito com Militão a defesa direito, Corona oferecia mais largura e profundidade, assim como forçava a procura de cruzamentos na lateral. Com Manafá fez mais movimentos de desmarcação, e de rutura para o interior, de forma a deixar o corredor para o lateral.

Atuou também como extremo esquerdo/avançado. Muitas vezes procurava ir buscar jogo à linha e depois transportava a bola para o interior do campo para ficar de frente para a baliza. Também procurava esses movimentos interiores para deixar a lateral para Alex Telles. Várias vezes juntava-se a Soares na frente de ataque, para Marega assumir funções mais à direita e criar, dessa forma, desequilíbrios na defesa.

Pode ter sido a época de explosão para Corona, e com a chegada da Copa América o mexicano tem todas as condições para se mostrar ao mundo.

Extremo Esquerdo- Rafa

Rafa foi fundamental no sucesso nacional do Benfica esta temporada. Já com Rui Vitória que era o melhor jogador, na altura, dos encarnados. Bruno Lage ainda cimentou mais as qualidades de Rafa. Com o técnico ganhou aptidões ofensivas que antes não possuía da mesma forma, nomeadamente no aspeto da finalização. Ao todo foram 21 golos e 4 assistências.

Rafa é um extremo explosivo, uma autêntica mota. Tem uma qualidade de drible soberba, principalmente curto. As suas movimentações para o interior são de grande qualidade, assim como as desmarcações. Está muito mais evoluído no aspeto da finalização quando comparado às últimas épocas. Não falha tantos golos, e aparece em melhores posições para finalizar.

Também ajuda a nível defensivo, quando o jogo precisa disso. Faz jus à sua velocidade e acompanha o lateral da equipa contrária. Ajuda sempre a equipa a iniciar o contra-ataque, uma das armas mais poderosas do Benfica de Bruno Lage.

Foi a melhor época da carreira de Rafa. Não só a nível estatístico, mas a nível exibicional.

Avançado- Seferovic

Quem diria que Seferovic ia ser dos melhores jogadores da época. A temporada passada foi um autêntico flop. Numa fase inicial marcou golos e até prometeu ser uma figura. Mas nunca se afirmou com Rui Vitória. Mesmo esta época teve muitas dificuldades em afirmar-se, rodou várias vezes com Castillo e Ferreyra. Até ao jogo com o Portimonense, a dois de janeiro, o suíço marcou 7 golos em todas as competições. Terminou a época com 27 golos e 9 assistências, o que diz muito do impacto de Bruno Lage no avançado.

Seferovic é muito forte na profundidade, sabe desmarcar-se com qualidade e movimenta-se muito bem no espaço. Faz movimentos para as laterais do ataque, o que dá espaço a Rafa para aparecer em zonas de finalização. Arrasta defesas consigo nessas movimentações e deixa João Félix sozinho para finalizar. Dá velocidade e capacidade física e aérea ao jogo do Benfica. Foi o matador das águias este ano.

Avançado- João Félix

Sem dúvida a revelação do ano da Liga NOS. Foi grande a alegria dos benfiquistas quando Félix foi promovido à equipa principal no início da época. Com Rui Vitória nunca foi um titular constante. Era titular, banco, bancada, titular… Bruno Lage reconheceu no jovem todas as suas qualidades, fez dele um titular indiscutível, e retirou-lhe todas as suas qualidades. Marcou 20 golos e assistiu 11 em 43 jogos. Números fantásticos para um jovem de 19 anos.

Félix atua quase como segundo avançado. É extraordinário nas movimentações que faz. Desloca-se muitas vezes do meio para a direita, de forma a abrir espaços nas defesas contrárias. Recua no terreno para funcionar como segundo avançado, e ser um dos criadores e desequilibradores do Benfica. Aparece com grande facilidade em zonas de finalização e tem uma grande capacidade em encontrar ângulos para rematar à baliza. É muito inteligente a jogar, faz parecer fácil o difícil. Parece que está sempre um passo em frente do que o adversário. Tem grande toque de bola, qualidade de passe e criatividade.

João Félix tem tudo para ser uma estrela do futebol mundial nos próximos anos. Precisa ainda de desenvolver certos aspetos no seu jogo, de ganhar ritmo e experiência, e de ficar mais maduro enquanto jogador.

 

Este foi o meu onze de eleição da Liga NOS 18/19. Quero deixar como menções honrosas os seguintes jogadores:

Helton Leite; Rodrigo; Ferro; Alex Telles; Chiquinho; Samaris; Herrera; Brahimi; Dyego Sousa.

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