Memórias do Estado Novo #1 – Alberto da Conceição

Alberto da Conceição tem 75 anos. Aos 21 ficou ferido numa emboscada em Mueda, Moçambique durante a Guerra do Ultramar e viveu o resto da sua vida sem o braço esquerdo. Hoje revisita com pesar esses tempos.

“Angola é Nossa. Angola é Nossa”, gritava Salazar a favor do Colonialismo.  Angola não era nossa para Alberto da Conceição, natural de Santa Maria da Feira. Achava a Guerra Colonial que começara em 1961 em Angola e que se estendera a Moçambique e a Guiné Bissau nos anos seguintes um autêntico desperdício de todo o tipo de recursos e sem sentido. Afinal de contas, achava que os Portugueses não tinham direito sob aqueles territórios, mas foi obrigado a ir defendê-los e foi (contrariado).

Foi para Setúbal fazer a tropa em 1965. Tirou radiotelegrafia como especialidade. Encontrava-se já a estagiar no posto de rádio quando em 1966 foi convocado para  Moçambique.

Opah tu vais la passar umas férias. O perigo é em Angola. Não há problema nenhum”, disseram-lhe antes de ele partir. Como estavam errados…

Fotografia com Alberto da Conceição no VeraCruz, 1966.

Partiu no Veracruz com dois batalhões e quando lá chegou percebeu que não seria as férias que lhe tinham prometido.  “A selva era tão densa que em muitos locais do chão nem o céu se conseguia ver. Era porrada velha diariamente. Sempre que se saia da companhia sofria-se um ataque. Era guerra de guerrilha”, explicou.

Quando eles e os colegas chegaram a Mueda, começaram por dormir em buracos no chão cobertos por chapas. Os buracos estavam cheios de ratos e eles matavam-nos em bidões de gasolina.  A água ficava a 30 kms de distância. Mas embora as condições não fossem humanas, Conceição garante não ter passado fome. Contudo, como a maioria da comida caia de uma avioneta no mato, arriscavam-se a levar uma “coça sempre que saiam do acampamento” e desabafa que os homens da companhia que foram defender já estavam tão apavorados que se recusavam a sair do acampamento.

Onde dormia, Mueda, Moçambique, 1966.

Foi ferido passado 26 dias de lá estar, na terceira vez que saíra do acampamento. Tinha um plantão destacado e ia mudar uma antena direcional. Ia em picada e a ir para lá encontrará um boneco de capim feito no meio da picada. Perguntou: “Vai haver problemas comandante?”. Responderam-lhe: “Não vai haver”. Mas houve. Ao virem embora, sossegados e com um plutão de artilharia, depararam-se com o que chamou de ataque de ferradura. Ficaram 11 feridos nesse dia.

Alberto da Conceição no hospital em Lourenço Marques, 1967.

“Fomos evacuados e viemos de helicóptero para o hospital. A nossa salvação eram as enfermeiras paraquedistas. Fui para Nampula, onde fui operado e depois fui transferido para Lourenço Marques.”  Foi em Lourenço Marques (atual Maputo) que esteve 9 meses à espera que o trouxessem de volta a casa.

Com as enfermeiras da Cruz Vermelha, Lourenço Marques, Moçambique, 1967.

Miséria, miséria e miséria. É a única palavra com que consegue descrever o hospital militar de Lisboa, no qual passou dois anos. “Eu chamava àquilo de campo de concentração. Nós não íamos para ali curar-nos. Íamos, sim, para morrermos aos poucos”, confessou amargurado. “Cheguei a fazer um levantamento de rancho, porque a comida que nos davam era pior que a comida que o meu pai dava ao cão que tinha lá em casa, o que me poderia ter custado prisão e a pensão que ia receber, mas perdido por 10 perdido 1000”, riu admitindo depois que teve bastante sorte porque os homens do hospital que foram interrogados ficaram do seu lado e a presidente de cruz vermelha (até) gostava de si.

 

Com os amigos em Lisboa, 1968.

 

Lisboa, 1968.

Contou que chegavam aos hospitais muitos homens do Ultramar que eram escondidos e que nunca mais ninguém os via. Era crucial manter as aparências de que o conflito não era tão bélico como estava a ser. Um exemplo era ao que Alberto da Conceção chamou de “homens cesto” – homens sem pernas e sem braços.

“Sofreu-se tanto naquele tempo. A minha juventude ficou completamente dizimada. Depois de tudo o que vi, sinto que fui um dos sortudos”, comentou o homem que ficou mutilado aos 21 anos. “Mas custou-me muito ter ficado sem um braço numa idade tão jovem. Só pensava “o que será agora da minha vida?”, mas depois aprendi a lidar com isso.”

Quando voltou para a sua terra natal, acabou por arranjar emprego enquanto sapateiro, casar e construir uma família. Tornou-se, igualmente, membro da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) e é com orgulho que fala dela.

Alberto da Conceição viveu uma vida feliz, mas nunca esqueceu a guerra em que foi obrigado a lutar e a participar.

São memórias, fotografias e cicatrizes que o compravam.

 

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