Do Alto Minho ao Vale do Sousa: o impacto da Covid-19 em quatro concelhos

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Do Alto Minho ao Vale do Sousa: o impacto da Covid-19 em quatro concelhos

[Andreia Oliveira, Daniela Couto, Gisela Silva e Marta Andrade]

São Pedro da Afurada, em Vila Nova de Gaia, já não vive mais da pesca e do turismo. Em Viana do Castelo, o movimento das ruas e dos locais de restauração mais conhecidos dão lugar ao silêncio ensurdecedor. No concelho da industrialização, em Paredes, as máquinas começaram a parar, enquanto na Capital do Móvel, em Paços de Ferreira, as vendas pararam. A situação de pandemia certamente ficará para a história.

Muito se discute acerca das consequências da Covid-19 nas grandes cidades, porém ainda existe muita carência informativa acerca da situação dos concelhos. Durante muito tempo a região Norte encontrava-se na linha da frente com maior número de casos positivos e, com isso, o impacto social e económico foi brutal. Do Alto Minho ao Vale do Sousa, a investigação centrou-se nos municípios de Vila Nova de Gaia, Paredes, Paços de Ferreira e Viana do Castelo.

O reflexo da Covid-19 em Portugal

Em Portugal, a 2 de março era confirmado o primeiro caso pela Covid-19. Tratava-se de um indivíduo do género masculino, com 60 anos, médico no Centro Hospitalar Tâmega e Sousa e residente em Felgueiras. Ao que tudo indica, o homem esteve de férias no Norte de Itália, um dos locais mais afetados desse país.

A evolução dos casos confirmados em Portugal cresceu exponencialmente. A partir do dia 13 de março atingimos mais de uma centena de casos e, em apenas três semanas, subiu para mais de 10 mil

No mês maio começou a registar-se um decréscimo do número de infetados diários. Realça-se ainda um aumento de recuperados a partir do mês de março, sendo que a 20 de abril há uma evolução acentuada de mais de 200 casos por dia.

Podemos observar que entre os dias 23 e 24 de maio assinalou-se a maior subida de recuperados, de 9844 casos. Desde o primeiro registo de recuperados a 14 de março até 10 de junho existem 21742 casos.

O primeiro óbito foi confirmado a 17 de março tendo progredido entre 20 a 35 casos diários. No mês de junho é possível verificar uma redução acentuada do número de vítimas mortais.

Numa visão geral, é possível analisar que o número de óbitos é o que regista menos alterações, face ao número de recuperados, que tem o maior crescimento. Quanto aos casos confirmados há uma evolução rápida nos primeiros dois meses, no entanto, essa curva vai estagnando até ao dia 10 de junho.

Evolução do número de infetados, recuperados e óbitos entre março e junho
Gráfico realizado pelas autoras da reportagem

A situação de Portugal, no que diz respeito ao número de casos confirmados é semelhante na sua estrutura: de um aumento significativo dos primeiros meses para a diminuição dos casos em maio e junho. Mas, analisemos ao detalhe cada município.

A certeza da dúvida quanto ao futuro

[Por Gisela Silva]

Afurada é uma comunidade piscatória do concelho de Vila Nova de Gaia. Esta freguesia tem subsistido com base na pesca e no turismo. Contudo, o aparecimento da Covid-19 trouxe danos a esta forma de viver e a fé tem sido o impulso para acreditar em dias melhores.

Os ponteiros do relógio sobrepõem-se nas dozes horas. Era meio dia. E na Afurada, o ambiente citadino estava calmo. A pouca movimentação nesta comunidade piscatória foi um grande marco a nível económico e social.

Observa-se uma comunidade deserta. Sente-se a falta do cheiro a peixe fresco. Os restaurantes estavam fechados e, consequentemente, existiam poucos turistas a passear e a conhecer a freguesia. Contudo, muitos cidadãos aproveitam o espaço da Marina para a prática de desporto e exercício físico.

A Covid-19 teve muita influência no concelho de Vila Nova de Gaia. O exemplo concreto desse impacto surge na Afurada. Esta freguesia trata-se de uma comunidade piscatória do concelho e que se sustenta com base nesta atividade.

As consequências da atividade piscatória

Esta comunidade sentiu dificuldades em viver desta forma durante o período de confinamento. Uma vez que, esta atividade tinha sido proibida pelo Governo em outubro de 2019, quanto à pesca de sardinha a fim de proteger a espécie, com base num plano de gestão que se previa assegurar a sustentabilidade ambiental, económica e social desta atividade.

O plano de gestão para estabelecer restrições à pesca da sardinha, que abrange Portugal e Espanha, impõe limites à captura anual, os períodos de interdição e os limites quanto à captura de juvenis desta espécie. Estes limites tinham o objetivo de garantir a reprodução da espécie e, consequentemente, evitar a sua extinção.

Maria Eduarda, de 56 anos, é vendedora de peixe na lota da Afurada e explica que esta proibição acontece quando “a Comunidade Económica Europeia garantiu uma quota de mil toneladas para a pesca de sardinha”. Assim que os pescadores da Afurada atingiram essa quota, a pesca da sardinha passa a ser proibida.

Os pescadores da Afurada previam retomar a pesca por arte de cerco em abril de 2020 para o descanso da espécie e esta ter tempo para se reproduzir. Contudo, tal não foi possível devido ao período de Estado de Emergência e confinamento social que Portugal atravessava nesta fase.

António Paulo fala sobre a paragem imposta pelo Governo | Áudio: Gisela Silva

António Paulo, de 35 anos, é pescador desde jovem. António confessa que vivem desde outubro uma crise piscatória e a situação da Covid-19 traz um maior impacto nesta atividade.

“Houve paragem obrigatória derivado à Covid-19. Existiu um enorme impacto. O pescador está parado, sem trabalho. A incerteza do futuro é o que nos assusta, pois, os preços de pescado vão ser alterados”, conta António Paulo.

O efeito da bola de neve tem vindo a ressentir-se nesta comunidade. Para além dos pescadores, as mulheres que vendem a espécie na lota e nos mercados, e, ainda, a restauração sofreram com esta situação de crise.

Na Afurada várias foram as famílias que se tentaram adaptar a esta situação. Os pescadores estiveram durante nove meses sem pescar. Desta forma o Governo, segundo António Paulo, renumerou “cada pescador um mês de subsídio para quatro meses, num valor de 900€”. O pescador lamenta o sucedido e acrescenta que “o Governo estava a orientar uma proposta para os meses de abril e maio, mas sem efeito”.

“Um barco parado dá muita despesa, do que um barco em navegação”, admite António Paulo como uma dificuldade desta paragem obrigatória.

Marina da Afurada | Fotografia: Gisela Silva

O incumprimento da herança piscatória

A pesca da Afurada carateriza-se pela herança que se transmite de geração para geração. Os pescadores que hoje existem são filhos e netos de antigos pescadores que habitavam aquela comunidade. No entanto, estas últimas gerações não têm vindo a dar continuidade ao setor da pesca.

Segundo alguns moradores e pescadores, os jovens desistem da atividade. Para sustentarem a família e ganhar a sua independência, estes optam pela construção civil ou pelo emprego fabril.

Esta opção acontece, uma vez que a atividade piscatória tem decaído com o passar do tempo. Na situação de crise existente, a pesca tem perdido a sua qualidade a nível económico.

“Antes ainda era possível trazer um valor razoável a nível económico. Mas agora, mesmo antes da Covid-19, o desânimo de transportar pouco peixe para terra tem vindo a aumentar”, salienta António Paulo.

Os habitantes e os pescadores dependem daquilo que trouxerem do mar. Desta forma, as gerações jovens não veem a atividade piscatória como uma segurança económica rentável para os dias que, se avizinham na comunidade da Afurada. Como tal, procuram outras áreas de empregabilidade e estabilidade monetária.

A Fé como refúgio à situação de crise

A freguesia São Pedro da Afurada carateriza-se, tal como o seu nome indica, pela devoção a uma figura bíblica, São Pedro. Sendo este o padroeiro da freguesia. A fé é uma particularidade que define Afurada.

Neste tempo de pandemia, a freguesia reunia-se à volta de um andor com a figura da Virgem Maria exposta na Rua Agostinho Albano. Para além de rezarem o terço, também direcionavam as preces em torno do desejo e regresso dos pescadores ao mar, da extinção do vírus e, ainda, da intercessão da Virgem Maria pela comunidade da Afurada.

Maria Eduarda fala das preces feitas pela comunidade | Áudio: Gisela Silva

A oração iniciava pelas 20h30 com aqueles que se reuniam em prol do bem da comunidade. Era o único momento em que as pessoas saíam à rua.

Maria Eduarda partilha a falta de convívio da comunidade | Áudio: Gisela Silva

A habitante da Afurada, Maria Eduarda, afirma que “o povo esteve todo fechado. Havia dias em que vínhamos à porta e não conhecíamos a nossa Afurada”. A imagem, das ruas cheias de pessoas a falarem de uma porta para a outra, altera-se para uma imagem de ruas vazias, na qual a vizinhança desconfiava do toque no puxador da porta.

Para além da crise piscatória e da crise social, na Afurada também se sobressaiu a crise na restauração daquela comunidade.

A falta das festas populares

Na Afurada existem cerca de 15 restaurantes. Uns reabriram dentro das limitações existentes, outros ainda permanecem fechados. O setor da restauração também foi um dos mais afetados pela Covid-19, assim que o mundo paralisou. A par dessa paragem, o turismo e a restauração destacaram-se na queda existente.

Afurada, outrora, como local turístico sofre nos dias de hoje com a falta de turismo estrangeiro e local. Assim refere o proprietário do restaurante Casa do Pescador, Porfírio Fonseca, que não fecha as portas desde 1981. Contudo, a situação atual obrigou-o a encerrar durante este período de confinamento social.

“Não há festa de São Pedro, mas creio que vá haver o São João. As pessoas vêm para a rua de certeza”. Porfírio Fonseca salienta que as festas populares – São Pedro e São João – eram palco para o aumento da economia nos restaurantes e na comunidade, pois atraía muitos turistas e consumo local. Nesta altura, após a reabertura do restaurante, não existe tanto trabalho como antes, mas o proprietário acredita que “em breve seja possível trabalhar na totalidade”.

A vida que os pescadores vivem, atualmente, influencia na forma de gerência dos restaurantes existentes. O proprietário do restaurante Casa do Pescador acrescenta, referindo-se ao consumo local, que “se não houver dinheiro, ninguém vem consumir. Todos estão a sentir economicamente esta paragem”.

Apesar da situação de instabilidade existente na Afurada, a comunidade tem vindo a demonstrar esperança por dias melhores na localidade. Embora Vila Nova de Gaia, durante a crise pandémica, categorizou-se como o segundo concelho com o maior número de casos confirmados. Tendo registado um valor superior a 1500 casos confirmados até ao dia 10 de junho. Desta forma, o setor económico e o setor social foram afetados de forma exponencial.

Paços de Ferreira, “um barril de pólvora na propagação

[Por Marta Andrade]

Com mais de 57 mil habitantes e com uma área de 70,99 km², Paços de Ferreira, conhecida como Capital do Móvel, por ser o mais importante centro de produção de mobiliário de Portugal, e com a maior área de exposição e venda de móveis na Europa, viu a economia parar no início de março. Foi considerado um concelho de risco por situar-se próximo de Felgueiras, concelho onde surgiu o primeiro caso de COVID-19 em Portugal.

Paços de Ferreira, conhecida com Capital do Móvel | Fotografia Marta Andrade

A 14 de março, o Presidente da Câmara Humberto Brito, através de um comunicado no seu Facebook, informou a população acerca do surgimento do primeiro caso de COVID-19 na cidade. A Direção Geral de Saúde (DGS) apenas relatou os casos no concelho a partir de 24 de março, com a informação de apenas cinco casos, quando o Presidente da Câmara registava já 12 casos e um óbito.

Comparação do registo do número de infetados na Câmara Municipal e na DGS | Gráfico por Marta Andrade

Até ao dia 21 de abril, data da última informação divulgada pelo Presidente, apenas em dois dias a informação transmitida pelo Presidente da Câmara e pela DGS foram ao encontro, sendo que nos restantes dias sempre houve uma discrepância no número de casos, existindo uma diferença de 47 casos positivos, a 17 de abril, a maior registada.

O concelho ao longo da pandemia teve uma das taxas de contágio mais altas do país, neste momento a cidade regista uma taxa de contágio de 47,54%.

o facto de sermos um concelho pequeno, do ponto de vista de extensão, são cerca de 60 km² e de densidade populacional há quase 57 mil cidadãos, o que faz com que a taxa de propagação deste vírus num concelho como o nosso seja mais agressiva do que em concelhos onde o número de população e a concentração é inferior”

Vice-Presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Paulo Ferreira

Com o avançar do tempo o número de infetados foi reduzindo, e a preocupação já não é tão elevada como no início. A 1 de maio, com o fim do confinamento, Paços de Ferreira registava um total de 265 casos positivos e cinco óbitos. Com o avançar do desconfinamento os números foram aumentando, mas de uma forma ligeira sendo que a 10 de junho a cidade registava um total de 315 casos positivos.

Número de casos positivos de 1 de maio a 10 de junho | Gráfico por: Marta Andrade

O facto de o foco ter surgido próximo de Paços de Ferreira fez com que a 9 de março a Câmara Municipal tomasse um conjunto de iniciativas para evitar os contactos sociais, sendo dos primeiros concelhos do país a encerrar vários espaços públicos como parques, cemitérios, juntas de freguesias, museus, auditórios, entre outros.

