“Sou eu que abro e fecho o cemitério todos os dias”

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“Sou eu que abro e fecho o cemitério todos os dias”

Quem são as pessoas que cuidam da nossa última morada? O ofício de coveiro é uma profissão quase invisível na sociedade. Cristina Moreira e Moisés Mendes são dois coveiros e contam ao #infomedia um pouco mais sobre este trabalho.

São 10 horas da manhã fria de 19 de dezembro. Cristina Moreira, ou como é apelidada pela maioria das pessoas que passavam por ali, “a Dona Cristina”, prepara-se para começar a rotina de todos os dias. É sempre a primeira a chegar e a última a sair “sou eu que abro e fecho o cemitério todos os dias”. Pelas 8 horas da manhã, a primeira função que lhe compete é abrir os portões daquela que é agora, a casa dos que deixaram fisicamente a Terra.

À medida que as horas vão passando, os corredores começam a encher-se de gente que vai visitar e enfeitar as campas dos seus entes queridos. “Bom dia, posso tirar uma vela?” – pergunta uma senhora de idade enquanto Cristina vai limpando as folhas caídas no chão cimentado. Para além de coveira (pessoa que abre as sepulturas e enterra os mortos), no interior do cemitério, tem um negócio próprio de velas e esponjas que geria com o marido Henrique. Quem cuidava mais desta parte do negócio era Cristina, enquanto o marido ficava com o trabalho mais pesado de um coveiro, tratando de abrir e fechar os buracos das sepulturas, limpar a terra à volta das campas e fazer os funerais.

Natural de Castelo de Paiva, uma vila com cerca de 17 000 mil habitantes, composta por seis freguesias, há mais de 20 anos que Cristina tem como local de trabalho o cemitério, situado na Freguesia de Santa Maria de Sardoura, a poucos quilómetros do centro de Castelo de Paiva.

Há cerca de quatro anos e meio, com 52 anos, viu-se obrigada a ficar com o cargo que pertencia a Henrique: “foram as circunstâncias da vida que obrigaram porque quem era o coveiro era o meu marido e quando faleceu não tinha mais ninguém que quisesse ficar com esta função”. Confessa que já percorre os corredores do cemitério há vários anos e que não tem qualquer tipo de preconceito à volta disso. Mas nunca pensou ficar encarregue deste ofício.

“Se dois ou três dias antes de o meu homem morrer me dissessem que eu ia abrir os buracos ou que ia enterrar alguém eu dizia que não”

– Cristina Moreira –

O falecido marido da “Dona Cristina” foi coveiro por muitos anos e desde sempre acompanhou por perto os preparos de um funeral, chegando mesmo a ajudar a “abrir muitas covas”. Mas nunca tinha ficado “quando chegava a parte das ossadas” – por opção própria, retirava-se sempre. Por consequência, a primeira vez que teve de fazer um funeral e todo o processo envolvente, foi um grande choque. Cristina deve ser uma das poucas mulheres que são coveiras. Este cargo é mais atribuído a homens, devido ao trabalho duro e pesado que exige. Mas confessa não ter qualquer tipo de preconceito por parte da família ou população em ser uma das poucas mulheres a fazê-lo. “As pessoas que por aqui passam já me conhecem há muitos anos, para elas não há nada de estranho ser eu a coveira deste cemitério”.

Fotografias do Cemitério de Santa Maria de Sardoura, Castelo de Paiva

|Fotografias: Ana Fernandes|

Moisés Mendes, natural de Castelo de Paiva, trabalha na construção civil desde muito novo. O seu sogro, o “senhor José”, como é apelidado, era o coveiro do cemitério da União de Freguesias Sobrado e Bairros, e desde sempre “dei a mão quando ele precisava de uma ajuda extra”. Há cerca de um ano e meio, devido ao agravamento do estado de saúde, José viu-se obrigado a deixar o cargo e passar o testemunho. Foi assim que, aos 48 anos, Moisés tomou o posto que, até então, pertencia ao sogro.

Abrindo o grande portão do cemitério, também com um tom esverdeado, refere que encara este trabalho como um part-time que aceitou fazer porque não havia mais ninguém que quisesse assumir o lugar. Tal como o sogro, sempre demonstrou satisfação pela função e como gostava que a família desse continuidade, decidiu aceitar – “para ele é uma alegria eu ter ficado encarregue do seu antigo trabalho”.

Como é o dia a dia de um coveiro?

No local onde estamos, um pouco depois do portão da entrada, com uma cor esverdeada escura, Cristina vai explicando como é um dia de trabalho de um coveiro enquanto faz os seus afazeres. Embora seja uma vila pequena e nem todos os dias morra gente, tem uma lista de tarefas como em todas as profissões – “vou apanhando o lixo que há por aí, cuido e limpo o terreno para não ter ervas, lavo os passeios” – é ela que trata de toda a manutenção do cemitério, desde a limpeza, jardinagem, recolha e tratamento do lixo, auxílio de informações e a manutenção geral. Pela Páscoa e pelo Dia de Todos os Santos, são alturas em que limpa mais a fundo o cemitério para este ter uma apresentação mais agradável.

