Feminismo(s) em confronto

Iniciou-se um ciclo de sessões dedicado ao feminismo, à história deste movimento, assim como às conquistas já conseguidas.

O “Feminismo(s) em Confronto” objetiva falar do movimento feminista como o grupo de Jovens do Bloco de Esquerda o entende: interseccional “intolerâncias baseadas em crenças”. E, sobretudo, o grupo pretende alcançar uma sociedade socialista.

No primeiro encontro o propósito foi desconstruir a masculinidade tóxica e o quotidiano das mulheres. E assim continuarão.

O #infomedia entrevistou as organizadoras da primeira sessão – Catarina Alves, Inês Ribeiro Santos, Joana Ferreira, Sara Azul.

 

Como nasceu esta ideia (encontros feministas)?

Os “Feminismo(s) em Confronto” refletem uma vontade coletiva em reivindicar um espaço feminista no qual nos possamos juntar, de tempo a tempo, e conversar abertamente sobre a história do movimento feminista e sobre as lutas que temos ainda pela frente. Mais do que nos cingirmos a uma exposição teórica das diferentes vagas do movimento feminista, preocupamo-nos também em entender o que delas podemos retirar para o nosso ativismo diário.

E nem sempre as sessões incidirão sobre a história deste movimento: enquanto espaço informal, é também nossa ideia trazer para cima da mesa outros assuntos inerentes ao ativismo feminista. Daí iniciarmos este ciclo não com uma conversa sobre a 1ª vaga feminista, mas sim sobre um outro tema: a masculinidade tóxica. Surgiu por transversalmente nos tocar a todas, como poderão sugir outros tema, consoante o interesse/necessidade de quem dinamiza e de quem participa – ou quer participar – nos Feminismo(s).

Quais são os públicos que querem atrair?

Este tema afecta toda a sociedade e, portanto, é difícil definir linhas um torno dum público ideal. O requisito é tão simples como terem vontade de ouvir e/ou de contribuir para a conversa.

Todas as pessoas serão bem-vindas desde que venham com espírito aberto e dispostas a fazer uma reflexão crítica. Muitos dos comportamentos e opressões são de tal forma naturalizados que tanto homens como mulheres nem percebem o significado e a carga repressora que os mesmos contém. As mulheres porque aceitam determinados comportamentos socializados como naturais, os homens porque, como nunca sentiram essa repressão em si ou contra si, não se apercebem dos comportamentos quotidianos que eles próprios reproduzem. Às mulheres para lhes dizer que não estão sozinhas e que não têm que aceitar serem oprimidas, aos homens para que reconheçam o lugar de privilégio onde se posicionam e possam mudar comportamentos.

Porque é importante alguém se identificar com o feminismo?

É importante saber o que é o feminismo e o que o feminismo representa tal como é importante chamar as pessoas para esta luta. Muito mudou no activismo feminista desde o início do movimento sufragista do final do século XIX. A igualdade, infelizmente, não é efetivada por decreto e o movimento feminista debate-se agora por uma mudança radical e estrutural na sociedade, em suma, uma luta pela igualdade plena entre homens e mulheres.

Além disso, não basta dizer-se humanista ou pelos direitos humanos, e este é um longo debate. Identificar-se com o feminismo é um reconhecimento que as mulheres, e não todos os seres humanos, sofrem de uma opressão específica e só a partir desse reconhecimento é que é possível combater essa desigualdade através de políticas e campanhas concretas que façam um trabalho de consciencialização e de mudança por uma sociedade igualitária.

Como olham para o feminismo que é feito nas redes sociais?

As redes sociais são uma óptima ferramenta para chegar a mais pessoas e mais depressa, para partilhar histórias, para sabermos de mais histórias, para nos identificarmos e nos sentirmos menos sós. O movimento #metoo demonstrou muito bem isso por ter conseguido incluir mulheres de todo o mundo e demonstrar que não é algo casual, acontece a todas as mulheres, de todas as religiões, classes sociais, nacionalidades, idades, tipos de corpo, expressão de género, estilo pessoal: é transcultural. E isso foi uma mensagem forte a ser passada, que demonstrou a dimensão do problema.

