Combater os Obstáculos à Saúde Mental

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Combater os Obstáculos à Saúde Mental

A Saúde Mental

Por Bárbara Dias

Manter um corpo saudável não implica apenas e somente nos aparentarmos bem fisicamente. Significa termos o psicológico estável e positivo, de modo a existir um equilíbrio entre a mente e o corpo. São diversos os problemas associados à saúde mental que devem ser abordados sem estigmas e receios. Devemos dar voz a quem mais precisa e educar a sociedade para que esta temática assuma um papel preponderante na comunidade, de forma a que todos se sintam livres e acolhidos e que possam falar abertamente dos seus problemas sem medos de represálias.

De forma a tornar mais assente este tema, recorremos a fontes mais especializadas de modo a criar um elo mais fidedigno. A Doutora Joana Cruz, psicóloga e que neste momento está a desenvolver um estudo sobre “Saúde Mental em Tempos de Pandemia”, e Ana Miranda, estudante universitária do 2ºano da Licenciatura em Psicologia, dão o seu testemunho sobre “Saúde Mental” e a sua importância na divulgação na sociedade.

É muito recorrente ouvirmos ideias preconcebidas sobre como são as pessoas que sofrem de perturbações mentais.

A cultura pode também, contribuir para vulnerabilidade e sofrimento- costumes e tradições culturais podem ajudar na construção de estigmas ou até mesmo no apoio a quem sofre dessas situações clínicas (transtornos mentais, síndromes, ansiedades).

É importante que existam ferramentas e acessos à divulgação e literacia dos vários tipos de doenças existenciais de forma a ajudar nos mecanismos de auxílio e opções de acesso à assistência da saúde.

Geralmente, grande parte da sociedade não retém de informações necessárias de forma a perceberem do que realmente se trata- julgamentos de juízos e valores são frequentes, que prejudicam negativamente a autoestima, e o psicológico, ao invés de visarem por um ambiente saudável e positivo.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

Como estará a saúde mental de cada um de nós?

O presente testemunho é da autoria da Doutora Joana Cruz que preferiu manter-se em sigilio de forma a preservar a sua imagem na Internet. Disponibilizou-se a dar uma breve explicação em áudio sobre saúde mental e saúde mental em tempos de Pandemia.

“A saúde mental ou bem estar psicológico constituí um componente importante para uma sociedade sustentável e próspera.

No contexto atual de Pandemia estão envolvidos numerosos agentes de stress. Acresce os desafios psicológicos associados à quarentena e isolamento impostos.”

A Doutora Joana Cruz trabalha na área da psicologia. Encontra-se neste momento a desenvolver um projeto de investigação no grupo de investigação na Universidade Lusíada do Porto. O projeto visa a contribuir para a compreensão abrangente dos impactos da Pandemia, tanto e indivíduos como em comunidade.

O papel de um psicológico é importante na promoção de estratégias e apoio em vários áreas, como estratégias de autoconfiança e bem-estar“, assim como refere. Sendo estes profissionais importantes em momentos de crise, como este que estamos a vivenciar.

Ana Miranda, tem 19 anos e frequenta o 2º ano da Licenciatura em Psicologia na Universidade Católica Portuguesa do Porto.

Fotografia de Ana Miranda ©Direitos Reservados

Assim como nos confidencia, “O interesse pelo funcionamento e compreensão da mente humana e dos seus fenómenos patológicos, foi algo que me motivou a estudar esta área. Em Portugal, “o ir a uma consulta de psicologia” é algo encarado ainda como tabu e nós, futuros psicólogos temos como missão a desmistificação desta ideia.”

Estudante de Psicologia, Ana Miranda

“O interesse pelo funcionamento e compreensão da mente humana e dos seus fenómenos patológicos, foi algo que me motivou a estudar esta área. Em Portugal, “o ir a uma consulta de psicologia” é algo encarado ainda como tabu e nós, futuros psicólogos temos como missão a desmitificação desta ideia.”

Mas o que é um transtorno mental?

Um transtorno mental é uma síndrome que se caracterizada por uma perturbação na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo. Reflete-se numa alteração nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental.

Estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes.