Vice-Presidente da Câmara e as medidas iniciais | Vídeo: Marta Andrade

O facto de Paços de Ferreira se encontrar muito próximo do primeiro foco do vírus, a cerca de 16,19 Km da cidade de Felgueiras, fez com que a 9 de março o Presidente Humberto Brito solicitasse aos ministros da Saúde e da Educação o encerramento de todas as escolas públicas do concelho. A 11 de março ainda sem resposta por parte do Governo, o Presidente informou a decisão de encerramento de todas as escolas públicas do concelho caso o Estado não o decretasse.

Distância entre Paços de Ferreira e Felgueiras

A 31 de março o Presidente da Câmara Humberto Brito, numa mensagem enviada ao primeiro-ministro, exigiu que o governo tomasse medidas urgentes para que o número de infetados não aumentasse de uma forma galopante. Para além da proximidade a Felgueiras, Paços de Ferreira apresenta uma elevada densidade populacional e uma forte presença industrial. Assim a 16 de março, várias empresas do concelho fecharam portas.

Economia parada

Com uma área industrial de 150 hectares dedicada aos móveis, o concelho conta com mais 735 empresas neste setor. Antes do surgimento da pandemia, Paços de Ferreira estava num bom momento, o concelho encontrava-se numa situação de quase pleno emprego, sendo que no último ano bateram recordes com o número total de exportações. No ano de 2019, Paços de Ferreira registou um crescimento de 3,7% do volume de exportações, atingindo 1,9 milhões de euros na venda de mobiliário para o exterior, o que equivale a 66% total das exportações. Destas vendas 34% foi para o mercado francês, 25% para o mercado espanhol e 7% para o mercado alemão.

Domóvel: Maior Centro Comercial de Móveis da Europa | Fotografia: Marta Andrade

A empresa de mobiliário Famoveis, encontra-se aberta desde 2008 e 85% da produção é exportada. Mesmo trabalhando maioritariamente para fora do país, Filipe Andrade, dono da empresa, conta que foi no início do confinamento que recebeu “as duas maiores encomendas desde 2008”, e afirma que sempre teve trabalho, a única coisa em que ficou afetado foi o transporte e a montagem dos móveis para o estrangeiro, devido ao fecho das fronteiras terrestres.

Filipe Andrade e o impacto | Áudio: Marta Andrade

Filipe Andrade afirma que não consegue perceber várias das leis e propostas dadas pelo governo. Este encontra-se em casa, com o apoio dado pelo governo aos pais com filhos menores de 12 anos.

Filipe Andrade e as medidas do Governo | Áudio: Marta Andrade

até ao momento não chegou nada, portanto tenho que sobreviver com aquilo que tenho”

refere Filipe Andrade

Até ao final do ano a empresa encontra-se com trabalho e com encomendas, mas para o ano o dono da Famoveis afirma que não pode “garantir nada, porque não sabemos o dia de amanhã”. 

A ANF Mobiliário, que se encontra em funcionamento há três anos, viu a empresa ficar parada devido ao fecho das fronteiras em Portugal.  A firma de fabricação de móveis e de utensílios de cozinha tinha como principal ponto de vendas o mercado estrangeiro, com as fronteiras fechadas não foi possível fazer a distribuição e a montagem do material.

António Ferreira e o impacto na empresa | Vídeo: Marta Andrade

António Ferreira, gerente da empresa, afirma que com o surgimento da pandemia o número de vendas e o trabalho diminuiu. Quanto ao futuro do trabalho, o gerente afirma que tudo depende dos clientes e das encomendas feitas, mas a nível nacional o mercado está parado.

Na firma ANF Mobiliário, não foi pedido nenhum tipo de apoio ao Governo, mas António Ferreira afirma que as ajudas dadas pelo governo não foram muitas e que deveriam de ter sido dadas mais ajudas às empresas.

António Ferreira e as medidas do estado | Vídeo: Marta Andrade

que não fique pior do que está agora

António Ferreira quanto ao futuro

Na empresa Miguel Andrade, a COVID-19 também teve um grande impacto. Com uma loja no centro comercial Domóvel, foi obrigado a fechar o estabelecimento no dia 16 de março, por indicações da Câmara Municipal.

Miguel Andrade e o Impacto na empresa | Vídeo: Marta Andrade

Com a França a ser o principal mercado, o fecho das fronteiras veio fazer com que a exportação na empresa parasse, pois era proibido viajar para fora do país. Para Miguel Andrade, o trabalho vai reduzir, e no futuro vê que o número de encomendas vão ser menos e isso vai ser umas das grandes mudanças na empresa.

Quanto às ajudas do governo, afirma que foram poucas. O Governo deu o Lay-off, mas afirma que quem pediu ainda não recebeu o dinheiro, e que deviam de ter ajudado mais as empresas.

Miguel Andrade e a ajuda do Governo | Vídeo: Marta Andrade

Além do medo de contágio dentro das empresas, uma das maiores causas para o encerramento destas foi os mercados externos, que representam cerca de 60% da produção, estarem fechados, o que faz com que várias empresas tenham encerrado.

Num inquérito realizado pela Associação Empresarial de Paços de Ferreira (AEPF), foi possível averiguar que cerca de 50% das empresas fecharam por 15 dias. Esses dias foram dado como férias aos trabalhadores. Foi o que aconteceu na empresa têxtil Ronda Cetinada, a empresa foi obrigada a encerrar por 15 dias por falta de matéria prima e, esses dias foram dado como férias.

Quando se encontrava sem trabalho, Carla Ferreira, dona da empresa pediu ajuda à Câmara, na documentação para a legalização do fabrico de máscaras. Depois disso, não necessitou mais de ajudas. Neste momento encontra-se com muito trabalho, e com várias encomendas, mas quanto ao futuro não sabe o que esperar. 

Carla Ferreira e a ajuda da Câmara Municipal | Vídeo: Marta Andrade

Nesta empresa, o maior receio para o futuro é a nível monetário e a nível dos funcionários. O facto de ser uma pequena empresa e de não ter o poder económico que as grandes empresas possuem o receio de não conseguir cumprir com as obrigações e, de ter que despedir os funcionários é grande. Para a chefe da Ronda Cetinada, muitas leis criadas pelo governo foram feitas apenas para alguns.

Carla Ferreira e o Governo | Vídeo: Marta Andrade

A nível das mudanças no funcionamento da empresa, ocorreram grandes modificações, as empregadas à entrada na empresa têm que limpar os pés, desinfetar as mãos muitas vezes, tem que haver um distanciamento entre máquinas. Mas o receio está sempre presente visto que os funcionários vêm de fora e existe sempre o medo de contágio entre elas.

Na 1ª fase de desconfinamento, a 4 de maio, foi autorizada a abertura de lojas com mais 100 metros quadrados, barbeiros, esteticista, manicures e de cabeleireiros. No N&G Cabeleireiros, aberto há 30 anos, fecharam uma semana antes da pandemia acontecer por precaução, pelo simples facto de terem convivido com pessoas que estiveram em Itália, e com pessoas onde as empresas tiveram casos positivos de COVID-19.  

Teresa Neto, dona do cabeleireiro, afirma que a pandemia não afetou o salão, pois teve ajuda do estado e estava habituada à sua faturação que foi o essencial para poder aguentar dois meses, pois foi um curto espaço de tempo e deu “perfeitamente para mantermos o negócio livre de encargos”, mas a dona afirma que “há faturas que estão em atraso que se tem que pagar, há luz que se pagam na mesma, há rendas que se pagam, há ordenados que se tem que dar”.

Quanto ao futuro do salão, Teresa Neto mostra-se preocupada com o possível despedimento de funcionários, pois não sabe como será o futuro e pergunta-se

“Como é que eu vou pagar à funcionária? Como é que eu vou pagar as minhas contas de casa? Como é que eu vou pagar as minhas contas do salão? E como é que eu vou comer?”.

Pergunta-se Teresa Neto sobre o surgimento de uma segunda vaga do vírus

De junho a outubro todo o dinheiro conseguido vai ser guardado por causa da incerteza quanto ao futuro. Outra das preocupações que a dona do cabeleireiro mostra é a diminuição dos clientes, pois as “pessoas vão vir ao cabeleireiro por necessidade” e vai haver muito tempo livre e vai ser necessário ter algum part-time pois apenas o dinheiro do salão não vai chegar para a sobrevivência.

Teresa Neto e o Futuro | Áudio: Marta Andrade

No que toca às mudanças, as modificações foram várias. No início as medidas tomadas foram mais drásticas. Desde Esterilizador para toalhas, para máquinas de cortar o cabelo, para tesouras, para escovas, a toalhas descartáveis, penteadores descartáveis, limpar o salão constantemente, desinfetantes, o cuidado de deixar as portas abertas para arejar, sem ninguém dentro, mas todas estas medidas tem um custo, menos gente para atender, menos marcações, “ao fim do dia se teríamos que atender cinco pessoas, atendemos três ou quatro”.

Mas para Teresa Neto nem tudo foi bem pensado, como por exemplo o encerramento do salão. Segundo a própria “não havia necessidade de ter parado deviam de ter analisado, mas foi uma coisa nova e eles não sabiam, mas podiam por exemplo, trabalhar de manhã atendia duas ou três pessoas, poderiam me dar ajuda ou não, eu teria que me adaptar e ia fazendo algum”.

Teresa Neto e as medidas do Estado | Áudio: Marta Andrade

José Andrade é sócio-gerente de uma empresa de lavagem de automóveis e de lavagens personalizadas, aberta a um ano, a AJL-automóveis. O confinamento, afetou a sua firma numa redução de clientes de quase 50% no total. No que toca ao futuro, o funcionamento não irá mudar muito, José Andrade afirma que se irá “manter o que está agora neste momento”.

José Andrade e o impacto na empresa | Vídeo: Marta Andrade

Para o sócio-gerente, o que futuro lhe reserva é uma incógnita, mas existe uma grande incerteza para o que se irá passar a seguir. Segundo, José Andrade, as medidas tomadas e os apoios dados pelo governo foram razoáveis. O próprio, refere que a economia do país não pode parar, pois parando o país iria parar por completo e, isso não pode acontecer.

José Andrade e a economia | Vídeo: Marta Andrade

Com o impacto da COVID-19 em Paços de Ferreira o número do desemprego aumentou, depois de uma fase em que a cidade se encontrava quase em “pleno emprego”, como refere o vice-presidente Paulo Ferreira.

No final de 2019, o concelho de Paços de Ferreira contava com um número total de 1630 desempregados. Antes da pandemia a cidade registava em janeiro 1776 desempregados e em fevereiro 1772. Em março, com o surgimento do primeiro caso e com o encerramento de várias empresas, os números aumentaram tendo registado 1931 desempregados, sendo que em abril, os números foram mais críticos e houve um aumento de 314 desempregos em relação a fevereiro, registando um número de 2086 desempregados no concelho.

A opinião dos pacenses

Com o surgimento do novo coronavírus, os principais pontos de distração para os pacenses foram fechados, desde estádios de futebol, a parques municipais, museus, pavilhão municipal, piscinas, entre outros. Sem estas formas de entretenimento os cidadãos viram-se obrigados a permanecer nas suas casas.

Cátia Silva tem 18 anos, e vive em Ferreira. A jovem que se encontra a estudar em Felgueiras, Engenharia Informática na ESTG, viu-se obrigada a ter aulas a partir de casa depois do surto na cidade onde estuda.

A jovem afirma que é difícil estar em casa e evitar o sedentarismo, visto que não pode frequentar lugares para descontrair pois estes se encontram encerrados. De dois em dois fins de semana ia ao Estádio Capital do Móvel assistir aos jogos do Futebol Clube de Paços de Ferreira (FC Paços de Ferreira), mas com a pausa do campeonato esse seu hobbie também ficou parado.

Cátia Silva, afirma que o governo lidou de uma forma razoavelmente com a situação, mas algumas medidas deveriam ter sido tomadas mais cedo, como o fecho das escolas e serviços públicos no país. A nível do concelho, a jovem tem noção que a situação não é das melhores do país, pois uma cidade com uma densidade populacional como a de Paços de Ferreira, o número de infetados foi elevado. Para Cátia Silva as decisões tomadas e os apoios dados pela Câmara Municipal foram bem tomadas e, foram ações que “ajudaram a que a situação não fosse pior que aquilo que é agora. E os apoios da câmara foram essenciais para as empresas e para os negócios”.

Cátia Silva e a situação no concelho | Áudio: Marta Andrade

Paula Melo, tem 44 anos, é natural de Tondela, mas vive há 11 anos em Freamunde no concelho de Paços de Ferreira. Neste momento encontra-se desempregada, mas a fazer cursos de vida ativa pelo IEFP.

Com a COVID-19, a sua liberdade foi interrompida e o convívio com os amigos e com a família que vive maior parte em Tondela, nunca mais foi o mesmo. Com o fim do confinamento o seu principal desejo era ir tomar café com as suas amigas, algo que já aconteceu.   

Para Paula, o concelho está mau, pois no início muita gente não teve noção do perigo da doença e do contágio, e vários patrões exigiam aos trabalhadores que fossem trabalhar sem condições.  

Paula Melo e a situação no concelho | Áudio: Marta Andrade

Filipa Alves, tem 35 anos, reside na freguesia de Penamaior e é enfermeira e coordenadora técnica das Unidades de CC e ERPI da Ordem da Trindade.

