VilacomVida: “um dia a diferença já não se vê, pois, fará genuinamente parte de nós”

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VilacomVida: “um dia a diferença já não se vê, pois, fará genuinamente parte de nós”

A associação VilacomVida tem como missão descobrir os talentos de pessoas com dificuldades intelectuais e revelá-los à sociedade de forma positiva. Filipa Pinto Coelho criou a organização  após o nascimento do seu filho Manuel, com Síndrome de Down.

[Texto de Inês Santos]

A VilacomVida tende a ser um projeto que trabalha em rede com outras instituições, que pretende comunicar positivamente as capacidades das pessoas com Perturbações Ligeiras do Desenvolvimento Intelectual (PLDI) e, ao mesmo tempo, desenvolver um projeto que permita à sociedade conhecer a diferença para que não existam medos e receios e, “que acima de tudo encontra uma abordagem focada nas capacidades, na vida e na riqueza que essas pessoas trazem à nossa vida diária e não nos seus problemas ou incapacidades”.

O nome da associação é resultado do objetivo de criar várias vilas com vida, enriquecidas porque delas iriam fazer parte mais pessoas com diferenças, através de protocolos com Câmaras Municipais por todo o país.

A vida pessoal e profissional de Filipa Pinto Coelho sofreu uma reviravolta em 2016 durante a gravidez de Manuel, o seu terceiro filho, que às 15 semanas de gravidez foi diagnosticado com trissomia 21. 

Quando Manuel nasceu, Filipa quis entender um pouco mais o mundo das dificuldades que as pessoas como seu filho têm, “no fundo dar a volta à enorme angústia que começa quando começamos a pensar: o que é que estas pessoas vão fazer e o que é que o meu filho ia fazer quando acabasse a escola” afirma.

Nesse ano, por força do acaso, Filipa foi contactada por Rita Brás, uma hoje grande amiga, filha de Eulália Calado, neuro-pediatra que durante vários anos trabalhou com paralisia cerebral e com pessoas com Perturbações de Desenvolvimento Intelectual. A médica “tinha a vontade de reunir uma equipa que fosse capaz de construir um projeto que promovesse a autonomia dessas pessoas”. Rita, entrou em contacto com Filipa e expressou a sua vontade de concretizar o projeto da mãe, juntando uma equipa de pessoas que estariam interessadas em encontrar uma solução para o problema. Seriam pais de crianças e jovens com Perturbações de Desenvolvimento Intelectual, entre as quais a trissomia 21 e o autismo. O convite foi aceite com muito ânimo, porque nesse momento a sua cabeça “estava mais aqui do que no que estava a fazer profissionalmente”, esclarece. 

Filipa, licenciada em Comunicação Social e com especialização em Marketing e Publicidade, trabalhava na altura por conta própria, o que permitiu que se entregasse mais a esta missão e investigasse “o que é que preocupa as famílias, quais são os verdadeiros problemas e as estatísticas que se escondem por detrás deste problema.” 

Filipa, que contava com um grande suporte por parte da sua família, foi para o terreno perceber onde poderiam ser inovadores na solução, o que permitiu que dedicasse menos tempo ao seu projeto pessoal. Desta forma, em dezembro de 2016 nasceu a associação VilacomVida, constituída como IPSS. 

O projeto de vida autónoma da associação pretende que as pessoas com PLDI tenham autonomia através de um emprego remunerado e que um dia sejam capazes de ter a sua própria casa. A primeira VilacomVida iria ser criada em Castelo de Vide, mas pelo caminho foi encontrada uma adversidade inesperada, que acabou por mudar o rumo inicial da associação. 

A associação estava prestes a firmar “um protocolo com a Câmara Municipal e eles iam ceder casas para a vida autónoma”. Esse protocolo também seria feito com os empregadores locais e através deles a associação iria “conseguir estabelecer contratos de trabalho com essas pessoas e elas iam ser autónomas e iam ter a sua própria casa”, e continua “quando nós estávamos na iminência de assinar esse contrato começamos à procura das pessoas para integrar nessas casas e não encontramos ninguém.”

Filipa não desistiu e foi em busca dessas pessoas. “Pensei: têm de estar em algum lado, essas pessoas tem de estar na escola”. Nas escolas, muito contrariamente a outros locais existem estatísticas do ensino especial. E, ao entender esses números, percebeu que “havia um trabalho a fazer muito antes de encontrar casas”, para além da preparação da sociedade para não ter medo da diferença. Também era necessário “preparar as famílias para não terem vergonha de mostrar os seus filhos e encontrar aqui um posicionamento para a associação que fosse complementar o trabalho que já muitas instituições fazem no terreno”. 

Era importante “ser alguém que pudesse ter um papel ativo na comunicação do potencial destas pessoas”, pois ao comunicarem de forma positiva as capacidades, outros que são acompanhados em diversas instituições iriam beneficiar com esta ação e “a sociedade ao ter conhecimento da diferença também vai aproximar-se dela de forma natural e evoluir mais.”

A associação, que passa por ser um projeto e uma missão nacional, está no momento a acompanhar 36 jovens e futuramente, com a abertura de um novo projeto, estima integrar mais nove pessoas. Embora a ONG não faça uma procura ativa por novos membros, faz uma comunicação muito frequente pois “ao comunicar acabamos por ter uma mensagem que chega às pessoas”. Filipa exemplifica:  “criamos uma newsletter há duas ou três semanas sobre o recrutamento que estamos a fazer para o Café Joyeux e, nesta semana, na segunda-feira entrevistamos uma jovem cuja mãe recebeu essa newsletter e contactou-nos”. Habitualmente são as famílias que vão de encontro à associação, “ouvem falar de nós, gostam da nossa abordagem e procuram-nos e pedem apoio para integrar os seus filhos”.