 Quando morre alguém, tem também a seu cargo a abertura da sepultura, com a ajuda de um empregado da Câmara Municipal de Castelo de Paiva. Esta é uma das tarefas mais complicadas e complexas de um coveiro. Sendo mulher e já com alguma idade, não consegue fazer esta parte do trabalho sozinha. Depois desta etapa estar concluída decorre o funeral. A última parte a ser feita é deitar a terra, e a que sobrar tem de arrumar, limpar o terreno e lavar os passeios à volta das campas.

Ao contrário da “Dona Cristina”, o coveiro Moisés só é responsável por abrir e fechar as sepulturas, cabendo a manutenção do cemitério à Junta de Freguesia.

Enquanto vamos caminhando pelos corredores do cemitério, Moisés refere que a maior dificuldade que tem é a retirada da pedra quando as sepulturas das campas têm jazigo. Como trabalha sozinho, precisa da ajuda de alguém “para tirar e colocar a pedra”, já que é muito pesado para uma só pessoa. Como é uma vila pequena e a maior parte da população se conhece, quem costuma ajudar são familiares ou pessoas que estão relacionadas com o falecido/a. Em relação às horas de trabalho para abrir uma sepultura, são precisas, mais ou menos, entre cinco e seis horas de trabalho e é feito no dia anterior do enterro. 

O senhor Moisés encontra-se acompanhado pela filha Beatriz e pela sua esposa Ana Cristina. Sentada na beira do muro já gasto, Beatriz de apenas 14 anos revela que por vezes o pai tem uma ajuda especial. Pois costuma acompanha-lo principalmente, em dias de funerais. Confessa que não lhe faz confusão porque já via o avô a fazer o mesmo, “o que custa é ver a primeira vez”. É ela que varre a terra e que lava os passeios enquanto o pai trata dos retoques finais, e ainda transporta todos os ramos de flores que estão nas carrinhas fúnebres, deixados por familiares e amigos do falecido/a para a campa. “É o meu braço direito quando tenho mais trabalho” – brinca o pai com um tom de ironia.

Em conversa, a esposa de Moisés, Ana Cristina, admite que, apesar de o pai já ter sido coveiro e ter lidado com isso durante toda a sua vida, não aprecia o facto de o marido estar a seguir o mesmo caminho.

Nas funções atribuídas a um coveiro, são ainda incluídas a retirada de corpos, translações (transportar os restos mortais da sepultura para outro local), inumações (colocar o cadáver na sepultura), exumações (abrir uma sepultura para a retirada de restos mortais), e ainda, conhecimento de construção civil para abrir uma sepultura. Em relação aos utensílios usados, tanto Cristina como Moisés realçam as pás, enxadas, picaretas, sacholas, tesouras, vassouras e apanhadores. Devido à pandemia, acrescentam o uso de máscara/viseira, luvas e desinfetante.

Interior do Cemitério de União de Freguesias Sobrado e Bairros, Castelo de Paiva.

|Fotografias: Ana Fernandes|

Riscos para a saúde

Este é um trabalho com muitas exigências psicológicas, emocionais, mas principalmente, físicas. Sendo uma profissão com pouca visibilidade para a sociedade, Moisés Mendes, acha importante alertar as pessoas para os perigosos que este trabalho possa ter para um coveiro.

Os agentes químicos que são utilizados para a limpeza e manutenção do cemitério são muito fortes, causando irritações na pele, asma, alergias ou outras doenças respiratórias. Com o passar dos anos, surgiram máquinas que facilitam o serviço, como escavadoras para transportarem a terra, “o senhor que costuma vir ajudar-me a abrir os buracos de vez em quando, traz a máquina de escavar para facilitar melhor o trabalho” revela Cristina. Mas estas tarefas continuam a ser quase todas manuais e a utilização de ferramentas pesadas. Moisés pega numa pá que estava encostada a um dos muros, e demonstra que o facto de passarem muito tempo na mesma posição, quando estão a abrir as covas, pode ser prejudicial para a saúde, tal como as condições ambientais a que se sujeitam, a humidade, muito frio ou muito calor – “nós trabalhamos sempre, faça chuva ou sol, estamos sempre cá e sujeitos a condições adversas” – salienta Moisés. A nível emocional, podem sofrer de ansiedade, depressão e algumas perturbações.

