A comunidade invisível

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A comunidade invisível

A comunidade do Corte de pedra, localizada na cidade de Conservatória é conhecida por ser uma comunidade “invisível”, esquecida pela prefeitura, pelo governo estadual e federal, os moradores da região sofrem com a falta de acesso a sinais de telefone, internet, cultura, socialização e cuidados médicos.

A comunidade tem esse nome por estar localizada justamente entre uma pedra gigante em que foi feito um corte no meio – causa natural já que foi o principal acesso da ferrovia que ligava várias cidades dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Levavam pessoas, mercadorias e minerais. Pela cidade do Rio de Janeiro ser a capital do país na época, a entrada de mercadorias no meio marítimo era mais fácil, e a deslocação para cidades do interior foi facilitada pelo uso dos trens. O funcionamento era diário e deixou de funcionar em 1963, três anos depois da transferência da capital para Brasília.

Entrada da comunidade do Corte de pedra.
Fotografia: Ana Laura Toledo

São mais de cinco quilómetros para chegar ao centro da cidade, a população atual chega a quatro mil habitantes. Ao todo são 42 moradores no centro comunitário, poucos têm veículos próprios, muitos se deslocam a pé para o centro.

Aparecida de 68 anos, mãe de sete filhos e avó de 11 netos têm as primeiras lembranças de vida na comunidade já que os pais se mudaram com os nove filhos em 1953 para a região.

Saudosa lembra com emoção a presença dos pais e reforça que só havia outras duas famílias que alí habitavam há mais tempo. A casa de pau a pique era o que sustentava já que não tinham dinheiro para comprar cimento e tijolos. Para iluminar usavam lampiões, a eletricidade só chegou em 1982 e o saneamento básico em 2004. A coleta de lixo é realizada 3 vezes por semana, vitória conseguida há pouco mais de 15 anos, após ser implantada uma lixeira, pelo projeto “Adoção de comunidade”, antes dessa data, o lixo era jogado em uma vala junto a um rio; poluindo o meio ambiente. Hoje já não se encontra lixo fora da lixeira

Lixeira feita em 2004 para serviço da comunidade Fotografia: Ana Laura Toledo

Com muitas dificuldades, conseguiu ajudar os filhos da maneira que pôde…

Atualmente cinco dos filhos moram na comunidade, os outros conseguiram um emprego em outra cidade.

Com a pandemia, as coisas ainda pioraram não saem de casa, não tem autorização para trabalhar. Aparecida junto aos filhos Larissa e Lucas de 16 anos recebem uma ajuda financeira do programa “Bolsa Família” – Programa implementado no ano de 2003 no governo Lula que auxilia com a quantia de 190,57 reais mensais (valor atualizado em 2021) para cada filho menor de idade para famílias pobres com renda per capita de 89 a 178 reais como é o caso de muitas famílias na comunidade.

“Precisamos de mais condições dignas, como sinal de telefone, um centro de saúde que atenda com urgência e atividades culturais para nossas crianças e adolescentes.”

Mãe e filha em casa.
Fotografia: Ana Laura Toledo

Assim como a família da Silva outras famílias vizinhas também recebem ajuda de custo do governo, mas muitos reclamam da falta de acesso, pavimento da estrada, e sinais básicos de telefone são difíceis de conseguir.

Uma moradora questionou que uma vez a filha ficou muito doente e não conseguiu ligar para o atendimento médico, e levou a filha a pé (filha no colo) para ser atendida, depois de mais de 50 minutos de caminhada conseguiu salvar a vida da filha

Larissa, a filha caçula de Aparecida relembra da última vez que esteve na que escola em modo presencial, dia 20 de março foi seu último dia de aulas, pensou que fosse coisa rápida e já em janeiro de 2021 a escola comunicou que as aulas estão sem previsão de volta. Durante os 10 meses confinada, a menina que tem o sonho virar policial ou jogadora de futebol, estuda por apostilas e livros que são distribuídos por uma kombi e depois são recolhidos para correção do professor responsável. Tem receio de contrair o vírus e passar para os pais, por isso fica a maior parte do tempo em casa realizando tarefas domésticas ou assistindo televisão.