Exemplo prático… Quando uma pessoa perde um ente querido, obviamente que ficará triste. Como resultado, terá os sentimentos à flor da pele e mudará de comportamento mas isso não significa que tem um transtorno mental

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

Importância da Literacia na Saúde

Assim, a Literacia em Saúde Mental tem como objetivos:

– Fornecer informação clara e fidedigna sobre diferentes aspetos relacionados com a Saúde Mental

– Divulgar e promover estilos de vida saudáveis

– Esclarecer todos os sinais e sintomas da doença mental

– Facilitar o reconhecimento de cada doença mental e procurar com antecedência todos os cuidados necessários

– Combater o estigma, exclusão social, desconstrução de mitos e preconceitos sobre a doença menta, assim como a promoção a uma melhor compreensão e aceitação destas situações

– Promover o envolvimento da população em geral na tomada de decisões em matérias relacionadas com a Saúde Mental

– Construir um diálogo sobre a saúde e doença mental, incentivando a participação da população em geral, de forma a não se propagar a desvalorização em torno destes problemas

Porque se fala em saúde mental?

Segundo a Direção Geral da Saúde, “A saúde mental é a base do bem-estar geral. É este o sentido da expressão “mente sã em corpo são” ou, noutra formulação, que “não há saúde sem saúde mental”.

Assim, ao considerarmos a “saúde mental” estamos a falar de:

– Capacidade de adaptação a novas circunstâncias de vida ou mudanças

– Superação de crises e resolução de perdas (como perdas familiares) e conflitos emocionais

– Ter sentido crítico e de realidade mas também humor, criatividade e capacidade de sonhar

– Ter projetos de vida e, sobretudo, descobrir um sentido para a vida

A Direção Geral de Saúde deixa um apelo “Quando existe sofrimento emocional e a relação com familiares e amigos não for suficiente para os resolver, importa pedir ajuda a profissionais do setor, a começar pelo respetivo médico de família.

É importante ter em conta que todos somos diferentes e que cada individuo é singular e a forma como cada um lida com diferentes situações varia de pessoa para pessoa.”

É importante estarmos rodeados de energias positivas e pessoas que nos façam sentir bem acolhidos e aceites, independentemente de certas circunstâncias. É necessário existir uma adaptação mas também readaptação a diferentes ambientes.

O propósito de um circulo de amigos ou do verdadeiro sentido de família e união é o apoio incondicional. É preponderante uma saúde estável. Nem sempre o nosso estado de espírito se encontra positivo mas é relevante assumir uma posição equilibrada face a diferentes ambientes.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

Em Portugal…

As perturbações mentais comuns são uma das principais causas de incapacidade para a atividade produtiva expressa, por exemplo, pela forma como se reflete em atividades profissionais e nos resultados que se fazem sentir. A falta de motivação ou stress em consequência dessas perturbações fazem comprometer o desenvolvimento pessoal de um individuo que vem afetar a sua capacidade emcoional e profissional.

A saúde mental pode ser promovida? E a doença mental pode ser evitada?

A promoção da saúde mental deve estar presente desde o início da vida, refletindo-se na adaptação face a adversidades e capacidade de resolução das mesmas.

A intervenção precoce, em certos casos, previne complicações futuras ou então vem a facilitar de certa forma a sua recuperação.

Investigações realizadas pela Direção Geral de Saúde, revelam que algumas pessoas que desenvolvem doença mental na vida adulta manifestaram sinais ou tiveram episódios críticos durante a infância. Algumas doenças mentais não podem ser evitadas, mas, ainda assim, o seu impacto pode ser menor e a qualidade de vida pode ser melhorada.

O suicídio: expressão de desespero mental

A principal e quase única causa de morte por doenças mentais é o suicídio. Segundo Stuckler, Martin McKee, Sanjay Basu, (2011) “Os suicídios são apenas a ponta do iceberg em termos de problemas de saúde mental. O suicídio em si é um evento relativamente raro, mas sempre que há um aumento no número de suicídios há também um aumento de tentativas de suicídio fracassadas e de novos casos de depressão”.

Segundo a Direção Geral de Saúde, regista-se que em média cada 10 a 20 tentativas terminam em suicídio consumado. 

O sofrimento emocional é normal?

O Ser Humano é mais do que um ser racional- as emoções, nomeadamente os afetos, são o elemento mais incontornável da vida mental.

O comportamento humano é inevitavelmente afetado por situações que abalam o estado emocional. Angústias e dor mental, são dois dos vários “diagnósticos” que afetam o desenvolvimento pessoal. São as várias situações que podem ocorrer na vida de cada individuo que podem ter um peso significativo na forma como irá gerir as suas emoções, assim como na adaptação face às mesmas.

Neste sentido, mais do que ter “pensamentos positivos” é importante ter “pensamentos verdadeiros”. É fundamental estarmos atentos a nós próprios, procurando estar em contacto com as nossas emoções.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

Sempre que o grau ou a duração de sofrimento emocional sejam sentidos como excessivos, há que recorrer a um profissional de saúde, de preferência com competência psicoterapêutica.