Com uma profissão de risco, Filipa viu a sua vida a mudar. Com o aumento do trabalho, reforçou as horas de trabalho e o esforço do dia a dia. Para a enfermeira, apesar de logo do início a ministra da Saúde e a Diretora Geral da Saúde terem começado a mostrar sinais de cansaço e incongruência na informação passada, a verdade é que esta acha que Portugal está a fazer um bom trabalho, mas a implantação do uso de máscara devia ter sido mais precoce.

No que toca ao concelho Filipa Alves mostra que as coisas já estiveram piores, mas neste momento estão mais estáveis. Contudo, a enfermeira teme que com o desconfinamento possam ser críticos, as pessoas vão relaxar e as grandes empresas começando a trabalhar, a produtividade e o dinheiro podem falar mais alto que a saúde da sociedade.

Filipa Alves e a situação do concelho | Áudio: Marta Andrade

Da Câmara ao Desporto, as ajudas e iniciativas

Na cidade de Paços várias foram as iniciativas e vários foram os que ajudaram nesta luta que é de todos. Desde a Câmara Municipal, a clubes de futebol, passando por empresas e cidadãos.

No que toca a Câmara Municipal, esta criou vários apoios tanto para as empresas como para os pacenses, desde a criação de uma Linha de Solidariedade para os cidadãos, ao fornecimento de dinheiro para os alunos para a aquisição de material informático, à disponibilização do Antigo Hospital da Misericórdia para a ARRS Norte, entre outras ajudas.

As Ajudas e Apoios da Câmara | Vídeo: Marta Andrade
Linha de Solidariedade Municipal | Imagem: Câmara Municipal de Paços de Ferreira

Linha de Solidariedade Municipal

Inicialmente a linha de solidariedade municipal foi criada, para receber contributos e pessoas que estivessem disponíveis para ajudar a comunidade, mas rapidamente devido à rápida evolução da pandemia no concelho foi necessária uma resposta mais forte. Assim, neste momento a linha funciona, praticamente e em exclusivo, como recetor de pedidos de ajuda por parte das famílias do concelho.

Neste momento são vários técnicos que estão na linha, quando ligam para os três números são atendidos por técnicos do município e todos os problemas que estejam a sofrer, direta ou indiretamente, em função desta pandemia, são encaminhados para os diferentes serviços.

A Câmara já recebeu mais de 800 pedidos de ajuda da população do concelho. Nesta linha ajudam desde o apoio alimentar, ao fornecimento de refeições já confecionadas, à recolha do lixo junto das habitações onde estão essas pessoas infetadas com o Coronavírus.

Paulo Ferreira e a criação da Linha de Solidariedade Municipal | Vídeo: Marta Andrade

Ajuda aos profissionais de saúde que residem no concelho

Hotel em Paços de Ferreira junto com a Câmara Municpal disponibilizaram camas para os profissionais de saúde | Fotografia: Marta Andrade

A Câmara Municipal junto com os hotéis do concelho, disponibilizou aos profissionais de saúde que trabalham e que são do concelho e, que não possam ir para as suas casas para não contagiar os seus familiares, porque estão todos os dias a tratar pessoas com COVID, a oferta de alojamento aos profissionais, que durante a pandemia optem por não irem dormir a casa e para que possam fazer em maior segurança na cidade. Para além deste apoio a Câmara fornece equipamentos de proteção individual a um conjunto de instituições, mas também aos centros de saúde.

Vice-Presidente da Câmara Municipal e as ajudas aos profissionais de saúde do concelho | Vídeo: Marta Andrade

Disponibilização Antigo Hospital da Misericórdia de Paços de Ferreira

O Antigo Hospital, era um espaço que estava fechado há muitos anos e onde foi necessário fazer algumas mudanças. Do ponto de vista estrutural, apenas foi necessário fazer uma limpeza profunda ao interior e ao exterior,visto que, a estrutura não estava em más condições. Foi também necessário equipar o hospital com um conjunto de materiais, como camas, colchoes, entre outros. Neste momento o hospital pronto para uma possível utilização caso seja necessário. O Hospital caso venha a ser aberto, apenas abrange a população do concelho e serão cedidos 12 quartos para acolher os que se encontram infetados com a COVID-19.

Paulo Ferreira e a Disponibilização do Antigo Hospital da cidade | Vídeo: Marta Andrade

Futebol Clube de Paços de Ferreira

Mas nem só a Câmara criou apoios e iniciativas, o FC Paços de Ferreira criou uma newsletter e doou impressoras 3D para a criação de viseiras.

O departamento de nutrição do Paços de Ferreira lançou uma newsletter com informação destinada a todos os atletas, treinadores, pais e sócios do clube. Serão abordados temas como conviver com a questão da quarentena, que cuidados se devem ter em termos de higiene alimentar, compras, escolhas, entre outros.

Com as equipas de formação paradas, viu-se a necessidade de elaborar material de apoio. Para isso pretende-se “divulgar aquilo que serão as ações tomadas assim que houver algum regresso à normalidade – nomeadamente a questão do aconselhamento nutricional em consulta, que ia começar nesta fase”, afirma César Leão num comunicado feito pelo clube.

Para além dos atletas, o clube quis também fazer chegar a newsletter aos adeptos do clube. “Tendo em conta o momento que estamos a passar, achamos que talvez houvesse interesse, já que, nestas primeiras newsletters, aquilo que vamos colocar será mais do interesse geral, como conviver com a questão da quarentena, que cuidados se devem ter em termos de higiene alimentar, compras, escolhas… Continua a haver muita informação, mas muita dela sem qualidade nenhuma, e, nesse sentido, já que estas ferramentas estão a ser criadas e servirão para todos, achamos que seria benéfico disponibilizar a todos os sócios do clube”, explicou o nutricionista.

Para além da newsletter a equipa de futebol profissional ofereceu também duas impressoras 3D a empresas locais, permitindo duplicar a produção de viseiras de proteção da COVID-19 para o concelho.

Sabemos que esta é uma luta de todos, na qual cada um de nós pode fazer a diferença.Por esta razão, os atletas, a equipa técnica, o departamento médico e o staff do futebol profissional do FC Paços de Ferreira uniram-se para adquirir duas impressoras 3D para o fabrico de viseiras, que serão, posteriormente, distribuídas pelos heróis que estão na linha da frente no combate à COVID-19.Um gesto nobre e de grande valor que muito nos orgulha. Obrigado! 🔰

Publicado por FC Paços de Ferreira em Sexta-feira, 10 de abril de 2020
Impressoras 3D oferecidas pelo plantel principal | Vídeo FC Paços de Ferreira

A ideia surgiu de duas empresas do concelho, uma de comunicação e outra de mobiliário, com o objetivo de fazer face às necessidades e à grande procura destes equipamentos. Cada firma adquiriu uma impressora 3D que consegue fazer cerca de 50 viseiras por dia.

No final da pandemia as duas impressoras oferecidas pelo plantel, equipa técnica, departamento médico, roupeiro, diretor desportivo e secretário técnico serão doadas a estabelecimentos de ensino de Paços de Ferreira.

“A mensagem que nós queremos passar para o concelho é que o vírus não desapareceu e o fim do estado de emergência, não quer dizer que as pessoas posam voltar à sua vida normal”

Vice-Presidente, Paulo Ferreira

Paredes, o concelho industrial em paralisação

[Por Daniela Couto]

Paredes, concelho do Norte e com raízes no Vale do Sousa, é reconhecido a nível nacional pela grande dimensão da indústria mobiliária e por exportar entre 60% a 80% da produção. Agora vê-se com encomendas paradas, acumuladas e impedidas de entrega para o exterior, sendo o ramo mais afetado. Também encerrados durante mais de dois meses estiveram os pequenos negócios, deixando os comerciantes com grandes dificuldades financeiras. O som ensurdecedor de um concelho que não para, dá lugar ao silêncio e reflete um enorme impacto a nível social e económico.

Câmara Municipal de Paredes

Pertencente à área Metropolitana do Porto desde 2013, Paredes conta com uma população de mais de 86 mil habitantes, distribuídas pelas suas 18 freguesias, de acordo com os censos de 2011. A situação atual de pandemia colocou o concelho, que vive da indústria, em alerta. Em dois meses, tentamos perceber de que forma a Covid-19 afetou a sociedade e a economia.

Mapa do concelho de Paredes

Desde que foi registado o primeiro caso pela Covid-19 em Portugal, a Câmara Municipal de Paredes depressa começou a tomar medidas de prevenção da propagação do vírus, uma vez que o surto se localizou em Felgueiras, local próximo do concelho.

Em conversa com o Presidente da Câmara Municipal de Paredes, este revela que a primeira preocupação se prendeu com o público-alvo mais vulnerável, ou seja, os idosos. Rapidamente ofereceram um apoio adicional de cerca de 11.500 euros aos lares e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do concelho, assim como tomaram medidas para manter a segurança quer dos utentes, quer dos profissionais.

A preocupação pelos lares e IPSS no concelho
Elsa Monteiro no Lar Residencial, por Daniela Couto

Falamos com Elsa Monteiro, 28 anos, natural de Lordelo. Exerce funções como Auxiliar de Ação Direta no Lar Residencial de Sobrosa, uma das IPSS do concelho e, hoje, conta-nos a experiência de trabalhar em tempos de pandemia, principalmente num local onde tem contacto com utentes com deficiências cognitivas e motoras e onde as regras e os horários se alteraram de forma radical.

O testemunho de Elsa Monteiro, Auxiliar de Ação Direta no Lar Residencial

A Câmara Municipal atendeu ainda às necessidades dos Bombeiros, uma vez que estavam a ter custos acrescidos, nomeadamente, na desinfeção dos locais públicos, e pela perda de todas as receitas provenientes do transporte de pessoas não urgentes.

Neste sentido, foi doado equipamentos de proteção individual, não só aos Bombeiros, mas também à Cruz Vermelha de Vilela e, mais recentemente, investiram 100 mil euros em máscaras sociais para oferecer a estas corporações para que fossem colocadas à venda pelo valor de 1 euro. O dinheiro que angariassem revertia a favor das mesmas.

A 9 de março cancelaram todas as feiras e eventos, assim como encerraram a Piscina Municipal de Paredes, todos os ginásios, pavilhões, a Biblioteca Municipal, a loja interativa de turismo e a Casa da Cultura. Para reforçar as medidas do Plano de Contingência para a Covid-19, a 16 de março foi ainda decretado o fecho das esplanadas e dos parques.

Das medidas de prevenção ao aparecimento dos primeiros casos

O dia 11 de março fica marcado pelo surgimento do primeiro caso positivo pela Covid-19, alguns dias após as primeiras ocorrências em Felgueiras. Trata-se de uma jovem adulta residente em Rebordosa que esteve em contacto com o seu companheiro que vive em Felgueiras. Esta jovem infetou ainda uma amiga e o seu avô, pois não demonstrou sinais imediatos do vírus.

Após estes casos foram aparecendo novos infetados um pouco por todo o concelho, não existindo uma localização concreta de um possível surto.

Existiram ainda casos positivos em três lares do concelho: na Santa Casa da Misericórdia, no Centro Social de Recarei e na Obra de Assistência Social de Sobrosa. As respostas a este problema foram imediatas. Para além da suspensão das visitas e das novas regras impostas no funcionamento das equipas, foram reservadas áreas “completamente distantes nos próprios lares para os idosos infetados”, confere o presidente.

Apenas a 23 de março, a Câmara Municipal de Paredes, através da fonte da Unidade de Saúde Pública- Aces Tâmega II- Vale do Sousa Sul, começou a divulgar os dados. Nesse dia registavam-se 11 casos positivos, sendo que três já tinham recuperado, dando um total de oito pessoas.

Divulgação do número de casos positivos e recuperados no dia 23 de maio | Fonte: Câmara Municipal de Paredes

O Presidente Alexandre Almeida refere que em concertação com a Delegada de Saúde, entendiam que “não deveriam divulgar o número de casos por freguesia”, no entanto, a 3 de abril, após uma reunião, a Câmara recebeu a indicação de que não haveria problema em fazê-lo.

Este registo por freguesias manteve-se apenas até ao dia 9 de abril, porque através do Ministério da Saúde “foi entendido que as únicas estatísticas que deveriam ser tornadas públicas eram as da Direção-Geral da Saúde [DGS], para evitar o desfasamento entre os dados dessa fonte e os que a Câmara Municipal publicava.

Durante estes 7 dias houve uma progressão muito rápida do número de casos positivos, de 67 para 149 pessoas, sendo que as freguesias que registam números mais elevados eram Paredes, Lordelo e Rebordosa “por serem as freguesias com maior população”, refere Alexandre Almeida.

As únicas freguesias que durante este período não registaram casos pela Covid-19 foram Cristelo e Louredo, enquanto que Aguiar de Sousa, Beire e Parada de Todeia mantiveram sempre o mesmo número.

O primeiro óbito no concelho registava-se a 2 de abril, em Lordelo. Realça-se ainda que do dia 6 para 7 de abril, foram registados 4 óbitos e, desde então, aumentou para oito. Todos os falecimentose os internamentos “foram de pessoas acima dos 65 anos”.

Registo do número de casos por freguesias | Tabela realizada por Daniela Couto

Quanto ao número de recuperados, a informação só se tornou pública até ao dia 9 de abril, com o registo de 3 casos. Em conversa com o Presidente da Câmara Municipal, a 14 de maio,  já existiam 158 recuperados, em 322 casos registados, ou seja, “quase 50% daquelas pessoas que foram infetadas já recuperaram”.

