Álvaro Bastos: “É muito bom perceber o progresso do futebol feminino nos últimos anos. Na seleção, estamos a fazer história”

Álvaro Miguel Bastos foi o mais recente convidado da Universidade Lusófona do Porto. A sua palestra foi subordinada ao tema «O treino dos guarda-redes no futebol nacional». O técnico integra os quadros da federação portuguesa de futebol e é responsável pelo treino de guarda-redes das seleções femininas de sub-15, sub-16 e sub-19.

Futebol feminino: um crescimento sustentado a gerar reconhecimento

A chegada de grandes clubes despoletou o desenvolvimento da modalidade: há mais praticantes, mais mediatização, mais contratações e melhores resultados. E mudanças em curso já assumidas pela UEFA.

A expressão do futebol feminino, em termos globais, encontra-se a viver uma etapa de franca expansão. O último relatório produzido pela UEFA, acerca das 55 federações-membro, aponta uma grande evolução, em indicadores tão distintos como: número de jogadoras registadas, de seleções, de árbitras e treinadoras, mas também, na cobertura mediática e financiamento, para a modalidade.

Naturalmente que com todas estas condições que se alinham, o fenómeno do alcance das “massas”, traduz-se num acréscimo de praticantes a entrar na modalidade, especialmente, nas camadas mais jovens. O referido relatório evidencia um crescimento de 73% no que toca às camadas jovens, com mais de 34 mil novas equipas registadas. Este tem sido o trajeto das grandes potências da Europa – Alemanha, França, Inglaterra, Suécia e Noruega.

Este fenómeno, em contexto internacional, não tem passado despercebido pelos media: o campeonato do mundo, no Canadá em 2015, teve um retorno financeiro expressivo. 92% de share, com mais de 3,52 milhões de pessoas a assistir, direta ou indiretamente.

Portugal – país com tão longa história e tradição associada ao futebol – “não é exceção e na seleção nacional, estamos a fazer história.” A nossa seleção conseguiu um histórico apuramento para o campeonato da Europa, que decorrerá em junho na Holanda. Segundo dados da federação portuguesa de futebol (FPF), de 1990 até 2018 o número de jogadoras, a nível sénior, subiu de 375 para 1073. “Estamos frente a frente com seleções de um ideário e historial enorme no futebol feminino. Estamos a debater lugares com elas. Estes últimos 5 anos foram a prova do trabalho que tem vindo a ser feito.”

“É muito bom perceber o progresso do futebol feminino nos últimos anos. Na seleção, estamos a fazer história. O que vem dai só pode ser melhor. O que as nossas meninas e mulheres estão a fazer, é de louvar tem de haver uma maior aposta no desporto feminino, no geral e o futebol é igual.”

Álvaro Bastos lida com as guarda-redes da seleção portuguesa, nos escalões de formação. Tanto no futebol como nos restantes desportos coletivos, as guarda-redes têm “um estatuto diferente. Há uma especificidade de atleta. O facto de usar as mãos (…) a presença do adversário é uma condicionante ao ato da GR. Nunca sabe as intenções das adversárias. Tem de estar em constante estado de prontidão”.

E a sua estratégia de captação é clara: “para mim o mais importante é perceber a potencialidade da atleta”. Quanto aos métodos de treino e resultados que procura, acentua que “os treinadores que trabalham com GR (…) Tentamos estimular a adaptabilidade, a capacidade de solucionar problemas, construir soluções com eficácia. Uma GR à Portugal tem de ser variável e isto tem de estar bem assente logo nos treinos”.

Para isto acontecer e tendo em vista a participação ativas das guardiãs no contexto de jogo, o técnico foi, ao longo da sua elocução, fazendo perguntas, respondendo a questões e fundamentar a teoria, com exemplos de jogo, em registos de vídeo. “Desde passos longos, a curtos, a médios. Há determinadas situações em que a GR dita situações positivas. Queremos que a GR perceba o jogo. As necessidades do jogo. São vários os momentos em que uma ação positiva da GR criam uma oportunidade de avançar no campo e alterar o resultado do jogo”.