Em suma… a doença mental não é atributo de “espíritos fracos”.

Perturbações de ansiedade e do humor (depressão, ou seja, a existência de uma tristeza patológica que em muitos casos leva a um desgaste emocional) muitas vezes são tratáveis por psicoterapia.

Psicoterapia é um método que visa o tratamento de problemas de fora psicológico e emocionais, como a depressão, ansiedade ou relacionamento com outras pessoas. Estes problemas que apenas em alguns casos podem ter de ser apoiados e seguidos com o auxílio de medicação. Não é por “falta de vontade” que se fica deprimido, muito menos psicótico.

Marcas a nível psicológico das vitimas de violência domestica

Tanto a violência física, a psicológica ou qualquer outro tipo de violência, traz consequências muito nefastas para a vida de uma vítima, tendo um grande impacto na sua saúde física, sexual e emocional.

Depressão, baixa autoestima, medo, mecanismos autodestrutivos, sentimentos de culpa, consumo excessivo de álcool, inadaptação relativamente ao quotidiano são algumas das consequências que possam ser desencadeadas face à violência e que afetam diretamente a saúde.

Importante: sofrer de violência doméstica é um factor de risco para o surgimento de ideias suicida.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

Saúde mental- o antes da Pandemia

Atualmente, quando procuramos por “saúde mental”, o motor de busca remete-nos de imediato para a situação que estamos a vivenciar- a Covid-19. Estamos a vivenciar algo nunca antes vivido por nós- uma situação inédita de caos, de quebras na saúde a vários níveis, e à falta de liberdade que antes nos era ilimitada e que agora nos é cortada. Cortaram-nos as asas para voar. Asas para respirar e pensar suavemente.

Vivemos o caos e a saúde- principalmente a mental tem-se “quebrado” conforme os dias vão passando. Somos diariamente bombardeados com imensa informação- seja ela positiva ou negativa. Isso faz-nos questionar e olha em redor. Provaca-nos medo e pânico.

Agravantes em consequência pela situação de Pandemia

Um grupo específico de pessoas que pode estar a ser mais diretamente afetado pelo agravamento do surto de covid-19 são, por exemplo, aquelas que sofrem de perturbação obsessivo-compulsiva (POC).  Isto porque existe um receio elevado devido à ansiedade causado pelo vírus pois alimenta ainda mais os medos de contaminação e desencadeia o aumento de ações compulsivas nocivas- um grau elevado de higienização, pois o facto de sermos diariamente bombardeados com assuntos relacionados a este inimigo invisível, acaba por levar a uma ansiedade incontrolável e causa inúmeros problemas no controlo das emoções. A necessidade elevada de limpar constantemente com produtos nocivos são desencadeados e isso leva a um desgaste emocional mas também físico.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados
Esta situação continuará a ter um impacto negativo na saúde mental num futuro mesmo a longo prazo, incluindo em crianças e jovens.

Problemas de ansiedade, depressão e stress agudo podem surgir.

O Instituto Português de Psicologia tem vindo a desenvolver diversos estudos e investigações que se debruçam na temática da “saúde mental em tempos de Pandemia“. Em conformidade têm realizado “diretos” na rede social Facebook, de forma a apelarem e sensibilizarem a comunidade para a saúde mental em tempos de extrema ambiguidade.

Os temas abordados variam desde ansiedade, violência doméstica em tempos de Pandemia ou depressão que acabam por ser referência no campo de investigação do Instituto.

Depressão em momento de Crise pela Especialista Filipa Caetano.

Depressão em momento de Crise pela Especialista Filipa Caetano.INSPSIC: Cuidamos de SI e das Pessoas à nossa volta.Assista gratuitamente.A Agenda de temas dos ONline Meetings é aberta à Sua Participação.Deixe as suas sugestões em geral@inspsic.ptDIVULGUE!

Publicado por INSTITUTO PORTUGUÊS DE PSICOLOGIA [Escola de Formação Avançada] em Quinta-feira, 23 de abril de 2020

“Não aguento mais!” ou “Atingi o meu limite!” podem ser os desabafos de quem sofre da chamada Síndrome de Burnout.

Trata-se de um esgotamento físico e mental decorrente de uma vida profissional desgastante e sobrecarregada, que incapacita o indivíduo de desempenhar tarefas do dia a dia, tais como trabalhar. Podemos dizer que o Burnout é uma resposta complexa ao stress profissional prolongado ou crónico.  