Mas vejamos o gráfico relativo à evolução dos casos no concelho de Paredes, segundo a DGS, a partir de 10 de abril até 10 de junho:

Evolução do número de casos confirmados no concelho de Paredes | Gráfico elaborado por Daniela Couto

Durante estes dois meses, os números passaram de 132 para 349 casos confirmados no concelho. Os maiores registos aconteceram entre os dias 12 e 23 de abril, com aumentos até 18 casos de um dia para o outro. A partir de 30 de abril os números tendem a ser mais estáveis, pelo que existiram vários dias com o mesmo valor, como por exemplo, de 24 a 28 de maio com 334 e, o mais recente, de 6 a 9 de junho com 348. Assim sendo, o mês de maior afluência foi abril e, no final de maio, há um menor registo de número de casos.

Locais de realização de testes à Covid-19

Com o agravar da situação nos concelhos do Tâmega e Sousa, o Agrupamento de Centros de Saúde Vale do Sousa Sul recorreu ao Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel, a 28 de março, para realizar testes à Covid-19. Neste local é possível efetuar 200 testes diários aos residentes de Paredes, Penafiel e Castelo de Paiva.

Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel, por Daniela Couto

No Centro de Saúde de Paredes foram criadas as Áreas de Diagnóstico Complementares (ADC), para receber pessoas que possam apresentar sintomas relacionados com o vírus.

O Presidente da Câmara explica as Áreas de Diagnóstico Complementares

O Hospital Particular de Paredes também está a realizar testes, assim como foi concebida, no final do mês de março, uma unidade específica para acolher e tratar de doentes com Covid-19.

Hospital Particular de Paredes, por Daniela Couto

A Câmara Municipal de Paredes também teve um papel proativo a nível da saúde. Criaram uma linha telefónica exclusiva para o apoio a doentes testados positivo ao vírus para esclarecer dúvidas e solicitar apoios materiais. Para além disso, dispõem de sete centros de acolhimento, equipados com 100 camas, para receber indivíduos com necessidade de isolamento.

Alexandre Almeida fala-nos acerca dos centros de acolhimento

Agora é tempo de ouvir a voz de quem trabalha numa Unidade de Saúde Familiar no concelho de Paredes, para perceber os maiores desafios e mudanças que esta situação atual de pandemia trouxe.

Júlia Coelho, fotografia cedida pela própria

Júlia Coelho tem 54 anos e é natural de Lordelo, Paredes. Atualmente exerce funções como Assistente Técnica na Unidade de Saúde Familiar Salvador Lordelo, onde mantém as mesmas funções e horário de trabalho, apesar da situação de pandemia.

Refere que a ética de trabalho se alterou de forma radical. Foram desmarcadas diversas consultas presenciais e tentam resolver os problemas dos utentes através de uma linha telefónica, de forma a evitar aglomeração de pessoas.

O risco de trazer o vírus para casa e poder infetar a sua família é o seu maior receio. Também demonstra tristeza pela possibilidade de ter de se deslocar para o Centro de Saúde de Paredes, local onde se pode estar em contacto com utentes com Covid-19.

Apela às pessoas se mantenham em casa, e sempre que tiverem de sair, que se protejam a si e aos outros.

O testemunho de Júlia Coelho, Assistente Técnica na Unidade de Saúde Familiar Salvador Lordelo

Por outro lado, também foi essencial escutar a história de José Barbosa, 62 anos, residente em Sobrosa, que passou por uma experiência negativa.

José Mendonça, fotografia cedida pelo próprio

Durante algumas semanas, José esteve doente. Apresentava sintomas de uma gripe, mas as dores no peito e a tosse persistiram, o que o deixou bastante ansioso e com receio. Decidiu ligar para o Centro de Saúde de Cristelo que lhe indicaram o número da Saúde 24 para perceber se poderia estar positivo à Covid-19.

Acabou por se dirigir ao Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel para realizar o teste e, enquanto aguardou os resultados, manteve-se isolado em casa. Considera este tempo em que esteve limitado às paredes do seu quarto como “uma experiência péssima, onde o tempo demorava a passar e a angústia crescia por não saber se estava infetado”.

Agradece a ajuda dos seus familiares e amigos que lhe contactavam diariamente via telefónica, assim como salienta que a sua “médica de família foi incansável”.

“Ninguém está preparado para uma situação destas”, confessa José Barbosa.

Ao fim de algumas semanas recebeu os resultados e não poderia ter ficado mais contente. O teste deu negativo. Após o alívio, é confrontado com uma nova realidade quando sai à rua: “as pessoas quando me viam fugiam e olhavam desconfiadas”.

José ainda refere que é sócio-gerente da empresa de mobiliário “Santos & Barbosa, Lda.”, que abriu as portas em 1996 e, desde então mantem-nas abertas, ainda que com a situação de pandemia. Durante este tempo, os funcionários da empresa produziram encomendas que tinham em atraso, uma vez que o seu principal cliente também continuou a sua atividade. Mas, o mesmo não aconteceu a várias empresas do setor mobiliário.

O acumular de problemas no setor empresarial…

A região Norte assegura 64% das empresas de mobiliário nacional, de acordo com os dados da Direção-Geral das Atividades Económicas. Esta produção concentra-se, sobretudo, nos concelhos de Paredes e Paços de Ferreira, sendo que a Câmara Municipal de Paredes revela que o concelho garante 30% dessa produção nacional.

Concentração da indústria de mobiliário, em 2015
Fonte: Direção-Geral das Atividades Económicas

A tradição de transformar a madeira iniciou-se no século XIX, devido à variedade de espécies florestais no concelho, que permitia matéria-prima para o desenvolvimento desta atividade.

A marcenaria começou a ganhar cada vez mais terreno e tornou-se a atividade predominante, passando de geração em geração. Assim sendo, as indústrias distinguem-se por serem, na grande maioria, de natureza familiar.

“A indústria de mobiliário é a que está a sofrer mais no concelho”, confere Alexandre Almeida.

Em conversa com o membro da direção da Associação de Empresas de Paredes, João Fernandes, este diz-nos que existem 1916 empresas de mobiliário no concelho, sendo o setor que mais emprega pessoas.

O ramo mobiliário já teve melhores dias. Com 60% a 80% da produção a ser exportada, este setor vê-se agora com encomendas acumuladas, impedidas de entrega para o exterior e até muitas das empresas deixaram de ter trabalho. Para além disso, como não é considerado um produto de primeira necessidade, em tempos como este, por falta de poder de compra, as pessoas podem mesmo deixar de comprar móveis, pelo que a previsão do futuro para esta área é incerta.

Explicação da situação do ramo mobiliário pelo olhar do Presidente

O setor têxtil também é outra área que enfrenta uma série de dificuldades. De acordo com os dados da Direção-Geral das Atividades Económicas, 76,1% das indústrias encontram-se no Norte do país, sendo que em Paredes encontram-se distribuídas 363 empresas.

Concentração da indústria têxtil em Portugal, em 2015
Fonte: Direção-Geral das Atividades Económicas

Muita da produção é exportada, pelo que este setor se revê muito na situação da indústria mobiliária, no entanto, muitas delas têm-se reinventado. A aposta na produção de máscaras e equipamento cirúrgico, tem mantido muitas empresas no ativo, ainda que com horários mais reduzidos, mas nem todas tiveram essa oportunidade e fecharam temporariamente, recorrendo ao lay-off.

Também o comércio local e tradicional sofreu um abalo enorme. A 19 de março, a Câmara Municipal de Paredes comunicava a decisão de encerramento de cafés, restaurantes e outros estabelecimentos. Durante mais de dois meses o negócio esteve parado e os comerciantes viram as suas vidas mudarem drasticamente, porque “são pessoas que vivem do que vendem”, refere Alexandre Almeida.

“Era de partir o coração passar em algumas ruas do concelho e ver as lojas fechadas”, reflete emocionado o Presidente da Câmara Municipal de Paredes.

Reflexão de Alexandre Almeida acerca da situação complicada dos comerciantes

João Fernandes dá o exemplo de alguns casos de comércio local, como a área da restauração, que conseguiram contornar as dificuldades através das entregas ao domicílio e take-away, ou até outras áreas que têm investido no online, “embora as vendas tenham decrescido ainda assim”.

Refere ainda que muitas empresas recorreram ao lay-off, sendo “uma das ferramentas que o governo nos deu para conseguirmos colmatar as dificuldades do concelho”, no entanto, considera que ainda assim existem muitas com “bastantes dificuldades em ultrapassar esta fase”, acumulando diversos problemas.

João Fernandes fala acerca do adiamento dos pagamento: “é só um adiar dos problemas”

… e as medidas de apoio social e económico

Perante as dificuldades sentidas pelas empresas, a Câmara Municipal de Paredes decidiu criar um gabinete de apoio à economia local para minimizar os impactos da pandemia. A 27 de março foi anunciado esse plano e no dia 8 de abril disponibilizaram os formulários.

Nesse plano é  reforçado o apoio social, pelo que as pessoas que se encontrem em lay-off podem estar isentas de pagar durante esse período as tarifas do lixo, água e saneamento. Quanto ao apoio empresarial, as que se encontrem temporariamente fechadas, será devolvida também essas tarifas, assim como as empresas com 150 mil euros de faturação, também será devolvida a derrama. Mas, Alexandre Almeida explica-nos melhor esta questão.

Apoios sociais e empresariais por parte da Câmara Municipal de Paredes

A Associação de Empresas de Paredes também tem apoiado os associados e não associados, quer a nível contabilístico, quer fiscal, através da transmissão de todo o conhecimento acerca das vantagens e apoios que o Governo tem definido, “de forma a que as empresas consigam enquadrar essas novas legislações”, confere João Fernandes.

A nível do comércio local, esta associação costuma realizar diversos projetos e atividades com vista à promoção do mesmo, mas a situação pandémica veio cancelar muita da programação. Atualmente, estão a focar-se no conteúdo digital e a criar lojas online para oferecer essas opções aos comerciantes locais.

Atividades estruturadas pela Associação de Empresas de Paredes com vista à promoção do comércio local

Ainda é cedo para dados concretos, mas segundo o Presidente da Câmara e a direção da Associação de Empresas, mais de uma centena de empresas em lay-off pediram apoios, de um total de 4539 empresas em Paredes.

Dados do Centro de Emprego revelam um aumento significativo do desemprego no concelho e, de acordo com João Fernandes, pode estar relacionado com a situação atual de pandemia e pelo facto das empresas não conseguirem suportar tantos salários. De março para abril ficaram desempregadas  422 pessoas, mais concretamente 213 mulheres e 209 homens. De realçar que dos 3689 desempregados, apenas 228 procuram pelo primeiro emprego e 3461 estão à procura de um novo trabalho.

Os impactos sociais e económicos nos meses de março e abril

Estivemos à conversa no dia 13 de abril com Olga Faria, a diretora-geral da indústria de mobiliário Farimóvel. Situada em Cristelo, a empresa abriu as portas há 30 anos, no entanto, no dia 20 de março aconteceu o imaginável e encerraram. Entre os motivos estão as questões de saúde, falta de matéria-prima, o facto dos principais clientes também terem fechado e de 65% da produção ser para o exterior.

Farimóvel: razões para o encerramento

O serviço administrativo esteve sempre a trabalhar para “continuar a dar suporte aos nossos clientes que nos foram requisitando pelas redes sociais e telefone”, assim como a equipa de marketing começou a pensar numa série de projetos digitais que poderão desenvolver para contornar as dificuldades e evitar o despedimento dos funcionários “porque a nossa prioridade é mantê-los”.

Durante o mês de abril, recorreram ao lay-off, mantendo grande parte dos funcionários nessa condição, assim como estiveram atentos e pediram a isenção do pagamento das tarifas do lixo, água e saneamento facultados pela Câmara Municipal de Paredes.

Quem é empresário sente sempre receio quanto ao futuro, porém, nestes últimos meses, a incerteza e a angústia são muito maiores, por não saber o que o futuro reserva. Olga relembra que mais do que nunca, as gerências têm uma responsabilidade social acrescida porque têm “muitas famílias ao seu encargo”.

Por fim, Olga refere que o Governo está a tomar as medidas adequadas, no entanto, insuficientes para o setor empresarial.

A ação do Governo aos olhos de Olga Faria

No dia 27 de abril, conversamos com Juliana Rocha, uma das gerentes da empresa “Rocha´s Mobiliário”, que está aberta há mais de 30 anos, sendo um negócio que vem de geração em geração, mas percorrendo países como a Espanha, França e Dinamarca.

A indústria localiza-se em Vilela e nunca fechou totalmente. De 16 funcionários, apenas três estão a trabalhar e os restantes encontram-se em lay-off. Dispõem ainda de duas lojas, uma em Espanha e outra em Paços de Ferreira que reabriram a 4 e a 18 de maio, respetivamente.

“Não havendo vendas, não há produção”, esclareceu Juliana.

Quanto aos apoios facultados pela Câmara Municipal de Paredes, a empresa não teve qualquer informação sobre os mesmos, tendo apenas recorrido ao lay-off.

A situação avizinha-se complicada. Muitos dos orçamentos que tinham sido pedidos pelos clientes ficaram em suspenso, tudo porque o futuro é incerto e “as pessoas sentem receio”, portanto, como não é considerado um produto de primeira necessidade, a quebra poderá ser abrupta, mas pode existir sempre exceções.

