Em vila do conde, depurar marisco é um compromisso de família

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Em vila do conde, depurar marisco é um compromisso de família

Ainda antes do marisco chegar à mesa, passa por tanques, filtros e controlos rigorosos que garantem a segurança dos consumidores. Em Labruge, esse percurso cruza-se com a vida de Zacarias Maio Pereira, um homem do mar que transformou décadas de experiência na pesca e na criação da Falcamar, a primeira depuradora de amêijoas do país, fundada em 1991 e hoje inseparável da história da sua família.

Numa manhã de novembro de 2025, Zacarias Maio Pereira está sentado numa sala de reuniões na empresa de família que o viu crescer: a Falcamar. Nasceu nas Caxinas, em Vila do Conde, uma das comunidades piscatórias mais emblemáticas do país, onde praticamente todas as famílias têm o mar como destino inevitável. Cresceu a ver o pai e a mãe dedicarem-se à pesca do bacalhau e, aos 13 anos, deu o passo que já era de esperar e seguiu o mesmo caminho.

Hoje, ao recordar esses primeiros tempos, descreve-os como alguns dos “mais felizes da sua vida”, mas admite que “o corpo, ao contrário da vontade, demorou a habituar-se”. Antes de entrar no barco, ainda em casa, já era psicológico… já ia a vomitar pela estrada fora, conta, rindo. Se ficasse dez ou 15 horas no mar, ficava lá sem comer”, acrescenta, lembrando-se das longas jornadas em que a coragem falava mais alto do que o estômago.

Aos 16 anos, assumiu o comando do barco do pai, acompanhado por cinco ou seis homens com o dobro da sua idade. Ser mestre tão jovem não é para qualquer um. Recorda um episódio marcante, onde a sonda que assinalava a presença do peixe tinha avariado. Perante a situação, questionou o pai sobre a substituição do equipamento, mas recebeu uma resposta firme, “não haveria sonda nova”. Apesar das hesitações da tripulação, que temia enfrentar o mar sem aquele instrumento, Zacarias tomou a decisão. Pai, ponha o barco abaixo. Quem manda sou eu e quem não vier, vai embora, afirmou, impondo a partida mesmo sem o apoio unânime dos camaradas.

Figura 1: Zacarias com quadro do pai, fotografia de Filipa Teixeira

Devido a uma otite crónica, Zacarias sentia que não servia para esta vida de pescador, mas se há algo que ele tinha era uma visão. O mestre foi ganhando gosto pelo mar, até que aos 21 anos construiu a sua primeira embarcação, sem dinheiro próprio, apenas com apoio de um fundo do governo. Esta embarcação custava cerca de “quatro mil contos”, o que corresponde aproximadamente a 20 mil euros. Mas ele não se deixou levar, pediu mil quinhentos contos, e construiu o barco sozinho.

Aos 26 anos, Zacarias, fez uma descoberta junto com um compadre. “Descobri a presença de amêijoas na zona litoral entre Espinho e Aveiro.” Com uma visão empreendedora, começou a comprar amêijoas a várias embarcações e, após uma ida a Espanha, decidiu criar a sua própria depuradora, para limpar em segurança os frutos do mar e o marisco para consumo final. Nessa altura, em Portugal, ainda não existia legislação para este tipo de construção, por isso a nova depuradora acabou por ser a primeira do país. Ao deslocar-se a Lisboa para tratar do processo, conseguiu finalmente obter a aprovação necessária.

Processo de depuração da ameijoa: uma segurança alimentar

A depuração da amêijoa é um processo essencial para garantir que este, entre outros bivalves, cheguem ao consumidor em condições de segurança para o consumo humano. Por se alimentar por infiltração, a ameijoa acumula no seu interior partículas presentes na água do mar, incluindo microrganismos potencialmente nocivos, bactérias e outros contaminantes. É por isso que, antes de ser colocada no mercado, a legislação obriga a que passe por um processo controlado de purificação.

Figura 2: Tanques da depuradora, fotografia de Filipa Teixeira

De acordo com as normas definidas pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), a depuração aplica-se sobretudo às amêijoas provenientes de zonas de produção classificadas como classe A, B ou C, onde os níveis de contaminação natural não permitem a comercialização direta. Nestes casos, a passagem por um centro de depuração licenciado é obrigatória. As de classe A podem seguir diretamente para consumo, enquanto as de classe B exigem depuração obrigatória. Já as de classe C só podem ser comercializadas após tratamento prolongado ou transformação industrial.