Quais os tipos de gravidade?

A Síndrome de Burnout pode ter três etapas de evolução:

Exaustão emocional – sensação de sobrecarga e desgaste, de exaustão física e emocional. Perceção de falta de energia para levar a cabo as atividades profissionais e pessoais. O trabalho passa a ser visto como algo penoso e doloroso.

Despersonalização/ desumanização – assumir de uma atitude mais distanciada na prestação de cuidados. Contactos mais impessoais e sem afetividade e pouco empáticos e humanizados com o outro.

Barreiras emocionais em relação ao trabalho, àqueles a quem se presta serviços, aos colegas, aos superiores e à instituição.

Baixa realização profissional – sensação de descontentamento e desmotivação com o trabalho.

Sete tipos de sinais de stress crónico

Problemas físicos: Sensação de falta de ar, tonturas, enxaquecas, fadiga profunda e crónica, alterações do sono (sobretudo insónia).

Problemas emocionais: tristeza, apatia,frustração, raiva/ revolta, tédio, desesperança, perda do orgulho e do sentimento de pertença, sensação de injustiça e falta de recompensa, irritabilidade, ansiedade, depressão, baixa autoestima.

Problemas cognitivos: problemas de concentração e atenção, menor criatividade, pensamentos persistentes acerca do trabalho, necessidade de controlo.

Problemas comportamentais: comunicação impessoal, atitude crítica, impulsividade, agressividade, abuso ou aumento do consumo de substâncias (tabaco, álcool, drogas, medicação), automedicação.

Problemas sociais: isolamento, relações distanciadas ou com menor envolvimento e empatia, maior sarcasmo ou cinismo nas relações, problemas de relacionamento familiar ou menor convívio com amigos.

Problemas existenciais: conflitos de valores e crenças, necessidade de redefinir a vida e as prioridades pessoais, raiva e revolta dirigidas à vida.

Problemas laborais: atrasos, baixas médicas, vontade de desistir do trabalho, menor produtividade e eficácia profissional.

Imagem de Bárbara Dias ©Direitos Reservados

De que forma o isolamento social afetou a saúde mental dos portugueses?

Por Inês Silva

A saúde mental tem sido um dos principais assuntos debatidos no novo século, acompanhado com a ansiedade e a depressão. Temas que costumavam ser tabus, são agora postos em cima da mesa para debate. Mas até que ponto a Pandemia e o consequente Isolamento Social que vivemos afetou psicologicamente os portugueses e quais são os grupos mais afetados? Daniela Coentrão, Ana Viana, Renato Nunes e Ligia Vilaça são as vozes que darão vida à temática, contando a sua experiência pessoal.

Um estudo realizado pelo Hospital Júlio de Matos, publicado no Público, mostra que os estudantes e o grupo dos desempregados representam situações críticas a nível psicológico e de ansiedade. Avança ainda que os estudantes com mais de 18 anos apresentam mesmo sintomas depressivos devido ao isolamento social a que estiveram sujeitos por quase dois meses e que são o grupo que necessita de uma maior vigilância psicológica.

O estudo referido encontrou ainda relação entre o Isolamento provocado pela Pandemia e o agravamento dos sintomas depressivos e de insónia, sendo que a amostra era de exatamente 1626 indivíduos.

“Os estudantes e os desempregados têm mais sintomas depressivos e mais insónias do que as restantes categorias profissionais em análise. (…) Os resultados são surpreendentes, porque os estudantes estão numa idade em que não é suposto haver maiores níveis de sintomatologia depressiva face a outros adultos”, adianta ainda Henrique Prata Ribeiro, um dos psiquiatras encarregue pelo estudo, que reforça que a Covid-19 apresenta riscos mais elevados às pessoas com uma faixa etária mais avançada.

Com os números de ansiedade e insónia dos estudantes tão elevados, começa a ser relevante desenvolver planos de ajuda psicológica nas instituições para minimizar os danos que o isolamento vivido provocou nos estudantes. Este plano é de extrema importância, para não diminuir os estudantes não verem diminuído o seu aproveitamento nas universidades e preservarem a sua saúde mental. Além disso, é de relembrar que alguns alunos ficaram mesmo a viver nas residenciais das faculdades ou então em outros países de Erasmus, sem contacto com a família, o que pode ter sido uma agravante.

Daniela Coentrão tem 20 anos e é estudante no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Sempre se considerou uma aluna produtiva e com bom rendimento académico, mas afirma que o estudo em casa pode conduzir à desmotivação.

