“O meu bairro fechou para hostel”

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“O meu bairro fechou para hostel”

Pobreza na generalidade das habitações

A carência é uma realidade instalada na maioria das casas, cerca de 73% das famílias que vivem em ilhas vivem do salário mínimo de Portugal (665€), sendo que há famílias que não dispõem de qualquer tipo de apoio. O #infomedia tentou contactar a Associação MEXE para responderem a algumas questões relativamente aos apoios que as pessoas que moram nestas habitações possuem, no entanto, não obteve resposta por parte da mesma. Trabalham questões como a desigualdade, a desorientação social, o esvaziamento do espaço público, a dificuldade de afirmação das subjetividades que disputam os quotidianos dos cidadãos, entre outros. 

Quitéria Neves, ou como é apelidada pelos corredores, “a vizinha mais bonita”, relembra quando acordou numa casa diferente que não era a sua “acordei e vi que não era a mesma casa fui para trás da porta” e que “não tinha teto, não havia luz, as paredes eram feitas de pedras grandes e o chão tinha buracos”. Nos dias que correm, a maior parte das habitações já têm sanitários, no entanto, e muitas das vezes, estes ficavam no fundo da ilha que eram comuns a todos os habitantes “as casas de banho eram cá fora e partilhadas”. A falta de condições sanitárias gerava doenças e graves problemas de saúde e bem-estar.

À medida que o dia ia passando e com o sol quase a pôr-se, o corredor ia ficando mais movimentado. As famílias regressavam a casa e o burburinho das vozes, intercalado com o ruído dos carros que passavam na rua aumentava.

Vivíamos muito mal, um rato chegou a ferrar-me na orelha”, explica a antiga costureira de camisas

Quitéria Neves

Ilha do Galo Preto

Uma das principais características, se não a principal, é o longo e estreito corredor com várias filas de casas pequenas, muitas delas só com um piso térreo. No seu interior, normalmente tem apenas três micro divisões: cozinha, sala e quarto, há quem tenha também um pequeno sótão.

Casa de Quitéria Neves | Fotografias: Ana Fernandes e Vanessa Sousa

Devido à sua idade já avançada, quando começa a escurecer vai para a casa da sua irmã e do seu cunhado, a senhora Joaquina e o senhor Óscar, que fica na ilha em frente, para não passar a noite sozinha. No entanto, faz questão de ir todos os dias para a sua casa “todos os dias venho para aqui, ouço o meu rádio, faço a minha rotina e ponho a conversa em dia”. Sempre acompanhada pelas vizinhas Fernanda Santos, Maria Clara e Virgínia Silva.   

A ilha tem mais de 200 anos e Dona Quitéria mora ali “há 80 anos, foi a minha madrinha Isaura que me criou” e relembra que “naquela altura era uma miséria muito grande”. Todos os dias vai tomar o seu café e à medida que ia mostrando a sua casa, sem portas interiores e as paredes já com algum desgaste do passar dos anos, recorda as obras que fez. Apesar de pagar 24€ de renda “o senhorio nunca fez nada”. Vive na ilha desde os seus quatro anos de idade, Quitéria recorda a vontade que sempre teve em sair, “acho que já está um pouco tarde para me mudar, esta casa nunca deu sorte a ninguém”. Lembra a tragédia de perder dois familiares naquela casa, nomeadamente o seu padrinho. 

Reformada há 45 anos, Fernanda espera que haja mais respeito pelos moradores e que os proprietários e a câmara não pensem só em alojamento local e nos turistas. A cidade do Porto atrai cada vez mais turistas o que acaba por ser prejudicial para os moradores, em consequência disso os preços das rendas aumentam, as casas são cada vez mais escassas.

Na reta final da conversa, ambas confessam como se imaginam no futuro. Quitéria vê-se a continuar pelos corredores da ilha e a mostrá-la a quem lá passa “tenho gosto que as pessoas visitem a minha ilha”. Já a Dona Fernanda, espera por dias melhores na sua vida juntamente com as suas filhas e as netas.

Ilhas do Porto | Fotografias: Ana Fernandes e Vanessa Sousa