“Os cafés com vida estiveram sempre cheios”

O CafécomVida foi um projeto piloto da associação inspirado em casos de sucesso europeus. Filipa Pinto Coelho, através de uma indicação de uma pessoa amiga, viajou até Brighton para “poder conhecer outras realidades e saber como é que o tema da inclusão e da deficiência eram entendidos e eram trabalhados”. Na sua viagem conheceu o projeto “Team Domenica”, fundado pela mãe de Domenica, uma menina com Síndrome de Down, o que originou vontade de criar  um projeto semelhante em Portugal, “conheci esse projeto em Brighton e pensei: é isto, vamos fazer cafés com vida e vamos encher o país de cafés com vida.”

Filipa Pinto Coelho na assinatura do Pacto de “Alliance Joyeuse” com o Café Joyeux. Fotografia via instagram @joyeuxportugal

Os CaféscomVida estiveram abertos em Lisboa durante 18 meses e procuraram “ser vários cafés, estar em todas as esquinas, com bom produto, com boa decoração, onde as pessoas fossem porque era bom e não porque queriam apoiar uma causa”, ou seja, “ser aquilo que é hoje o Café Joyeux.” Quando a associação deu início a este projeto e quis lançar “o conceito CafécomVida”, surgiu a notícia do Café Joyeux em França, algo que foi bastante divulgado. “Os CaféscomVida estiveram sempre cheios”, o que deu força à associação para representar esta nova marca. Desta forma, a VilacomVida vai continuar assim o seu caminho, a representar de forma exclusiva este projeto em Portugal, “que pretende ser de expansão nacional”. Nos próximos cinco anos esperam abrir cinco cafés e o objetivo é “abrir vários cafés pelo país todo.” A empregabilidade nestes cafés-restaurante é de 50% de pessoas com PLDI, como o autismo, a trissomia 21 ou “outras perturbações do desenvolvimento e défices cognitivos que trazem dificuldades de aprendizagem”, acrescenta. 

Ao falar sobre o novo projeto, aberto a 23 de novembro, Filipa ressalta que este terá um caráter bastante hospitaleiro para todos, pois nele “podemos estar mais à vontade com as nossas próprias fragilidades cada um de nós pode ser quem é, com as suas diferenças”.

Os CaféscomVida foram encerrados por duas razões principais, “porque vinha a pandemia e não havia condições para continuar a trabalhar, mas também, como missão de salvar o CafécomVida como negócio social e investir no Take Away”, esclarece Filipa. A associação optou por salvar os jovens que acompanhava, ao invés de salvar o negócio, para que estes não regredissem na sua aprendizagem. Para tal, fizeram uma proposta ao BPI com o projeto CookiescomVida e venceram a candidatura. Após a vitória do projeto, a associação reuniu “grupos de jovens” e tirou-os de casa juntamente com uma equipa reduzida de voluntários, devido à Covid-19. A produção destas tão adoradas Cookies é um projeto que vai, também, “ajudar na sustentabilidade da organização”. 

“Quero trabalhar num mundo onde não seja preciso forçar a mensagem da inclusão”

Filipa, que ocupa o cargo de Presidente da Direção, reconhece-se como uma pessoa bastante otimista e acredita que desde que iniciou o projeto houve uma mudança na sociedade em relação à aceitação desses jovens. A Presidente destaca o papel positivo das redes sociais no apoio às causas e considera ainda que “o problema do preconceito está nas camadas mais velhas, naquilo que são os empregadores e que têm um papel mais ativo”.  

Atualmente, a nossa sociedade tornou-se mais inclusiva, mais aberta a ser solidária e “os jovens na escola são chamados a serem voluntários”, o que é uma mais-valia para todos. A associação tem também como missão acabar com o estigma existente e “quando é feito, aqui de acordo com a abordagem, com  a linguagem, com a psicologia positiva podemos utilizar a estratégia de apostar em capacidades.” Filipa sustenta esta tese, recorrendo ao exemplo das recentes entrevistas que tem realizado para o novo projeto “nós conseguimos chegar ao fim das entrevistas sem que o empregador pergunte qual é a deficiência daquela pessoa”, e continua, “e isso é espetacular, porque temos de fazer pontes entre as capacidades das pessoas e as necessidades das empresas, e quando esse método é bem feito as empresas ficam satisfeitas e, é para elas indiferente se aquela pessoa tem trissomia 21”.

O amor e a dedicação ganharam força e foram essenciais para a realização dos vários projetos criados pela associação. Filipa espera que no futuro a associação não faça falta e seja apenas algo complementar na nossa sociedade. Confessa que, futuramente, espera que “estejamos a trabalhar num mundo onde não seja preciso forçar a mensagem da inclusão porque ela já é percecionada de forma natural pelas pessoas”, pois espera que a visão da associação de que “um dia a diferença já não se vê, pois, fará genuinamente parte de nós” se torne uma realidade no país. Esta utopia de Filipa prolonga-se também ao impacto que o Café Joyeux possa vir a ter na sociedade portuguesa “que outros restaurantes ao lado possam também integrar pessoas com deficiência.”

Inês Santos

Olá! Sou a Inês Santos e tenho 20 anos. Estudo Ciências da Comunicação na vertente de jornalismo. Sempre fui apaixonada por comunicação e vi no jornalismo uma forma de seguir essa paixão. Colaboro na editoria "Atualidade" na plataforma #infomedia.