Quiosques no Porto: A vida por trás de um balcão

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Quiosques no Porto: A vida por trás de um balcão

Margarida Novais, Manuela Castro e Maria Rosa são três mulheres que gerem os seus quiosques nas ruas do Porto. É a vender jornais, guloseimas, chocolates e tabaco que passam o dia e é a forma como adquirem o “ganha pão.”

[Reportagem de Mariana Venâncio]

São 11h do dia 29 de março de 2022 e Margarida Novais acabou de abrir o quiosque há três horas. De máscara preta no rosto, o habitual bom dia fez-se sobressair entre capas de jornais e revistas coloridas ao balcão. Ao início da manhã, os clientes não são muitos, mas a proprietária mantém-se ocupada. De iPad na mão, regista os produtos que já vendeu.

Margarida Novais | Fotografia: Mariana Venâncio

Entrar, pedir, pagar e sair é a rotina de muitos clientes. Outros ficam só a mirar o pequeno espaço à entrada. A Tabacaria Santo António é pequena, mas bem estruturada. Dos dois lados estão pendurados revistas e jornais. No interior da loja estão produtos de papelaria. No máximo, entram dois clientes. Situa-se na 31 de janeiro, uma rua emblemática no Porto.

Margarida gere o negócio há quatro décadas. À semelhança de um livro, na primeira terça-feira de primavera folheou páginas antigas. Recuou no tempo e contou a história.

Ser proprietária de um quiosque não estava nos planos. Aos 36 anos foi obrigada a “fazer-se à vida.” Trabalhava numa empresa em Setúbal, na secção de pessoal, cargo que, atualmente, se designa de Recursos Humanos. “No tempo do Pós-Revolução muitas empresas fecharam” e a sua não foi exceção. O sonho terminou e novos planos começaram.

Margarida Novais | Fotografia: Mariana Venâncio

Não é sozinha que gere o negócio. Barbosa, de 90 anos, é também funcionário. De fato e gravata, lê o jornal ao balcão. Faz companhia a Margarida, antes de ir jogar às damas com os colegas. Entre muitas conversas, Margarida mostra-se, essencialmente, entusiasmada numa delas. O sorriso é notório por detrás da máscara. Conseguiu vender um Galo de Barcelos a um turista. Recorda que, antigamente, deslocava-se a Barcelos para comprar “900 euros de galos” e conseguia “vender tudo.”

Os dois proprietários trabalham juntos há 57 anos. Foi seu chefe no departamento de Recursos Humanos e a amizade perdurou. Ambos desempregados e pela iniciativa de Barbosa procuraram uma agência de espaços. Passaram horas a escolher o estabelecimento certo. A “agência não lhes mostrou esta Tabacaria porque era para a filha do agente, se “chumbasse” o ano, vinha para aqui trabalhar, mas não aconteceu”, conta.

Da terra onde trabalhava deslocou-se para o Porto. Abriu portas há 42 anos e teve de se habituar, mas confessa que lidou um “bocado mal com a mudança.” Passar de um escritório, em que estava sentada a tratar da papelada para “passar a estar horas de pé” foi complicado. Na altura, o Porto “tinha muito movimento, faturava muito”, diz ser um dos motivos por que escolheu a loja. Nos dias de hoje, as pessoas vão fazer as suas compras aos centros comerciais, mas, antigamente, isso não acontecia. “Quem queria um par de sapatos, quem queria um vestido bonito vinha ao Porto”, lembra com saudades desses tempos.

Por estar há muitos anos a gerir o negócio, “os clientes habituais já estão reformados”, muitos já “não vivem no Porto.” Novais recorda com brilho nos olhos um cliente especial que morava na Invicta e mudou-se para a Beira Alta. “Gastava uma média de 40 contos” que, hoje, são 200 euros. “Comprava muitos produtos: colecionáveis, livros, CDs, DVDs, entre outros.” Durante cinco anos, guardou-lhe todos os artigos que pedia e “vinha ao Porto de dois em dois meses buscá-los.”  Há que estimar os bons clientes e, Margarida, sabe fazê-lo, pelo menos, acredita que sim. Conta que existem muitos empregados que “têm um cliente certo, mas se virem outro cliente que não é [habitual], servem primeiro o que não é certo e deixam o certo para trás”, caracteriza esse ato como uma atitude negativa.

“Às vezes perde-se a pão e bola”

Margarida Novais.

Margarida tem 78 anos. Recusa reformar-se. Trabalha e gere a Tabacaria Santo António. Há uma resistência, quer manter a vida ativa no quiosque onde trabalha há quatro décadas. Continua a dar cor à vida porque, para si, “parar é morrer.” A pessoa “tem de estar sempre a funcionar”, tem de “lidar e conversar” com a comunidade.

