Rui Costa: “Um erro pode levar a uma espiral negativa”

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Rui Costa: “Um erro pode levar a uma espiral negativa”

Nascido e criado na periferia do Porto, Rui Manuel Gomes da Costa, árbitro há 29 anos, fala sobre a carreira, a pressão sentida nesta profissão e alguns sonhos que ficaram por concretizar. O árbitro, da Associação Futebol do Porto, apita no maior escalão do futebol português há mais de 19 anos e explica as dificuldades sentidas como juiz dentro e fora das quatro linhas. Um árbitro que soa sem apito. 

[Texto de Rui Ribeiro e Diogo Costa]

O erro de um árbitro, num jogo grande, “pode levar a descargas emocionais, não só em termos individuais, mas também para com aqueles que o rodeiam, principalmente família e amigos”. O maior desafio, para Rui Costa, é “conseguir dormir descansado após o apito final”. Sente que tem que dar o seu melhor e “ir para o campo, tentando errar o menos possível”. A maior pressão vem com os chamados “clubes grandes” do futebol português, pois “têm uma maior mediatização na comunicação social”, segundo o entrevistado, que completa esta afirmação com uma pressão mais diminuta nos “clubes pequenos”, pela falta de cobertura mediática. O juiz diz ainda que “o seu erro pode levar a uma espiral negativa, particularmente a noites mal dormidas”, um grande mal-estar emocional, que o leva a ansiar pelo jogo seguinte para ultrapassar o erro cometido anteriormente. Para o árbitro, a diferença entre os jogos com equipas menos mediáticas contra equipas com uma maior cobertura “é sentida com a mesma pressão”. A única diferença, refere, é a forma como os “media” tratam cada jogo. O erro é visto como inadmissível num jogo onde entram Benfica, Porto e Sporting, e, quanto ao resto das equipas da primeira liga onde o erro passa um pouco ao lado, encara “os jogos todos da mesma forma “.

A comunicação social sempre foi um “duro adversário” no que toca à arbitragem. Hoje em dia, mais de metade dos programas desportivos na televisão nacional, focam-se somente em casos de arbitragem, e com isso, a vida social e mental é muitas vezes afetada sendo mesmo, por vezes, necessário algumas semanas de pausa na arbitragem.  A pressão sentida é enorme e o poder, instaurado pelos “clubes grandes” na comunicação social, “é um dos pontos fulcrais para este problema”, assinala Rui Costa. “A pressão mental acentua-se dentro das quatro linhas”, quando todos os olhos estão postos nos intervenientes e os árbitros não são exceção. Sobre novas tecnologias (Vídeo-árbitro), faz “um esforço para não se agarrar muito” e que a sua classificação está dependente da sua atuação sem ajudas externas o que, segundo Rui, “agrava ainda mais a pressão sentida dentro de campo”. O erro pode ser fatal para uma fraca avaliação, que revela um fraco desempenho, “quando isso pode não ser verdade”. Muitas dessas vezes, a saúde mental é o “elo mais fraco”, ou seja, “um jogo pode estragar os últimos trinta efetuados”. Quando interrogado sobre as longas esperas nas decisões com auxílio do Vídeo-árbitro, justifica-se com os pequenos detalhes que podem fazer a diferença na decisão: “todas as imagens, todas as linhas têm de ser analisadas ao pormenor, e por vezes, tínhamos as operadoras das imagens que transpareciam não entender nada que o árbitro pedia”. “Em Portugal, temos do 8 ao 80”. “Temos o Estádio da Luz com dezenas de câmaras, e depois clubes com menores infraestruturas, em que as condições não ajudam a tomar as melhores decisões”. “Há pessoas ligadas ao futebol, comentadores desportivos, que não conseguem entender esta parte. Decerto modo, alguns “media” questionam sem saber ao certo as decisões que o próprio vídeo-árbitro toma, o que leva a uma subida gradual da pressão existente”, menciona o juiz. “O que eu quero é a verdade desportiva”, sublinha o fiscal ainda sobre as novas tecnologias, congratulando-se com essa evolução, estando de acordo com tudo o que venha ajudar a minimizar o erro. Sobre o protocolo que os árbitros têm de respeitar, aponta: “o vídeo-árbitro não é para estar sempre a intervir e, às vezes, as pessoas acham que sim”, assinalando que o facto de estes instrumentos continuarem a auxiliar os árbitros, proporciona um “futebol mais limpo”.

“A desobediência dentro das quatro linhas vai continuar”

Na opinião de Rui Costa, nem sempre é fácil poder “curar essa ansiedade”, pois os árbitros incorrem em punições, quer de coimas, quer de uma “falta de comparência nas jornadas seguintes”. Rui Costa levanta uma questão curiosa acerca dos castigos impostos pela federação, quer nos árbitros, quer nos jogadores/treinadores: “Porque é que quando eu estaciono mal o carro tenho que ser eu a pagar a coima e quando os jogadores/treinadores infringem as leis do futebol, os clubes é que têm que pagar as multas? Assim, é claro que a desobediência dentro das quatro linhas vai continuar.” Afirma ainda que os “bate-boca” entre o staff de uma equipa e a equipa de arbitragem vai sempre acontecer, dentro dos limites, e que a comunicação social, por vezes, exagera na “condenação” de um erro do árbitro. “Errar é humano, e mesmo com as novas tecnologias, o erro vai sempre acontecer.”

