Questão de Prioridades: Quem visita ou quem habita?

O trânsito de pessoas nas ruas, a invasão de alojamentos locais e a diversidade de etnias, é o que se encontra atualmente numa cidade que sempre foi caracterizada pelo seu forte sotaque e regionalismo. Hoje o Porto é também a casa temporária dos que por aqui passam. Mas e os que ficam? O Porto ainda tem lugar para eles?

 

Com uma vista privilegiada para o Rio Douro, na freguesia de Miragaia, os moradores de longa data abandonam as conversas entre janelas para dar lugar ao som das rodinhas das malas de viagem e a vozes poliglotas.

“Havia muita gente, havia muita canalha, era naquele tempo que ainda havia quartos para alugar, não eram casas…, depois havia muitas famílias, isto era uma alegria, tudo isso acabou”. Jorge Fonseca tem 65 anos e é um apaixonado pela sua zona de residência desde sempre, mas o sítio que o viu crescer já não é mais o mesmo. Afirma que apesar dos benefícios que o turismo veio trazer ao nosso país, no centro histórico do Porto já começa a ser exagerado, sentindo que na zona onde reside cada vez se conhece menos gente.

Ao fim de alguns minutos de conversa, Jorge revela que é um dos habitantes daquela zona que em breve vai ter de abandonar a sua casa, tendo sido notificado há cerca de dois anos com a informação de que ele e a esposa teriam de arranjar outro sítio para viver até janeiro de 2019.

Tanto Jorge como a sua esposa possuem reformas muito baixas e estão neste momento sem saber para onde ir, estando ainda a adiar a saída entre conversas com o tribunal e a Domus Social (Empresa de Habitação e Manutenção do Município do Porto).

Não culpa o turismo pois reconhece que é um fator importante para o país, principalmente a nível económico, mas culpa quem comanda o mesmo, afirmando que deveriam existir limites.

“Pega-se nas pessoas como se fosse um farrapo e põe-se na rua.”

 

Rua Tomás Gonzaga – Miragaia | Por Gabriela Bernard

 

Com este fenómeno, que para além da cidade do Porto afeta tantas outras, como Barcelona ou Roma, os moradores das cidades e regiões afetadas são provavelmente quem mais perde. Contrariamente aos proprietários das casas localizadas nos centros históricos para quem esta situação é altamente lucrativa, pois é muito mais conveniente para os mesmos alugar os apartamentos a turistas diariamente ou semanalmente do que a residentes locais que necessitam de um lugar acessível para morar.

Odete Queirós é também habitante daquela zona há 75 anos e nunca pensou mudar de residência mesmo após todas as alterações que tem vindo a sofrer ao longo dos anos. Foi o sítio que a viu crescer e o único que consegue considerar a sua “casa”.

Mas, na sua opinião, já nada é como antigamente. Já não existem os bailes, a música e o encontro habitual entre moradores. Odete reconhece que as casas começam a ser desabitadas para darem lugar a alojamentos locais, e que as ruas são cada vez menos frequentadas por moradores. No entanto, afirma não ter qualquer problema com o turismo que cada vez mais aumenta naquela zona.

“Agora na rua é só turistas, mas eu falo para eles, vou para a porta e falo com eles, não tenho cá problemas! (risos)”

Neste momento, Odete já é a única residente daquele prédio. O andar de cima já funciona como alojamento local, o que confessa não a incomodar enquanto se dirige até à janela da sua sala de estar: “É por isto que os turistas querem vir para aqui e nos estão a mandar a nós sair!”, é o que diz após afastar as cortinas que revelam uma vista privilegiada para o rio Douro, a Alfândega e os tradicionais telhados cor de tijolo.

Existem neste momento na União de freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória 5.429 alojamentos locais. Sendo a freguesia, de longe, com um maior peso deste tipo de alojamentos, possui atualmente cerca de 17,8% das suas casas em alojamento local, seguida da freguesia do Bonfim, onde o peso ronda os 6,73%, segundo um estudo feito pela Universidade Católica.

Aos gabinetes sociais da junta foram chegando cada vez mais pedidos de ajuda: 452 atendimentos em 2016, 680 em 2017 e 191 só no primeiro trimestre do ano de 2018, segundo o Jornal Público. Os técnicos tiveram conhecimento de 203 situações de inquilinos intimados a abandonar as suas casas porque o senhorio não queria renovar o contrato.

