“O meu bairro fechou para hostel”
- 15/06/2021
- Atualidade Internacional Multimédia Portugal
O alojamento local tem vindo a crescer com a chegada dos turistas. As ilhas do Porto são as mais afetadas com este negócio, o #infomedia falou com Fernanda Santos e Quitéria Neves que contam a perspetiva como moradoras.
[Texto de Ana Fernandes e Vanessa Sousa]
Na tarde de sol do dia 20 de maio ouve-se a música alta do rádio como é habitual na rua de São Vítor, na freguesia do Bonfim, no Porto. Fernanda é a mais recente vizinha, mudou-se há seis anos para a ilha do Galo Preto. Viúva há cinco anos, sentada na cadeira branca de plástico, encostada à porta de casa, recorda dos tempos que viveu com o seu falecido marido.
Em agosto de 2018, a ilha em que Dona Fernanda morava, juntamente com os seus filhos e o marido, a ilha do Mourão, localizada também na rua de S. Vítor, foi transformada num “hostel de luxo” com vista para o rio Douro. “O meu bairro fechou para hostel” são cada vez mais as ilhas que estão a ser vendidas e renovadas para esse efeito, obrigando os moradores a mudarem de habituação à força. Como foi o caso de Fernanda, que aos 70 anos de idade, viu a sua vida mudar de um momento para o outro “eu sabia que ia ser despejada” – sublinha – “e eu nem esperei, nem exigi nada, peguei nas minhas coisas e vim-me embora”.

Fernanda Santos 
Entrada da ilha do Galo Preto
O meu bairro fechou para hostel, morei lá 50 anos”
Quem passa pela avenida de São Vítor vê as inúmeras portas que vão aparecendo, intercaladas com as habitações. O grande portão, com um tom preto e já com um ar desgastado, quase passa despercebido. É nesta rua que se encontra uma das 1130 ilhas existentes na Invicta. As roupas estendidas nos varais acompanham o corredor e ao fundo, destaca-se a escada encostada ao muro. Quem entra pelo corredor da ilha, já é habitual subi-la e ver a vista para o Douro. Conta ao #infomedia que quando se mudou para a ilha do Galo Preto a renda aumentou consideravelmente “eu pagava 50€ por mês, desde que vim para aqui, pago 250€”, e das dificuldades que isso arrecadou, uma vez que vive da reforma do marido “fome não passo, mas tem de se controlar o dinheiro, porque também não tenho muito”. No entanto, a moradora esclarece que houve outros vizinhos que tiveram direito a uma casa num bairro social e dinheiro por parte do senhorio para saírem da habitação.
Eu estava mesmo a necessitar porque tinha de sair de lá, nem pensei duas vezes quando esta casa ficou livre”.
Ilhas do Porto
| As “ilhas” no Porto são um tipo de habitação operária típica do século XIX, constituída por edifícios unifamiliares no centro da cidade. “Foram também a resposta à necessidade de albergar uma população de origem rural que se deslocou para o Porto numa cidade em processo de urbanização emergente e com problemas graves de alojamento.” Associação Comercial do Porto |
(In)Sustentabilidade na Cidade do Porto
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE-2020), em 2019, o alojamento local teve um crescimento de 15%. Os lucros aumentaram 20,6% em 2019, para mais de 377 milhões de euros.
O baixo custo das propriedades e do arrendamento de longa duração e as baixas taxas de juro constituíram um estímulo para os investidores privados encontrarem no alojamento local uma oportunidade de negócio. Outra mudança importante foi a alteração na legislação do alojamento local em 2014. Houve assim uma oportunidade de negócio no setor do imobiliário.
O alojamento local é um modelo de negócio que encontrou nas plataformas online o fator crucial e uma procura global.
Gerou alguns efeitos secundários, como o exemplo da não renovação de contratos de arrendamento, os despejos, o desenraizamento associado à ocupação temporária por novos públicos, estes fatores tiveram impacto na estrutura sociodemográfica e cultura pré-existente, gerando assim a gentrificação.
Esta começou por ser apenas associada ao setor imobiliário, mas acabou por criar uma relação com outros setores, como o comércio.
| Gentrificação ʒẽtrifikɐˈsɐ̃w̃ – Processo de transformação e valorização imobiliária de uma zona urbana, que acarreta a substituição do tecido socioeconómico existente (geralmente constituído por populações envelhecidas e com pouco poder de compra, comércio tradicional, etc.) por outro mais abastado e sem condutas de pertença ao lugar. |
Alguns proprietários e investidores, consideram que o alojamento turístico é um investimento mais rentável e seguro, na medida em que há uma maior instabilidade no regime de arrendamento habitacional de longo prazo.
Quando o meu senhorio nos mandou sair de lá, ele sabia que ia ficar a lucrar com a venda da ilha para alojamento local”, relata Fernanda.
Com o olhar vago, relembra que neste momento o hostel encontra-se fechado pela falta de turistas. Os proprietários de alojamentos locais voltaram ao arrendamento tradicional como alternativa à falta de turismo, tentando contrariar a crise económica provocada pela COVID-19.
Em 2015, a Câmara Municipal do Porto verificou que 10.000 pessoas vivem em ilhas, algumas delas com más condições de habitabilidade. Em Campanhã encontra-se a freguesia com um maior número de ilhas, cerca de 233, o Centro Histórico com 176 e Paranhos com 155. A União de Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, contam com apenas 75.