Mulheres ciganas lutam contra a discriminação

Foi precisamente numa aula aberta sobre as comunidades ciganas que surgiu a ideia de desenvolver um trabalho de reportagem sobre mulheres ciganas que lutam contra a discriminação. Nesse mesmo dia abordamos a Élia Maia e guardamos contacto para uma possível entrevista na Associação para o Planeamento Familiar (APF), situada no Bairro da Biquinha.

Sexta feira, dia 26 de Abril, ligamos para a associação para agendar entrevista com a Élia.

Dia 30 de Abril, apanhamos o autocarro 501 nos Aliados rumo a Matosinhos. 45 minutos de viagem separam o Porto (centro) do Bairro da Biquinha.

Chegamos ao Bairro. Ouve-se música vindo das casas, mas as ruas estão vazias. O GPS não localiza a associação e não temos quem nos ajude. Depois de caminharmos, encontramos um homem a quem perguntamos onde se situa a APF. Surpresa nossa, os habitantes do bairro não conhecem a associação.

Ligamos à Élia, pedimos ajuda e percebemos que estávamos no caminho certo.

Élia recebeu-nos bem… Pelos caminhos de um bairro social tentamos encontrar algo que se parecesse com uma associação, mas este estabelecimento onde a Élia tem vindo a ser mediadora não aparenta ser uma associação comum. Parece, na verdade, um infantário.

Conhecemos o espaço e começamos a entrevista. A Élia está com vontade de partilhar… e acabou de nos confessar que o jornalismo é o seu maior sonho.

Élia Maia, 27 anos. Fotografia: Rita Castro

Bloco onde se situa a associação. Fotografia: Rita Castro

Bloco onde se situa a associação. Fotografia: Rita Castro

 

Entrada da associação APF. Fotografia: Rita Castro

Começamos por perguntar à Élia como surgiu a oportunidade de trabalhar como mediadora na Associação para o Planeamento da Família: “Eu cresci no Bairro e a associação é situada no Bairro onde eu vivo há 26 anos… Eu deixei a escola muito cedo e sempre tive o desejo de trabalhar aqui porque era um espaço onde eu vinha ter as atividades com os adolescentes e jovens e onde sempre tive o sonho de trabalhar.” Confessa também que o responsável, Nuno Teixeira, sempre lhe fez esta proposta – “num dia que fores estudar, vou dar-te a oportunidade de vires trabalhar para aqui”. “E foi assim que surgiu, porque é uma pessoa que eu conheço há imenso tempo.”

Associação APF. Fotografia: Rita Castro

Associação APF. Fotografia: Rita Castro

Associação APF. Fotografia: Rita Castro

Associação APF. Fotografia: Rita Castro

Ser de etnia cigana foi o principal fator que contribuiu para a necessidade de colaborar com a APF. No entanto, a Élia esclarece que a população com quem trabalha é cigana e não cigana, “mas o facto de ser cigana e ser um exemplo a seguir, tal como me dizem, foi uma mais valia para trabalhar neste projeto.”

Depois, questionamos a Élia sobre os principais estereótipos que ainda existem relativamente à comunidade cigana.

A nossa curiosidade é notória. Conversamos com a Élia sobre as questões relacionadas com a virgindade, o facto da Élia ter o cabelo curto e de ter 27 anos de idade e não ser casada. A questão que lhe colocamos é precisamente sobre as práticas/tradições ciganas e de que modo estas práticas influenciaram a sua vida.

Já que abordamos a descriminação das mulheres, particularmente no contexto das comunidades ciganas, estas ainda sofrem, no seu dia a dia, com as heranças históricas do sistema social patriarcal e com os preconceitos que lhe são atribuídos.

Embora o papel da mulher na sociedade venha a tornar-se cada vez mais diverso e ativo, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados. Os desafios são grandes, mas quanto menor for a resistência das pessoas no sentido de questionar ou combater as questões femininas, mais ampla e melhor será a efetivação de uma sociedade mais igualitária.

A Élia assume ser feminista e esclarece a necessidade de desconstruir representações e estereótipos que estão associados à comunidade cigana, em geral, e que persistem na sociedade portuguesa. Acredita, e já por isso é que trabalha com a Associação para o Planeamento Familiar, que é necessário que as pessoas conheçam a comunidade antes de a julgarem.

Élia é cigana, mas, acima de tudo, é mulher. Se o objetivo é abordarmos as mulheres nas comunidades ciganas, não podemos deixar de lhe perguntar se no contexto atual, ainda sente dificuldade em afirmar-se como mulher.

Desta vez, fazemos referência à comunicação social e à voz que é dada às comunidades ciganas. A Élia, que nos confessou ser apaixonada pela comunicação e pela capacidade de o jornalismo alterar mentalidades e pontos de vista, confessa-nos que os média são uma fonte de informação para a sociedade e que desempenham um papel fundamental em informar, de forma correta.

“Os media sabem que determinada informação vai ter muita influência. Por isso, eu acho que os média ao conhecerem a comunidade cigana, ao fazerem debates, ao dar maior conhecimento, a comunidade cigana sente-se importante, aparenta que a comunicação social já não pensa da forma que pensava e que a sociedade maioritária vai conhecer a realidade da comunidade cigana”. A mediadora reforça,

“quando dizem que o cigano só rouba estão a falar no plural e o cigano é singular. Não generalizem, porque é mentira.”