O treinador, tendo em conta as características das jogadoras portuguesas, considera ser muito importante “estimular a adaptabilidade”. Na ações defensivas- solucionar problemas- e ações ofensivas- construir soluções com eficácia. Quanto à expressão “Jogar à Portugal”, o técnico explica: “existe muito controlo de profundidade no jogo de Portugal. Em treino damos muito ênfase no treino ao controlo de profundidade. No jogar à Portugal, a GR faz muita distribuição com o pé.”

 

A Seleção Portuguesa de Futebol Feminino está ainda numa fase de crescimento e o técnico vê ainda muitas arestas a ser limadas: desde os clubes de formação, massa associativa e adeptos, financiamentos, visibilidade e resultados. “É muito bom perceber o progresso do futebol feminino nos últimos anos, mas o que vem daí só pode ser melhor. O que as nossas meninas e mulheres estão a fazer, é de louvar.” Contudo, a realidade portuguesa ainda está muito atrasada, em termos de formação de atletas, tendo em vista algumas potências do futebol europeu e mundial. “Nas GR da formação, na maioria, a realidade da GR são meninas descoordenadas, técnica pouco evoluída (…) Isto justifica-se pelo pouco investimento dos clubes, a pouca especialização dos profissionais e, no caso das GR, muitas vezes, é o terem apenas um treinador para lidar com toda a equipa.”

A solução são os métodos de treino: “optamos por trabalhar o analítico, o particular, promover a biomecânica e a técnica (…) Tem de ser passo a passo. O objectivo fazer com que as GR tenham transparência com os colegas, opacidade com adversários, sempre conscientes que o jogo é uma infindável de variáveis. E essa é “uma mensagem permanente, o estarem preparadas para tudo.”

 

O perfil da GR portuguesa

Para ser guarda-redes de futebol é necessário reunir determinadas habilidades para se conseguir ser notado: eis a lista referida pelo treinador.

Coragem

“O contacto físico, até o mais bruto, faz parte do jogo. Atirar-se aos pés de um atacante que está prestes a dar um chuto é essencial em várias ocasiões de jogo”.

Disciplina

“O treino do guarda-redes é feito de forma específica, afastado dos outros jogadores e com a ajuda de um treinador específico. Muito mais repetitivo, com o intuito de aprimorar certas características.”

Concentração

“Ficar atento a todos lances faz com que esteja sempre preparado para as mais diversas casualidades do jogo.”

 Comunicação

“Um guarda-redes de qualidade ajuda os seus companheiros a organizarem-se em campo.”

Noção de espaço

“É de extrema importância que tenha noção do espaço que ocupa e do espaço que o adversário ocupa. Precisamos de gr com boas leituras.”

Jogar com os pés

“As nossas gr tem confiança, ficam com a bola no pé, aguardam, tomam decisões, observam jogo.

 

“A jogadora deve ser inteligente, criativa, com capacidade de ajustamento, comprometida com o coletivo, amar o futebol, patriota, capacidade de superação. “

 

Os desafios impostos pelo futebol feminino em Portugal

 

“Na GR da formação, na maioria, a realidade da GR é que são meninas descoordenadas, a sua técnica é pouco evoluída. O que fazemos é optar por trabalhar o analítico, o particular, promover a biomecânica e a técnica”. A falta de investimento no futebol português, ainda é uma realidade. Nos clubes de origem das atletas, são ainda poucos os clubes que na sua equipa técnica incluem o treinador(a) de GR. O tempo de treino especializado é reduzido. A atleta dedica o seu tempo a outra atividades profissionais, para além do futebol. Entre outras. O que resulta numa limitação de treino: “no masculino, todos tem treinador de GR. Isso não se nota. Tem a ver com as circunstâncias dos clubes, as apostas que fazem.”

Mas é esperançoso em relação ao futuro. “Estão a ser tomadas medidas para alterar isso. Tem de ser passo a passo.

A prática desportiva, sobretudo a de alta competição, acarreta para as atletas, níveis cada vez mais elevados de pressão competitiva. A pressão aumenta. Intensificam-se as competições. O treinador reconhece ser o fator anímico e psíquico, o mais difícil de lidar.

“O mais difícil de tudo é lidar com o psicológico. Com o estado anímico, essa é a parte mais difícil. Resolver crises emocionais, no feminino. Sente-se mais necessidade.”

 

 

 

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