Perturbação Obsessivo-Compulsiva: “Cheguei a lavar tanto as mãos, para garantir que estavam limpas, que fiquei sem pele”

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Perturbação Obsessivo-Compulsiva: “Cheguei a lavar tanto as mãos, para garantir que estavam limpas, que fiquei sem pele”

A perturbação obsessivo-compulsiva é uma doença que se esconde por detrás de palavras como “perfeição” e “insegurança”, mas que consegue condicionar toda uma vida se não for procurada a ajuda necessária para a controlar. 

[Reportagem de Ana Gomes]

Apesar de ser um dia de primavera agradável e ótimo para dar um passeio de bicicleta como gosta de fazer nos tempos livres, Bruno Monteiro, de 29 anos, trocou os pedais por uma conversa sobre a doença psiquiátrica que o acompanha desde os 21 anos: a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). 

Com o diagnóstico feito percebemos que afinal não é só uma mania como nos estão sempre a dizer, não somos só perfecionistas e inseguros, temos é uma doença que nos obriga a adotar determinados comportamentos.

Bruno Monteiro
Mesa do café | Fotografia: Ana Gomes

É depois de endireitar, de um modo simétrico, toda a mesa do café onde nos encontramos, que Bruno começa a falar da experiência de viver com várias obsessões e de como lidou com a situação quando lhe foi diagnosticada a doença. “Quando me disseram que eu era obsessivo compulsivo não fiquei triste, fiquei assustado, mas ao mesmo tempo foi uma sensação de alívio, porque o que eu mais queria era que me dissessem que afinal aquele comportamento era normal e que existem mais pessoas como eu”.

O jovem revela que antes de ter acesso ao diagnóstico, e até mesmo de procurar ajuda profissional, as pessoas que o rodeavam o caracterizavam por “perfecionista” e “inseguro” uma vez que tinha uma grande necessidade de manter tudo no lugar e de verificar se realmente tinha fechado a porta de casa ou a do carro. Apesar de se sentir estranho, Bruno não concordava com os familiares e amigos “eu não estava inseguro, eu tinha era uma espécie de “voz”, na cabeça, que me obrigava a fazer tudo aquilo, só que as pessoas não entendiam muito bem isso”. Após o diagnóstico, todos aqueles comportamentos passaram a ter uma explicação, “com o diagnóstico feito percebemos que afinal não é só uma mania como nos estão sempre a dizer, não somos só perfecionistas e inseguros, temos é uma doença que nos obriga a adotar determinados comportamentos”.

A perturbação obsessivo-compulsiva é uma doença psiquiátrica e é caracterizada por obsessões e compulsões. Traduz-se em ansiedade, uma vez que o cérebro não consegue normalizar as coisas do dia-a-dia e a pessoa acaba por ter vários comportamentos compulsivos e repetitivos. Esta doença tem tendência em manifestar-se durante a infância, na adolescência, ou nos primeiros anos da vida adulta e surge da interação entre fatores genéticos e ambientais, deve-se a alterações do cérebro que começam na infância e que resultam na falha de mecanismos de controlo dos processos automáticos cerebrais. 

Marcadores alinhados | Fotografia: Ana Gomes

As obsessões e compulsões mais comuns são:

– As limpezas, sejam do próprio corpo, objetos ou de superfícies; 

– A verificação, que por vezes se repete de uma forma consecutiva até que o doente sinta que verificou as vezes necessárias; 

– O anseio por ordem e simetria, existe uma constante necessidade em manter os objetos alinhados;

Cheguei a lavar tanto as mãos, para garantir que estavam mesmo limpas, que fiquei sem pele em algumas zonas das mãos.

“Joana”

Este tipo de comportamentos é bastante frequente na vida de Bruno. “Eu cheguei a ter de confirmar três vezes seguidas se o carro estava mesmo fechado, eu fechava-o e depois tinha que ir verificar as portas três vezes, não me chegava uma nem duas, tinha mesmo que ser três, enquanto não o fizesse não conseguia sair de lá”.