Juliana Rocha reflete sobre as dúvidas quanto ao futuro

Juliana refere que as feiras de mobiliário que eram realizadas todos os anos permitiam dar visibilidade dos produtos da empresa ao público, assim como fazia crescer o número de vendas, mesmo em momentos de crise como Portugal já passou. Neste momento, “está a crise implementada e não há feiras para divulgarmos”. Como se trata de um problema que está a afetar a nível global, será “muito mais difícil a recuperação”.

Juliana Rocha: uma crise mundial, um problema maior

Depois da conversa com as duas empresas do setor mobiliário, fomos em busca de outra área: o têxtil. No dia 29 de abril estivemos à conversa com Irene Nunes, uma das gerentes e decoradora da empresa “Regina Nunes Torres”, com 17 anos de existência.

Situada em Vilela, a pequena empresa encerrou a 16 de março e recorreu ao lay-off para os sete funcionários, uma vez que “70% a 80% do fabrico é para Espanha”. Como esse país se encontra numa situação muito difícil devido às circunstâncias atuais, foi momento de começarem a pensar em soluções, mas às quais Irene não pretendeu revelar até porque “o segredo é a alma do negócio”.

Irene Nunes fala acerca dos receios quanto ao futuro

Irene Nunes garantiu ainda que iriam manter as portas fechadas durante todo o mês de maio. Relativamente às ações do Governo, considera que o mesmo está a cumprir com o que prometeu, no entanto, ainda é muito cedo para tirar conclusões, porque “é um buraco muito grande”.

A opinião de Irene Nunes face ao apoio do Governo

Ouvimos ainda o testemunho de duas funcionárias desta empresa que comentam a situação do concelho e da freguesia de Sobrosa, onde ambas residem, assim como para perceber como têm ultrapassado este momento.

Carla Moreira tem 43 anos. É funcionária na empresa “Regina Nunes Torres”, há mais de 15 anos, mas viu as suas rotinas serem completamente alteradas: encontra-se em casa desde 16 de março, em lay-off , e à data desta conversa não sabia quando seria a data para o regresso ao que melhor sabe fazer.

Carla Moreira, por Daniela Couto

Descreve a situação atual de pandemia como um momento excecional e desafiante, aliás, o simples facto de se encontrar em casa por um longo período é um desafio, no entanto, dedica-se à horta, ao jardim e a cozinhar, de forma a se manter ativa e gerir toda a negatividade que se vive.

Realça a comunicação e o tempo em família como aspetos positivos num momento como este, assim como dá mais valor aos pormenores e às simples coisas que a natureza pode proporcionar. Não deixa de sentir falta dos passeios em família, das caminhadas à beira-mar e de estar com os que lhe são mais próximos, pelo que serão das primeiras coisas que irá fazer quando for seguro.

Relativamente à ação do governo, considera que estão a ser tomadas as medidas necessárias dentro do que é possível, mas não deixa de referir que a situação irá abalar muito o país. Destaca ainda preocupação pelo elevado número de casos positivos pela Covid-19 no seu concelho e freguesia, porém não deixa de valorizar as iniciativas que têm sido feitas em todo o concelho para combater a pandemia.

Quanto ao futuro, este é incerto, mas Carla Moreira apela à consciencialização das pessoas e acredita que até dos piores momentos se pode retirar aspetos positivos aos quais nos podemos agarrar para superar as dificuldades.

O testemunho de Carla Moreira, funcionária têxtil

No final de abril falamos com Antónia Mendonça, 56 anos, que refere que as mudanças a nível pessoal não se tinham alterado, apesar de se encontrar em casa. A nível monetário não encontrou problemas até à data, mas receia que a empresa tenha dificuldade em reabrir, uma vez que exporta para Espanha, pelo que “seria bom que esse país pudesse abrir as fronteiras, para conseguirmos continuar a produção, e também porque seria um sinal de que a situação em Espanha estaria melhor”.

Antónia Mendonça, fotografia cedida pela própria

Durante o tempo em que foi exigido o confinamento, Antónia abre o coração e conta que foi difícil estar longe dos seus filhos, que se encontram em Coimbra e na Alemanha, e da sua mãe. Como Católica que é, sente-se triste ao lembrar-se que não pode estar reunida com a sua família na celebração pascal.

Para ultrapassar este momento de isolamento social e não pensar nos problemas, “a estratégia é fazer imensas coisas para estar sempre ocupada e raramente via as notícias”. Neste sentido, dedicou-se mais à culinária, ao croché, à leitura e a ver filmes.

Quanto à situação do concelho e da freguesia acredita que “estão num bom caminho porque as pessoas no geral estão a cumprir as regras”, mas não deixa de mencionar as empresas que estão com sérias dificuldades em tentar equilibrar a balança.

A primeira coisa que quer fazer quando for permitido é juntar-se com a sua família “pois somos uma família muito presente e unida” e com os seus amigos, mas relembra que é necessário muita paciência e que não vale a pena lutar contra o tempo, porque “de um dia para o outro temos todo o tempo do mundo”.

De volta ao setor empresarial, por último falamos com Marisa Viana, gestora da Quinta dos Amores, um dos negócios locais aberto há 15 anos. Esta quinta está direcionada para a organização de casamentos, mas também faz serviços de catering de comunhões, batizados, congressos, festas de aniversário, entre outros.

O último casamento foi realizado a 14 de maio e, logo após essa celebração fecharam as portas. Conta com 4 funcionários fixos e mais de uma dezena em serviço part-time, e agora mantêm-nos em lay-off, com a possibilidade, ainda que incerta, de um recomeço da atividade em setembro.

Como um setor que envolve um elevado número de pessoas num espaço, aumentando o risco de contaminação, a área dos casamentos e dos eventos “é um dos setores mais prejudicados” de acordo com Marisa.

“Este ano era o melhor ano ao fim de 15 anos”, expõe a gestora.

Em 2020 seriam celebrados 106 casamentos na Quinta dos Amores, no entanto, os eventos previstos entre abril e agosto foram todos adiados para o ano seguinte e, alguns, para 2022.

Aquele que seria o melhor ano, rapidamente deu lugar à incerteza. Marisa Viana refere que o Governo até ao momento não emitiu qualquer comunicado sobre a realização dos casamentos, o que deixa tudo mais complicado para quem trabalha e vive unicamente desta área. Da Câmara Municipal de Paredes não tinham qualquer conhecimento sobre os apoios facultados.

Marisa Viana refere os problemas provocados pela pandemia na Quinta dos Amores

Começaram a pensar em alternativas para ultrapassar os problemas, nomeadamente, a  aposta na comida ao domicílio, “uma vez que a nossa comida é tradicional, e cada vez mais as pessoas gostam muito do sabor do forno de lenha”, no entanto, rapidamente perceberam que não iria existir muita adesão por parte dos clientes porque a maioria dos restaurantes do concelho adotaram essa estratégia. Agora resta esperar por melhores dias para este setor.

E depois do confinamento?

No final do mês de abril, o Governo deu a conhecer as novas medidas, no contexto do Estado de Calamidade, que anteciparão a retoma gradual da economia em maio. Neste seguimento, decidimos perceber como é que estava a correr a reabertura de alguns negócios em Paredes.

O plano de desconfinamento arrancou, a 4 de maio, com os negócios de pequena dimensão. No concelho, abriram-se as portas das Finanças, do Conservatório e do Balcão Único, que começaram a atender presencialmente por marcação.

Balcão único, por Daniela Couto

Para além disso, um pouco por todo o concelho, as barbearias, cabeleireiros e centros de estética voltaram ao ativo, mas com novas regras.

Situada em Beire, a Barbearia Martins foi fundada há pouco mais de dois anos por Tiago Martins, 25 anos. Esteve fechada desde 16 de março, trazendo inúmeras dificuldades ao fundador, uma vez que “o ordenado é conforme o trabalho no dia-a-dia”.

Não recorreu aos apoios da Câmara Municipal pois não tinha qualquer conhecimento, no entanto, no que diz respeito às medidas tomadas pelo Governo até ao momento, considera que “foram boas, caso contrário, mais uns dias e isto descambava tudo”.

Agora que iniciou a sua atividade de novo na barbearia, Tiago prioriza as medidas de prevenção da propagação do vírus. Antes trabalhava por ordem de chegada e, neste momento, apenas por marcação, assim como os clientes que chegam ao estabelecimento têm de desinfetar as mãos à entrada e usar máscara. O espaço é ainda desinfetado entre clientes, pelo que tem investido na proteção e usa “inúmeros produtos”.

As mudanças na Barbearia Martins

Até ao momento não sentiu uma diminuição de clientes, apesar de atender menos pessoas durante o dia para garantir que tem todos os cuidados de higienização necessários.

O mesmo acontece no centro de estética Belmar, em Sobrosa. O estabelecimento existe há dois anos e conta com vários serviços: tratamentos de corpo, de rosto, massagens, unhas e maquilhagem.

Fechou as portas a 13 de março e só reabriu a 7 de maio, deixando a proprietária Mara Castro e uma funcionária com algumas dificuldades: “foi extremamente complicado porque nós temos de fechar, temos de pagar as contas, temos de pagar aos funcionários e não temos dinheiro nenhum a entrar por lado nenhum”. Para piorar a situação, Mara revela que teve em casa uma situação de Covid-19.

Recorreu à contabilista para se aconselhar das melhores decisões para a Belmar “não afundar” e, tal como Tiago Martins, também desconhecia qualquer plano de apoio da Câmara de Paredes. No que diz respeito às medidas tomadas pelo Governo, Mara diz-nos que o adiamento dos pagamentos não é apoio e acha que “as ajudas são mesmo muito poucas e acredito que vai haver muitas empresas que se vão afundar mesmo”.

Mara Castro admite que sempre teve cuidados, pois sempre trabalhou “de máscara, de luvas e desinfetava o espaço entre clientes”, mas agora estes cuidados foram redobrados. Para além disso, quando o cliente chega ao local é medida a temperatura, é pedido que desinfete os objetos e as mãos.

As mudanças no centro de estética Belmar

Quanto ao número de clientes, Mara refere que no início houve uma maior afluência, mas com o passar do tempo sentiu uma diminuição pois considera que “algumas pessoas têm medo de voltar”.

Ainda durante esta primeira fase de desconfinamento reabriram no concelho os parques de lazer, os cemitérios, os campos de ténis e de golfe.

Durante esta primeira fase de desconfinamento tivemos a oportunidade de voltar a falar com Olga Faria, da indústria de mobiliário Farimóvel que referiu que já tinham voltado ao ativo, mas ainda em lay-off parcial, ou seja, ainda só estão a trabalhar alguns funcionários e os restantes estão em casa com esse apoio.

No dia 18 de maio, avançamos para a segunda fase, com a reabertura de lojas de maior dimensão (até 400 metros), como os restaurantes, cafés, pastelarias e esplanadas.

O Restaurante “O Requinte”, localizado em Sobrosa, existe há cerca de 35 anos e devido à situação de pandemia atual teve de fechar as portas no dia 19 de março.

Durante estes últimos meses, Patrícia Sousa, uma das empresárias deste estabelecimento há mais de sete anos, refere que o maior receio se prendeu com a situação financeira “para conseguir manter os salários dos funcionários, as rendas e manter todos os pagamentos em dia”.

Recorreu ao lay-off no mês de abril e a 4 de maio tentou contornar algumas dificuldades com o serviço take-away, no entanto, “à semana não tínhamos muita adesão, tendo funcionado melhor ao fim-de-semana”. No dia 18 de maio reabriu para almoços e jantares no estabelecimento, mas com diversas restrições.

Alterações no restaurante “O Requinte”

Apesar de Patrícia estar aliviada por ter retornado à atividade, tem notado uma diminuição drástica do número de pessoas a deslocar-se ao restaurante: “nós tínhamos em média 90 pessoas diárias a almoçar, de segunda a sexta e, neste momento, estão à volta de 30 ou 35 pessoas”.

Confere ainda que irão recorrer aos apoios a nível da higienização e desinfeção, assim como preencherão o formulário relativo aos apoios da Câmara Municipal. Quanto ao futuro, sente receio que o país volte ao Estado de Emergência e tenha de voltar a fechar o restaurante, mas também que as pessoas se abstenham de voltar ao restaurante.

Ainda a 18 de maio, reabriu a feira de Paredes, ainda que de forma parcial e apenas como mercado de produtos alimentares, hortícolas e frutícolas.

A última fase do desconfinamento ocorreu a 1 de junho, com a reabertura das lojas com área superior a 400 metros ou inseridas nos centros comerciais. Em Paredes a grande maioria das lojas são de pequena dimensão, pelo que não tivemos conhecimento de algum espaço que reabrisse neste momento. Apenas no setor cultural é que se abriram as portas da Biblioteca Municipal e da Casa da Cultura nesta fase.

Voltamos ainda a falar com Irene Nunes da empresa têxtil “Regina Nunes Torres” que nos disse que voltaram ao ativo a 1 de junho, com todas as funcionárias.

Saúde, economia e sociedade em quatro meses

Desde março ao início de junho assistimos a vários encerramentos, mesmo daqueles estabelecimentos e indústrias que pareciam seguras. Na grande maioria, as indústrias fecharam as portas por causa de exportarem mais de metade da sua produção, enquanto os pequenos negócios tiveram de encerrar obrigatoriamente. Recorrer ao lay-off foi a solução para as empresas em destaque.

Percebe-se ainda a falta de informação dos paredenses quanto aos apoios por parte da Câmara Municipal e o desagrado quanto às leis tomadas pelo Governo.

Durante o processo de desconfinamento, grande parte dos estabelecimentos conseguiu recuperar o tempo perdido e mantiveram os seus clientes, mas o mesmo foi difícil para o restaurante “O Requinte”.