© Imagem cedida por Daniela Coentrão
Daniela Coentrão fala sobre como o Isolamento Social e as aulas onlines

Mas em outros setores, o Isolamento Social afetou de diferentes maneiras as mesmas faixas etárias.

Ana Filipa Viana tem 20 anos e trabalha numa boutique em Vila do Conde. Sempre teve um ritmo de vida ativo e neste momento, admite que o Isolamaneto Social tem perturbado a sua saúde mental.

© Imagem cedida por Ana Viana
Ana Viana admite que o sentimento de angústia a consumiu durante o ínicio do Isolamento

Se é verdade que o isolamento é importante para proteger a nossa saúde física, impedindo o contágio pelo vírus, também é verdade que quanto mais tempo estivermos isolados, maiores serão os riscos de sofrermos doenças psiquiátricas. Sabemos que a quarentena pode originar uma constelação de sintomas psicopatológicos, designadamente: humor deprimido, irritabilidade, ansiedade, medo, raiva, insónia identificaram-se consequências a longo prazo para a saúde mental.” © Ordem dos Médicos 2020

O Isolamento social para os profssionais de saúde

O Isolamento Social praticado pelos profissionais de saúde, na maioria das vezes longe dos seus familiares ou até mesmo em casas diferentes, tem-se apresentado como um dos principais obstáculos à saúde mental dos enfermeiros, que se encontram, pouco a pouco, esgotados. Longe daqueles que costumavam ser as pessoas com quem contactavam diariamente, vivem uma luta não só física, mas emocional. Os turnos de 12 horas, acompanhados da falta de material de proteção individual, levam os profissionais a um ponto de rotura.

Ligia Vilaça tem 38 anos e é enfermeira no Bloco Operatório do Hospital Pedro Hispano. Foi recrutada para uma equipa de Cuidados Intensivos na luta à Covid-19 e conta como têm sido os seus dias na nova rotina de trabalho.

© Direitos reservados – fotografia cedida pela entrevistada
Lígia Vilaça conta como têm sido os dias no serviço desde o ínicio da Pandemia, quando foi recrutada para uma equipa de cuidados intensivos, onde nunca trabalhou, para combate à Covid-19.

Num questionário online elaborado pelo grupo de trabalho, as respostas relacionadas ao estado mental e emocional provocado pelo Isolamento Social são variadas.

Enquanto alguns dos participantes aparentam estar em concordância com os números recolhidos pelo estudo, outros mostram que encararam este período de um modo mais otimista e até aproveitaram para realizar tarefas há algum tempo esperadas. Vejamos algumas das respostas recolhidas:

“O isolamento social tem sido das piores fases da minha vida… afetou muito o meu equilíbrio psicológico. Sou mãe a tempo inteiro e não é de todo fácil manter crianças, em casa. A irritação torna-se uma constante pra eles e pra nós que já estamos tão precisadas de ter carinho e ter conversas fora do núcleo de casa. O sono não é o mesmo e o cansaço mental é imenso… não há tempo pra pensar em mim, só neles. Além de que o vírus assombra muito o coração de uma mãe.” Lurdes Pontes, 36 anos, doméstica

“Penso que o tempo que estive em confinamento obrigatório afetou o meu estado emocional, pois sinto que não controlo tão bem a minha ansiedade relacionada com a vida pessoal e a vida académica. O estar fechada em casa mais tempo que o habitual deixou-me mais stressada, assim como o facto de não poder fazer as coisas simples que fazia, como ir ao ginásio, conviver num café com amigos, visitar familiares. Deixou-me mais saturada de estar por casa, quando antes adorava estar em casa sempre que podia.” Andreia Oliveira, 23 anos, estudante universitária


No entanto, as opiniões variam. E não são apenas negativas:

“Tenho vivido esta situação melhor do que o que esperava, sinto-me um pouco cansada desta nova rotina, mas penso que o isolamento não me afetou tanto assim. As minhas aulas continuam a decorrer digitalmente e assim será até ao final do ano, assim já me mentalizei de que tenho de me habituar a este novo modelo.” Catarina Gavina, 20 anos, estudante universitária

“Tenho encarado a pandemia/situação de isolamento sem dramatizar, mas com todas as condições de segurança a que esta situação exige.” João Brandão, 22 anos, estudante universitário

“Não me afetou muito francamente. Trabalho remotamente e a nível de performance não houve qualquer alteração. Mesmo a nível de rotina pouco ou nada mudou, tendo em conta que me tenho focado em manter sempre a cabeça ocupada.” Pedro Silva, 24 anos, administrador de Recursos Humanos

Como vivem os grupos de risco

o Isolamento Social?

