#RelatosFardados: “Esta instabilidade assusta-me”

Alfredo Carmo fez de Coimbra a sua casa há dois anos. É portuense de gema e no Rio Douro, treinou a sua coragem para enfrentar ventos e marés de mudança. Desde cedo, viu na canoagem a sua paixão. Aos 21 anos, confessa-se “guiado pelos lemas de família”. Percebeu, desde cedo, que o seu caminho teria de passar pelas cores do exército português.

“Estava no secundário, sempre quis andar na tropa”. Confessa que foi influenciado pela sua figura familiar: “o meu pai também esteve na tropa, no tempo era obrigatório”. A sua rotina alterou: os treinos passaram a ser essencial para a corrida atrás deste sonho.

“Sempre gostei, treinava e gostava de desafios (…) Acabei o secundário, tentei alguns trabalhos.” As Forças Armadas representavam, para si, o único caminho a seguir. Fez os testes duas vezes e na segunda, entrou. Fez três meses de recruta em Abrantes, Santarém. “É impossível esquecer. O meu pai levou-me. Estava tão ansioso.” Confessa que na tropa, encontrou “um mundo diferente, não estás preparado”. A disciplina, o rigor, a exigência torna-se um desafio para quem, cá fora, estava livre das amarras da rotina militar.

“O exercito é digamos que mais desafiador”. Diz, ver no exército um local para crescer. Os outros recrutas, companheiros de batalhão passam a ser irmãos e irmãs. “Há um espírito em ti de união (…) em relação às pessoas, à família (…) muita responsabilidade. Lá todas as asneiras tem consequências (…) Tudo muda, o estilo de vida, decisão de vida. Há uma mudança súbita do ritmo (…) depois da recruta, o ritmo leva-te a exaustão”.

E, relembra que para sempre ficará marcado por esta passagem, mesmo que não veja o seu futuro, de farda. “Gosto da tropa (…) eu pensava “quero fazer disto vida” (…) Uma pessoa chega a recruta, sabe o que é a vida e altera essa ideia e mudamos o nosso rumo e as nossas vontades. Não quero isto para sempre mas sei que é uma boa rampa de lançamento para as pessoas.”

Entrada para as Forças Armadas: espírito patriota ou motivação pessoal? 

“O espírito de patriota existe e é pessoal (…) mas eu também entrei para a tropa porque eu queria mas também pela vida cá fora. Não está fácil e é um bocado por ai. Há duas vertentes: as pessoas que vem com esse espírito, mas também acho que é muito pessoal (…) pode ser também uma tentativa de organizar um país”.

Os momentos de proximidade com os cidadãos comuns são sempre diferentes. Cada um, com a sua voz. Cada qual, com a sua reação. “Eu já vi de tudo (…) há pessoas que admiram (…) há pessoas que te abordam. Uns dizem que somos palhaços, outros heróis. Não sei bem qual é a opinião geral, mas acho que deviam ter mais respeito”, suspira. “Porque afinal de contas é a imagem do país”.

“Dizem que é um “ganha-pão”, mas estão mal informadas (…) eu não ganho mil e tal euros como pessoas que já me abordaram, pensam”. O descargo de consciência deste jovem militar, é claro. Ponderado e madurecido nestes passados três anos. Os 21 anos de vida e a

“Depois há as pessoas de antigamente que combateram no Ultramar”. Nesta situação, Carmo partilha que os que procuram falar com ele, procuram, às vezes, conforto pelo tempo que não volta. O ultramar é, nas forças armadas, um passado de memória. O jovem confessa que é muitas vezes abordado pelos ex-combatentes. Muitos, dizem que os tempos mudaram para pior. Outros acham que as batalhas já não são homem a homem. A máquina monopolizou os campos de confronto.

 “A inovação tecnológica ajuda a não sofrer tanto (…) há uma melhoria das fardas, das armas, dos processos militares e isso altera tudo.”

