Realojamento das Comunidades Ciganas em Grijó: será que desta é de vez?

Há mais de 50 anos que vivem em barracos à face da estrada. Não há saneamento. Crianças já foram atropeladas. Há uma promessa de realojamento, mas já é a quarta em vinte anos.

A roupa estendida ao ar livre, o lixo espalhado pelo chão e os amontoados de chapas, que assumem o papel de casa, denunciam que aqui vive gente.

São dez horas da manhã e a rua das Casas Queimadas, em Grijó, já se enche de pessoas. Este é um dos quatro acampamentos de pessoas de etnia cigana situados em Grijó, freguesia do concelho de Vila Nova de Gaia.

Os olhares desconfiados de quem aqui vive em condições desumanas não se aproximam. Só passados uns bons minutos é que se atrevem a denunciar a sua situação.

Os equipamentos de primeira necessidade são quase nulos. Não há gás, a luz é desviada, a água, no caso do acampamento da Rua das Casas Queimadas, é oferecida por um empresário de uma fábrica do outro lado da rua através de uma única mangueira. As casas de banho não existem, tomam banho em bacias. Quando questionados pelo saneamento só perguntam “O que é isso?”. As necessidades são feitas no pinhal ou durante o dia num estabelecimento comercial.

 

Entrada para uma das “Casas” no acampamento na Rua das Casas Queimadas. Fotografia: Susana Oliveira.

 

Estendal preenchido com roupa do acampamento na Rua das Casas Queimadas. Fotografia: Susana Oliveira.

                  

Portas desfeitas de madeira fazem a distinção entre uma parede e uma entrada ou saída de uma casa. Os telhados improvisados são feitos de toldos. “Ás vezes chove lá dentro. O meu tio já apanhou uma pneumonia por causa disso”, diz Maria Rita Monteiro, habitante do acampamento de Casas Queimadas.

As janelas são impossíveis de ter, por isso a escuridão alastra-se dentro das barracas quando a luz escaceia. “Já podem entrar, já tem luz”, diz Maria Rita enquanto entramos na sua casa. O chão é cimentado e com azulejo, mas o calor é insuportável por causa dos toldos que não refletem o sol.

 

Inscrição no acampamento da Rua das Casas Queimadas, Grijó. Fotografia de Susana Oliveira.

À porta da barraca de Maria Rita quando a luz voltou. (Rua das Casas Queimadas) Fotografia : Susana Oliveira

         

Durante as conversas tivemos que nos desviar várias vezes dos carros que passavam a grande velocidade na estrada, mesmo com crianças na rua a jogar à bola. Jorge Paulo Soares, habitante no acampamento da Rua de Agros, afirma “Isto não é seguro para viver com os meus filhos”. Os dois acampamentos mencionados localizam-se à face da estrada e em ambos foram reportados atropelamentos de crianças. “Há dois anos foi atropelado um menino de 6 anos que pensávamos que estava morto”, contou Natália Monteiro Soares, habitante em Casas Queimadas. Esses atropelamentos deixaram marcas naqueles que lá vivem. “Nunca me sinto descansado. Estou sempre com medo que alguma criança seja novamente atropelada. Estas faixas de abrandamento que vêm no chão antes não existiam. Nós tivemos de fazer pressão para as colocarem.”, informa-nos Fernando Joaquim, marido de Natália.

Acampamento da Rua dos Agros, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

 

Roupa estendida do outro lado da rua do acampamento da Rua dos Agros, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

 

O Rendimento Social de Inserção (RSI) é o sustento de maior parte destas famílias, que são “acompanhadas pelo Centro Social de Grijó desde 2005”, segundo a psicóloga do centro Patrícia Martins. “O rendimento ajuda-nos muito. Eu antes andava a pedir, não tenho vergonha, mas andava”, admite Antónia, habitante da Rua de Agros, que quando questionada sobre emprego responde “Quem dá emprego a um cigano?”. Esta é a resposta geral da população quando questionada acerca de trabalho – que não são empregados por serem de etnia cigana. As feiras estão fora de questão ou o rendimento é-lhes cortado.

O marido de Natália acrescentou que o mesmo acontece quando tentam negociar a compra de algum terreno. O ser cigano é logo um impedimento e por isso têm-se sujeitado a viver assim: em barracos, sem empregos e dependentes do dinheiro do abono e do RSI.

Só no acampamento de Casas Queimadas vivem cerca 50 pessoas e, no da Rua de Agros vivem 20. Em ambos a maioria é crianças. Têm, no entanto, algo em comum: não gostam de lá viver. Querem sair dali. “Ter uma casa é o meu maior sonho”, afirma Natália Monteiro Soares co, um enorme sorriso no rosto. Tornar-se-á real o sonho de Natália? A incerteza paira no ar e a esperança não é muita. António, de 42 anos, não acredita que alguma vez sairá da Rua de Agros. “Eles só falam e não fazem nada. Não querem saber de nós”, desabafa sentado no banco à porta do seu barraco.

 

O banco de António. Rua dos Agros, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

“O sentimento é compreensível.” Quem o diz é César Rodrigues, Presidente da Junta de Grijó, ao explicar as anteriores propostas para o realojamento das Comunidades Ciganas instaladas na freguesia que nunca obterem sucesso. Patrícia Martins, Psicóloga no Centro Social da Paróquia S. Salvador de Grijó, trabalha há 15 anos com estas comunidades e, constatou que no mínimo três candidaturas já foram feitas por eles em conjunto com outros parceiros.