O isolamento fez-se sentir em todas as idades. Mas afetou-as de um modo diferente. Como estão a vivenciar esta situação os grupos de risco, à qual pertencem os indíviduos com uma faixa etária mais avançada?

Renato Nunes tem 69 anos e vem falar-nos um pouco do simbolismo da pandemia e do isolamento para si e para as pessoas da sua faixa etária.

© Direitos reservados – Fotografia cedida pelo entrevistado
Renato Nunes de 69 anos vive o Isolamento de forma tranquila por gostar de estar solitário, mas admite que não é assim com a maioria das pessoas da sua idade.

 

Os casais em isolamento: o número das separações e os casos de violência doméstica

Embora ainda não existam estatísticas que comprovem os dados que iremos referir, os artigos dos Media publicados na China, apresentam um aumento exponencial das separações de casais no mês de Março, onde o isolamento ia aos poucos sendo levantado no país. Esta situação verificou-se em diversas cidades da Chinca e ameaçou ser uma “Tendência de alarme para os países Europeus e no resto do mundo”, que começam agora a viver também, aos poucos, o desconfinamento. O advogado Steve Li, que trabalha na Gentle&Trust, em Xangai, avança ainda que o número de pedidos de divórcios aumentou cerca de 25% desde o período de desconfinamento, em meados de março.

Quanto ao número de vítimas por violência doméstica, um artigo publicado pelo Público avança que as autoridades temem que o isolamento social possa contribuir para um “desfasamento mais acentuado entre o número de denúncias e o número de crimes praticados”. O porquê desta afirmação tem uma explicação simples: a GNR registou 938 denuncias por violência doméstica este ano, o que representa menos 26% de denúncias relativamente ao ano de 2019. Suspeita-se que com um maior tempo de isolamento com o agressor, a vítima não tenha facilidade em pedir ajuda ou escapar à pessoa que é agora, obrigada, a ficar em casa consigo. Para tentar atenuar a situação, a GNR, procura, através da NIAVE (Núcleos de Investigação a Apoio a Vítimas específicas) intensificar o contacto com vitimas previamente identificadas.

Se precisar de ajuda, contacte – Serviços telefónicos de apoio a vítimas de violência doméstica

  • APAV | Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
    21 358 7900
  • UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta
    218 873 005​
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
    800 202 148​

A Dança aliada à Saúde Mental

Por Catarina Aires

A vida humana nunca estará livre do aparecimento de múltiplos desafios. Consoante a perspetiva e a experiência de cada um, cada obstáculo que aparece à saúde mental, pode ser ultrapassado através da ajuda e da prática de diferentes terapias já estudadas. A dançoterapia é a grande protagonista da leitura que se segue. Fique atento ao testemunho real de Francisca Mendo e de uma aluna desta terapia, que ao mesmo tempo que falam, dançam.

A Dançoterapia é uma técnica que une dois campos muito importantes: o corpo e a mente.

Maria Ana Fux é dançarina, coreógrafa e uma das grandes mestres da terapia que envolve movimento corporal, ritmo, o desenvolvimento do auto-conhecimento e criatividade, capaz de auxiliar a uma melhor integração social, física, mental e espiritual.

A proposta desta terapia quase sempre acompanhada por música, é a de:

“…convidar os alunos a utilizarem os recursos artísticos, educacionais e terapêuticos da dança, para os ajudarem a encontrar mais plenitude, bem-estar, novos caminhos, a superar traumas antigos e desafios que vão surgindo e, também, a viverem de uma forma mais desprendida e feliz.”

©Maria Fux – Mestre da dançoterapia

A dança é usada como uma terapia para curar doenças associadas ao foro psicológico

©Direitos Reservados – Dentro de uma aula de dançoterapia.

De acordo com Alexander Lowen, um psicanalista de orientação freudiana (1982,p.47):

“Nenhuma pessoa existe fora do corpo vivo. Quanto mais vivo for o corpo de cada um, mais presente e com energia estaremos no mundo. O movimento existe para manter, equilibrar e atualizar a forma do homem.”

Ilvado Bertazzo, um dançarino, coreógrafo e terapeuta de movimentos partilha o seguinte:

“O movimento acontece para manter e atualizar a forma, para fazer com que a matéria não se deteriore, para que a mesma mantenha a sua integridade. Toda a forma de vida mantém-se pelo contínuo exercício do movimento.”