Mas as redes sociais não chegam a todas as pessoas, até porque nem toda a gente tem, sequer, acesso à internet, quanto mais contas ativas em redes sociais. Além disso, as redes sociais, e todo o espaço online, estão viciadas para que nos chegue informação com que já nos identifiquemos, portanto há uma grande probabilidade que mais de 90% da informação e ativismo feminista chegue apenas a quem já se identifica com o feminismo. As redes sociais não podem, por isso, se fazer substituir às sedes, às ruas, aos espaços de debate presenciais e aos movimentos sociais ativos fora do espaço online.

Sem esses espaços de combate definido, não deixando de fazer das redes sociais uma ferramenta para o mesmo, não há movimento feminista transformador capaz de alterar os lugares de poder, entre opressores e oprimidos, seja no feminismo, seja em qualquer outro combate.

Como estão em Portugal as relações de igualdade homem/mulher?

Após o 25 de Abril, as mulheres conquistaram vários direitos que lhes eram já devidos há muito tempo, caminhando para uma maior igualdade entre si e os seus pares masculinos. Porém, tal como não podemos falar de uma total e completa igualdade na altura, não o podemos também fazer nos tempos atuais.

Um dos melhores exemplos é a diferença salarial entre homens e mulheres em Portugal, com as mulheres a (ainda) ganharem menos que os homens. A somar a esta discriminação salarial, vemos também que o tempo dispendido em tarefas domésticas é 1h45min a mais, por dia, para as mulheres, tempo este que representa uma continuação da jornada de trabalho das mulheres. Estes factores determinam desde já que existam relações de poder e discriminação que fazem parte do quotidiano no nosso país. Com o crescente de focos de extrema direita em Portugal, o machismo enraizado que parecia silenciado voltou a reaparecer em força e nenhum direito adquirido pode ser dado como certo.

E com isto, deixamos por mencionar graves agressões, como a violência sexual, maus-tratos físicos, as relações interpessoais em que as mulheres são vistas como propriedade, bem como as micro-agressões, tão enraizada, das que os nossos pares nem se apercebem. Daí a necessidade constante de reafirmação da luta pela igualdade entre homens e mulheres.

Como identificam a masculinidade tóxica? E podem dar exemplos?

Por “masculinidade tóxica” entende-se o conjunto de características (estereótipos, a bem dizer) que compõe a ideia do homem como o ser socialmente dominante: a força, a coragem, a competitividade, a liderança, etc. A ideia enraizada de que os homens têm que ter essas características, ao contrário de uma ideia mais submissa, fraca, tímida, subversiva e serena, atribuída às mulheres, faz com que estes tenham determinados comportamentos para afirmação dessa mesma identidade. Há exemplos muito claros no dia-a-dia: interromper as mulheres enquanto falam – quer em contextos profissionais, quer em contextos sociais -, a concordância com a opinião de uma mulher apenas depois de a mesma ter sido validada (ou repetida!) por outro homem, a descredibilização de colegas ou chefes do género feminino, assumindo ou insinuando que os seus méritos se devem aos seus atributos físicos, sexualidade ou por serem as “queridinhas” de professores/as e/ou chefias – mas nunca pelas suas qualidades, esforço ou capacidades. A lista poderia continuar.

As diferenças do quotidiano das mulheres está assim tão diferente do que era dos dois séculos passados?

Tanto a nível salarial como no quotidiano, a participação das mulheres na sociedade não é de todo equivalente ao papel do homem, e enquanto isso acontecer consideramos que muito ainda está por mudar no que toca à igualdade de géneros. No foro político, o nível de participação das mulheres pouco mudou nos últimos anos, continuando a haver uma discrepância no número de mulheres com assento parlamentar, por exemplo. Ainda que, dos 21 eurodeputados portugueses eleitos no passado dia 26 de Maio, 9 sejam mulheres, dos cabeças de lista a estas eleições só um partido apresentava uma mulher no primeiro lugar, e isto quer certamente dizer alguma coisa.

O que pretendem herdar destas tertúlias?

Não é uma questão de herdar, mas de passar uma mensagem, uma linha contínua do pensamento feminista que queremos manter e desenvolver. O feminismo e a luta feminista não morreu apesar dos significativos avanços no sentido da igualdade. Falta descentralizar o papel de poder ou força no sexo masculino e desconstruir ideias que infelizmente ainda se encontram enraizadas no nosso quotidiano. Só com um feminismo presente e activo é possível uma verdadeira igualdade entre géneros e debates como este servem esse propósito. Este é um espaço de alerta, de partilha e de construção de ferramentas para o dia-a-dia. E o que poderá ser, estamos ainda a descobrir.

 

 

 

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