O processo começa logo à chegada do marisco à depuradora. Cada lote de amêijoa é identificado e registado, garantindo a rastreabilidade desde a zona da produção, até ao consumidor final, uma exigência expressa da DGAV. Antes de entrar nos tanques, as amêijoas são lavadas cuidadosamente para remover areia, lama e resíduos superficiais.

Segue-se a fase central da depuração, onde as amêijoas são colocadas em tanques com água do mar tratada e desinfetada, cuja qualidade é rigorosamente controlada na Falcamar. A salinidade, a temperatura e o nível do oxigénio são ajustados para reproduzir as condições naturais do habitat marinho, permitindo que os bivalves retomem o seu processo normal de filtração. É através deste sistema que as amêijoas eliminam microrganismos indesejáveis.

               Figura 3: Tanque de amêijoas, fotografia de Filipa Teixeira

Segundo as orientações da DGAV, a água utilizada nos tanques deve cumprir critérios microbiológicos específicos e ser renovada regularmente, de forma a evitar novas contaminações. O período de depuração pode variar, mas decorre geralmente ao longo de várias horas ou dias, até que as amêijoas atinjam os parâmetros de segurança definidos pela legislação europeia.

Durante todo o processo, os centros de depuração estão sujeitos a controlos rigorosos. As instalações devem cumprir normas de higiene, desde os materiais utilizados, como superfícies em aço inoxidável até à formação dos trabalhadores. A separação de espécies e lotes é igualmente obrigatória, evitando cruzamentos que possam comprometer a segurança do produto.

Após concluída a depuração, as amêijoas são novamente lavadas e preparadas para expedição. Cada embalagem deve conter uma marca de identificação sanitária, comprovando que o marisco passou por um centro autorizado e cumpriu todas as exigências legais. Só depois desta etapa o produto pode seguir para mercados, restaurantes ou distribuidores.

Figura 4: Seleção de amêijoas, fotografia de Filipa Teixeira

Este processo, muitas vezes invisível para o consumidor, é fundamental para a segurança alimentar. Como sublinha a DGAV, a depuração não melhora apenas a qualidade do produto, é uma barreira essencial na proteção da saúde pública, assegurando que um alimento profundamente enraizado na gastronomia portuguesa chegue à mesa sem riscos.

O consumo do marisco em Portugal

Os dados oficiais apontam para a importância do consumo do marisco. De acordo com informação institucional do mecanismo de apoio à aquicultura da União Europeia, os portugueses consomem em média mais de 56 kg de produtos da pesca e aquicultura por pessoa por ano, um valor que reflete um gosto cultural profundo pelo peixe e marisco.

Apesar desta forte procura, a produção nacional nem sempre consegue acompanhar as necessidades internas. Relatórios recentes publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que a produção aquícola em Portugal, que inclui moluscos e crustáceos têm aumentado, mas ainda assim representa uma fração relativamente pequena face ao total consumido.

Em 2023, a produção aquícola nacional totalizou cerca de 20 872 toneladas, valor que corresponde apenas a uma parte do consumo total de pescado e marisco no país e que, apesar de ter crescido aproximadamente 10,9 % face ao ano anterior, ainda fica aquém das necessidades do mercado interno.

Figura 5: Processo de embalamento das amêijoas, fotografia de Filipa Teixeira

Nesta conjuntura, a sustentabilidade ambiental assume um papel central. A pressão sobre as populações selvagens de crustáceos e outros mariscos exige uma gestão mais rigorosa dos recursos, para evitar a sobre-exploração e garantir a viabilidade futura do sector. A aquicultura sustentável emerge como uma resposta estratégica, não apenas para ampliar a produção nacional, mas também para equilibrar a exploração dos recursos marinhos com a preservação dos ecossistemas costais.

O perfil do consumidor português tem vindo a evoluir, com uma procura crescente por produtos frescos, de origem conhecida e produzidos de forma responsável, refletindo uma maior consciência em relação à qualidade alimentar e ao impacto ambiental. Zacarias explica que surgiram novas formas de consumir marisco, como o marisco pré-cozinhado, que ajuda a prevenir a sua quebra e evita que estrague após um ou dois dias nas peixarias. “O cliente do fresco ainda continua. Quando vais a uma grande superfície, queres um pré-cozinhado, congelado… queres o fresco, né? pergunta enquanto solta um sorriso.