Bertazzo acrescenta ainda que não importa a idade, o sexo, a cor, a situação socioeconômica, educacional e política. Importa, sim, que as pessoas que venham a integrar este trabalho de consciência do movimento, estejam dispostas a investir em si próprias, a aguçar a perceção, os sentidos, para melhor assumirem os desejos interiores e também, as motivações e todas as potencialidades do corpo.

Para Rudolph Laban, considerado o maior teórico da dança do séc.XX, dançarino, coreógrafo, músicólogo e um pensador que contribuiu para o desenvolvimento do pensamento da dança:

“a dança como composição de movimento pode ser: Comparada a linguagem oral. Assim como as palavras são formadas por letras, os movimentos são formados por elementos; assim como as orações são compostas de palavras, as frases da dança são compostas de movimento. Esta linguagem do movimento, de acordo com seu conteúdo, estimula a atividade mental de maneira semelhante, e talvez até é mais complexa que a da palavra falada.”

A Dançaterapia é uma abordagem corporal, que promove a inclusão e socialização das pessoas, procurando dar-lhes confiança para criar e abandonar os medos e as limitações do próprio corpo. Isto acontece através do conhecimento transpessoal do individuo, que estimula o movimento criativo e a espontaneidade do corpo.

Conciliar os tempos de Pandemia com a prática de dançoterapia

Em 2020 o mundo “parou”, devido a uma pandemia com o nome de Covid-19. Muitos hábitos tiveram de ser alterados. O sair à rua durante algum tempo, implicava ir do quarto para a sala de estar, da sala para a varanda e da varanda para a cozinha. O exercício físico, que normalmente é feito em ginásios, estúdios, ao ar livre, teve de ser readaptado de forma a ter de ser feito em casa. A dança foi também afetada, tendo o seu treino de ser transportado para dentro de casa e os professores de dançoterapia e de diferentes tipos de dança, tiveram de criar novos métodos de ensino através do computador e do acesso online.

Em Portugal existem à volta de 3000 mil bailarinos profissionais portugueses, de acordo com os dados do Pordata, e segundo um estudo feito, a maior parte dos dançarinos começou a dar aulas de dança a partir de casa, de forma a transformarem as suas casas em pequenos estúdios de dança. Com mais tempo em casa, muita gente começou a aderir a aulas de dança e dançoterapia, de forma a arranjar novas ferramentas para a libertação de medos, inseguranças e limitações sentidas, num tempo que apela a uma maior tomada de consciência física e mental, devido ao inevitável: isolamento, gerado pela pandemia.

A dançoterapia é uma aliada à Saúde Mental?

Dançar traz benefícios físicos e psicológicos, sendo uma atividade aberta para qualquer idade. Nunca é tarde de mais para dançar. Segundo Phylicia Rashad: “Antes de uma criança falar, canta; antes de começar a escrever, pinta; e assim que se põe de pé, dança. A arte é a base da expressão humana”. Dançar faz parte do instinto humano enquanto forma de libertação, de prazer, de comunicação e de expressão.

Francisca Mendo, bailarina, coreógrafa e professora de dançoterapia, vem deixar o seu testemunho sobre os benefícios mentais e físicos, que o mundo da dança e da dançoterapia podem trazer.

“É preciso encontrar motivação, ganhar coragem e ir à procura de um sítio onde já existam corpos dançantes. Entrar, observar e deixar a música conduzir uns futuros pés saltantes.”

A dançarina conta que dançar pede, entre muitas outras coisas, que sejamos curiosos e pacientes. Francisca Mendo partilha que para além do movimento ser divertido, “ao longo das duas últimas décadas a dançar tenho testemunhado inúmeros benefícios para a saúde, quer em mim própria, quer nos que me rodeiam.

De acordo com a experiência da dançarina, dançar, fortalece o sistema muscular.

“A dança melhorou a minha postura e aumentou significativamente a minha flexibilidade. Ajuda-me a estabilizar o meu peso de forma saudável, porque uma pequena coreografia de 30 minutos a abanar o esqueleto queima entre 300 a 400 calorias. Após exames médicos cardiovasculares que fui fazendo todos os anos, notei que o meu sistema cardíaco melhorou. Ao dançar regularmente o ritmo cardíaco, a pressão arterial e o nível de colesterol no sangue diminuem. Dançar melhora a função cerebral, sendo bastante eficaz a desenvolver um maior equilíbrio e coordenação espacial. Envolve música, passos cadenciados e emoção, exigindo grande atenção mental para decorar cada passo. Aumenta substancialmente a confiança. Ao dançar expressamo-nos e conseguimos obter um contacto multilateral entre o corpo, a mente, a beleza e a harmonia. Nos dias em que danço o stress diminui, a energia aumenta e sinto-me mais confortável com a minha forma física.”

