Estudar ou trabalhar, eis a tradição!

O caminho a percorrer ainda é longo, mas a mudança está cada vez mais perto. São ciganos: com orgulho e sem negarem. Seguem as tradições por vontade própria e “obrigação”. Obrigados por uma sociedade que não lhes permite encontrar uma habitação, trabalho e condições dignas. José, Rosa, João, Josefa, Rogélia, Josué. Alguns estudaram até ao quarto ano, outros até ao 12º, outros nem sequer frequentaram a escola. As histórias de quem se orgulha da tradição, mas deseja um futuro melhor.

O dia começa muito cedo: é dia de feira em Ermesinde, no Porto. Às quatro da manhã canta o galo para anunciar o começo do dia. As malas estão prontas para sair à rua e a voz afinada para que as vendas corram bem. Têm em comum o desejo de ver os descendentes com uma vida melhor, mas não só: a venda ambulante e o racismo de que são alvo em qualquer situação. São a maior minoria étnica da União Europeia, estimando-se que existam 10-12 milhões em todo o mundo. Seis milhões vivem na União Europeia. Em Portugal são entre 40 a 60 mil cidadãos de etnia cigana. Com vários estilos de vida e diferentes condições. Só com a constituição de 1822 conseguiram o estatuto de cidadãos portugueses.

Informação dos limites da feira de ermesinde. Créditos: Rosária Gonçalves

José nasceu numa geração em que não se ia à escola e defende que nunca precisou dela para nada. Entre camisas e vestidos vai conversando, mas sem tirar o olho do negócio. “A minha escola foi a vida. É a melhor escola que há”, conta. Com um filho de 22 anos, e duas filhas, uma com 16 e outra com nove. Andam todas na escola. Com 40 anos, tem uma nova perspetiva da escola e da sua função. “Se elas quiserem vão continuar e se a comunidade nos der oportunidade nós queremos, só que às vezes”, responde reticente. Não baixa os braços e continua a lutar todos os dias pelo futuro dos filhos, acreditando sempre que a mudança está para breve.

Banca de José na feira. Créditos: Rosária Gonçalves

Para algumas das comunidades ciganas a escola só começou a ser uma realidade depois do 25 de abril de 1974. O insucesso continua a ser uma realidade bem conhecida de muitos destes estudantes e, segundo o jornal Público, a taxa de aproveitamento escolar dos alunos ciganos matriculados em 2016/2017 foi de 56,2% – 61,6% no primeiro ciclo, 49,1% no segundo ciclo, 49,9% no terceiro ciclo e 64% no secundário. Em 2016/2017 estavam 11.018 crianças e jovens matriculados no ensino obrigatório. 20 anos antes eram metade – 5921. Uns têm conseguido frequentar a universidade e emprego, outros continuam a seguir as tradições.

Rosa Grilo partilha da opinião de José. Tem 43 anos e andou na escola até ao quarto ano. Vive, atualmente, a fase de crescimento das filhas e, se por um lado a mais nova está prestes a entrar para a escola, com 4 anos, a filha do meio vive a escolha, com 16 anos, de sair ou prosseguir estudos. Para já, o futuro é ir mais além e continuar. Também o filho, que já conta com 21 anos, frequentou a escola.

“É outra vida, têm que trabalhar e ter um emprego certo”, afirma Rosa.

“Na nossa altura não tínhamos as ajudas que eles têm agora” e isso é um dos incentivos que as faz continuar. Por sua vez, Rosa nunca quis sair para cumprir a tradição, sempre foi o desejo de se tornar independente. A comunidade cigana nunca proibiu a frequência escolar, mas os receios são muitos. “Como têm que casar virgens há aquele receio. Com a convivência apaixonarem-se, por isso elas próprias se proíbem de certas coisas”, explica. Casar com outra etnia não é uma opção: “se for um miúdo tudo bem, uma miúda já não é aceitável. Isto é a nossa tradição”, orgulha-se Rosa.

Criados com a educação de que a feira é o futuro, Rosa explica que tem que trabalhar e “fazer pela vida”. Olhando para um cenário diferente esclarece que “em Lisboa já quase todos trabalham em empregos fixos”. Há alguns anos que moram em Ermesinde e, por isso, são já “conhecidos pela população e não sofremos tanto o preconceito”, conta Rosa: “sofremos de preconceito, mas não é tanto como alguém que chega de novo”. No fundo, esclarece, já sabem lidar com este tipo de coisas. “’Ah o cigano não faz isto, não faz aquilo’ não nos dão oportunidade para isso.” Quando sabem que são ciganos “imediatamente nos olham com outros olhos” termina, desgostosa, Rosa.

