Mundo das rendas de bilros de Vila do Conde

É no Solar urbano do século XVIII que se situa o Museu das Rendas de Bilros. Numa almofada tradicional estão os bilros e as mãos de quem dá o coração nesta arte de rendilhar. A Escola de Rendas encontra-se no interior do Museu e o seu principal objetivo é garantir a continuidade desta herança cultural vilacondense.

 

A ORIGEM

Em 1919 com a criação da Escola de Rendas, o trabalho das rendilheiras ganha particular qualidade, especificidade e maior visibilidade. Contudo, nos anos 50 e 60 com a mudança de hábitos e de estilo de vida, verificou-se um declínio desta tradição. A partir de 1974, graças a diversas ações desenvolvidas, nomeadamente a criação do Centro de Artesanato, a Feira Nacional de Artesanato e a abertura do Museu de Rendas, deram um forte contributo à preservação desta arte que, agora, conquista a certificação. O declínio das rendas de bilros fez com que muitas rendilheiras vilacondenses desistissem e optassem por novas profissões, outras continuaram esta tradição partilhando-a com os membros mais novos da família. É o caso de Constança Paula, de oito anos, que pratica rendas de bilros deste que se lembra, afirma que começou a aprender “porque quando era pequenina tinha uma tia que fazia e quis experimentar.” Confessa que não é difícil de fazer e que tudo aquilo que aprendeu foi na Escola de Rendas de Bilros com a professora. A arte de rendilhar ultrapassa gerações em Vila do Conde e com a criação da Escola e do Museu foi necessário estabelecer normas.

Manuela Pereira, coordenadora, começa por contar a história de um local tão nobre em Vila do Conde. “A Escola foi criada em 1919, havia a necessidade de fazer um estudo, de criar novos pontos, de sistematizar o estudo das rendas. Daí haver uma evolução.” Acrescenta que “foi criada a Escola com uma direção, que ficou depois em 1948 anexa à Escola Aurélio de Sousa, no Porto, e só depois de 25 de abril é que passou a estar adstrita à Escola secundária José Régio, em Vila do Conde.” Salienta que “depois disso tudo, e da necessidade também de mostrarmos ao público o que se tinha feito na Escola de Rendas, houve a necessidade de aproveitar aquilo que existiu, e que era de facto importante criar um Museu.” Assim apareceu o museu em 1991. Manuela Pereira ressalva que o Museu foi criado com um propósito. “O museu foi criado em 1991 com o intuito de preservação das rendas de bilros, foi constituído um acervo valioso com piques e desenhos.” Com a abertura do Museu as pessoas também começaram a doar aquilo que tinham em casa. “Depois de todo o desenvolvimento nós fizemos um estudo sobre aquilo que havia sobre as rendas edemos a conhecer o mais abrangente possível ao público”, recorda Manuela.

Museu das rendas de bilros. Fotografia: Mara Craveiro

A arte de rendilhar. Fotografia: Mara Craveiro

VAMO-NOS PERDER NA ARTE DE RENDILHAR

A Escola de Rendas conta com alunas de diferentes idades e para além das aulas existe também quem esteja lá apenas para praticar a arte. É o caso de Alice Veiga. “Eu comecei a renda de bilros muito novinha, comecei a aprender com 5 anos, depois tive uma série de anos sem fazer e voltei agora. Estou a trabalhar seguido há perto de 20 anos.” Quando questionada sobre como caracteriza a rendilheira vilacondense, Alice revela: “eu às vezes até a chamo sensual porque é muito bonita a trabalhar, se estiver na postura correta, as suas mãos são maravilhosas de ver trabalhar, esta é a diferença que eu encontro na rendilheira de Vila do Conde.” Apesar de ser uma arte com bastante tradição existem muitas pessoas que não conhecem o que é realmente a prática de rendilhar. Maria de Fátima Coelho, rendilheira profissional, esclarece de que modo se fazem as rendas de bilros.A técnica é fazer renda de bilros que é o ex-libris de Vila do Conde. Temos de ter uma almofada, um pique, que é cartão, depois tem o desenho e nós vamos pondo os alfinetes, a linha e estas “maçarocas” que se chamam os bilros. Depois enrola-se aqui a linha e a técnica principal é saber “começar a volta”. É a primeira coisa que se faz, é a base de tudo.” Apesar de todos os anos que marcam o seu amor pela tradição, anteriormente foi professora numa escola de ensino básico e admite que nunca se esqueceu da forma como se faz. “Após a reforma quis voltar” afirma Maria.  Enquanto continua a sua renda e as mãos não param de trabalhar, salienta: “existem vários pontos que se fazem, mas eu não os sei todos e demora tempo a aprender, no entanto a técnica principal é saber a volta, depois daí vão-se fazendo todas as rendas.”

