Mercearias locais perdem clientes para os hipermercados

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Mercearias locais perdem clientes para os hipermercados

Uma pequena mercearia em Atães, Gondomar, continua a desafiar o desaparecimento do comércio tradicional. Manuel Castro, de 84 anos, mantém aberto um estabelecimento comercial com mais de cem anos de existência, numa altura em que os hipermercados dominam o setor e a preferência dos consumidores.

Mercearia em Atães tem mais de 100 anos Fotografia: Maria Teixeira

Numa época dominada pelos hipermercados e pelas compras apressadas, a mercearia do senhor Manuel sobrevive.  Aberta há mais de 100 anos, é o estabelecimento mais antigo de Atães. A entrega à comunidade é o segredo da longevidade da mercearia.

Manuel Castro garante que não é por causa do lucro que todos os dias abre as portas do pequeno estabelecimento, mas pelo convívio diário com os clientes. “É pelas pessoas. Isto é o meu ginásio”, afirma, entre risos.

O interior mantém o ambiente de outros tempos, com prateleiras antigas e conversas que se prolongam entre vizinhos. Rosa Maria Rodrigues, cliente há vários anos, explica o motivo da fidelidade. “Venho cá quase todos os dias. Se não posso vir, o senhor Manuel deixa-me as compras à porta. É como família.”

A freguesa garante que os preços não diferem muito dos supermercados. “As promoções enganam. Às vezes, o mesmo produto custa o mesmo ou até menos aqui”, assegura.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as vendas e o volume de negócios dos estabelecimentos de comércio a retalho de grande dimensão, tanto no setor alimentar como no não alimentar, aumentaram cerca de 11% em 2023. No mesmo período, o número de lojas de grande dimensão atingiu chegou aos 3692 em todo o país, o que reforça o crescimento das grandes superfícies e a consequente perda de espaço do pequeno comércio.

Nem todos tiveram a mesma sorte. A poucos metros do negócio de Manuel, Pedro Morais fechou a mercearia de família há cerca de 10 anos. “Era o ganha-pão lá de casa. Mas as pessoas deixaram de vir. Com o carro é fácil ir ao hipermercado e nós não conseguimos competir”, contou.

“Fechar foi duro. Custou muito, era dos meus pais. Mas não fazia sentido continuar a tirar dinheiro de casa para o negócio. Já não dava.” Hoje, olha para o futuro com pessimismo. “O pequeno comércio está condenado. As pessoas habituaram-se a outro ritmo, a outro tipo de compras”, lamentou.

Em Portugal, o crescimento das grandes superfícies e a mudança dos hábitos de consumo têm reduzido o peso do comércio tradicional. Ainda assim, em várias localidades, algumas mercearias resistem e recordam a importância da proximidade e da ligação entre comerciantes e clientes, valores que continuam a distinguir o pequeno comércio.