Rosa Grilo no trabalho. Créditos: Rosária Gonçalves

O pré-escolar é o que menos assusta as famílias. A maioria das crianças frequenta, mas a presença de alunos ciganos nas escolas diminui à medida que a escolaridade sobe, sobretudo raparigas, para preservação da virgindade como honra das famílias e a centralidade do casamento. Entre o primeiro e segundo ciclo há uma quebra, mas a partir daí os números são cada vez mais baixos. Poucos chegam ao secundário, mas há sinais de mudança e há quase tantas raparigas e rapazes a frequentar este nível de ensino, apesar de eles não terem qualquer restrição social.

Entre tudo o que são meias está Josefa. Tem 56 anos e nunca foi à escola. Alguns dos filhos seguiram as suas pisadas e estudaram até ao quarto ano. Apenas um quis ir mais longe, tem estudos e um diploma na mão, mas o panorama não é o melhor. Está inscrito no centro de emprego e “não é chamado, ou se for, ao dizer que é cigano já não consegue o emprego” comenta. A falta de trabalho não é o único problema que esta família enfrenta. A procura de casa é uma questão que atormenta praticamente todas as famílias da etnia. Visitaram uma casa, conheceram e, na hora de fechar o contrato “a senhoria olhou para nós e disse que não alugava porque somos da etnia cigana”, conta Josefa.

Josefa atrás da banca. Créditos: Rosária Gonçalves

O marido, que vai ouvindo a conversa do outro lado da banca, acrescenta que “o que ela fez é discriminação”. João, com 57 anos, é um pregador da palavra de deus e trabalha voluntariamente com toxicodependentes. A constante procura, sem sucesso, de alugar casas para ajudar estes jovens ou adultos com problemas, deixa-o “triste”, explica, “o meu trabalho é gratuito, sinto-me um privilegiado por aquilo que faço. É de coração, é de amor e é para ajudar o próximo. E dizerem-me que não alugam espaços? Pelo telefone está tudo certo, quando chego ficam sempre reticentes. Não olho as minhas condições, olho a fazer o bem. E vocês não me permitem” esclarece, dizendo que este é só mais um dos muitos casos.

Não quer, nem consegue, esconder as raízes e aquilo que é, mas admite que “há uma coisa muito grave: é pagar o justo pelo pecador. Não estou a dizer que na minha etnia somos uns santos, porque há de tudo. Não podemos é medir todos com a mesma medida. Fico aborrecido, fico triste. Negar aquilo que sou não nego. Tenho os pés bem assentes no chão” diz, com orgulhoso. Acredita “que se a nossa etnia olhasse da mesma forma como olham para nós ninguém se entendia. Somos uns privilegiados, se tivermos que nos ajudar, ajudamos não olhamos a quem, não olhamos a cor, se houver uma aflição nós estamos, se virmos alguém a passar fome se pudermos ajudar ajudamos”. Os olhares a que são submetidos diariamente ainda são um problema a resolver.

“Olham para nós de uma forma que não dá para entender”, elucida João.

João espera por clientes. Créditos: Rosária Gonçalves

No futuro deseja que os netos possam ter uma vida melhor do que a dele, incluídos e sem qualquer preconceito. A neta, ainda criança, deseja chegar a advogada. Motivada pela professora que pediu ao avô “deixe-a seguir em frente, ela tem uma grande sabedoria” esclarece. O irmão estuda inglês, mas “não temos fruto da escola, o nosso único fruto somos nós próprios. O cigano é que é o tapete, não têm a preocupação de saber como é que o cigano chega a esta situação. Não faz mal a ninguém, só quer fazer bem. Não pode ver ninguém a chorar, mas não se preocupam em saber isso” termina.

Com o 12º ano e um curso profissional de hotelaria, Josué Fidalgo tem 21 anos e não consegue encontrar um emprego na área por ser de etnia cigana. “Se os nossos filhos não forem para a escola ficamos sem eles, mas para que os vamos sacrificar se não nos deixam evoluir?” explica a mãe, Rogélia Cabreira com 37 anos e é feirante. Não só o filho, mas também o marido, tem vindo a ser alvo de preconceito por parte da sociedade. Inscreveu-se num curso para trabalhar na UBER, gastou 350€ e, como teve um problema no passado, já não o deixaram trabalhar. “Apostamos esse dinheiro para o futuro e, no fundo, para nada”, conta com revolta.

Banca na feira de ermesinde. Créditos: Rosária Gonçalves

Banca na feira de ermesinde. Créditos: Rosária Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

O insucesso continua a ser real. As crianças começam a sair cedo do ensino regular e a maior parte deles tem ação social ou vive numa habitação não clássica.

A estratégia de integração e inclusão do ministério da educação tem vindo a ser renovada. E há um reforço e qualificação das escolas para promover o sucesso escolar dos alunos ciganos. Segundo um comunicado do Ministério da Educação, está em marcha a “produção de orientações, divulgação de boas práticas e reforço da formação dos professores e pessoal não docente”.

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