O medo e o receio quanto ao futuro continuam a abalar cada empresa e, acima de tudo, cada pessoa, funcionário e gerente por detrás das mesmas, porém priorizam a saúde e sabem que apesar de ser duro fechar as portas, foi o mais correto a fazer. Agora resta esperar por melhores dias e lutar pela recuperação de inúmeros setores.

Ensino à distância, mas para todos os estudantes

Iniciamos esta reportagem pela atenção redobrada que a Câmara Municipal de Paredes teve pelos mais velhos, o grupo etário mais afetado pela situação pandémica, no entanto,  o foco de preocupação  também se alastrou aos mais jovens.

“Não podíamos permitir que em Paredes alguém deixasse de ter acesso ao ensino”, expõe o Presidente da Câmara.

O ensino é a base para tudo e, como tal, o Município de Paredes não poderia deixar que algum estudante não tivesse acesso às aulas online. Neste sentido, houve uma ação rápida para garantir materiais informáticos aos alunos mais carenciados do concelho. No total foram distribuídos 800 computadores, 600 tablets e mais de 1000 acessos à Internet, pelos cinco agrupamentos escolares e por uma instituição superior.

O material recolhido permitiu ajudar 1300 alunos a terminar os últimos meses de ensino à distância. Falamos com um desses estudantes, que apesar de não querer ser identificado, conta-nos que está a terminar o sexto ano de escolaridade, e que os pais não tinham poder financeiro “para comprar um computador e colocar Internet em casa e eu tenho mais dois irmãos”.

O aluno não esteve presente nas primeiras aulas online por não ter o equipamento, no entanto, “quando a minha mãe chegava a casa, eu usava o telemóvel dela para ver as fichas de exercícios que a professora enviava”.

O pai deste aluno lesionou-se há seis meses, estando impossibilitado de trabalhar, e a mãe recebe o rendimento mínimo, pelo que o dinheiro que ganham é para a alimentação e a renda. Os processos das aulas online vieram piorar as dificuldades da família.

No princípio do mês de abril a escola ligou para a sua mãe a perguntar se necessitava de equipamento informático, ao que a mesma aceitou, pois, “um computador é muito caro, dava para pagar a renda do mês seguinte”.

Neste momento, o ensino à distância já não é um entrave e até “estou a gostar mais das aulas online do que presenciais”. Agora, quase no final do terceiro período, o aluno confessa estar a ter um bom desempenho.

Falamos ainda com outro estudante. Não precisou de qualquer apoio da Câmara Municipal, mas ainda assim tornou-se importante ouvir o testemunho de Gonçalo Coelho, 20 anos, residente em Lordelo, Paredes. O estudante universitário de Línguas e Culturas Estrangeiras, da Escola Superior de Educação do Porto, explica-nos os maiores desafios que está a enfrentar com as aulas online e a permanência em casa desde o início de março.

Gonçalo Coelho, fotografia por Daniela Couto

Neste momento, Gonçalo tem aproveitado para se dedicar mais aos trabalhos académicos e diz ter mais tempo para os seus passatempos preferidos, no entanto, sente a falta de convivência com os amigos e familiares, dos quais espera ver em breve.

Pertence ao grupo de risco devido aos vários problemas respiratórios que apresenta e, portanto, enfrenta alguns receios, sobretudo pela mãe trabalhar numa Unidade de Saúde Familiar, onde há um maior risco de contágio, porém tem respeitado as medidas de precaução.

Quanto ao futuro, este é incerto, mas Gonçalo Coelho apela às pessoas que se mantenham fortes e com pensamento positivo.

O testemunho de Gonçalo Coelho, estudante universitário

Durante dois meses, percorremos Paredes de ponta a ponta para analisar os principais problemas do concelho. Acabamos por perceber que acima das dificuldades encontrava-se a união. Essa união ganhou peso e força a vários níveis: dos mais jovens aos mais velhos, das pequenas às grandes empresas, na saúde e na educação. Um momento tão difícil como este certamente ficará para a história dos paredenses. Quanto ao futuro esperam-se melhores dias.

Viana do Castelo: o concelho minhoto em resiliência com o vírus

[Por Andreia Oliveira]

A norte de Portugal, cercado pelo mar e montanha, situado no distrito do mesmo nome, encontramos o Concelho de Viana do Castelo, com 36 750 habitantes que preservam a tradição que encanta esta região minhota. Se da tradição vivem e do constante trabalho, neste momento, um concelho aliado ao movimento entre vianenses e turistas, não resistiu ao impacto que a Covid-19 causou, desde que chegou a Portugal.

Um concelho tipicamente minhoto, com cerca de 24km de linha de costa, sempre manteve uma presença importante para o entreposto comercial – desde o comércio marítimo ao terrestre, envolvendo a exportação de vinhos, alimentos, importação de tecidos e tapeçarias e vidro. O mês de agosto acolhe anualmente no palco do concelho, a romaria da Senhora da Agonia, que através das ruas enfeitadas com tapetes florais, a procissão ao mar, as feiras de artesanato e os trajes etnográficos adornados com a filigrana, traz pessoas de todos os cantos do país, sem esquecer os turistas que tanto o concelho prontamente os recebe e brinda com a gastronomia minhota.

Com o fim do Estado de Emergência o concelho procura retomar a normalidade, mas a questão que se impõe é como será o futuro do concelho que vive do barulho das ruas em festa e do encontro de turistas  pela costa minhota. Afinal, de que forma o concelho está a ser afetado pela Covid-19?

Concelho de Viana do Castelo | Fonte : Google Maps

14 de março de 2020 ficou marcado com a confirmação da chegada do vírus ao concelho. Tratou-se de um homem com cerca de 60 anos, professor e residente na freguesia de Barroselas.

É a partir deste dia, que minuciosamente se acompanha a evolução do vírus neste concelho. Os casos positivos foram evoluindo de forma lenta, mas contínua. Os cidadãos vianenses têm sido informados através dos meios de comunicação locais, que divulgam os dados consoante os da Unidade Local de Sáude do Alto Minho (ULSAM), juntamente com a informação recolhida pela Direção Geral de Saúde (DGS).

A evolução do vírus

O impacto da saúde não foi diferente como no resto do país. Os cidadãos começaram a colocar em causa a própria segurança, e rapidamente são impostas medidas de segurança e de contenção por todo o concelho. No Hospital Santa Luzia, a unidade de saúde pública local de Viana do Castelo, adaptou novas regras e planos para se encontrarem preparados para receber doentes Covid-19, e ao mesmo tempo, continuar a admitir os seus doentes não infetados.

Aumento de stress e o sentimento de incerteza, foi o que vários profissionais a laborar neste local de saúde sentiram, quando foram ativados os planos de contingência e os horários reduzidos. Sandra Novo é farmacêutica no Hospital de Viana do Castelo e residente neste concelho, conta-nos a sua perspetiva sobre a fase inicial do vírus e o que se alterou no seu trabalho. 

Testemunho de Sandra Novo

Ao nível da saúde, este concelho ficou pouco afetado em comparação com outros concelhos do norte do país. Não é possível ter com exatidão o número de recuperados ou de óbito neste concelho, mas até ao dia 28 de maio a Alto Minho Tv, contabilizou 186 casos positivos no concelho de Viana do Castelo, no distrito registaram-se até ao dia 53 vítimas mortais e 466 recuperados.

É possível observar a evolução do número de infetados desde o primeiro confirmado até ao dia 10 de junho. Observa-se que o aumento foi contínuo sendo mais acentuado no dia 6 de maio, e observa-se uma descida de casos entre o dia 22 e 25 de abril. Até ao dia 10 de junho permanecia, já há cinco dias, 192 casos.

Evolução do Vírus no Concelho de Viana do Castelo segundo dados da DGS e do Alto Minho | Gráfico elaborado pelo grupo no âmbito da análise da evolução por concelhos

No caso dos dados específicos do concelho, a falta de informação mais exata é escassa. Através da análise de várias notícias percebeu-se que a maioria das vítimas mortais se inserem em idades compreendidas entre os 70 e 80 (ou mais) anos, dez deles seriam utentes de residências para idosos. Depois de alguma investigação, o concelho reúne 18 lares para idosos, porém apenas dois confirmaram casos positivos, os mesmos em que os óbitos foram registados.

Estas residências, onde existem em grande número indivíduos pertencentes aos grupos de risco, foi importante reforçar medidas de higiene, bem como ativar planos de prevenção. Um dos lares do concelho que não verificou casos positivos até ao dia de hoje, colocou em prática todas as medidas e regras impostas pela Direção Geral de Saúde, o que revelou resultados bastante positivos.

Marisa Vieira, é enfermeira nesta residência para idosos, e explica o que se alterou na instituição para que fosse assegurada a segurança dos utentes. Refere que o trabalho se tornou muito “mais stressante e implicou um maior sentido de responsabilidade” e, ao mesmo tempo, testemunha o impacto deste vírus num local onde residem pessoas frágeis e dependentes de alguém.

Testemunho de Marisa Vieira

Teste à Covid-19

Rapidamente a Câmara Municipal e a Unidade local de Saúde do Alto Minho, distribuiu pela cidade de Viana do Castelo locais para se testar a população. O hospital Santa Luzia, colocou tendas exteriores como apoio à situação Covid e ao mesmo tempo efetuava testes a profissionais de saúde, funcionários de residenciais para idosos, entre outras pessoas recomendadas para teste devido ao meio onde trabalham. Para além do hospital, a Escola Superior de Saúde disponibilizou o seu espaço para se efetuar testes, mas através do meio drive thru. As pessoas teriam de se inscrever e apenas se deslocavam por marcação ao local.

No dia 26 de abril soube-se que o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, iria realizar testes de despistagem, desta vez na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, com uma equipa de 10 elementos. Segundo o Observador, os testes iriam ser realizados na Unidade de Microbiologia Aplicada, começando com 40 a 50 amostras de forma a conseguir assegurar a segurança, tendo como objetivo atingir um maior número de amostras.

O impacto na economia do concelho

A saúde é algo muito importante na vida de cada cidadão, e se em Viana do Castelo esta foi rapidamente salvaguardada com a implementação de medidas que impedissem uma maior propagação do novo coronavírus. Para que seja possível prevenir a disseminação dentro do concelho, foi importante adotar novas formas de viver durante a fase inicial e posteriormente, com as fases de desconfinamento. 

Os planos ativados para evitar a propagação do vírus, implicou o encerramento de todos os estabelecimentos, e empresas do concelho, ficando apenas abertos os serviços necessários, como por exemplo, supermercados e correios.

Desde o início desta investigação que foi impossível estabelecer contacto com o Presidente da Câmara, José Marisa Costa. Desta forma, através de comunicados e entrevistas cedidas pelo próximo a jornais locais, percebeu-se que a câmara sempre se mostrou solidária com o concelho, divulgando planos de apoio quer às empresas como aos cidadãos que se encontravam com dificuldades, juntamente com a Associação Empresarial de Viana do Castelo (AEVC).

“Com maior ou menor impacto não há território, à escala micro ou global, que não esteja a sofrer as consequências desta pandemia. O Alto Minho não escapa a esta realidade.”, expõe o presidente da AEVC, João Valença.

À esquerda o presidente da Câmara José Maria Costa e à direita João Valença, presidente da AEVC | Fonte: Rádio Geice

Como era de esperar, esta pandemia tem afetado a economia do concelho em vários níveis. Foi importante analisar este impacto, juntamente com a perspetiva do presidente da Associação Empresarial de Viana do Castelo, João Valença.

No dia 23 de abril, em conversa via e-mail com João Valença, o mesmo responde que o concelho de Viana do Castelo corresponde a 42% das exportações da região o que resultou, neste domínio, numa queda acentuada durante este período, uma vez que há um importante relacionamento transfronteiriço (com a vizinha Espanha, mais concretamente a região da Galiza), “com fronteira fechada, as consequências são desastrosas.”

Vários setores profissionais viram-se na necessidade de encerrar as suas atividades, porém torna-se importante referir que existiu setores que continuaram a sua atividade, dentro das condições possíveis, sendo eles: o setor da construção civil, construção e reparação naval, metalomecânica e o setor da indústria do papel.

A empresa de construção civil, Rebocolima Construções, lda – empresa vianense com sede na freguesia de Cardielos – refere que o seu setor “em momento algum teve de sofrer alterações na sua atividade”, porém aponta alguns problemas, como o facto de as empresas de materiais terem diminuído a distribuição ou acesso aos mesmos, mas nem isso foi um impedimento para parar.

Apelar à responsabilidade individual e coletiva das empresas do concelho, foi a prioridade da Câmara de Viana do Castelo e a AEVC na fase inicial. O presidente João Valença afirma que, durante o estado de emergência foi importante “alertar para o estrito cumprimento das recomendações e orientações da autoridade sanitária”, posto isto concluiu que prontamente as medidas decorrentes da declaração do confinamento, foram obedecidas pelas empresas e até existiu quem as antecipasse, mostrando um “comportamento meritório”.

Projeto apoiado pela Câmara Municipal e AEVC

Rápidas foram as abordagens para “salvar” a economia, que viria a ser gravemente afetada. Foi acelerada a construção do “Viana Market”, a plataforma digital do comércio de Viana do Castelo, que já conta com 130 aderentes. O presidente da AEVC também refere o lançamento da Campanha “Compre em Viana, apoie o Comércio local”. Sem excluir o projeto “Minisite”, que tem como objetivo “informar os Consumidores de todas as empresas, essencialmente restauração e comércio de produtos alimentares, que prestaram e prestam serviço de take away e delivery. São 240 estabelecimentos que integram a listagem”.

