Da bola aos livros: o desporto no sucesso escolar

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Da bola aos livros: o desporto no sucesso escolar

O desporto anda de mãos dadas com o desempenho escolar. Os benefícios são imensos desde tenra idade, o que permite um bem-estar físico e social. Miguel, Francisco e Santiago demonstram que também é possível ser um craque dentro da sala de aula.

[Reportagem de Pedro Silva]

Por todo o país, em qualquer aldeia, freguesia ou cidade, os jovens são incutidos a praticar um desporto, desde muito cedo. Os campos e os pavilhões estão sempre repletos de vida, na procura de um futuro risonho, nem sempre ligada ao desporto. Por esse mesmo motivo, os estudos não podem nem devem ser deixados de lado. Desportos como o futebol, o voleibol, o basquetebol, o futsal, entre muitos outros, são uma forma de os jogos gastarem as energias que acumulam, após um dia de aulas.

Muitos jovens aproveitam o tempo, que seria para descanso e estudo, para a prática desportiva. O Grupo Desportivo e Cultural de Gueifães e o Leça Futebol Clube são exemplos de como se pode relacionar os estudos e o desporto, tirando o máximo proveito dos seus atletas. Este tipo de instituições são os responsáveis por formar a geração de futuros adultos. Durante o treino, a única coisa que prevalece são as indicações do treinador.

Contudo, o ambiente e união entre a equipa é fundamental. Gritos de apoio dos pais e colegas, discursos motivacionais do treinador, gemidos de resiliência e de combate à adversidade, sobressaem ao barulho do vento cortante, do som da bola a bater nas redes e das sapatilhas a deslizar na madeira. Este é o ambiente que se vive em qualquer treino de formação, que fica mais intenso em dias de jogo.

Grupo Desportivo e Cultural de Gueifães

Após um longo dia de aulas, na Maia, mais concretamente no Pavilhão Municipal da Nogueira, equipa de iniciados do Gueifães está em aquecimentos. Tomás Bessa, treinador e amigo destes jovens, abre a porta as portas para mais um treino de preparação para o campeonato nacional. É neste pavilhão que encontramos Francisco e Miguel.

Francisco, de apenas 13 anos, desde muito novo que pratica modalidades fora do tempo letivo. O voleibol entrou na sua vida há seis meses e, desde então, “não se vê em qualquer outro desporto”. Mesmo com três treinos semanais, Francisco prioriza os estudos e sabe pôr em ordem as suas prioridades. Antes e depois dos treinos, ocupa o seu tempo a fazer os trabalhos de casa e a estudar as matérias que deu no dia. A gestão de tempo é parte fundamental na vida destes jovens, mesmo com uma agenda tão preenchida, “ainda é possível ter espaços para relaxamentos e brincadeiras”, afirma Francisco.  

Áudio de Francisco sobre a sua rotina escolar

 Miguel tem 14 anos e já é um dos mais experientes desta equipa do Gueifães. Começou a praticar desporto aos 10 anos, mas foi um ano mais tarde que se apaixonou pelo voleibol. Apesar da elevada carga horária a que é sujeito, e de ir “sempre carregado de livros”, o planeamento é um método que implementou e que tem vindo a dar frutos. O acompanhamento, feito pelos seus pais, permite que consiga desfrutar mais dos momentos, e “de não ficar tão preso às horas”, desabafa Miguel. Mesmo entre treinos, e viagens entre a escola e casa, arranja sempre tempo para estudar e, só dessa forma, consegue manter o aproveitamento escolar.

Áudio de Miguel sobre o seu plano de estudo

Mas, mesmo com o relaxamento e com brincadeiras o rendimento desportivo e escolar decaí? Tomás Bessa acredita que não. Ligado ao mundo do voleibol há 12 anos, maior parte deles como atleta, vê-se agora desafiado a trabalhar com jovens. Com apenas 22 anos de idade, acredita que já viveu muito do que o desporto tem para oferecer. Sempre foi um aluno exemplar, enquanto estudante, e hoje revê-se nestes jovens. O comportamento durante o treino reflete-se também na escola, acredita Tomás.

Vídeo de Tomás Bessa

Assim acaba mais um treino da equipa de Voleibol do Gueifães. Após duas horas de intenso treino físico, estes jovens preparam-se para mais um dia desgastante. Agora é chegar a casa, jantar e aproveitar o pouco tempo que resta antes de ir dormir. Esta rotina não é caso único aos atletas do Grupo Desportivo e Cultural de Gueifães, todos os jovens desportistas passam por este processo, durante a sua formação desportiva e académica, de norte a sul do país.