O Exército Português regista, ao longo da última década, uma quebra no número de membros efetivos. O alerta vermelho é real. As opções são estudadas: o governo pretende fomentar novos incentivos de longa duração, aumento das remunerações e propostas de promoções. As estratégias de comunicação são, também, uma solução.

“A propaganda que o exército faz é esforçada mas bem (…) têm de fazer a sua propaganda (…) tu vês (…) está na televisão, na rádio (…) é um pouco por aí. As pessoas tiram daí essas opiniões (…)”.

Carmo, como carrega na sua farda, fala sobre o material no exercito português. Lida pouco com o material bélico. Ocupa-se, no Hospital Militar de Coimbra, da saúde e apoio dos cidadãos.  “(…) A minha parte é a saúde (…) não o armamento (…) trabalhamos com o que temos, vivemos conforme o dinheiro que esta disponível.”

Saúde: a escolha que o fez mais feliz

Sobre a sua escolha: saúde, não se arrepende. Diz, não estar arrependido. E, reconhece, que levará ensinamento para a vida. “Voltaria a entrar para a saúde. Voltava a escolher sobre todas as especialidades, que são várias, de todo o tipo.” E, menciona-as “a saúde, a infantaria, campanha – relacionada com as armas, artilharia-, condução de vários tipos de viatura, mecânica, cozinha, serviços, transmissões”.

A escolha da área militar, foi refletida para um futuro próximo: a vida civil. “Na escolha de especialidade pensei no futuro, sabia que quando viesse cá para fora, pensei (…) eu se vier cá para fora e sair de campanha apenas vou saber mexer num arma, já na parte da saúde e não só, já tenho vários cursos feitos TAT E TAS” – cursos relacionados com transporte de doentes, em emergência, transporte de ambulância em socorro, trauma, ambulância – “o exercito deu-me a possibilidade de fazer isso de forma gratuita e que pode ser aplicado cá fora. Aliás o INEM dá esse curso e não é nada barato (…) já tenho o curso, não paguei e pode ser aplicado cá fora, no mercado de trabalho (…) e há outras, a condução, mecânica, por exemplo. Saís com certificados, com todas as cartas. Como cidadão sinto gratidão no exército, em fazer o que posso, ajudar naquilo que sei e na vida civil imagino me a fazer também isso.”

Recorda quem era antes da tropa. Reconhece o quanto cresceu “lá dentro”. “Ficas com mais sentido de responsabilidade (…) não estava preparado para o impacto do exército, sair de casa estar longe da família mas felizmente nem tudo é mau. Há camaradas que estão mais longe.” Sobre as relações interpessoais, o jovem militar diz que, dentro da tropa, é mais difícil manter o contacto. Manter a proximidade. As relações saem, desta forma, prejudicadas. “Há dificuldade de manter uma relação (…) ambos os lados esforçam-se e resulta, contudo também já vi coisas a acabarem por causa da distância. O jovem sente não estar “a perder o melhor desta fase (…) a vida não é tão normal, mas acho que não estou a perder nada que um jovem, precisa e quer”. Reconhece, aliás, que a tropa intensifica os laços com aqueles que vestem a farda. “Gosto das pessoas dentro da tropa, as que estão comigo 24 horas, 7 dias por semana (…) adoro as pessoas que trabalham e vivem comigo, todos os dias. Vivemos ali todos (…) é uma família., Seja qual for o local, a sensação é a mesma.”

Confessa-se uma amante do desporto e é a pelo desporto, que quer fazer vida. “Quero tirar desporto e em Coimbra há varias possibilidades.

Alfredo Carmo foi promovido a Cabo, recentemente

Ficar ou sair: as interrogações de um militar

“No exército existe uma instabilidade muito grande (…) trabalho com muita gente que é dos quadros. Não é estável. De dois, três, quatro anos estás sempre a mudar de sitio, mudar de rotina. Tens uma coisa enraizada com a família, com poses e porque sim, tens de alterar tudo isso e saltar para outra unidade. As vidas mudam assim «mostra-se reticente» e essa instabilidade preocupa-me.

Deixa um comentário