Eduardo da Silva Gonçalves, contabilista: “Portugal precisa de uma vacina para a Economia”

Voltar
Escreva o que procura e prima Enter
Eduardo da Silva Gonçalves, contabilista: “Portugal precisa de uma vacina para a Economia”

Na ciência, tal como noutras grandes áreas, o sucesso de alguns leva à esperança de outros. E os resultados são as vacinas que estão a ser investigadas para combater a COVID- 19, uma doença respiratória provocada por uma mutação altamente contagiosa do coronavírus, que tem feito o mundo funcionar em modo restritivo. Eduardo da Silva Gonçalves vê, não menosprezando a importância da saúde sanitária em Portugal, um país sem capacidades para defrontar a sequela económica que aí se avizinha. O contabilista acredita que a solução pode vir do exterior: “precisamos de outra vacina tão importante a essas: a vacina económica”, menciona o entrevistado de 54 anos referindo-se ao Plano do Fundo de Recuperação planeado pela União Europeia.

Eduardo da Silva Gonçalves trabalha na área de contabilidade há 28 anos. Em 1998 licenciou-se em Estudos Especializados em Contabilidade e Gestão de Empresas na Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) em Vila do Conde (IPP). Três anos mais tarde foi selecionado no Instituto Superior de Administração e Gestão (ESAG) para um estágio no Grupo Amorim na área de gestão aonde esteve dois anos.

Para ele foi a “melhor experiência de vida”. É assim que o entrevistado carateriza a rápida passagem no Grupo Amorim, ao mesmo tempo que aponta para uma foto-retrato da mulher e os dois filhos explicando que trabalhar longe de casa naquela fase da vida, a nível familiar, foi um martírio: “foi por eles que a minha experiência ali terminara mais cedo do que o expectável, as saudades eram muitas e os miúdos ainda eram muito pequenos.”.  Anos mais tarde encontrou a estabilidade de que pretendia na sua vida ao ir trabalhar para o seu pai, que era proprietário de um gabinete de contabilidade, adquirindo-o após o início da reforma paterna.

O pai foi um elemento muito presente e preocupado com a vida académica e profissional. Por vezes “até demais”, admite Eduardo, refletindo ter sofrido alguma pressão familiar para seguir os estudos na área da contabilidade.  Com a ideia presente de que essa pressão vinha de alguém que apenas queria o melhor para ele, Eduardo brinca com um episódio na adolescência.

“Os meus pais queriam que eu seguisse economia e gestão na faculdade” sublinha. “Às vezes olho para trás e penso que a compra do Monopólio e as centenas de vezes que o meu pai me obrigava a jogar, afinal tinham um propósito”, graceja.

Como gerente do gabinete de contabilidade, Eduardo Miranda, Lda., em Vila do Conde, o contabilista presta serviços a 80 micro e pequenas empresas de diversas atividades do concelho nortenho. Os serviços prestados concentram-se na área da contabilidade e gestão de pessoal. O escritório é constituído por Eduardo e mais sete colaboradores, três deles contabilistas certificados.

Fotografia da fachada da empresa cedida pelo entrevistado, Eduardo Gonçalves

O mundo não parou, portanto, as pessoas têm de saber viver nele com todos os entraves que são impostos nesta altura, seja a nível laboral, seja a nível comunitário. Para tal, o Estado apresentou diversas medidas, entre elas, o teletrabalho, para que as empresas não parem a atividade económica.

Numa altura em que o teletrabalho é obrigatório, excetuando nas empresas onde o atendimento ao público é necessário, e Vila do Conde é um dos concelhos mais fustigado pela pandemia, este regime de trabalho toma um papel preponderante. Porém, “a especificidade dos nossos serviços podem impedir o cumprimento do teletrabalho”, esclarece o entrevistado. Isso porque, depois de analisados e processados os documentos contabilísticos, que avaliam a parte financeira de uma empresa, a proteção destes papéis é importante. E em teletrabalho, o cumprimento do fluxo destes documentos entre o gabinete e a residência dos colaboradores é difícil.

 “Os colaboradores que estão em teletrabalho deslocam-se ao gabinete uma vez em cada 15 dias, de forma a recolherem documentos contabilísticos e deixarem os outros documentos já processados”, explica.

Em relação à nova medida que determina o recolher obrigatório aos fins -de -semana, a partir das 13h, nos concelhos de alto risco, Eduardo compreende a intenção do Estado em confinar cada vez mais país, uma vez que se vive uma fase onde os novos casos diários por COVID -19 continuam a ser relativamente preocupantes. Contudo, o entrevistado não concorda com essa medida “sufocante para a maioria dos portugueses“, porque acarreta “uma lenta e progressiva morte da nossa economia”, lembrando ainda que 80% do Produto Interno Bruto português é gerado, precisamente, nesses concelhos.

Estas novas medidas vão fazer desaparecer o contributo de dois setores de atividade importantíssimos para a nossa economia, a Restauração e o Comércio”, perspetiva.

Segundo os últimos dados da Pordata, em 2018, 99,4% do total de empresas, em Portugal eram micro e pequenas empresas. São números extremamente importantes para a saúde da economia do nosso país. Mas, na realidade, são precisamente estas empresas, os restaurantes e os negócios locais, que têm sido obrigados a “fechar portas”. O contabilista trabalha com estas empresas todos os dias e vê num número crescente delas “um sentimento de impotência para com o que está a acontecer”. Nos intervalos entre as palavras, sente-se a mágoa e o medo de quem pode perder aquilo que tudo construiu.

Ainda não perdi clientes, mas sei que, inevitavelmente, isso vai acabar por acontecer, uma vez que já tenho muitos clientes com a corda ao pescoço”, constata. “Ao mesmo tempo”, continua, “estou a ser obrigado a descer os honorários dos meus serviços a alguns clientes, originando uma quebra na receita do gabinete

Portugal precisa, e muito, da ajuda monetária proveniente da União Europeia, no âmbito do Plano do Fundo de Recuperação. É fundamental para a recuperação económica do país, na proteção dos empregos, nomeadamente das micro, pequenas e médias empresas que são o motor da economia deste país“, explica Eduardo. E compara o cenário com o de uma vacina: “quando há vacina, as pessoas ficam protegidas”. O contabilista leva a mesma ideia para a economia: quando há dinheiro, as pessoas ficam igualmente protegidas.

Espera, assim, nos próximos tempos ouvir notícias tão esperançosas acerca da eficácia desta injeção económica como tem ouvido falar da indústrias farmacêutica.

Precisamos de duas vacinas: uma para a saúde e outra para a economia”, sublinha.