O apoio da Câmara Municipal e da Associação Empresarial é fundamental neste tempo de crise. “Costumo dizer que, nesta crise perfeitamente evidenciada, uma Associação Empresarial é o Hospital das micro e pequenas empresas”, reflete João Valença quando a conversa se trata da importância de todos os projetos e campanhas para apoiar as empresas.

Dar informação jurídica, elaborar e submeter os processos iniciais e de renovação, são outros dos apoios disponibilizados pela Associação.

“Desde o início da pandemia, o foco da nossa intervenção sempre foi salvar vidas e salvar as empresas.”, esclarece o presidente da Associação Empresarial.

Estado de Emergência: o primeiro encontro com os negócios da região

Mas se por um lado existiu setores em que não existiu paragem, por outro encontramos no concelho setores que ficaram prejudicados com esta pandemia. O fortíssimo cluster automóvel, o alojamento, a restauração, comércio e serviços locais, foram dos setores mais afetados no concelho de Viana do Castelo.

No concelho fecharam mais de 80% das empresas, foram quase 100% a “encostar” temporariamente as portas no alojamento e 95% no comércio e serviços. Quanto ao número de empresas que estiveram ou ainda estão em regime de lay-off, a AEVC não tem a informação dos dados referentes ao concelhio, mas de acordo com a informação governamental sobre o distrito de Viana do Castelo, são 2.548 empresas neste regime, 80% delas com menos de 10 trabalhadores, com maior predominância no alojamento, restauração e similares, comércio ou indústria transformadora.

Para João Valença as empresas mais pequenas terão mais dificuldades nos próximos tempos, mas “são as mais resilientes, asseguram os postos de trabalho, dão vida aos centros históricos das nossas cidades, aldeias e vilas.”

Se falamos em negócios que estão a ser afetados diretamente pela Covid-19, fez todo o sentido ir ao encontro das mesmas.

No setor têxtil, encontramos várias empresas no concelho de Viana do Castelo, que diariamente lutam pela sobrevivência dos seus negócios, sejam eles pequenos ou grandes.

Pedro Dias tem 40 anos e é proprietário há cinco de uma empresa têxtil, na área da confeção, em Viana do Castelo. A sua empresa foi uma das empresas do concelho a colocar cerca de 15 trabalhadores em regime de Lay-off, por falta de matéria-prima e dificuldade na exportação, devido à pandemia da Covid-19.

Entrevista com Pedro Dias, proprietário de uma fábrica têxtil no concelho

Numa fase inicial, para se evitar a paragem – e adesão à medida de apoio cedida pelo Governo- Pedro Dias esclarece que foram feitos “alguns reajustes na produção, para que houvesse um maior distanciamento entre funcionários, mas mesmo assim não nos permitiu continuar a abastecer de produção tanto tempo”. Sem se conseguir adaptar às novas condições, avançou com o regime de Lay-off para 100% da empresa.

Esta empresa vianense reabriu no dia 15 de maio, e Pedro Dias acredita que esse mês, vai servir para compensar alguns prejuízos em relação à produção e exportação. Conseguiu ainda retirar todos os trabalhadores do Lay-off sem que nenhum pagamento ficasse em atraso, uma das maiores preocupações do proprietário.

Pedro dias refere que para a economia de um país funcionar, era necessário que algumas empresas não parassem.

 O regime de Lay-off não foi apenas um suporte económico para pequenas empresas. As grandes empresas com dificuldades em continuar a sua atividade profissional, também usufruíram deste apoio. A cadeia de ginásios Solinca, pertencente ao grupo Sonae Capital, encerrou 37 clubes de acordo com as ordens diretas por parte do Governo e da Direção Geral da Saúde.

Clube Solinca em Viana do Castelo | fotografia por Andreia Oliveira

A Solinca, assegurou aos seus clientes a suspensão das mensalidades até à reabertura. Silvia Couto Co-manager do clube de Viana do Castelo, expõe que “a pandemia tem um impacto, a nível da Solinca, enquanto empresa nacional, é um impacto de cerca de 800 mil euros por semana.”.

Os funcionários deste ginásio estão em Lay-off: vários funcionários a 100%, que é o caso dos da receção, outros a 50% e ainda há quem esteja a 25%.

A chegada da pandemia implicou aumento dos custos e reforços de desinfeção, porém o ginásio teve de encerrar, colocando as coisas ainda numa situação pior para todos os que trabalham neste clube.

Sílvia Couto expõe o seu testemunho sobre o impacto no grupo Solinca: o mudou no início e os desafios

Silvia Couto conta que o grupo procurou adaptar-se às circunstâncias e criou vários apoios para que os clientes continuassem a “usufruir” de alguns serviços, como foi o caso da criação de um canal de Youtube com exercícios, e através das redes sociais, com o lançamento de desafios ou aulas de 15 min em grupo. Tudo disponível aos clientes de forma gratuita.

Num espaço onde circulam imensas pessoas, como o caso dos ginásios, o cuidado com a segurança e higienização do mesmo terá de ser feito com rigor, para que a se possa conquistar a confiança dos clientes. O maior receio do Solinca é a perda de contratos, o que implicará maiores desafios na readaptação do mesmo.

“Neste momento as pessoas estão muito divididas, é tudo uma grande incógnita.”, confessa a Co-manager Sílvia Couto.

A pandemia, mesmo com os desconfinamentos, ainda causa algum impacto nos setores empresariais. Neste caso, a cadeia de ginásios terá maior custos devido à requisição de melhores condições de segurança e ainda um aumento de horas da equipa de limpeza. No entanto, alguns dos trabalhadores deste grupo, continuarão, numa fase inicial, em regime de Lay-off, de forma a que consigam equilibrar algumas despesas. Neste sentido, serão reduzidas a 70% o mapa de aulas e terão de fechar as piscinas e saunas, ou seja, haverá uma redução na oferta deste clube.

Antes do desconfinamento, já planeavam as novas medidas. É possível analisar uma perda drástica de funções, das quais muitos dos clientes se deslocam apenas pela necessidade das mesmas, agora com a impossibilidade de estarem a treinar menos horas ou de não terem disponíveis espaços que costumavam utilizar, implicará um descontentamento por parte dos clientes, mas Sílvia Couto acredita que será um desafio pronto a ser superado.

É de referir que o ginásio reabriu no início do mês de junho, após a terceira fase de desconfinamento.

A reabertura do espaço implica também um desafio económico e não só.
Fotografia cedida por José Vitorino

A restauração também foi um dos setores mais afetados.

José Manuel Vitorino, gestor do restaurante Bota D’água, situado no largo João Tomás da Costa na cidade de Viana do Castelo, conta como a pandemia causou impacto neste estabelecimento, que se viu obrigado a reinventar os empratamentos, passaram de colocar a qualidade e estética no prato para uma caixa entregue em casa dos seus clientes.

José Vitorino, gerente deste restaurante, explica de que forma houve novas adaptações e qual o impacto

“Desde que nos foi impedido o funcionamento, colocamos os funcionários todos em Lay-off”, comenta o gerente, a partir do momento que fecharam até ao dia que reabriram, apenas tiveram a funcionar a 10% do habitual, o que implica uma enorme quebra na faturação deste estabelecimento, José realça que o serviço de take away ajudou mas não cobriu a faturação a que estavam habituados.

A falta ou a diminuição de turismo, no verão, é também uma preocupação para este restaurante. Com as romarias canceladas, e sem que o vírus esteja estagnado, a preocupação de não receberem turistas começa a despertar novas formas de se readaptarem ao que aí vem. Porém José Vitorino, acredita que não será dos maiores problemas.

“O impacto real que isto possa ter, isto só se vai conseguir identificar, e de certa forma quantificar, no final do ano”, salienta José Vitorino.

O período de reinicio em que se insere este restaurante, leva a que não só a gerência como os funcionários a ter uma noção que o processo de retoma da normalidade será lento, o que, segundo José Vitorino, se espera, é que não demore demasiado tempo a recuperar.

O maior receio será sempre a perda do número de clientes, José Vitorino define-se como uma pessoa otimista e, que não gosta de se focar apenas nas coisas negativas, por isso, apesar deste receio, acredita que “os nossos clientes habituais não vão perder a confiança”. Para se poderem readaptar, o restaurante Bota D’água investiu em novos meios de garantir a segurança e confiança para o dia de reabertura do espaço.

Bota D’água reabriu no passado dia 18 de maio, quando o Governo autoriza a abertura de alguns espaços de alimentação. Mas o que mudou neste restaurante?

O impacto do vírus no Bota D’ÁGUA

“Estou otimista para o futuro… estamos a chegar ao Verão, os dias são mais longos e quentes, e convida as pessoas a sair de casa, porque as pessoas estão saturadas de estar em casa e as pessoas querem viver”, anceia o gerente do Bota D’água

Alguns metros mais acima, na entrada do centro histórico da cidade de Viana do Castelo, na rua Manuel Espregueira e através de uma perspetiva bem diferente sobre a situação, assim como o setor profissional, encontra-se uma das lojas mais antigas e características da cidade e do concelho – a mercearia tradicional Pérola da China.

Esta é uma das lojas mais antigas do centro histórico da cidade de Viana do Castelo | Imagem e Edição por Andreia Oliveira

A partir da entrada do Emergência, José Gama filho do gerente desta loja tradicional, fechou durante uma semana para avaliar e proceder ao planeamento da forma como poderia continuar a sua atividade. Decidiu recorrer ao Lay-off a 50% e adotou a ação de delivery, ou seja, a entrega de encomendas à casa dos seus clientes. José Gama assume que com o início do confinamento “o consumo sofreu uma queda abrupta”.

As distribuidoras foram dos maiores problemas, e a venda de bebidas foi o que mais lhe surpreendeu pela negativa.

Sobre o regime de Lay-off, José Gama refere que foi “uma tentativa que as empresas se socorressem de alguma margem para poderem continuar a trabalhar dispensando alguns funcionários”. Uma vez que, a logística começou a sofrer alterações, tendo mesmo a “parar”, e no meio do pânico e receio de perder o negócio, devido a uma quebra de mais de 40% da sua faturação “de um momento para outro”, recorreu ao apoio do Estado.

José Gama: “Alguma desta movimentação é parcial… a cadeia de vendas está quase toda em lay-off”

O filho do gerente, comenta que a sua loja ficou afetada logo desde início. No caso da venda de bebidas alcoólicas, um dos produtos característicos, foi o produto que mais sofreu quer ao nível da saída para o cliente como com a paragem dos fornecedores. Nunca viu este produto a parar desta forma.

O mês de agosto será um “mistério” no que toca ao turismo, esta loja no centro da cidade, já analisa novas estratégias para adotar sem ficar a depender exclusivamente de um turismo “fantasma”, que possa existir no verão. Já em relação ao segundo mês com maior faturação, o de dezembro, José espera que por essa altura a condição sanitária esteja melhorada. Em relação ao consumo interno, mostra-se empenhado em focar-se no consumidor da região.

“Metade da nossa faturação, era exportação sem sairmos do sítio.”, assevera José Gama

A importância do consumo interno e externo para a Pérola da China

Esta mercearia projeta o futuro, fazendo contas aos tempos atuais, para que consigam ultrapassar têm focado a atenção na manutenção dos postos de trabalhos. A retoma tem sido lenta, mas o que se nota é que as pessoas vão começar, aos poucos, a recuperar a confiança no servidor.

José Gama dá a sua perspetiva sobre as novas estratégias em relação ao futuro

José Gama, apesar de todos os desafios que tem enfrentado nos últimos meses, assume ser positivo em relação a tudo o que ainda está para vi, mas acredita na recuperação ao nível da faturação e confiança do cliente. Termina dizendo: “Graças a Deus está tudo bem… tudo bem, dentro do possível”.

Viana em desconfinamento

Assim que o primeiro desconfinamento é autorizado pelo Governo, a 3 de março, também o concelho, e principalmente a cidade de Viana do Castelo, rapidamente agiu em prol de uma restruturação gradual da sua normalidade.

De ruas vazias, começam a surgir passos rápidos com a intenção de “fazer o essencial”, mas com a reabertura de alguns espaços, os vianenses começam a ganhar a coragem de voltar a socializar, algo que está tão enraizado na personalidade desta região – aproximação das pessoas e a socialização.

Já contamos com três desconfinamentos, e os pequenos e grandes negócios vão abrindo as portas novamente. O sol já entra pelas janelas, e vários apelam à confiança dos cidadãos residentes, para não esquecer a economia local.

O período do verão será o próximo desafio para aqueles que dependem do turismo, no entanto, as empresas que se focam a 100% no consumo interno, debatem-se com as novas regras de segurança, para que o recomeço seja o melhor e que haja confiança novamente.

Também na conversa com João Valença, o presidente da Associação Empresarial de Viana do Castelo, foi discutido todo o recomeço que o concelho tem vindo a enfrentar. O mesmo refere que a reabertura está a ser muito lenta, e é fundamental para qualquer negócio da região “a presença quotidiana não só dos residentes, como dos vizinhos galegos”.

Em relação ao turismo, explica que “dependemos em muito do turismo e, não vamos ter a Romaria D’Agonia e as outras nossas Festas e Romarias, não vamos ter os Festivais de Música (Neopop, Vilar de Mouros , Paredes de Coura ).”, o que irá implicar dificuldades na normalização da economia para muitos negócios que dependem, não só do turismo, como destes grandes eventos anuais.