Ao contrário da proprietária, a imprensa tem revelado sinais de estagnação. Com as tecnologias, o quiosque já não é o que era. Conta que ao início da manhã, um cliente pediu-lhe um mapa de Portugal, porém não o tinha. Só têm “o mapa Portugal-Espanha” disponível. “Uma jovem não quer um mapa para nada, vai ao Google Maps e é capaz de se desenrascar, mas as pessoas de idade não.” Esses “gostam de estudar o mapa, abri-lo numa mesa e folheá-lo”, como fazia antes de ter o iphone, explica.

“Tenho parte da minha vida aqui”

Margarida Novais

As portas abrem às 8h, mas levanta-se mais cedo. “O melhor bocadinho é antes de abrir o estabelecimento.” É tempo de pensar, de refletir. Não é que não goste de estar na tabacaria, pois, na verdade “adora”, simplesmente quer estar sozinha. Ter o seu tempo. Já não trocava esta rotina por nada. Já não trocava o quiosque por nada.


O quiosque que esconde histórias

Todo o passado, impulsionou a ser quem é hoje. Uma pessoa resolvida com a vida. Considera que “sempre teve sorte”, à exceção dos tempos em que era criança.

Aos oito anos foi obrigada a ir para o Colégio Postigo do Sol, a atual Universidade Lusófona do Porto (ULP). Colégio esse que conhece com as palmas da sua mão. Vem-lhe à memória que a “parte de baixo eram as salas de aula e o piso de cima era o refeitório e os dormitórios”, mas o espaço preferido era a capela. Nostálgica relata mais um episódio: “chegou a ser responsável por limpar a capela, para vigiar as flores, para acender a lamparina.” Ela “gostava tanto que fazia de propósito para ir lá parar” sempre que pudesse, revela com saudades.

A parte menos boa de ser criança foi quando a mãe adoeceu. Ficou “sem alguém para a acompanhar na sua meninice”, afirma. A progenitora teve de ser internada no Hospital Conde Ferreira. O pai entregou-se à “tristeza” devido às consequências da Segunda Guerra Mundial, passou a “beber e a fumar muito”, especialmente cigarros baratos, diz. A figura paternal colocou-a nesta instituição, separando-a das irmãs que, muito novas, tiveram de se fazer à vida.

Esteve na Fundação Lar Nossa Senhora das Dores e São José do Postigo do Sol até aos 12 anos. Sem família deslocou-se para o Colégio em Setúbal para prosseguir os estudos.

Se Margarida tivesse de escolher uma das instituições não hesitaria e escolhia o Colégio no sul do país. Nesse espaço conseguia “aproveitar os seus dotes de cantar, participando em coros e em teatros.”

Viveu uma infância separada da família. Agora vive com a irmã de 80 anos.

“O que é bom é como acaba, não como começa”

Margarida Novais
Mariana Venâncio (MV): Considera que teve uma vida dura?
Margarida Novais (MN): Não. Vida dura têm os meninos que têm de trabalhar antes de ir para a escola. Eu leio jornais e revistas.

Cidade Invicta rodeada de quiosques em poucos metros

A três minutos da Tabacaria Santo António está a Fortuna das Letras, o quiosque da Estação, em São Bento. Num espaço pequeno está Manuela Castro. Preparada para mais um dia de trabalho.

Aberto desde as 7h, espera pelos fregueses. Atende mais clientes quando os comboios chegam à estação. Comprar, pagar e fazer as atividades dispostas para a primeira terça-feira de primavera, é a típica rotina dos clientes diários de Manuela. Por vender num local com muito turismo, os estrangeiros também fazem parte da casa.

Manuela Castro | Fotografia: Mariana Venâncio

Como uma raspadinha, saiu-lhe a sorte grande. Antigamente, era uma loja do Porto. Hoje, é a sua banca. Decidiu candidatar-se ao sorteio dos Comboios de Portugal (CP), quando a loja estava sem nenhum proprietário. Fez a “proposta de como não existia nenhum estabelecimento de jornais e revistas” e “aceitaram”, afirma a proprietária de 51 anos.

Desde muito cedo “optou por trabalhar porque era complicado querer comprar coisas e os pais não conseguiam”, declara. Por esse motivo, aos 11 anos decidiu fazer-se à vida, trabalhou num café. O seu verdadeiro sonho.

Fortuna das Letras, o quiosque da Estação | Fotografia: Mariana Venâncio

Há 28 anos, conheceu o marido. Também ligado a este mundo. O parceiro tem uma loja semelhante na Estação de Campanhã, Torcato Pereira e Meireles Ltda. Foi nessa estação que se apaixonou. Com o passar dos anos, foi gostando da profissão do marido e a “opção foi também fazer o serviço.” Daí, nasceu a Fortuna das Letras, sem estar nos planos.