Em maio de 2019, o presidente da Câmara Municipal do Porto afirmou que seria possível avançar com medidas para colocar um travão ao visível crescimento de alojamentos locais naquela zona, medidas essas já efetuadas em Lisboa.

 

Rua das Flores do Porto | Por Gabriela Bernard

 

Tendo sido Portugal o país com o maior crescimento ao nível do turismo na União Europeia, os dados do relatório do The World Travel & Tourism Council (WTTC) de 2018, revelam que o mesmo teve um impacto direto estimado de 14,3 milhões de euros na economia. Os 12,76 milhões de turistas estrangeiros que visitaram Portugal no ano passado fizeram-nos atingir um novo máximo histórico. Para além de estrangeiros, 8,2 milhões de residentes em Portugal contribuíram para as cerca de 57,6 milhões de dormidas em estabelecimentos turísticos (pousadas, hotéis, hostels e alojamentos locais) portugueses.

No entanto, apesar de haver mais turistas o tempo que cá permanecem é mais curto. A estadia média rondava as 2,3 noites, existindo um decréscimo de 1,7% face a 2017.

Contrariamente ao sítio onde Jorge e Odete habitam, na Rua das Flores e no Largo de São Domingos não falta movimento, atrações e barulho. Se por um lado o turismo pode afetar os moradores relativamente às suas habitações, por outro lado é uma forma de desenvolvimento não apenas da cidade do Porto, como acaba também por ter um enorme impacto nos negócios que já existem ou que têm agora oportunidade de surgir.

Maria Fonte tem 53 anos e é balconista da papelaria Araújo e Sobrinho desde que a mesma reabriu com um novo conceito, estando agora no mesmo espaço que um hotel há cerca de 4, 5 anos. É uma das papelarias mais antigas da cidade do Porto, sendo que, completa este ano, 190 anos de existência.

Apesar de não estar desde os primórdios da papelaria, Maria sabe que é do conhecimento de quase todos que apesar de possuírem clientes de norte e sul do país, que todas as lojas desta zona são ocupadas maioritariamente por estrangeiros. Conta que a diferença que se faz sentir do antigamente para o agora é enorme. A Rua das Flores não era uma rua pedonal, portanto haviam carros a passar e o centro histórico do Porto era muito mais deserto, sendo que, atualmente, as ruas estão sempre cheias.

Para uma pessoa que não está num ritmo de férias, mas sim num ritmo acelerado de quem vive e trabalha na cidade, a diferença é sempre notória. No entanto, Maria sabe que o turismo é uma grande vantagem económica e competitiva e nada é melhor do que sermos beneficiados através de uma cidade cheia de vida.

Constança Mendonça de 20 anos e chefe de sala no Restaurante Cantina 32 há cerca de 5 anos desde a sua abertura, afirma que apesar de ainda terem clientes portugueses que aparecem com frequência, a maior parte são estrangeiros: “Isto só abre as 18.30h por isso a partir dessa hora até às 22h é só estrangeiros, às vezes há dias que só temos um cliente português é ridículo”.

Embora este seja um facto que reconhece tristemente, admite a importância do turismo devido à receita e ao desenvolvimento que traz ao nosso país.

Na sua opinião ter turistas neste momento é o que toda a gente precisa porque acaba por ser o que nos sustenta, mas expressa também a necessidade de que não se esqueçam dos que já cá habitavam.

“Temos de ter sempre em consideração que as pessoas já cá estavam antes do Porto virar moda.”

O turismo em excesso acaba por transformar as cidades típicas pela sua cultura individual em locais massificados. Se por um lado a economia se desenvolve e as ruas de comércio se enchem mais, por outro lado as zonas habitacionais tornam-se mais desertificadas, fazendo com os moradores não se sintam confortáveis na sua vizinhança por não conhecerem as pessoas à sua volta e se tornarem a minoria nos cafés e restaurantes que tradicionalmente frequentavam.

“Aqui costuma-se dizer, daqui é para o cemitério.”

No caso de Jorge, apesar de sempre ter idealizado toda a sua vida em Miragaia, está agora na hora da despedida do sítio que o viu crescer e pelo qual terá sempre uma eterna paixão.

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