[ESPECIAL Bairro do Cerco] Como é morar num bairro considerado à margem?

[Editorial]

Vanessa Rodrigues,

Caminhar pelas bordas das fronteiras territoriais de uma cidade é,  na maioria das vezes, um exercício de supremo funambulismo: um equilíbrio necessário, ora para policiar os eventuais estereótipos, ora para vencer o medo que algumas notícias negativas persistem em impor à nossa construção social da realidade.

É o que sucede com estas reportagens multimédia, que agora veem a luz do dia no #infomedia, depois de 5 meses de investigação, terreno e trabalho. É um puzzle coletivo de sons, fotografias, vídeos, mapas, discursos dissonantes e expressivos, fruto da troca de ideias de relação entre pares e solidariedade. Mas não foi sem sentirem o peso do receio e de muito ceticismo que os finalistas de Jornalismo da Universidade Lusófona do Porto (ULP) puseram pés ao caminho, para desbravar estórias sobre o Bairro do Cerco. Ainda que a votação da nossa redação tenha elegido o tema como essencial para desenvolver como trabalho final à unidade curricular de géneros jornalísticos, foram muitos os discursos relapsos e dissuasores para que avançássemos para o terreno.

Os estudantes sentiram que estavam a ser lançados para a “linha de fogo” – das suas próprias generalizações apressadas-, contaminados por ideias feitas. A boa notícia é que estes futuros jornalistas não voltaram os mesmos desta experiência no terreno. Regressaram mais maduros, tolerantes, modestos. A grande notícia é que, além de terem escavado estórias com extraordinário valor-notícia, despojaram-se do preconceito, e aprenderam a lição da humildade, tão basilar ao exercício jornalístico. É preciso ouvir os Outros, com respeito e tolerância. É urgente ouvir. É preciso saber do contraditório, do contexto, dos contextos e que, no final das contas, é sempre mais aquilo que nos aproxima do que aquilo que nos separa.

A margem somos cada um de nós, de cada vez que colocamos limites ao nosso trabalho jornalístico, pois deixamos, desde logo de o fazer. A margem é a proteína essencial para indagar sobre os muros e as invisibilidades da nossa cidade, da nossa comunidade, por vezes, inclusive, demasiado visível pelas piores razões, que até ofusca.

Foi, por isso, transpondo a ideia de periferia, que os finalistas de Ciências da Comunicação da Licenciatura de Jornalismo da ULP fizeram emergir uma série de reportagens multimédia e que compõem a anatomia deste corpo coletivo: Bairro do Cerco, como é morar num bairro considerado à margem?

O preâmbulo contextual é feito a seis mãos: Gabriela Bernard, Rafael Moreira e Inês Fernandes, em “Conhecer o Bairro do Cerco”. Catarina Dias e Ana Francisca Rodrigues desafiam-nos a explorar “A vida do outro lado do Cerco”. Já Daniel Dias e a Susana Oliveira garantem que no “Cercar-Te os miúdos do bairro estão bem”, mostrando o mundo do Cerco como um porto seguro para quem nele habita, muito além das estatísticas de criminalidade e de delinquência. Nesse mesmo embalo, a Rosária Gonçalves e o Vicente Garim trazem-nos a história de vida do “João d’A Maceda”, o ponto de encontro de muitos moradores do bairro, para o convívio, os jogos de sueca e, claro, a boa mesa dos petiscos. É a partir do convívio, do amor e da solidariedade encontradas, que a Ana Patrício e a Ana Luísa amplificam “A voz da terceira idade”, dando pistas sobre como se vive no bairro do cerco pelos olhos de quem amadurece nele.

Ana Rita Castro, Mara Craveiro e Patrícia Dias levam a batuta para outras cadências, através do universo da afamada “Orquestra Juvenil da Bonjóia”, com uma forte ligação ao bairro, provando que a música muda vidas. Ah! E por falar em vidas que se transformam: Raquel Batista traz-nos o lado menos conhecido da comunidade, com a reportagem “Militares do Bairro” refletindo sobre o drama de quem esteve já em contexto de guerra, como é o caso de Márcio Durão, o qual participou numa missão de segurança no Kosovo, para preservação e conservação da paz no território. Por seu lado, Eduardo Costa e João Rocha fazem uma viagem no tempo, para resgatar do arquivo de memórias a história e a importância do “Futebol Clube do Cerco”, fundado em 1966 e que fechou portas em 2011. Agustina Uhrig Pousada, estudante de intercâmbio Erasmus, escreve-nos em castelhano sobre o trabalho da Associação do Porto de Paralisia Cerebral, referência na inclusão social – “APPC: incluir a las personas con parálisis cerebral en el día a día”.

E já que falamos de inclusão social, Tiago Fonseca foi conhecer o projeto Cerporto: um projeto que dá vida ao cerco, sobretudo às crianças do bairro.

Numa analogia com a palavra Cerco, Patrícia Sofia Pereira aborda o que é ser jovem nesta comunidade: “Cercados: Os Jovens do Bairro, será diferente a educação, na parte oriental e ocidental, da cidade?” Diana Nogueira traz-nos, por fim, o exemplo de um projeto que soube integrar e saltar o muro, o “OUPA!CERCO”, que já em 2016 mostrara ao atual presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando visitou o bairro, que o Cerco sabe rimar ao ritmo de hip hop.

No capítulo extra, final, cada um e cada uma reflete,  em jeito de metanarrativa, sobre o processo jornalístico. É daquelas reportagens para ler, então, com notas de rodapé.

As coordenadas estão dadas. Eis as nossas propostas para navegar e conhecer melhor como é morar  no Bairro do Cerco.

Vanessa Rodrigues, jornalista e docente em Jornalismo na ULP

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