©Fotografia de Manuel Soares. Francisca Mendo a fazer um salto de ballet.

Depois de uma ida ao médico, a bailarina descobriu que os dançarinos têm menor probabilidade de desenvolver osteoporose. Por fim, também partilha que dançar ajuda a desenvolver uma maior inteligência emocional.

“Ao dançar, a consciência corporal, mental e emocional aumenta e daqui nasce a possibilidade de desenvolver mais ferramentas para um maior equilíbrio emocional. Através do movimento nasce uma nova ligação que melhora a interpretação pessoal do que vai acontecendo dentro e fora de cada um. O estado emocional define muito a capacidade que cada um tem para solucionar problemas e dançar vai dar mais força, qualidade e estabilidade no que toca aos resultados de uma melhor ou pior performance humana ao longo das tarefas que cada um vai fazendo ao longo da vida.”

Patrick Swayze, ator famoso, dançarino, cantor e compositor norte-americano, deixou para o mundo uma confissão sobre o que dançar significava para ele:

“Descobri que a dança era a chave para matar a depressão da minha vida. Quando danço, os problemas deixam, simplesmente, de existir e o que parecia mau torna-se bom. Não há melhor maneira de cuidar da saúde sem ser através de algo tão bonito e alegre como a dança.”

De seguida, o testemunho real de Francisca Mendo à cerca dos benefícios do movimento e da dançoterapia.

Francisca Mendo, partilha os benefícios da dança e da dançoterapia.

A dançoterapeuta explica que a dança só por si já é uma terapia. Partilha que em tempos de pandemia,“é muito importante que as pessoas continuem ativas”. Continua afirmando que com a prática desta terapia as pessoas tornam-se mais receptivas a novos movimentos, a novas formas de pensar, a novas formas de ouvir e de sentir a música e por tudo isto e muito mais, “é muito benéfico ser praticada por toda a gente de qualquer idade”.

Francisca transmite que a dançoterapia tem como grande objetivo: ligar o corpo e a mente, pois para dançar de forma consciente, tem de estar tudo sincronizado para funcionar. As pessoas quando estão a praticar uma aula, são convidadas a estar totalmente concentradas no que está a ser ensinado,de forma a conseguirem entrar dentro de si mesmas conseguindo esvaziar a cabeça de todos os problemas que possam ter na vida, fora do estúdio.

“Tudo o que é arte,é maravilhoso para ser usado enquanto uma terapia”.

Segunda parte da explicação sobre dançoterapia.

“É muito interessante observar como as pessoas ficam mais relaxadas e mais leves no fim de cada aula de dançoterapia. Consigo perceber que ficam mais felizes e por isso, mais saudáveis. Por isto e muito mais, convido toda a gente a dançar, a ouvir música, porque vão sentir-se melhores e vão sentir uma diferença muito positiva, a longo prazo”, termina Francisca Mendo.

Maria Fux define a dançoterapia como uma linguagem não verbal, tendo o corpo, a música, o ritmo, as linhas e as cores, reforçadas pela compreensão da inteligência que reconhece no corpo a possibilidade de sentir, conhecer-se e expressar-se em qualquer lugar.

Todos os gestos que fazemos, falam sobre nós

Uma aluna de dançoterapia dá o seu testemunho sobre a dança e a importância da mesma. Partilha que a dançoterapia é essêncial na sua vida.

“A dança pode ser uma espécie de meditação. Há uma concentração máxima de gestos e de movimentos, mas ao mesmo tempo sinto sempre uma libertação enorme quando a estou a praticar.”

Imagem: Direitos Reservados. Voz – Aluna de Dançoterapia

“Há uma beleza enorme. Chamem dançoterapia ou mesmo outro género diferente de dança. Poder comunicar através da dança é algo único. Tudo o que implica o corpo é uma possibilidade de auto-conhecimento, de interioridade.”

Para terminar, a aluna partilha que quando tomamos a consciência que a dançoterapia é uma possibilidade grande de um auto-conhecimento pessoal profundo e de interioridade, muita coisa pode vir a ser alterada. Desde hábitos menos bons, vícios, resolução de traumas, entre outros.

Termina dizendo:

“É mesmo muito bonito praticar o movimento e a dança será sempre, uma grande aliada à saúde mental“.