Francesinha no Porto: da tradição à inovação

No Porto, além das francesinhas tradicionais, encontram-se também inovações; restaurantes que optam agora pelo queijo da serra, substituem o bife pela versão vegetariana e o pão bijou pela massa de pizza. Quem é que agora poderá dizer que não sabe onde encontrar a francesinha ideal?

Como uma das muitas inovações, surge a francesinha de massa de pizza n’ O Caçula Restaurante. Este restaurante nasce em 1969, com um espaço tradicional e pratos da cozinha portuguesa. O Caçula esteve na Rua Bonjardim até 2012 e no ano seguinte, prosseguiu o negócio na Praça Carlos Alberto, desta vez com uma abordagem particularmente distinta. O menu de almoço manteve-se e o equilíbrio entre qualidade-preço continua a agradar aos clientes, mas foi nesta nova “casa” que surgiram diferentes alternativas de pizza e a francesinha como principal novidade. O forno a lenha, que se vê logo à entrada, é uma das razões de sucesso dos pratos confecionados n’ O Caçula.

Jorge Ribeiro, gerente do estabelecimento, esclarece que esta alternativa surgiu como “decisão de otimizar e aproveitar o recurso do forno a lenha e substituir pela massa de pizza que lhe confere uma leveza maior que a francesinha tradicional”. O que diferencia esta francesinha das restantes é precisamente a  combinação da massa de pizza com os ingredientes tradicionais. O bife, a salsinha e a linguiça da salsicharia Leandro, não puseram como hipótese alterar, mas queriam uma alternativa que permitisse ao cliente não ficar tão “enfartado”.

“Os clientes que procuram a típica francesinha questionam, mas depois de provarem gostam precisamente por ser diferente”, garante Jorge.

Apesar do novo conceito de restauração que cresceu na Praça Carlos Alberto, o gerente confessa que houve uma tentativa de que o molho fosse o original, “com as carnes e com a cerveja”. Mas pensaram em duas sugestões com o objetivo de fugir ao registo tradicional da francesinha, a alternativa da carne de porco preto, “como uma versão mais pesada, totalmente diferente” e uma proposta mais leve “a combinação de frango com vegetais grelhados”.

A maioria dos clientes, que compreende a faixa etária entre os 25 e os 40 anos, aprecia a inovação d’ O Caçula Restaurante, sendo a francesinha de bife de novilho e ovo, com massa de pizza, em forno de lenha (€10,95) um dos pratos com mais procura na casa.

 

Francesinha O Caçula sem ovo, fotografia: Rita Castro

Francesinha O Caçula sem ovo, fotografia: Rita Castro

A mítica sanduíche portuense terá nascido no restaurante A Regaleira que abriu portas em 1934 e começou a servir a partir de 1952.

Este restaurante, situado na Rua do Bonjardim no Porto, cresceu pelo sucesso de Daniel Silva que assim que regressou de França e Bélgica, criou a francesinha com base na tosta francesa, croque-monsieur, acrescentando-lhe o molho de cobertura que é ainda hoje um “segredo” bem guardado. A francesinha d’ A Regaleira, é feita originalmente com bife de perna de porco assada e pão bijou, sempre confecionada no forno a lenha.

O histórico restaurante foi classificado como um dos estabelecimentos “Porto com tradição” e esta francesinha foi considerada uma das melhores do mundo em 2011. Em 2018, A Regaleira encerrou permanentemente.

E se o tema são as francesinhas na cidade do Porto, é praticamente impossível não mencionar O Café Santiago. Este estabelecimento terá aberto portas por volta dos anos 30, mas foi em 1959 que abriu oficialmente. Até então, a francesinha “Santiago” é uma das principais referências quando se procura a típica Francesinha do Porto.

O sucesso desta “casa” e desta francesinha em muito se deve à qualidade e devoção para com os clientes. Quem o confirma é Filipe Pereira, um dos proprietários:

“muito trabalho, dedicação, preocupação com os “materiais” que utilizamos e também a sorte de termos um molho que parece que faz a diferença em relação a muitas outras francesinhas e que agrada muito às pessoas”.