 

A almofada e os bilros. Fotografia: Mara Craveiro

Criação de uma renda de bilros. Fotografia: Mara Craveiro

As almofadas. Fotografia: Mara Craveiro

 

RENDA DE BILROS DE VILA DO CONDE NO GUINESS

Este Museu, hoje, é muito dinâmico porque uma das suas maiores atrações encontra-se na sala principal, a maior renda do mundo. Manuela Pereira esclarece que esta renda é “composta por 437 quadrados de renda que foram oferecidos voluntariamente.” constata que “primeiro, foi dado o mote pela Presidente da Câmara para ver se as pessoas que sabiam fazer rendas aqui em Vila do Conde estavam interessadas em contribuir com um quadrado de renda de 30 centímetros por 30 centímetros.” Ao todo 150 pessoas entre senhoras e crianças trouxeram umas um quadrado e outras dois e assim se juntaram 437 quadrados de renda.

O sonho de ser a maior renda do mundo estava perto de se concretizar sem que fosse possível acreditar que Vila do Conde iria ser reconhecida internacionalmente por este feito. “Como isto deu uma renda deste tamanho foram contactados os representantes do Guiness, que vieram cá e no dia 2 de agosto de 2015. Depois de terem medido e verem que realmente não havia outra igual a esta, atribuíram o certificado da maior renda do mundo que esteve um dia colocado na Nau Quinhentista, como se fosse uma vela”, recorda a coordenadora.

Revela também que “quando a renda voltou aqui para o Museu um arquiteto concebeu uma estrutura gigantesca em acrílico, onde os quadrados foram colocados todos juntos pelas rendilheiras que estiveram durante seis meses a juntá-los. Por fim, deu esta renda imensa com esta multiplicidade de cores que realmente é a nossa principal atração.”

A maior renda de bilros do mundo. Fotografia: Mara Craveiro

Os bilros. Fotografia: Mara Craveiro

 

O ENSINO DA ARTE

A arte de rendilhar parece algo fácil, mas engana-se quem acha que não é preciso praticar anos a fundo. Isabel Salazar, monitora da Escola de Rendas de Bilros, relata: “eu faço rendas de bilros desde os meus três anos de idade, eu tenho 54 por isso são 51 anos já. Eu costumo dizer que quase que nasci dentro desta escola porque a minha mãe era professora aqui e a minha avó foi a primeira professora.”

Seguiu as pisadas da mãe e da avó. Confessa que a maior motivação para começar a rendilhar foi a família, principalmente a sua mãe que trabalhou nesta Escola durante 42 anos. Hoje, confirma que tem aproximadamente 45 alunas, 30 crianças e 15 adultas.

Tendo em conta que esta arte nem sempre se afirmou como uma prática ativa na comunidade, Isabel acredita que por ela a tradição vai perdurar no tempo e na história da cidade. Eu tento transmitir o gosto pela renda de bilros para que a tradição continue firme, embora hoje em dia não é muito fácil porque a carga horária das escolas é muito pesada e o tempo livre é muito pouco.”

Margarida Miranda tem 11 anos e quando se encontra de férias está todos os dias na Escola de Rendas a praticar para aperfeiçoar a técnica. Confidencia que adora rendilhar e que pretende manter esta prática no seu dia a dia. “Eu acho interessante e eu também gosto muito de história, e isto faz parte da história, e também é muito bom para a concentração.” Admite que fazer rendas é fácil para quem pratica e que tudo aquilo que aprendeu foi com a antiga professora, mas a maior parte foi com a monitora Isabel Salazar na Escola de Rendas.

Alunas na Escola de Rendas. Fotografias: Mara Craveiro

Renda feita por uma aluna. Fotografia: Mara Craveiro

Este é o único Museu de Rendas de Bilros em Portugal que procura através desta Escola dedicar-se ao ensino da técnica. O objetivo é garantir a continuidade da arte e honrar o facto da renda de bilros de Vila do Conde ser a única com certificado nacional.

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