Mas tudo indica que o sonho de Natália e de todos os moradores se vai realizar. Quando o Norte 2020 – Programa Operacional Regional do Norte 2014/2020, integrado no Acordo de Parceria PORTUGAL 2020 e no atual ciclo de fundos estruturais da União Europeia destinados a Portugal –  abriu as candidaturas a projetos que consistiam na reabilitação de alojamento para alojar uma determinada etnia em 2017, a Câmara de Gaia e em concreto a Gaiurb concorreu com um projeto para realojar as comunidades ciganas de Grijó – aviso norte -34-2016-18. Foi, então, aprovado em novembro de 2018. “A aprovação veio com algumas restrições”, explicou Ana Azevedo da Gaiurb.

Quando concorreram com o projeto ainda não tinham a aprovação por parte dos donos do terreno que pretendiam usar para o realojamento. Só depois do projeto ter sido aprovado é que os donos do terreno aprovaram o uso do mesmo.  O Presidente da Junta de Grijó informou que por esse motivo ainda está a decorrer o processo de negociações e que “há um impedimento por parte da Brisa, porque no terreno é preciso ter uma saída de autoestrada e ainda se está a pensar na solução para esse problema em conjunto com a Brisa”. Deixou, contudo, claro que as perspetivas são positivas e, que este projeto tem tudo para andar para frente, tal como Patrícia Martins: “Claro que até se iniciar toda a gente fica um pouco na dúvida, porque isto já é algo necessário há tanto tempo que só vendo para acreditar, mas de facto acho que nunca se esteve tão próximo.”

O realojamento incluirá três dos quatro acampamentos existentes. Os acampamentos alvo serão os que se encontram instalados na Rua dos Agros, na Rua das Casas Queimadas e na Rua de Rio Velho que se interliga com a Rua do Canitel. O que se encontra instalado na Rua Dentro dos Rios não será alvo de realojamento, pois o terreno do acampamento é das pessoas que lá moram.

Quando o rumor deste possível realojamento se espalhou, muitas das pessoas que tinham deixado estes acampamentos, voltaram e, por essa razão foi estipulado que só as famílias que moraram nos três acampamentos alvo de realojamento durante toda a sua vida é que teriam direito a casa.

César Rodrigues afirmou que o terreno para o realojamento seria perto de um dos já existentes acampamentos, mas não pôde referir qual. Acrescentou, porém, que os três acampamentos iriam ser realojados todos juntos e em casas com jardins para poderem ter animais.

Quarto dos filhos de Maria Rita. Rua das Casas Queimadas, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

 

Sala de estar de Maria Rita. Rua das Casas Queimadas, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

 

Cozinha improvisada de Maria Rita. Rua das Casa Queimadas, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

 

Mas após anos a residir em barracos sem as condições mínimas, levanta-se a questão:  estarão eles preparados para morarem numa casa?

Uma casa tem banheira, sanita e lavatório por exemplo, algo que nunca tiveram. As divisões da casa não são todas individuais. Há divisões que são conjuntas como a cozinha e a casa de banho. “Terão que ter outro tipo de cuidados, portanto, como também terão de pagar as contas da luz, da água, do gás por exemplo”, expõe Patrícia Martins, acrescentando que para colmatar estas adversidades, o Centro Social com o apoio do Centro de Emprego tem vindo a acompanhar estas comunidades ciganas de forma a que estas venham a conseguir adaptar-se às condições que os esperam.

Este trabalho passa, inicialmente, por dar a escolaridade aos membros da comunidade cigana que até então eram analfabetos. Para completar o 4º ano de escolaridade, o curso que frequentam é o de Apoio à Família e à Comunidade, que segundo a Psicóloga é “algo que podem aproveitar para eles próprios. Se eles vão aprender como se trata uma família que está em casa com apoio domiciliário ou assim, já estão a aprender para eles próprios”. Já existe uma turma de 18 pessoas a frequentar este curso.

Desta forma, estão a dar-lhes a escolaridade e os hábitos para saírem de casa. O horário do curso é das 9h à 13h e das 14h30 as 18h como seria num horário normal de trabalho, o que irá ajudá-los a ter uma rotina quando forem realojados, pois o objetivo não é que se mantenham na rua de braços cruzados.

Após estar completo o 4º ano, investir-se-á na continuidade escolar de áreas que possam ser exercidas de forma independente, como a área da costura e da estética. A ideia é que não necessitem de uma entidade superior que lhes dê emprego. A psicóloga expõe que já há uma série de coisas pensadas e até com candidaturas feitas, para que se consiga que eles estejam ativos quando forem realojados, sendo que o principal objetivo é a criação de uma associação com a qual eles podem vir a conseguir imensas benefícios se souberem geri-la.

 

Acampamento da Rua dos Agros, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira

 

Acampamento da Rua dos Agros, Grijó. Fotografia: Susana Oliveira.

O trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pretende, também, com que os conflitos entre alguns dos grupos venham a acabar, para que se possa viver posteriormente em comunidade e forma pacifica. Mas o feedback deste trabalho é positivo. “Está a correr lindamente. Temos uma equipa de formadores fascinada porque achavam que iam ser pessoas conflituosas ou agressivas ou violentas e eles são do melhor. Estão ali muito motivados. Querem aprender”, afirma Patrícia Martins enquanto nos acompanha a uma das aulas que decorriam no Centro Social e Paroquial de Grijó.

Parece que todos os pormenores foram pensados para que esta tentativa de realojamento seja bem-sucedida e até já está estipulado como será feito. Será por etapas. Um grupo de cada vez para seja possível um acompanhamento mais próximo por parte da equipa responsável pela integração.

 

 

Reportagem de Ana Francisca Rodrigues, Catarina Almeida e Susana Oliveira

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