Saúde mental e física dos jovens atletas

O exercício físico é uma ferramenta importante para o desenvolvimento psicológico, físico e social do ser humano. A Organização Mundial de Saúde definiu a meta de uma hora diária de exercício físico, desde a adolescência. Em Portugal, esta prática está muito aquém da recomendação, mas quem o cumpre vê os consequentes benefícios.

Inúmeras vantagens da prática desportiva são de conhecimento geral, mas em tenra idade, os benefícios ampliam-se a outras áreas para além do mundo desportivo. O sucesso escolar está correlacionado ao desempenho físico. Melhor raciocínio, menos stress, maior concentração e mais disciplina são alguns dos benefícios visíveis em jovens que praticam desporto extracurricular.

Em entrevista com Filipa Espada, médica pediatra no Centro de Saúde de Matosinhos, chegamos à mesma conclusão. “As crianças sofrem imensa pressão, tanto da parte dos pais, para que tenham boas notas, como da parte dos treinadores, para que tenham um bom desempenho nos treinos”, afirma Filipa.

Claro que a prática de um desporto, individual ou em equipa, traz benefício enormes para as crianças. A nível social são criados vínculos com os “pares” e com os treinadores, os convívios em equipa são parte fundamental da integração dos jovens no seu contexto social.

A nível emocional, as crianças desde muito novas ganham disciplina e responsabilidade, “compreendem que têm de cumprir as regras a que são sujeitas e controlam melhor as emoções”, como refere Filipa Espada. Elas passam a saber lidar da melhor forma com todo o tipo de emoções, positivas ou negativas, não sofrem tanto com a ansiedade e apresentam melhor autoestima. A nível escolar, as notas acabam por sofrer mudanças, na maior parte, de forma positiva. “A atenção é redobrada, tal como o empenho e a motivação”, afirma a pediatra.

“Uma criança não é só saudável se estiver em forma. A prática desportiva, a saúde mental e o sucesso escolar andam de mãos dadas.”

Filipa Espada

Leça Futebol Clube

No desporto rei, cada vez mais é necessário que o desempenho escolar acompanhe o rendimento desportivo. O futebol é, sem sombra para qualquer dúvida, o desporto com mais aderentes em Portugal. Todos nós já sonhamos em ser um jogador profissional e, um dia, pisar grandes palcos. Na equipa de sub-12 do Leça Futebol Clube esse sonho é percetível em cada chuto na bola, no campo da Bataria.

Santiago Monteiro é um dos melhores jogadores e líder desta equipa. Mesmo tendo apenas 12 anos, Santiago já está envolvido no mundo do futebol há mais de três épocas. As escolinhas do Externato António Nobre foram a sua primeira experiência e o lugar onde se apaixonou pelo desporto. Acabou por migrar para o Leça, há dois anos, em busca de cumprir o seu sonho. Imagina-se a ter um percurso semelhante ao de Cristiano Ronaldo, mas nunca sem deixar de lado a escola.

“Eu gosto muito de informática. Acho que esse é o ramo que eu gosto mais.

Santiago Monteiro

Os sonhos é que comandam a vida mas, sem nunca esquecer o que mais almeja, Santiago pensa também num plano B. O jovem futebolista quer ser engenheiro informático e, como “temos de ser realistas, nem todos estes jovens vão conseguir ser jogadores profissionais no futuro”, como afirma Hugo Pereira, treinador desta equipa de formação leceira, todas as opções são bem recebidas. Claro que, para tal, as notas são essenciais. Essa é uma das principais políticas do clube de Leça da Palmeira, que faz um acompanhamento regular aos seus jogadores.

Nós não ensinamos só a chutar, saltar e correr. Nós ensinamos coisas que eles têm de levar para a vida.”

Hugo Pereira

Hugo Pereira acredita que os treinadores, como os professores, têm o dever de “ensinar para a vida”. O que estes jovens aprendem durante os seus anos de formação, alienado à responsabilidade que lhes é incutida, molda-os como pessoas. Treinadores como Tomás e Hugo têm um papel essencial para que, tal como Miguel, Francisco e Santiago, muitos outros jovens consigam alcançar os seus sonhos.

Pedro Silva

Olá, sou o Pedro Silva, tenho 20 anos e sou estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona do Porto. Sendo colaborador do #Infomedia, na editoria Geração Z, a escrita foi algo que sempre me fascinou desde tenra idade. Assim, vejo no jornalismo uma forma de desenvolver esta minha paixão, tornando-a na minha profissão.