No interior da Falcamar: tradição, trabalho e marisco

A origem do nome da depuradora Falcamar está ligada a uma das histórias de Zacarias. Quando era jovem, navegava num barco chamado Falcão Peregrino, e os seus companheiros passaram a conhecê-lo como “O Falcão”. Para prestar homenagem a esse nome que lhe trazia tanta felicidade, decidiu batizar a sua depuradora de Falcamar. Falcão conta que tinha um companheiro chamado Rocha, e ambos disputavam para saber quem iria vender mais ameijoas, Zacarias então diz-lhe: “Eu nunca vi uma rocha em cima de um falcão, mas um falcão em cima de uma rocha, já vi” narra enquanto sorri.

Figura 6: Tanques de marisco, fotografia de Filipa Teixeira

Dentro da Falcamar, são depuradas diferentes espécies de marisco, dos quais vários tipos de ameijoas, mexilhões, ostras, lingueirão e entre outros. “Tudo o que o cliente quer, nós temos refere o dono. O cheiro a água salgada espalha-se pelo ar, intenso e húmido, envolvendo o espaço num peso quase invisível. Vem dos tanques cheios, imóveis, que guardam o sal. O ambiente é denso, marcado pela presença constante da água. Tudo parece respirar ao mesmo ritmo lento e salgado.

Figura 7: Tanque de ostras, fotografia de Filipa Teixeira

O empreendedor revela que uma das maiores dificuldades foi a construção da depuradora, especialmente durante a fase de expansão do negócio. A primeira parte demorou oito anos a ser concluída, seguida por mais oito a dez anos para a fase seguinte. Hoje, mesmo sabendo que o processo pode levar ainda mais tempo, o administrador continua a sonhar em crescer e expandir o seu negócio “Enquanto depender de mim, não vamos parar “declara.

Ainda assim, a família é o pilar central da Falcamar. Com um sorriso orgulhoso, Zacarias fala dos filhos que o acompanham no dia a dia e recorda a dedicação da esposa, enquanto grávida da sua filha, não hesitava em trabalhar, carregando até pesos pesados, sempre em prol do crescimento da depuradora “A minha mulher trabalhou muito muito muito..eu nem me apercebia… sinceramente hoje não deixava” conta. Juntos, foram vencendo, mantendo a qualidade máxima para os clientes que tanto procuravam a Falcamar.

Figura 8: Zacarias com os dois filhos, António e Zacarias, fotografia de Filipa Teixeira

Para além da depuradora, o proprietário ambicionou ir mais longe e avançou com um projeto para a criação de uma zona de afinação ao largo de Espinho, a cerca de cinco milhas da costa. O investimento, estimado em dois milhões de euros, chegou a reunir todas as aprovações necessárias e parecia bem encaminhado. No entanto, o processo acabou por colapsar.

Zacarias aponta responsabilidades ao Governo português, acusando-o de não ter realizado a avaliação obrigatória exigida. Apesar de ter entregado toda a documentação solicitada, o projeto ficou bloqueado e encontra-se atualmente em tribunal. “É o país que temos, portanto para mim Portugal é muito pequenino, lamenta. Orgulhoso do percurso feito, admite ainda assim sentir que poderia ter ido muito mais longe.

A Falcamar é mais do que uma depuradora de marisco. É o reflexo de uma vida inteira dedicada ao mar, da persistência de quem cresceu entre redes e embarcações e soube transformar conhecimento empírico em inovação. A história de Zacarias Maio Pereira confunde-se com a evolução do próprio setor do marisco em Portugal, onde tradição e modernização caminham lado a lado, nem sempre sem obstáculos.

Entre tanques de depuração, normas rigorosas e exigências de um mercado cada vez mais atento à qualidade e à sustentabilidade, a Falcamar representa um elo essencial na cadeia que liga o mar à mesa dos portugueses.

Apesar das dificuldades, dos projetos travados e da burocracia que ainda limita o crescimento, permanece a visão de quem acredita que o marisco português pode ir mais longe. Na Falcamar, essa ambição mantém-se viva todos os dias, sustentada pelo trabalho, pela família e pela convicção de que o futuro do setor passa por respeito pelo mar, inovação e compromisso com a qualidade.