“Quando dizem que o cigano rouba, que o cigano mata, já focam muito a comunidade. Veem muito o lado negativo da comunidade e nem sempre é assim. O lado negativo é muito fácil de mostrar, o lado positivo é muito mais difícil.”

Élia tem 27 anos, vive no Bairro da Biquinha desde sempre e confessa que, para todos aqueles que vivem num bairro social, nunca é fácil. “Quero mesmo que me façam essa questão porque conheço demasiados casos de pessoas que mentem sobre o local onde vivem para poderem conseguir emprego. Viver num bairro social não é fácil para ninguém.”

Perguntamos à Élia como é viver no Bairro da Biquinha e quais foram até agora as principais dificuldades e desafios.

“As pessoas que vivem cá, adoram viver aqui, mas é difícil viver num bairro… As oportunidades não são as mesmas, as pessoas julgam-te por viveres num bairro. A ideia que têm é que as pessoas que vivem num bairro são violentas, roubam… são criados rótulos negativos.”

Para a Élia, as escolas que são criadas nos bairros sociais são um dos principais entraves à comunidade: “Quando andei na escola, nunca conheci outras pessoas para além das do bairro. O ATL era no bairro, a escola era no bairro e eu vivia no bairro. Que evolução iria ter eu e os meus colegas quando as escolas estão inseridas no bairro?”

“Já para não falar de que criam bairros específicos para as comunidades ciganas. Se saírem aqui à rua, é tudo da comunidade cigana.”

Por esse motivo, o projeto da APF veio dar força à comunidade e mostrar o lado positivo da evolução dos últimos anos, “veio dar ferramentas necessárias para as pessoas terem conhecimento, porque as pessoas que vivem num bairro são esquecidas. As pessoas que viviam no bairro antes de 2004, eram pessoas esquecidas. As crianças não andavam na escola, porque as pessoas não se importavam”.

A escola que Élia frequentou acabou por fechar. Neste momento, as crianças têm oportunidade de conhecer outros espaços e outras pessoas, para além das do bairro. “Primeiro, veio criar rotina, veio fazer com que as pessoas saíssem do bairro e tu saíres do meio onde estás inserido, onde o conhecimento é mínimo, vai sempre dar-te autoestima”.

Sexta, dia 3 de maio, dia de feira em Vila do Conde.

Não tínhamos nada planeado nem entramos em contacto com ninguém, apenas seguimos em direção à feira onde tínhamos a certeza de que iríamos encontrar elementos da comunidade cigana. 10h26 a rua estava cheia de pessoas que entravam e saíam da feira. 10h34 finalmente encontramos estacionamento. Um golpe de sorte, estamos mesmo no acesso à feira.

Estamos no terreno. Conhecemos o ambiente. Percebemos com quem podíamos ou não falar. Os olhares desconfiados, o medo das fotografias, a curiosidade em saber o motivo de estarmos ali. Ouviam-se os gritos, os feirantes a querer vender e sentia-se a azáfama comum de uma feira. 10h41 abordamos a primeira mulher cigana. Falou, mas pouco. Ficamos sem saber o nome e fotografias “nem pensar”.  A partir deste momento, toda a comunidade sentiu vontade de partilhar e contar as suas histórias. Mais do que esperávamos.

Feira de Vila do Conde. Fotografia: Mara Craveiro

Feira de Vila do Conde. Fotografia: Mara Craveiro

Conhecemos Débora Gimenez de 28 anos e Aurélio Monteiro de 31. Este é um dos casais que vende sapatilhas numa das bancas da feira.

Débora enquanto tomava o pequeno almoço, tentava responder a qualquer pergunta que lhe fosse colocada. Fala sobre a dificuldade em arrendar casa e sobre o ensino.

Débora Gimenez, 28 anos. Fotografia: Mara Craveiro

Débora e Aurélio Monteiro, 31 anos. Fotografia: Mara Craveiro

O seu marido, Aurélio, também quis participar. Conta um caso específico de discriminação.

Garina Isidoro de 48 anos foi a segunda mulher que teve o prazer de nos dar o seu testemunho. Mulher cigana de respeito na feira. Esta é daquelas mulheres que toda a comunidade conhece.

Faz uma comparação com a realidade do passado e o contexto atual e confessa que gostava que os seus filhos prosseguissem os estudos. “Tenho muito orgulho em ser cigana”, termina.

Garina Isidoro, 48 anos. Fotografia: Mara Craveiro

Quando tentamos falar com a esposa de Claudino Cardoso, ela recusou. Confessou-nos que não era cigana e que não sabia falar. O melhor seria pedir ao seu marido, e por isso, fez questão de nos acompanhar até ele. Claudino Cardoso de 58 anos destacou alguns aspetos que o preocupam. A esposa que não é cigana conseguiu alugar casa. Claudino acredita que se a tivesse acompanhado, já não teriam a mesma oportunidade.

Claudino Cardoso, 58 anos. Fotografia: Mara Craveiro

Claudino Cardoso, 58 anos. Fotografia: Mara Craveiro

Com o decorrer desta conversa conhecemos também Vítor Silva, um jovem de 26 anos que acredita ser possível trabalhar honestamente, não esquecendo a tradição cigana. Á parte disso, quis defender também as mulheres que integram as comunidades ciganas.

Maria Rosa foi a última mulher com quem conversamos e que não deixou que a fotografássemos. Fez questão de abordar a discriminação das mulheres na comunidade cigana, principalmente no que diz respeito à habitação. Esta mulher cigana afirma que mantém e manterá os valores da comunidade.

Por Ana Rita Castro e Mara Craveiro

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