Todo dia pela manhã Lucas de 13 anos vai recolher o galão de água que fica junto a parede interior da pedra, já que a fonte fica perto. Água é usada para limpeza da casa, banho e água para os animais como as galinhas e cachorros

Água colhida diariamente para o uso dos moradores
Fotografia: Ana Laura Toledo

Por se tratar de uma pequena comunidade, os moradores e vizinhos são conhecidos de longa data e possuem certa intimidade. É muito comum comemorarem aniversários juntos, Natal e Ano novo.

Com ajuda desde 2003 da Igreja matriz, do pároco Pe. Edilson e pela pintora Maria Alvarina (82) muitas das moças e senhoras começaram a frequentar as aulas aplicadas pela pintora de maneira gratuita, sendo aulas realizadas no exterior da igreja após a evangelização realizada pelo Pe. são artesanatos, dentre eles, a pintura, costura e bordado além de ser um espaço de ensinamento em formato de “classe”, com uma troca mútua de informações de várias questões como jeitos de lavar e secar determinadas peças, cuidado com a casa, estudo dos filhos, novelas e entretenimento, tal trabalho que é a renda principal de muitas que vivem no centro comunitário.

Assim, que as aulas são finalizadas, voltam para casa, fazem o trabalho de costurar, bordar e pintar para nos finais de semana irem a feira da cidade venderem as artes produzida. Para chegar ao centro, muitas das vezes os produtos vão no carro de carona e elas vão a pé.


Alunas concentradas para início da aula de bordado com Dona Maria Alvarina (blusa listrada em azul e branco) – 2004
Fotografia disponibilizada pela D.M.Alvarina
Trabalho das alunas em exposição disponível para compra. Fotografia de dezembro de 2020
Foto disponibilizada pela D.Maria Alvarina

Com ajuda do projeto “Adoção de comunidade”, o centro comunitário Corte de Pedra se viu mais esperançoso para dias melhores.

O projeto incentiva e apoia os moradores locais a terem uma condição “digna” com saneamento básico, água potável, cuidados de saúde e higiénico básicos. Melhorando suas casas, espaços em comum como o depósito de lixo e também uma capela, já que grande parte dos locais são fiéis da religião católica.

São os moradores do centro da cidade e também de outras regiões que incentivam a participação das crianças nas escolas, a terem acompanhamento bucal, as mulheres a terem acompanhamento pelo médico de família e também pela diminuição da taxa de desemprego.

O meio de comunicação é o “boca a boca”, não existe site ou rede social justamente para não distanciar ainda mais da realidade apresentada.

Capela atualmente
Fotografia: Ana Laura Toledo

Pessoas interessadas a participar podem apadrinhar uma criança ou uma família no final do ano e esta será “responsável” para ajudar na compra de itens básicos como a cesta básica, roupas, material de higiene e escolar, além de fazer um carinho de forma especial para essas pessoas. Por conta do Covid-19, no ano de 2020 a entrega dos presentes foi de maneira rápida com a responsável D.Maria Alvarina sem a presença dos padrinhos e madrinhas como acontecia nos anos anteriores.

Para colaborar de qualquer maneira entrar em contacto por email info@quintaldeana.com.br ou pelo telefone +55213628 6933. A adesão de se tornar um colaborador há de ser renovada todos os anos manifestando o interesse na participação para o bem estar social dos envolvidos.

Miriam e a filha Maria Eduarda na igreja com itens que receberam de Natal como roupas, material escolar e cesta básica.
 Foto de Dezembro de 2020 – Fotografia disponibilizada pela D.Maria Alvarina
 

A comunidade otimista não perde as esperanças, porém pede um apelo às autoridades, há coisas que deveriam ser de responsabilidade do governo a promoção da cultura e bem-estar. São limitados, não conseguem fazer tudo que gostariam, existem coisas que não se fazem com as próprias mãos…

Eles não pedem muitas coisas, apenas o básico de direito de todo cidadão brasileiro como saúde pública de qualidade, educação, socialização e de serem visíveis tanto presencialmente, quanto virtualmente.