O molho especial é um segredo bem guardado da família e que confere à Francesinha Santiago, o estatuto de maior referência na gastronomia do Porto. Mas este não é único fator que diferencia esta francesinha das restantes – “a salsinha do Leandro, que é também a mais conhecida e utilizada na cozinha do Porto, a forma como grelhamos a boa carne e como tostamos o pão previamente cozido a lenha, representa todo o conjunto da francesinha que é muito bem conseguido” – salienta.

As intermináveis filas na rua Passos Manuel, o desejo, principalmente dos turistas, em provar esta iguaria tão típica e a pouca capacidade a nível de espaço, foi o suficiente para no Dia de Santiago, a 25 de Julho de 2017, se abrisse um novo espaço. Café Santiago da Praça, situado na Praça dos Poveiros, um local mais espaçoso, moderno e muito perto da casa-mãe.

“Mas quantas francesinhas por dia se servem afinal no Café Santiago?”, Filipe Pereira recua, sorri e confirma: “É confidencial. Posso apenas dizer-lhe que são muitas!”.

Francesinha Café Santiago, fotografia: Rita Castro

Francesinha Café Santiago, fotografia: Rita Castro

Para além das francesinhas tradicionais servem-se francesinhas vegetarianas e 100% vegan no Lado B Café. Situado na Rua Passos Manuel, mesmo em frente ao coliseu, conhecemos inicialmente a francesinha tradicional Lado B, que terá surgido a partir da inspiração da receita original que nasceu no histórico restaurante A Regaleira.

Em 2013, nasce “A Melhor Francesinha do Mundo” como uma nova marca cujo objetivo seria promover a qualidade e prestígio de um dos principais símbolos gastronómicos da cidade.

Artur Ribeiro, proprietário do estabelecimento, confessa que a ideia de criar uma francesinha vegetariana surgiu em 2015, “a pedido de vários clientes”. Este espaço, que combina música, arquitetura moderna e preços acessíveis, optou por fazer uma pesquisa mais profunda no mercado gastronómico e “através da importação conseguimos excelentes produtos que agora usamos na nossa vegetariana”, justifica.

Esta francesinha que surgiu segundo “os preceitos mais exigentes da cultura vegan” é constituída por pão de forma, fatias de papillon, salsicha de soja, beringela, queijo e o típico molho. Além da alternativa vegetariana, “dispomos ainda da francesinha 100% vegan, com queijo vegetal e certificada pela Aliança Animal”.

Aparentemente, os clientes recebem bem esta inovação: “as pessoas adoram, desde a primeira hora, toda a comunidade vegetariana ficou rendida à qualidade desta nossa francesinha”. O que nos confessa o proprietário é que os defensores da francesinha tradicional terão ficado reticentes quanto a esta novidade, mas…

“o que importa para a nossa postura empresarial é a inclusão de todo o tipo de clientes, principalmente no que diz respeito às suas preferências”.

No Porto, a adesão diária à francesinha vegetariana depende mesmo dos dias, mas varia entre as 10 e as 60. “Depois temos em Braga, com ótimo grau de aprovação também”, acrescenta Artur.

A partir de meados de Junho no Mercado Bom Sucesso, para além da francesinha tradicional, será possível encontrar também esta opção na ementa.

O que todos sabemos, pelo menos os que conhecem bem a cidade Invicta, é que a “alma” de qualquer francesinha é o molho. A combinação de carnes de qualidade e bebidas fortes permitem que, na maioria das vezes, o molho seja picante e “agressivo”.

O que muitos desconhecem é de onde terá surgido a denominação “francesinha”. Fazendo um recuo ao mítico restaurante A Regaleira, referimos mais uma vez Daniel David Silva. Segundo reza a lenda, este que pode ser considerado o pai da francesinha, optou por dar este este nome à iguaria porque a mulher mais picante que conhecera terá sido francesa.

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