Antes de chegar a árbitro de primeira liga, Rui Costa teve vários anos no futebol distrital, onde refere ser “mais difícil arbitrar do que na primeira liga”. O árbitro da AF Porto começou esta atividade porque o pai (Manuel Costa) já tinha sido árbitro de futebol, sendo o grande impulsionador e responsável para Rui Costa ter tirado o curso e ser árbitro. Manuel Costa, anteriormente, incentivou o irmão [o ex-árbitro Paulo Costa], mas nessa altura, Rui Costa estava “longe de pensar em ser árbitro” (tinha apenas 8 anos). Gostava de jogar futebol e o seu sonho era ser futebolista, mas “não tinha muita habilidade para jogar futebol”. Aos 17 anos, tirou o curso de árbitro de futebol. Começou a apitar alguns jogos, mas “no início não achava grande piada”. Nos primeiros jogos, “cometeu muitos erros e sentia que não tinha muito jeito para a função”. “Pensei mesmo em desistir”, confessa, mas com a prática, foi aperfeiçoando as prestações em campo e começou a ouvir os primeiros elogios e incentivos. Foi gostando cada vez mais e o “bichinho foi crescendo”. 

Recordou que no primeiro dia que entrou em campo, “sentia alguma ansiedade”. “Tinha chegado o momento que tanto ambicionava” após tirar o curso de árbitro, ser árbitro de futebol da Primeira Liga. Lembrou igualmente que o jogo “correu muito bem, não houve casos, nem qualquer contestação à equipa de arbitragem, ou seja, os jogadores facilitaram o trabalho”. No final da partida, o Beira-Mar ganhou 3-0 ao Estrela da Amadora, na época 2003/2004.

“Conciliar a arbitragem e o trabalho nunca foi uma tarefa fácil”, refere, sobre a dificuldade em estar junto da família. “Com grande sacrifício e boa vontade dos meus colegas da escola (pois quando falto, eles têm de me substituir), tenho conseguido ser árbitro de futebol, professor de educação física e professor de natação”, salienta o entrevistado, “contudo, sobra é cada vez menos tempo para a família.”

Questionado sobre se a arbitragem é apelativa para os jovens, apesar de todas as polémicas existentes na profissão, responde que “é apelativo, desenvolve uma série de competências, como espírito de grupo, liderança, capacidade de tomada de decisão, saber lidar com a pressão, concentração, entre outras”. Além disso, estar inserido no “desporto rei”, “é uma excelente oportunidade de arranjar novos e bons amigos”. “Quando se consegue chegar ao topo da arbitragem, lida-se de perto com os grandes craques, com as grandes estrelas do futebol (jogadores, treinadores). É óbvio que nem tudo é um “mar de rosas”, mas os aspetos positivos superam largamente os negativos”, considera.

Rui falou dos sonhos que ainda deseja concretizar nesta fase final da sua carreira e o principal desejo é “apitar a final da Taça de Portugal no Jamor”, “um sonho recorrente nesta profissão”. Abordou o assunto da internacionalização, mas hoje, com 45 anos, o árbitro portuense considera que “já perdeu definitivamente o “comboio internacional””, embora tenha estado muito perto de o conseguir, tal como aconteceu com o seu irmão mais velho, Paulo Costa. O seu “fraco inglês foi ponto fulcral para nunca ter conseguido lá chegar”. 

Com alguma tristeza fala de alguns sonhos que não conseguiu concretizar, entre jogos de Mundial ou de Europeu, mas o seu grande sonho era, “sem dúvida apitar uma final da Liga dos Campeões” – Pedro Proença foi o único árbitro português no atual formato da Liga dos Campeões a conseguir tal feito. 

Rui Costa foi um dos árbitros com mais sucesso no passado recente do futebol português. Na época passada, o juiz portuense recebeu mais dinheiro pelos jogos apitados nas diversas provas nacionais. Amealhou 30876€ como árbitro principal e mais 3600€ como video-árbitro, resultando num montante total de 34476€.

Rui Costa, o árbitro que nunca chegou a internacional Fonte: Jornal De Notícias

Rui Pedro Mimoso Ribeiro

Rui Ribeiro, 22 anos, natural da Senhora da Hora. Atualmente no terceiro ano do curso de Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona do Porto. Tendo os avós combatido na Guerra Colonial, por Portugal, ganhou curiosidade em tudo o que envolve o tema "guerra", onde tem como objetivo chegar a repórter desse ramo.