Também “Joana” – nome fictício – de 19 anos e estudante de enfermagem, aceitou partilhar como é viver com perturbação obsessivo-compulsiva desde os 18 anos. Revela que, tal como Bruno, sentiu e ainda sente necessidade de repetir determinados atos. “Eu acendia e apagava a luz várias vezes para ter a certeza que estava mesmo apagada, eu sabia que estava errado o que estava a fazer, eu olhava para as divisões da casa e via que já estavam escuras, mas só conseguia parar quando a minha cabeça deixava”. Para além da necessidade de verificar e repetir determinados atos, “Joana” passou por uma das obsessões mais comuns entre os pacientes diagnosticados com a perturbação, lavar, frequentemente, as mãos, “cheguei a lavar tanto as mãos, para garantir que estavam limpas, que fiquei sem pele em algumas zonas [das mãos]”. 

A perturbação obsessivo-compulsiva tem tendência a agravar-se se não for procurada ajuda atempadamente. Tende também a ser crónica, mas existem tratamentos que ajudam a que o paciente alcance o maior bem-estar possível. Esses tratamentos passam pela psicoterapia cognitiva-comportamental, pela toma de fármacos antidepressivos e, por vezes, é ainda necessário adicionar fármacos como os antipsicóticos, ou os estabilizadores de humor. 

É depois de um profundo suspiro que, “Joana”, confessa que a frase “é uma doença que se encontra num estado avançado, podemos atenuar os sintomas, mas não curar de vez”, que ouviu da boca do terapeuta. Foi das piores que já lhe disseram até hoje, confessa.

“Quando o ouvi dizer isso senti uma revolta grande dentro de mim, só pensava no porquê de ser eu, apesar de saber que existem doenças mais graves que esta”. Contudo, o facto de estar numa fase avançada da doença não foi a única preocupação da jovem, o preconceito da sociedade para com as doenças mentais foi, também, algo que a deixou inquieta. “Algumas pessoas quando sabem que vamos ao psicólogo ou ao psiquiatra acham logo que somos maluquinhos, quando soubessem que eu tenho uma doença psiquiátrica iam rotular-me por completo. Agora sei que este foi um pensamento parvo, mas na altura eu fiquei mesmo preocupada com o que iam pensar sobre mim.” 

As obsessões como as que nos contam “Joana” e Bruno podem condicionar o dia a dia de quem vive com elas, levando a um grande desconforto como explica o estudante de desporto, Nuno Gonçalves de 21 anos, que vive de mãos dadas com esta doença desde os 19.

“A nossa cabeça está sempre a pensar, principalmente se estivermos a passar por um período em que estamos mais ansiosos, essa ansiedade leva-nos a obsessões e essas obsessões dão-nos ainda mais ansiedade, sobretudo se não as conseguirmos cumprir ou se as tentarmos negar, e acaba por ser uma bola de neve”. E foi esta “bola de neve” e o acumular de vários pensamentos que fizeram com que “Joana” pensasse em desistir do sonho que tinha desde criança, ser enfermeira, “os enfermeiros, apesar de utilizarem luvas e desinfetarem muitas vezes as mãos, são obrigados a tocar em imensas coisas e eu pensei que não seria capaz de seguir o curso que queria por causa da minha obsessão com a limpeza das mãos”. Após uma longa reflexão, e com a ajuda dos terapeutas e da mãe, “Joana” conseguiu ultrapassar esse receio e entendeu que não devia condicionar a vida por causa dos pensamentos, mas sim ignorá-los, “tenho de saber ignorar as obsessões e os pensamentos, se eu tivesse desistido de enfermagem por causa disto provavelmente agora estava muito frustrada comigo própria”.

Post-its | Fotografia: Ana Gomes

Ana, a mãe de “Joana” foi quem incentivou a filha a procurar ajuda profissional, “eu comecei a achar que os comportamentos dela não era muito normais e notava que às vezes ela até estava a cumpri-los com algum sofrimento, mas que se sentia, de certa forma, obrigada a fazer aquilo e, foi por isso, que a aconselhei a procurar um médico”. A mãe da jovem afirma ainda que a terapia fez muito bem à filha e que, algum tempo depois de “Joana” ser medicada por um psiquiatra e de ter acompanhamento psicológico, começou a apresentar melhorias e controlo sob os pensamentos e compulsões, “eu notei melhorias, senti que a “Joana” já tinha algum controlo em certos momentos o que é muito bom”. 