Festa da Nossa Senhora da Agonia 2019 | por Andreia Oliveira

Espaço comercial de Jorge Videira | por Andreia Oliveira

O turismo não é o mais importante para este empresário. Luís Jorge Videira, mais conhecido por Joca, é um fotografo vianense, com espaço físico na freguesia de Monserrate. Atualmente exerce funções como deputado na Câmara Municipal de Viana do Castelo. Para ele, a realização de eventos como as romarias do concelho são uma fonte importante para continuar a fotografar momentos de festa, no entanto, se o negócio da fotografia já não vivia dias felizes, a pandemia veio piorar o negócio de Joca.

Com uma grande parte de casamentos, comunhões ou batizados adiados para o próximo ano, viu-se obrigado a fechar temporariamente a sua loja. Ao invés de ficar em casa, colocou em prática as suas ações como deputado, e saiu à rua para ajudar quer profissionais de saúde como os cidadãos com dificuldades.

Luís Jorge Videira: “Fechei a área comercial, mas nestes dois meses trabalhei muito mais.” | Fotografia por Andreia Oliveira

Reabrindo no dia 4 de maio com uma vontade enorme de voltar a colecionar momentos dos cidadãos. Em relação ao impacto que sentiu no seu negócio, afirma que o sofreu uma quebra brutal, porém ainda é cedo para avaliar os danos causados pela Covid-19. A reabertura ainda não lhe trouxe muitos clientes, mas acredita que mais tarde ou mais cedo, as coisas vão melhorar.

Valoriza a solidariedade e durante este período de crise, esqueceu os seus desafios como empresário e investiu o seu tempo a ajudar, porque segundo este fotografo e deputado, primeiro é necessário cuidar da saúde e condições de vida para que depois a economia consiga recuperar, uma vez que é importante “focar nas pessoas, porque sem pessoas não há economia”.

As expectativas de Joca em relação ao futuro.

Estando ligado á política, reflete que o Governo cumpriu com tudo o que estava ao seu alcance, para proteger o país desta crise mundial. Em relação aos apoios disponibilizados por este, Luís Videira acredita que os cidadãos mais tarde vão ter de recuperar tudo o que o Estado está a perder ao nível da economia. A partir de agora o país enfrentará a recuperação de normalidade das empresas e da própria economia.

Luís Videira: “o governo vai ter de dar, mas nós vamos ter de pagar isto tudo”

Como deputado Luís Jorge Videira, chama para a atenção da dificuldade das famílias do concelho. A Covid-19, trouxe problemas para várias empresas, prejudicando várias famílias. Realça que os problemas económicos sempre foram um entrave para a sobrevivência de várias famílias, porém com o aparecimento do vírus haverá um agravamento destas dificuldades no seio de muitas famílias do concelho, ao qual precisarão de muito apoio.

O impacto da Covid-19 nas famílias do concelho

“Para o futuro é obrigatório correr tudo bem! Temos de entender que este é um momento difícil para todos, é necessária união.”, conclui Joca.

Clinica dentária de Fábio Costa | por Andreia Oliveira

Ao contrário do fotografo, num setor profissional completamente diferente, encontramos Fábio Costa, médico dentista em Viana do Castelo, que também sofreu com a chegada da Covid-19 a Portugal.

O maior desafio foi colocar os trabalhadores da clínica em Lay-off, bem como deixar pendente vários casos clínicos. Fábio aponto logo no início que o adiamento das consultas e cirurgias afetou não só a clínica como o próprio paciente a nível emocional.

O testemunho de Fábio Costa

A área dentária foi um dos setores que no país sofreu com este período, com o encerramento das atividades e com o pouco apoio disponibilizado. O médico dentista afirma que foi prejudicada pois “a maioria dos dentistas trabalha por sua própria conta, e o que acontece é que é uma área que trabalha bastante e que mexe com uma faturação muito grande, ao mesmo tempo dá trabalho a muita gente associada”, logo quando áreas como esta pára, causa um grande impacto na economia nacional.

Fábio Costa: “os próprios médicos também são empresários “

Assim que o desconfinamento foi autorizado, Fábio reagendou todas as consultas adiadas, reativando a sua atividade profissional. Relativamente aos custos por de trás da prevenção e da higienização, não foram muito além daquilo a que está habituado, pois a normas de higiene já eram rigorosas na sua clinica, uma vez que se trata de um local onde se trabalha com a saúde de pacientes. Implicando apenas um aumento do custo significativo.

Para Fábio as novas exigências de higienização vieram no bom sentido, em que a partir de agora, muitos locais vão ter mais cuidado em relação a isso. No fundo a higienização dos espaços públicos sempre foi importante levar em consideração, não é só de agora.

A perspetiva de um dentista sobre as novas normas.

Como entidade patronal e empresário, sentiu algum impacto na economia e na faturação do tempo que esteve encerrado. Contudo, conseguiu efetuar todos os pagamentos dos seus colaboradores e socorrer-se do Lay-off de forma a auxiliar alguns prejuízos, no entanto, sentiu que a Covid-19 prejudicou e está a prejudicar não só a ele, mas todos os empresários, pois o Lay-off também implica que os patrões contribuem com 30 % do pagamento salarial enquanto que o Estado dá 70%.

“Nós preferíamos mil vezes estar sempre a trabalhar e seguir as regras normais”, acrescenta Fábio Costa

A retomar funções lentamente, porém ainda está dependente do lay-off parcialmente, como apoio ao futuro que se avizinha.

A situação de lay-off

Atualmente, os seus clientes estão a regressar, mas ainda sente que estão receosos quanto ao facto de estar num local onde se cruzam com várias pessoas. O mais importante para este dentista é garantir a segurança dos pacientes e recuperar a confiança. No entanto, apesar de existir pacientes novos, ainda se observa uma quebra de consultas comparativamente aos dias antes da pandemia.

Fábio Costa: “Fizemos uma quebra de consultas, e agora repomos essas consultas mas também há uma quebra”

Com olhos postos no futuro e na recuperação total, afirma que a medicina dentária está preparada e, nos dias de hoje, está bem evoluída e cada vez mais é um local bastante seguro.

“Acho que a sociedade vai exigir mais das pessoas, e acho que em Portugal se demonstrou, o facto de haver regras pela ERS (Entidade Reguladora da Saúde) bastante rigorosas com a sociedade em geral, verificou-se isso. Poucos casos em Portugal significam que as regras estão a ser cumpridas, porque já existem há imenso tempo.”, rematou o dentista Fábio Costa

No concelho de Viana do Castelo já são muitos os estabelecimentos de restauração que voltaram a colocar as cadeiras e mesas na esplanada, assim como a qualidade gastronómica está pronta para regressar à mesa. O presidente da AEVC explicou que a reabertura tem sido gradual e lenta, como já se tinha analisado anteriormente na conversa. Os estabelecimentos de restauração e similares estão limitados a 50% da sua capacidade e, como próprio afirma, para muitos não é rentável nem viável, o que preferem manter-se fechados ou ainda a depender do Lay-off.

Com consequências diretas na rentabilidade e na manutenção dos postos de trabalho, é necessário em tempos como este, procurar soluções excecionais que minimizem o efeito do cumprimento das exigências legais e das boas práticas. Assim, entre outras sugestões para este sector económico, a Câmara Municipal juntamente com a Associação Empresarial, decidiram aumentar a lotação dos estabelecimentos com o crescimento da capacidade das esplanadas, apoiando o “aumento da sua atratividade com elementos decorativos e meios de proteção de elementos climatéricos e de animação”.

Foi deste pensamento que surgiu o projeto “Viana à Esplanada” , em que consiste num apoio aos empresários da restauração, de modo a se criar condições aptas a receber mais clientes.

Projeto de apoio à restauração | Fonte: Câmara Municipal

O restaurante Ó Viana, situado na praça da República, da cidade do concelho, inaugurou o espaço no ano passado e agora deparou-se com o desafio da Covid-19.

Podemos observar imagens do restaurante Ó VIANA , num dia após a fase de desconfinamento | Imagem e edição por Andreia Oliveira

Artur Geirinhas é o gerente do espaço conta que no início da pandemia o que se esperava para o setor da hotelaria era um período muito negro. E quando reabriram o espaço estavam com uma expectativa muito baixo, e muito cautelosos em relação ao futuro. Durante a quarentena adaptaram a ementa ao método do take away para manter parcialmente a atividade, e ao mesmo tempo, tentar faturar de forma a equilibrar as contas.

“A retoma da atividade não está a ser má.”, esclarece Artur.

O impacto foi enorme, e ninguém estava à espera, implicando o esforço de toda a equipa para assegurar uma faturação equilibrada. “As pessoas têm de desconfinar do medo”, foi a conclusão à qual chegou o gestor deste estabelecimento.

Artur Geirinhas: “Em termos de expectativas não está a ser mau, dia para dia vai melhorar”

A esplanada é uma mais valia para este espaço, permitindo receber um maior número de clientes, porém nunca deixam de respeitar as normas de segurança impostas pela Direção Geral de Saúde e do Governo. A preocupação será os dias de chuva, mas desistir não é o objetivo.

O gestor esclarece que já começa a notar alguma confiança dos clientes em relação ao interior do restaurante, no entanto conta que os primeiros dias após a segunda data de desconfinamento, não foram muito lucrativos.

“Com o tempo”, é a expressão que Artur mais utiliza para descrever a confiança que tem para os próximos dias. A prioridade deste restaurante desde que reabriu é adaptar-se às novas medidas e acima de tudo ao desejo do cliente, sendo por isso, que o take away irá continuar para acompanhar os clientes que não se sentem preparados para voltarem ao espaço físico.

Se o cliente é a prioridade desta casa, tudo se tem feito para o receber com qualidade e segurança. A pandemia, além de prejudicar a faturação durante a quarentena, agora obriga a maiores cuidados na forma como trabalham e como atendem as pessoas.

Os novos procedimentos adaptados pelo restaurante para obedecer às normas de higiene

A restauração tem investido muito na higienização dos seus espaços e no cumprimento de todas as regras, tudo para poderem continuar abertos e preservarem não só o negócio, mas postos de trabalho.

Se durante o Estado de Emergência houve estragos na economia deste setor, o desconfinamento ainda não contribuiu para a recuperação da mesma, pois os custos por de trás de um espaço bem higienizado são bastantes. Por enquanto apostasse em tudo para poderem estar abertos e aptos para receber clientes, mas estabilizar as faturações ou alcançar números antigos, ainda é cedo.

Artur Geirinhas: “Há um maior custo (…) e perde-se mais tempo”

“O fechar e o abrir, vezes sem conta, conduz à perda de clientes e de faturação, embora estejas em Lay-off não é a mesma coisa”, explica Artur Geirinhas

Esplanada do Ó Viana | Fotografia por Andreia Oliveira

O maior receio de Artur Geirinhas é a possível segunda vaga do vírus, pois assim que os casos se agravarem novamente, é necessário voltar a confinar a população, o que implicaria encerrar novamente o restaurante. O mesmo aponta que “teria um grande impacto económico fechar de novo, e o consumidor volta a perder confiança e voltar a reconquistar os clientes vai ser muito complicado. Isso sim, iria implicar custos ainda maiores.”

Contas do impacto e ao futuro

O centro da cidade de Viana do Castelo é das zonas do concelho com mais movimento e com espaços abertos, nas freguesias e vilas apenas se observa passeios, conversas de vizinhos e piqueniques à beira rio. A zona industrial tem vindo a retomar funções aos poucos.

Para dar a volta ao impacto da Covid-19 na economia local, a Câmara de Viana e a Associação Empresarial já começaram a atribuir o selo “Comércio Seguro”, em que restaurantes e estabelecimentos de bebidas, a partir do primeiro desconfinamento, foram dos primeiros a receber este selo e o de “Estabelecimento Seguro”.

João Valença, explica que os selos serão “atribuídos a todos os espaços que cumprem as orientações da DGS, das Associações sectoriais e do Governo”. Em Viana do Castelo juntamente com os selos, já foram entregues Kits compostos por cabazes, guias sectoriais, máscaras e a declaração de compromisso.

Em relação ao futuro, ainda tudo está em análise. O presidente João Valença, afirma que ainda temos “muitos dos trabalhadores que continuam a trabalhar desde casa, e as escolas têm funcionamento reduzido… ainda existe receio.”. Aquilo que ainda não conseguem contabilizar é o número de empresas que podem vir a entrar em possível falência, porém têm a expectativa de que será muito reduzido o número de empresas que não sobrevirá a esta terrível crise.

Quanto às portas que se fecham ainda pouco se conhece, mas quanto aos números de desemprego, segundo dados do IEFP, o concelho de Viana do Castelo registou um total de 2 094 no mês de março e 2 706 desempregados no mês de abril. Sendo que 171 estão à procura do primeiro emprego e 2 535 esperam por um novo. Houve um aumento de 612 novos desempregados, durante estes dois meses de quarentena. Denota-se que de fevereiro para março aumentou 471.

É claro que a situação pandémica não veio contribuir para a diminuição do desemprego. Quanto ao mês de maio, ainda não foram disponibilizados dados.

Agora aguarda-se um futuro melhor para o concelho e para o país. Com a divulgação a nível internacional da forma como Portugal tem lidado com a situação, é uma mais valia para que o comercio interno e externo comece a ganhar força e refletir a confiança daqueles que os apoiam. Do concelho apenas se espera que a emoção vianense e a chieira da localidade ganhe novamente vida, acordando a cidade adormecida pelo vírus.