Funerais em tempo de pandemia

A pandemia já provocou por todo o mundo a morte de mais de 1,94 milhões de pessoas. A chegada da covid-19 trouxe também uma nova realidade dos funerais. Para evitar que sejam um foco de infeção, só pode acompanhar as cerimónias fúnebres um máximo de dez pessoas.

O luto pela perda também mudou. Já não há o abraço ou o carinho dos mais próximos. O que mais custou para Cristina foi não puder dar o aconchego aos familiares, principalmente quando são pessoas conhecidas e por quem nutre um carinho especial – “é complicado, mas no final o trabalho tem de ser feito”. No entanto, os funerais que mais lhe custa fazer e a deixam mais perturbada são enterros de crianças.

Em tempo de covid são tomadas todas as precauções, mas agora há cada vez mais pessoas a comparecerem o que não acontecia durante o confinamento.

“Cheguei a fazer um funeral em que só estava eu e o senhor da Junta que costuma ajudar, e mais três pessoas que eram família direta do falecido”. 

Cristina Moreira

Enquanto vai vendendo velas às pessoas que vão passando, conta que no ano passado, em 2020, no dia de Todos os Santos foi abrir e fechar o cemitério, mas por opção própria decidiu não ficar lá a vender como era habitual todos os anos. Apesar de ser o dia do ano em que o negócio rende mais, preferiu resguardar-se em casa por medo do incumprimento das regras da Direção-Geral da Saúde (DSG) por parte dos visitantes. Na entrada do cemitério tem um panfleto com o aviso do uso obrigatório de máscara, bem como um desinfetante para que cada pessoa que entra ou saia possa desinfetar as mãos. Cristina revela ao #infomedia que ainda há uma maioria que não cumpre e “ainda levam a mal se eu chamar a atenção”. Por receio que acontecesse uma situação semelhante e também com a possibilidade de puder vir a ficar infetada pelo cemitério ter mais gente que o habitual, ficou em casa.

No cemitério ali ao lado, na Freguesia de Bairros, Moisés tem uma perspetiva diferente. A covid-19 não veio afetar de forma alguma a maneira como trabalha, até porque, como trabalha sozinho a maior parte do tempo, não tem contacto direto com ninguém e quando tem contacto toma todas as precauções aconselhadas.

Velórios sem padre e funerais limitados a dez pessoas. Como a Covid-19 está a mudar as cerimónias fúnebres em Portugal

Quanto é que recebe um coveiro por funeral?

O trabalho de coveiro é algo que nem toda a gente tem a capacidade emocional e física para exercer. Em relação à forma do pagamento dos dois coveiros residentes de Castelo de Paiva, Cristina e Moisés têm acordado um montante com as respetivas Juntas de Freguesias, uma vez que os cemitérios são propriedade das Juntas.

Posto isto, cabe a cada familiar do falecido/a pagar o montante que foi estabelecido em conjunto pela Junta. Por cada funeral, Moisés recebe cerca de 150 euros por todo o trabalho, desde a abertura da sepultura, ao enterro e à limpeza da campa. Para ele, este trabalho é apenas um part-time. O seu emprego é na construção civil e é desse salário que se sustenta e à família.

“Nunca conseguiria sobreviver apenas com o que recebo como coveiro”

Móises Mendes

Admite que tem facilidade em faltar ao trabalho porque o patrão é o irmão. Quando há um funeral para fazer, coloca a construção civil de lado e vai para o cemitério – “acabo por nunca perder um dia de trabalho”.

Já Cristina conta com o dinheiro dos funerais e do pouco que ganha com o negócio de velas e esponjas. Estes são os únicos rendimentos que tem para viver, para além de uma pequena pensão que recebe do falecido marido.

Interior do Cemitério de União de Freguesias Sobrado e Bairros, Castelo de Paiva.

|Fotografias: Ana Fernandes|

Ambos são da opinião que ser coveiro é uma profissão desvalorizada, um serviço complicado. Defendem o direito a um subsídio ou seguro no caso de alguém se magoar, bem como um salário mais alto e melhores condições de trabalho, como o apoio de mais maquinaria.

Em relação ao futuro desta profissão, ambos consideram que é cada vez mais um emprego que nem toda a gente quer exercer, principalmente os mais jovens. Mas irá ter de haver sempre alguém que o faça.

Atualmente já existem algumas formações para este setor. Os primeiros cursos que surgiram foram em Elvas, e são sessões práticas e teóricas.

Na reta final da conversa ambos confessam como se imaginam no futuro próximo. Cristina vê-se a deixar este ofício e ir para a reforma, “já são mais de 20 anos nisto, depois é o merecido descanso”. Descreve o trabalho de coveira como duro, e que exige alguém com “bom estômago” e com um “bocadinho de sangue frio”. Moisés Mendes, acredita que o percurso dele como coveiro ainda só agora começou e que ainda tem muito para dar e demonstrar à gente da sua terra.