Nós temos 99% de certezas de que, por exemplo, apagamos as luzes antes de sair de casa, mas depois existe 1% na nossa cabeça que nos diz que se calhar não apagamos. Contrariar esse 1%, principalmente nos inícios de uma nova obsessão, causa muito sofrimento, ao ponto de, por vezes sermos obrigados a ceder.

Nuno Gonçalves

Também Bruno e Nuno procuraram ajuda terapêutica quando sentiram que os comportamentos que estavam a ter não eram normais e que lhes causava um certo desconforto e até sofrimento. Ao longo da terapia, os pacientes vão aprendendo como lidar com as compulsões e, segundo Bruno, a medicação é um aliado fundamental para controlar os comportamentos obsessivos: “a medicação ajuda-nos a desvalorizar os pensamentos, eu tinha medo de tomar medicação e ficar apático, devido ao que se ouvia dizer acerca da medicação para doenças mentais, mas não aconteceu nada disso, a medicação foi uma grande aliada para eu sentir que estava a voltar à normalidade”. Nuno, revela que na terapia os pacientes aprendem “a dizer que não à cabeça”, mas o estudante de desporto confessa que nem sempre é fácil ignorar o que a cabeça lhe pede: “nós temos 99% de certezas de que, por exemplo, apagamos as luzes antes de sair de casa, mas depois existe 1% na nossa cabeça que nos diz que se calhar não apagamos. Contraria esse 1%, principalmente nos inícios de uma nova obsessão, causa muito sofrimento, ao ponto de, por vezes sermos obrigados a ceder”.

Momentos de ansiedade intensa na vida dos pacientes é o que, na maioria das vezes, dá origem a uma nova obsessão. “Joana” conta que quando está a passar por uma situação de muito stress e ansiedade não consegue controlar as obsessões, “para além de não conseguir controlar as [obsessões] que já tinha, aparecem-me umas novas”. 

Uma obsessão pode demorar entre dias ou anos a passar, “a minha obsessão em ver se o carro estava fechado durou-me um ano, ou mais”, afirma Bruno. Após alguns cálculos de cabeça, Nuno conta que, também durante quase um ano, se via obrigado a limpar o telemóvel sempre que o pousava em algum local ou sempre que alguém tocava nele, “sempre que pousava o telemóvel em cima de uma mesa de café, por exemplo, tinha que o limpar a seguir e se alguém pegasse nele igual, era como se eu o conseguisse ver a ficar contaminado”.

Segundo o Serviço Nacional de Saúde, a perturbação obsessivo-compulsiva é uma das doenças psiquiátricas mais comuns e afeta 2-3% da população. Ainda assim, quem sofre desta doença sente que ainda vive envolto de tabus, como explica Bruno, “eu acho que se deve falar de forma mais aberta das doenças mentais e psiquiátricas, sinto que em Portugal ainda existe muito preconceito com isto e está errado”. E é este preconceito que, por vezes, faz com que algumas pessoas sintam vergonha de procurar ajuda profissional como foi o caso de Nuno, “eu tive vergonha de pedir ajuda, mas depressa percebi que não existe nada mais importante que o bem-estar, pedir ajuda é um ato de coragem e não de fraqueza”. 


Informação Adicional:

Associação de Apoio ao Familiar e Doente com Perturbação Obsessiva Compulsivo – Domus Mater

Telefone: 967 943 137 ; 218 406 187

Email: gestao@domusmater.org

Endereço: Rua Almirante Sarmento Rodrigues, Lote 8, Piso -1. – 1900-882 Lisboa, Portugal

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Ana Gomes

O meu nome é Ana Gomes, tenho 21 anos, e sou natural de Braga. Frequento o 3º ano da Licenciatura de Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona do Porto. Escolhi esta Licenciatura porque a área da Comunicação sempre foi algo que me despertou muito interesse.