Há saída da Estação está o Quiosque da Madeira, nome pela qual Maria Rosa e clientes o denominam. Localiza-se na rua Almeida Garret, mas próximo da rua da Madeira, daí a designação. Tal como a loja de Margarida e Manuela, o quiosque é pequeno. Arredondado e de cor verde com duas janelas para atender clientes. Rosa e Pedro estão dentro do estabelecimento à espera de fregueses desde as 7h30.

 

Sempre quis ter um negócio, apesar de não ter atividade definida. Até que surgiu a oportunidade aos 54 anos. Trabalhava no Porto e “viu que o quiosque estava fechado.” Achou estranho, uma vez que “o quiosque fechado, neste sítio, era uma verdadeira oportunidade”, declara. A ambição de Maria, então, concretizou-se.

Aos 64 anos caracteriza este espaço como especial. Um espaço que gosta. Gosta de interagir “com os turistas diariamente, com os residentes, com as pessoas que não residem, mas que trabalham aqui, é muito bom”, revela Rosa. É tudo o que quis. Não o deixa por nada. 

Estas três mulheres são comerciantes. Sem estar nos planos de cada uma, fizeram disto os seus negócios.

Como será gerir um negócio?

Um comerciante tem habilidades especiais. Margarida, Manuela e Maria são especialistas a vender produtos ao público. Para elas, os quiosques são “muito importantes para a sociedade.” Estes “vendem notícias, vendem as novidades e colocam as pessoas ao corrente da atualidade”, declara a funcionária da Tabacaria Santo António.

São mulheres de trabalho. Todos os dias acordam cedo para abrir a tempo e a horas. Para montar a banca. Para receber os jornais diários e/ou as revistas semanais. Manuela conta que tem “uma parceria com a Vasp”, por isso, “os jornais vêm diariamente.” Ao “final do dia fazem as sobras e de madrugada levantam as sobras correspondente a esse dia.” Há todo um processo por detrás que os fregueses desconhecem.

Os preços já estão definidos. As funcionárias apenas conseguem estabelecer o preço das pastilhas elásticas. E, mesmo esses produtos, têm de ter atenção. “Faz-se o cálculo para não levar acima do que se deve levar.” Já “está mau, se aumentar os preços ainda fica pior”, declara a proprietária da Fortuna das Letras. Coloca-se o que se “acha justo”, diz Margarida.

O Porto é uma cidade com muito turismo. Ter uma casa aberta e não saber falar inglês “é praticamente impossível.” É “muito importante”, uma vez que o “Porto está dado ao turismo”, afirma a dona da Tabacaria na rua 31 de janeiro. Margarida não domina as línguas, mas “desenrasca-se com os ingleses, os alemães e os franceses.” Falar inglês nunca foi um problema. “Eles pedem, perguntam o preço e diz-lhes o preço.” Já Manuela Castro “não se consegue expressar”, mas garante que “nenhum cliente vai embora sem ser atendido, nem que seja por gestos e/ou por telemóvel.” Todos saem satisfeitos, garantem as proprietárias. Ser comerciante é isso mesmo. É estar ao dispor do freguês. É conseguir agradá-lo e motivá-lo a comprar.

O turismo é sazonal. Varia consoante as estações do ano. Na primavera o turismo “é barato.” Barbosa considera que o melhor ditado que caracteriza a época baixa é: “muita parra e pouca uva.” Muitas turistas escolhem a cidade Invicta como destino, mas as “lojas estão vazias.” Para agora “o turismo é barato porque, nesta altura, não vêm com grandes posses”, diz a funcionária que frequentou o Colégio Postigo do Sol. Consequentemente, Pedro, filho da dona do Quiosque da Madeira, considera que, após o alívio das restrições relativamente à pandemia, os indivíduos já não viajam, tendo em consideração as alturas do ano. “Estão com tanta sede de viajar, já não esperam pelo verão para vir para uma cidade como o Porto”, declara.

A pandemia foi um entrave, mas as contas estão a voltar ao normal. Margarida, Manuela e Maria aguardam pela época alta para atender mais cliente. A vida delas é isto e já não se imaginam noutra profissão.  

Mariana Venâncio

Mariana Venâncio, 20 anos. Com muitos sonhos por realizar. Hoje, estou a concretizar mais um, estar no curso de Ciências da Comunicação. Ainda com sonhos pela frente, mas cada vez mais próxima de os realizar. Acreditar. Sempre! Gosto de sonhar. Faço parte da editoria de Saúde e é por lá que me quero aventurar!